Gramática Essencial do Português: pronomes e referência clara no texto

Capítulo 4

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que são pronomes e por que eles afetam a clareza

Pronomes são palavras que podem substituir ou acompanhar nomes (substantivos) e apontar pessoas, coisas, lugares, ideias ou trechos do próprio texto. Eles são essenciais para a coesão (ligar frases e parágrafos) e para evitar repetições, mas também podem criar ambiguidade quando não fica claro a quem/ao quê o pronome se refere.

Referência clara: antecedente e “alvo” do pronome

Para um pronome funcionar bem, o leitor precisa identificar rapidamente o antecedente (o termo a que o pronome se refere). Em textos longos, com muitas pessoas/objetos, pronomes como ele, ela, isso, seu podem ficar “soltos”.

  • Boa prática: mantenha o antecedente perto do pronome e evite dois possíveis antecedentes na mesma frase.
  • Quando houver risco: repita o nome (de forma estratégica) ou use um pronome mais específico (por exemplo, dele/dela em vez de seu/sua).

Pronomes pessoais (eu, tu, ele…; me, te, o/a…)

Uso básico e coesão

Os pronomes pessoais indicam as pessoas do discurso: quem fala (eu/nós), com quem se fala (tu/você/vocês) e de quem/ do que se fala (ele/ela/eles/elas).

  • Risco comum: alternar tu e você no mesmo texto sem intenção (mistura de registro).
  • Coesão: mantenha o mesmo padrão de pessoa ao longo do parágrafo (ex.: sempre você + verbos na 3ª pessoa).

Exemplos (registro informal x formal)

  • Informal:Você me manda o arquivo quando puder?”
  • Mais formal:O senhor poderia me enviar o arquivo quando possível?”

Pronomes possessivos (meu, teu, seu…): evitando ambiguidade

Possessivos indicam posse ou relação: meu/minha, teu/tua, seu/sua, nosso/nossa, vosso/vossa.

O problema do “seu/sua”

Seu/sua pode se referir a ele/ela ou a você, dependendo do contexto e da variedade do português. Em textos com mais de uma pessoa, isso costuma gerar dúvida.

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Passo a passo para escolher “seu” x “dele/dela”

  • 1) Identifique quem é o possuidor. É o leitor (você)? É outra pessoa (ele/ela)?
  • 2) Verifique se há mais de um possível possuidor na frase. Se houver, evite seu.
  • 3) Prefira dele/dela/deles/delas quando houver risco de dupla leitura.

Exemplos de correção

  • Ambíguo: “João falou com Pedro sobre seu projeto.” (de João ou de Pedro?)
  • Claro: “João falou com Pedro sobre o projeto dele.” (de João) / “João falou com Pedro sobre o projeto de Pedro.”
  • Ambíguo: “Enviei o relatório para Ana e pedi sua revisão.” (revisão de quem?)
  • Claro: “Enviei o relatório para Ana e pedi a revisão dela.”

Pronomes demonstrativos (este/esse/aquele; isto/isso/aquilo)

Demonstrativos apontam algo no espaço, no tempo ou no próprio texto. Eles são fundamentais para “amarrar” ideias e retomar informações.

Uso prático no texto (regra funcional)

  • este/esta/isto: tende a apontar o que está perto de quem fala ou o que ainda será dito no texto.
  • esse/essa/isso: tende a apontar o que está perto de quem ouve ou o que já foi dito no texto (retomada).
  • aquele/aquela/aquilo: tende a apontar o que está longe (no espaço, no tempo) ou um elemento mais “distante” no texto.

Exemplos (coesão textual)

  • Anúncio do que vem:Este é o ponto principal: precisamos reduzir custos.”
  • Retomada do que veio antes: “Os prazos foram alterados. Isso afeta o cronograma.”
  • Distância temporal: “Naquela época, os processos eram manuais.”

Armadilha comum: “isso” para tudo

Em textos explicativos, repetir isso pode deixar a referência vaga. Quando necessário, substitua por um termo mais específico.

  • Vago: “O sistema caiu. Isso foi ruim.”
  • Mais claro: “O sistema caiu. A interrupção prejudicou o atendimento.”

Pronomes relativos (que, quem, o qual, cujo, onde): conectando ideias

Relativos ligam uma oração a um termo anterior (antecedente), evitando repetição e criando frases mais encadeadas.

Escolha rápida e segura

  • que: o mais comum e versátil. “O livro que comprei…”
  • quem: geralmente para pessoas, muitas vezes com preposição. “A pessoa com quem falei…”
  • o qual/a qual/os quais/as quais: mais formal e útil para evitar ambiguidade, especialmente quando há dois possíveis antecedentes. “O relatório, o qual foi revisado…”
  • cujo/cuja/cujos/cujas: indica posse (equivale a “de que/de quem”), sem artigo depois. “A empresa cujo contrato venceu…” (não: “cujo o contrato”).
  • onde: para lugar (físico ou figurado, com cuidado). “A cidade onde nasci…”

Passo a passo para escolher entre “que/quem/o qual”

  • 1) O antecedente é pessoa? Considere quem (especialmente se houver preposição: de quem, com quem).
  • 2) Há risco de confundir o antecedente? Use o qual (mais explícito) ou reorganize a frase.
  • 3) É um caso de posse? Use cujo (sem artigo depois).

Exemplos de clareza

  • Ambíguo: “Encontrei o gerente do setor que foi promovido.” (quem foi promovido?)
  • Mais claro (reorganizando): “Encontrei o gerente, que foi promovido, do setor.” (o gerente) / “Encontrei o gerente do setor, que foi promovido.” (o setor)
  • Mais claro (especificando): “Encontrei o gerente do setor, o qual foi promovido.” (o gerente)

Pronomes indefinidos (alguém, ninguém, tudo, cada…): generalização com precisão

Indefinidos expressam quantidade ou identidade imprecisa: alguém, ninguém, algo, tudo, nada, cada, qualquer, algum, nenhum, muitos, poucos.

Cuidados para não criar “sujeitos fantasma”

  • Evite indefinidos quando você pode nomear. “Alguém decidiu” pode soar evasivo; se possível, diga quem ou qual setor.
  • Cheque a referência de “tudo/isso”. Em textos longos, “tudo” pode ficar amplo demais.

Exemplos

  • Alguns alunos preferem estudar de manhã.”
  • Ninguém respondeu ao e-mail até agora.”
  • Cada participante deve enviar seu documento.” (se houver risco com seu, prefira “o documento de cada participante”.)

Pronomes interrogativos (quem, que, qual, quanto): perguntas claras

Interrogativos introduzem perguntas diretas ou indiretas e ajudam a delimitar informação.

  • quem: pessoa. “Quem assinou?”
  • que: coisa/assunto. “Que aconteceu?”
  • qual: escolha entre opções (explícitas ou implícitas). “Qual versão você quer?”
  • quanto: quantidade/valor. “Quanto custa?”

Exemplos de pergunta indireta (com coesão)

  • “Não sei quem enviou o arquivo.”
  • “Explique qual foi o critério usado.”

Pronomes de tratamento (senhor, senhora, você, Vossa…): adequação e consistência

Pronomes de tratamento marcam o grau de formalidade e a relação entre interlocutores. O ponto-chave para o dia a dia é manter consistência no texto.

Uso comum

  • você: neutro/informal em muitos contextos.
  • o senhor/a senhora: mais formal, respeitoso.
  • Vossa Senhoria, Vossa Excelência: muito formais (documentos específicos).

Consistência verbal (ponto prático)

  • O senhor pode enviar?” (verbo na 3ª pessoa)
  • Você pode enviar?” (também 3ª pessoa)

Colocação pronominal (próclise, ênclise, mesóclise) no uso cotidiano

Colocação pronominal é a posição de pronomes átonos (como me, te, se, o, a, lhe, nos) em relação ao verbo. No dia a dia, o objetivo é soar natural e manter clareza, variando conforme o registro.

Próclise (pronome antes do verbo): a mais comum na fala

Geralmente ocorre quando há palavras que “puxam” o pronome para antes do verbo (negação, advérbios, pronomes relativos etc.).

  • Não me avisaram.”
  • Quando me ligarem, eu respondo.”
  • “Esse é o documento que me pediram.”

Ênclise (pronome depois do verbo): comum em escrita mais formal

Em textos formais, é frequente após verbo no início da oração.

  • Mais formal:Envie-me o arquivo.”
  • Mais neutro/informal:Me envia o arquivo.”

Mesóclise (pronome no meio do verbo): rara no cotidiano

Aparece em registros muito formais, com futuro do presente/pretérito. Para uso cotidiano, basta reconhecer e preferir alternativas simples.

  • Muito formal: “Enviar-lhe-ei os dados.”
  • Alternativa natural:Vou lhe enviar os dados.” / “Enviarei os dados para você.”

Guia funcional (sem decorar regra longa)

  • Se houver “não”, “que”, “quando”, “se”, “já”, “ainda” antes do verbo, a próclise costuma soar natural: “não me diga”, “que me avisem”.
  • Se você estiver escrevendo um e-mail formal, considere ênclise em comandos: “Informe-me”, “Envie-nos”.
  • Se a frase ficar travada, reescreva com “vou + verbo”: “vou te mandar”, “vou lhe informar”.

Prática 1: corrigindo frases ambíguas (clareza de referência)

Reescreva para que fique claro quem é quem. Abaixo, veja opções de correção (há mais de uma resposta possível).

Frase ambíguaPor que é ambíguaReescrita clara (exemplos)
“Mariana contou a Júlia que ela foi promovida.”ela pode ser Mariana ou Júlia“Mariana contou a Júlia: ‘Você foi promovida.’” / “Mariana contou a Júlia que Júlia foi promovida.”
“Pedro encontrou Carlos quando ele saiu do trabalho.”ele pode ser Pedro ou Carlos“Pedro encontrou Carlos quando Carlos saiu do trabalho.” / “Ao sair do trabalho, Carlos encontrou Pedro.”
“A gerente falou com a analista sobre seu relatório.”seu pode ser de qualquer uma“A gerente falou com a analista sobre o relatório da analista.” / “...sobre o relatório dela.”
“Coloquei o livro na mesa e peguei ele depois.”Referência possível, mas repetitiva e pouco natural“Coloquei o livro na mesa e o peguei depois.” / “...e peguei o livro depois.”

Passo a passo para “desambiguar”

  • 1) Sublinhe os pronomes (ele, ela, seu, isso, que).
  • 2) Liste os possíveis antecedentes na frase/parágrafo.
  • 3) Se houver dois ou mais candidatos, escolha uma estratégia: (a) repetir o nome; (b) trocar por dele/dela; (c) reorganizar a ordem; (d) dividir em duas frases.
  • 4) Releia como se você não soubesse o contexto. Se ainda der para entender de dois jeitos, ajuste.

Prática 2: substituindo repetições por pronomes sem perder clareza

Objetivo: reduzir repetição, mas mantendo o antecedente evidente.

Exercício A (substituição direta)

Reescreva substituindo o termo repetido por um pronome adequado.

  • “A empresa divulgou o relatório. A empresa também anunciou mudanças.”
  • “Comprei um celular. O celular chegou ontem.”
  • “Falei com a professora. A professora explicou a atividade.”

Possíveis respostas

  • “A empresa divulgou o relatório. Ela também anunciou mudanças.”
  • “Comprei um celular. Ele chegou ontem.”
  • “Falei com a professora. Ela explicou a atividade.”

Exercício B (quando NÃO trocar por pronome)

Reescreva mantendo clareza. Em alguns casos, repetir o nome é melhor do que usar pronome.

  • “Ana falou com Beatriz. Depois, ela enviou o arquivo.”
  • “O diretor conversou com o coordenador. Ele pediu mudanças.”

Possíveis respostas

  • “Ana falou com Beatriz. Depois, Ana enviou o arquivo.” (ou “Beatriz enviou…”, conforme a intenção)
  • “O diretor conversou com o coordenador. O diretor pediu mudanças.”

Resumo e guia rápido de escolha

Este/esse/aquele (e isto/isso/aquilo)

  • este/isto: perto de quem fala; ou para anunciar o que vem: “Este é o ponto: …”
  • esse/isso: perto de quem ouve; ou para retomar o que já foi dito: “Falamos dos prazos. Isso muda tudo.”
  • aquele/aquilo: distante (espaço/tempo) ou mais distante no texto: “Aquele ano foi difícil.”

Que/quem/o qual

  • que: padrão, versátil, geralmente suficiente.
  • quem: pessoas, especialmente com preposição: “com quem”, “de quem”.
  • o qual: mais formal e útil para evitar ambiguidade quando há dois antecedentes possíveis.

Seu/dele (e sua/dela)

  • Use seu/sua quando só houver um possuidor possível no contexto.
  • Use dele/dela quando houver chance de dupla interpretação ou quando você quiser máxima clareza.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em uma frase com duas pessoas mencionadas, qual estratégia ajuda a evitar ambiguidade ao indicar posse com pronomes?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Quando há mais de um possível possuidor na frase, “seu/sua” pode gerar dupla leitura. Para garantir referência clara, é melhor usar “dele/dela” ou repetir o nome do possuidor.

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