Modalidades de envio na importação para revenda: courier, aéreo e marítimo

Capítulo 7

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Visão geral das modalidades: o que muda na prática

Na importação para revenda, a modalidade de envio define (1) quanto você paga no frete e em taxas logísticas, (2) quanto tempo leva, (3) o quanto você consegue prever datas e custos, e (4) o nível de controle e rastreabilidade. As três modalidades mais comuns são:

  • Courier expresso: envio porta a porta por transportadoras expressas, com desembaraço simplificado em muitos casos.
  • Carga aérea: embarque em avião (geralmente aeroporto-aeroporto), com desembaraço e entrega local organizados por agente de cargas/transportadora.
  • Marítimo: embarque em navio (porto-a-porto), com maior economia por volume, porém prazos mais longos e mais etapas.

O objetivo aqui é você escolher a modalidade que melhor equilibra prazo, custo, risco de avaria e impacto no seu fluxo de caixa, e aprender a pedir cotações comparáveis.

Comparativo direto: custo, prazo, limites, rastreabilidade e previsibilidade

CritérioCourier expressoAéreoMarítimo
Quando faz mais sentidoPedidos pequenos/médios, alta urgência, reposição rápida, testes de lote (quando permitido)Urgência moderada/alta, valor por kg alto, volumes médiosVolumes grandes, itens volumosos, custo por unidade precisa cair, planejamento de estoque
Custo típicoMais caro por kg; pode “compensar” pela simplicidade e menor custo de oportunidadeIntermediário; depende muito do peso cubado e da rotaMais barato por m³/ton; porém soma de taxas locais pode ser relevante
PrazoGeralmente o menorRápido, mas com mais variáveis (voos, conexões, handling)Maior; sujeito a janelas de navio, transbordos e filas portuárias
Limites/RestriçõesLimites operacionais por remessa e restrições de itens (baterias, líquidos, etc.) variam por transportadoraRestrições de segurança aérea; baterias e DG exigem tratamento específicoMais flexível para volume; DG também exige documentação e custos extras
RastreabilidadeAlta e simples (tracking único)Média/alta (AWB, eventos por etapa)Média (BL, eventos menos frequentes; mais “marcos” do que rastreio contínuo)
Previsibilidade de custoAlta quando cotação é “all-in”; atenção a impostos/taxas variáveisMédia; variação por combustível, pico sazonal, cubagemMédia/baixa; muitas taxas locais e variações de armazenagem/demurrage se houver atraso
Risco de avariaBaixo a médio (muitas movimentações, mas ciclo curto)Médio (múltiplos manuseios; vibração/empilhamento)Médio a alto (tempo longo, umidade, empilhamento, mais transbordos)

Conceitos essenciais (sem complicar)

Peso real vs. peso cubado (volumétrico)

Frete não é cobrado apenas pelo peso na balança. Se a carga ocupa muito espaço, o transportador cobra pelo peso cubado (volume convertido em “peso”). Na prática, você paga o maior entre:

  • Peso real: kg medidos na balança.
  • Peso cubado: volume (m³) convertido em kg por um fator.

Exemplo prático: uma caixa com 60×50×40 cm tem volume de 0,12 m³. Se o fator de cubagem do modal for, por exemplo, 167 kg/m³ (comum em aéreo/courier), o peso cubado seria 0,12×167 ≈ 20 kg. Se a caixa pesa 8 kg reais, você pagará como 20 kg.

Como usar isso na decisão: produtos leves e volumosos “sofrem” no aéreo/courier; produtos densos (pesados e compactos) tendem a ser mais viáveis no aéreo.

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Consolidação

Consolidação é juntar cargas de vários importadores em um mesmo embarque para reduzir custo. Você compra “um pedaço” do espaço do avião/navio.

  • No aéreo, é comum consolidar por peso/volume.
  • No marítimo, a consolidação aparece principalmente no LCL.

Ponto de atenção: consolidação adiciona etapas (coleta, recebimento em armazém, conferência, consolidação), o que pode aumentar o prazo e o risco de atrasos se a documentação não estiver perfeita.

LCL e FCL (marítimo)

  • LCL (Less than Container Load): você não fecha um contêiner; paga por m³/ton e divide o contêiner com outros. Bom para volumes menores, mas com mais manuseio e taxas de consolidação/desconsolidação.
  • FCL (Full Container Load): você fecha um contêiner (20’, 40’, etc.). Melhor previsibilidade operacional e menor manuseio, geralmente menor custo por unidade em volumes altos.

Regra prática: LCL é ótimo para começar no marítimo com volumes menores; FCL faz sentido quando o volume já “enche” uma parte relevante do contêiner e as taxas fixas diluem.

Cut-off

Cut-off é a data/horário limite para a carga e documentos estarem prontos para embarcar em um voo/navio específico. Perdeu o cut-off, sua carga vai para o próximo embarque, o que pode adicionar dias ou semanas (no marítimo).

Uso prático: ao planejar reposição de estoque, trabalhe com “margem” antes do cut-off e confirme com o agente de cargas quais são os cut-offs de entrega no armazém e de documentação.

Transit time

Transit time é o tempo de deslocamento entre origem e destino (voo/navio). Importante: transit time não é o prazo total porta a porta. O prazo total inclui coleta, consolidação, espera de embarque, desembaraço, entrega local e possíveis filas.

Como comparar propostas: sempre peça o prazo porta a porta estimado e o transit time separadamente.

Quando usar cada modalidade (com critérios objetivos)

Courier expresso: quando a velocidade e a simplicidade valem o custo

Use courier quando:

  • Você precisa de reposição rápida para não perder vendas.
  • O pedido tem baixo volume e alto valor por unidade.
  • Você quer reduzir complexidade operacional (um tracking, menos etapas).
  • O risco de ficar sem estoque custa mais do que pagar frete caro.

Pontos de atenção:

  • Itens com restrições (baterias, líquidos, aerossóis) podem ser recusados ou encarecer muito.
  • O custo por kg pode inviabilizar produtos de baixa margem.

Aéreo: equilíbrio entre prazo e custo para volumes médios

Use aéreo quando:

  • O produto é relativamente denso (peso real próximo do cubado) e tem boa margem.
  • Você precisa de prazo curto, mas o courier ficou caro demais.
  • O volume já é grande para courier, mas ainda não “puxa” marítimo.

Pontos de atenção:

  • O peso cubado pode surpreender; confirme dimensões finais embaladas.
  • Há mais itens “fora do frete” (handling, armazenagem, entrega local) se a cotação não for bem especificada.

Marítimo: custo por unidade menor, com planejamento e caixa

Use marítimo quando:

  • O volume é grande ou o produto é volumoso (cubagem alta).
  • Você consegue planejar estoque com antecedência.
  • Seu objetivo é reduzir custo logístico por unidade para ganhar competitividade.

Pontos de atenção:

  • Mais etapas e taxas locais: se você não padronizar a cotação, a comparação fica injusta.
  • Maior exposição a avarias por umidade/tempo: embalagem e proteção são decisivas.

Como solicitar cotações padronizadas (modelo pronto)

Para comparar propostas, você precisa pedir o mesmo escopo para todos. Use um pedido de cotação (RFQ) com campos fixos.

Checklist de informações que você deve enviar

  • Origem: cidade e país (endereço ou CEP/zip se possível).
  • Destino: cidade e estado no Brasil (e se é entrega em endereço ou retirada em terminal).
  • Modal desejado: courier / aéreo / marítimo (ou “cotem as três opções”).
  • Incoterm: informe qual base você quer cotar (ex.: EXW ou FOB), para não misturar responsabilidades.
  • Descrição da mercadoria: nome comercial, material, uso, se tem bateria, líquido, ímã, etc.
  • Quantidade de volumes: nº de caixas/pallets.
  • Dimensões e peso: por volume e total (já embalado).
  • Valor da mercadoria: para estimar seguro (se aplicável).
  • Prontidão: data em que a carga estará pronta para coleta/entrega no armazém.
  • Necessidades: seguro, coleta na fábrica, embalagem extra, paletização, inspeção, etc.

Modelo de mensagem (copiar e colar)

Olá! Quero cotação de frete internacional para importação (revenda). Seguem dados para cotar de forma padronizada: 1) Origem (coleta): [cidade/país] 2) Destino (entrega): [cidade/UF - Brasil] 3) Modalidades: cotar courier, aéreo e marítimo (LCL e, se fizer sentido, FCL) 4) Base/Incoterm para cotação: [EXW/FOB/etc.] 5) Mercadoria: [descrição], HS/NCM (se tiver): [ ] 6) Restrições: [bateria/líquido/ímã/nenhuma] 7) Volumes: [nº caixas/pallets] 8) Dimensões e peso por volume: [CxLxA cm] / [kg] 9) Peso e volume totais: [kg] / [m³] 10) Valor da mercadoria: [USD] 11) Data de prontidão (ready date): [data] Peço que a proposta venha com: prazo estimado porta a porta, transit time, cut-off, e detalhamento do que está incluso e do que não está incluso (taxas na origem, frete internacional, taxas no destino, desembaraço, entrega local, armazenagem, seguro). Obrigado!

Como comparar propostas sem cair em “frete barato” que vira caro

1) Compare o escopo: porta a porta vs. terminal a terminal

Uma proposta pode parecer mais barata porque inclui só o trecho internacional. Para comparar, padronize:

  • Porta a porta: coleta + internacional + desembaraço + entrega final.
  • Terminal a terminal: você paga separadamente coleta, desembaraço e entrega.

Se você receber propostas diferentes, transforme todas em um custo total estimado somando os itens faltantes.

2) Itens que precisam estar explicitamente “inclusos” ou “exclusos”

  • Origem: coleta, taxa de recebimento/handling, armazenagem na origem, documentação de exportação (quando aplicável).
  • Internacional: frete principal, adicional de combustível, taxa de segurança.
  • Destino: handling/terminal, armazenagem (franquia e diária), entrega local.
  • Desembaraço: honorários do despachante, taxas administrativas, eventuais exigências de órgãos anuentes (quando aplicável).
  • Seguro: percentual, base de cálculo e cobertura (porta a porta ou apenas trecho).

3) Verifique a base de cobrança: kg, kg cubado, m³, W/M

Peça para o agente informar:

  • Peso taxável (chargeable weight) no aéreo/courier.
  • No marítimo LCL, a regra comum é W/M (weight/measure): cobra-se o maior entre tonelada (1.000 kg) e metro cúbico (1 m³). Ex.: 0,8 m³ e 300 kg → cobra 0,8 W/M; 0,8 m³ e 1.200 kg → cobra 1,2 W/M.

4) Compare prazo com “marcos” (não só dias)

Peça o prazo dividido:

  • Coleta/recebimento
  • Consolidação e cut-off
  • Transit time
  • Desconsolidação/terminal
  • Desembaraço
  • Entrega final

Isso aumenta a previsibilidade e ajuda a identificar onde o risco de atraso é maior.

5) Faça uma planilha simples de comparação

ItemProposta AProposta BProposta C
Modal
Escopo (porta a porta?)
Peso real (kg)
Peso cubado/taxável
Volume (m³)
Frete internacional
Taxas origem
Taxas destino
Desembaraço
Seguro
Armazenagem (franquia/diária)
Prazo porta a porta
Transit time
Cut-off
Observações (restrições/risco)

Passo a passo prático: do pedido de cotação à escolha do modal

Passo 1 — Feche as medidas “embalado para embarque”

Antes de cotar, peça ao fornecedor as dimensões e pesos da caixa final (master carton) e quantas unidades por caixa. Se houver paletização, peça também dimensões do pallet.

Passo 2 — Calcule uma estimativa de cubagem e peso taxável

  • Some o volume total (m³) e o peso total (kg).
  • Estime o peso cubado para ter noção se aéreo/courier vão “explodir”.

Dica: se o produto é leve e grande, simule redução de volume (mais unidades por caixa, embalagem mais compacta) e recote.

Passo 3 — Peça cotações nas três modalidades com o mesmo escopo

Envie o RFQ padronizado e exija que cada proposta venha com itens inclusos/exclusos e prazo por etapas.

Passo 4 — Transforme cada proposta em “custo total estimado”

Some frete + taxas de origem + taxas de destino + desembaraço + entrega local + seguro (se usar). Se algum item estiver “a confirmar”, marque como risco e peça estimativa.

Passo 5 — Avalie risco de avaria e necessidade de proteção

  • Produtos frágeis: considere reforço de embalagem, cantoneiras, pallet, filme stretch, dessecantes (marítimo).
  • Produtos sensíveis à umidade: marítimo exige atenção extra (dessecantes e embalagem adequada).

Passo 6 — Escolha com base no roteiro de decisão (abaixo)

Decida pelo modal que atende prazo e caixa com menor risco total, não apenas o menor frete.

Roteiro de decisão (pronto para usar)

1) Valor do pedido e valor por kg

  • Alto valor por kg (produto caro e compacto): tende a aceitar melhor aéreo ou courier.
  • Baixo valor por kg (produto barato e pesado/volumoso): tende a exigir marítimo para manter margem.

2) Urgência (impacto em vendas)

  • Ruptura de estoque custa caro: priorize courier ou aéreo.
  • Reposição planejada: marítimo reduz custo e melhora competitividade.

3) Volume (m³) e densidade (kg/m³)

  • Leve e volumoso: marítimo (LCL/FCL) costuma ganhar.
  • Denso: aéreo pode ser viável, especialmente em volumes médios.

4) Risco de avaria e sensibilidade do produto

  • Frágil e de alto custo: prefira rotas com menos manuseio e melhor controle; avalie courier/aéreo e embalagem reforçada.
  • Resistente: marítimo pode ser ótimo, desde que bem embalado e protegido contra umidade.

5) Impacto no fluxo de caixa

  • Se o caixa está apertado: cuidado com marítimo muito longo (capital parado em trânsito). Às vezes pagar mais no aéreo reduz o ciclo e melhora o giro.
  • Se você tem fôlego e quer baixar custo unitário: marítimo tende a maximizar margem no longo prazo.

Árvore de decisão rápida (heurística)

  • Precisa em poucos dias e o volume é pequeno? → Courier.
  • Precisa rápido, mas courier ficou caro e a carga é densa? → Aéreo.
  • Volume alto ou carga volumosa e você consegue planejar? → Marítimo (LCL se volume menor; FCL se volume grande).
  • Produto frágil e caro → priorize menor manuseio + melhor embalagem; compare courier vs aéreo com seguro e embalagem reforçada.
  • Produto barato e volumoso → marítimo quase sempre, com atenção às taxas locais e prazos.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao comparar cotações de importação, qual prática ajuda a evitar que um “frete barato” vire caro ao final?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Para comparar de forma justa, é preciso alinhar o escopo (porta a porta vs. terminal a terminal) e transformar cada proposta em custo total estimado, somando taxas de origem/destino, desembaraço, entrega e outros itens inclusos/exclusos.

Próximo capitúlo

Documentação básica e fluxo de importação para revenda: do pedido ao desembaraço

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