O que são pronomes e por que eles afetam a clareza
Pronomes são palavras que podem substituir ou acompanhar nomes (substantivos) e apontar pessoas, coisas, lugares, ideias ou trechos do próprio texto. Eles são essenciais para a coesão (ligar frases e parágrafos) e para evitar repetições, mas também podem criar ambiguidade quando não fica claro a quem/ao quê o pronome se refere.
Referência clara: antecedente e “alvo” do pronome
Para um pronome funcionar bem, o leitor precisa identificar rapidamente o antecedente (o termo a que o pronome se refere). Em textos longos, com muitas pessoas/objetos, pronomes como ele, ela, isso, seu podem ficar “soltos”.
- Boa prática: mantenha o antecedente perto do pronome e evite dois possíveis antecedentes na mesma frase.
- Quando houver risco: repita o nome (de forma estratégica) ou use um pronome mais específico (por exemplo,
dele/delaem vez deseu/sua).
Pronomes pessoais (eu, tu, ele…; me, te, o/a…)
Uso básico e coesão
Os pronomes pessoais indicam as pessoas do discurso: quem fala (eu/nós), com quem se fala (tu/você/vocês) e de quem/ do que se fala (ele/ela/eles/elas).
- Risco comum: alternar
tuevocêno mesmo texto sem intenção (mistura de registro). - Coesão: mantenha o mesmo padrão de pessoa ao longo do parágrafo (ex.: sempre
você+ verbos na 3ª pessoa).
Exemplos (registro informal x formal)
- Informal: “
Vocême manda o arquivo quando puder?” - Mais formal: “
O senhorpoderia me enviar o arquivo quando possível?”
Pronomes possessivos (meu, teu, seu…): evitando ambiguidade
Possessivos indicam posse ou relação: meu/minha, teu/tua, seu/sua, nosso/nossa, vosso/vossa.
O problema do “seu/sua”
Seu/sua pode se referir a ele/ela ou a você, dependendo do contexto e da variedade do português. Em textos com mais de uma pessoa, isso costuma gerar dúvida.
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Passo a passo para escolher “seu” x “dele/dela”
- 1) Identifique quem é o possuidor. É o leitor (
você)? É outra pessoa (ele/ela)? - 2) Verifique se há mais de um possível possuidor na frase. Se houver, evite
seu. - 3) Prefira
dele/dela/deles/delasquando houver risco de dupla leitura.
Exemplos de correção
- Ambíguo: “João falou com Pedro sobre
seuprojeto.” (de João ou de Pedro?) - Claro: “João falou com Pedro sobre o projeto
dele.” (de João) / “João falou com Pedro sobre o projetode Pedro.” - Ambíguo: “Enviei o relatório para Ana e pedi
suarevisão.” (revisão de quem?) - Claro: “Enviei o relatório para Ana e pedi a revisão
dela.”
Pronomes demonstrativos (este/esse/aquele; isto/isso/aquilo)
Demonstrativos apontam algo no espaço, no tempo ou no próprio texto. Eles são fundamentais para “amarrar” ideias e retomar informações.
Uso prático no texto (regra funcional)
este/esta/isto: tende a apontar o que está perto de quem fala ou o que ainda será dito no texto.esse/essa/isso: tende a apontar o que está perto de quem ouve ou o que já foi dito no texto (retomada).aquele/aquela/aquilo: tende a apontar o que está longe (no espaço, no tempo) ou um elemento mais “distante” no texto.
Exemplos (coesão textual)
- Anúncio do que vem: “
Esteé o ponto principal: precisamos reduzir custos.” - Retomada do que veio antes: “Os prazos foram alterados.
Issoafeta o cronograma.” - Distância temporal: “Naquela época, os processos eram manuais.”
Armadilha comum: “isso” para tudo
Em textos explicativos, repetir isso pode deixar a referência vaga. Quando necessário, substitua por um termo mais específico.
- Vago: “O sistema caiu.
Issofoi ruim.” - Mais claro: “O sistema caiu.
A interrupçãoprejudicou o atendimento.”
Pronomes relativos (que, quem, o qual, cujo, onde): conectando ideias
Relativos ligam uma oração a um termo anterior (antecedente), evitando repetição e criando frases mais encadeadas.
Escolha rápida e segura
que: o mais comum e versátil. “O livroquecomprei…”quem: geralmente para pessoas, muitas vezes com preposição. “A pessoacom quemfalei…”o qual/a qual/os quais/as quais: mais formal e útil para evitar ambiguidade, especialmente quando há dois possíveis antecedentes. “O relatório,o qualfoi revisado…”cujo/cuja/cujos/cujas: indica posse (equivale a “de que/de quem”), sem artigo depois. “A empresacujocontrato venceu…” (não: “cujo o contrato”).onde: para lugar (físico ou figurado, com cuidado). “A cidadeondenasci…”
Passo a passo para escolher entre “que/quem/o qual”
- 1) O antecedente é pessoa? Considere
quem(especialmente se houver preposição:de quem,com quem). - 2) Há risco de confundir o antecedente? Use
o qual(mais explícito) ou reorganize a frase. - 3) É um caso de posse? Use
cujo(sem artigo depois).
Exemplos de clareza
- Ambíguo: “Encontrei o gerente do setor
quefoi promovido.” (quem foi promovido?) - Mais claro (reorganizando): “Encontrei o gerente, que foi promovido, do setor.” (o gerente) / “Encontrei o gerente do setor, que foi promovido.” (o setor)
- Mais claro (especificando): “Encontrei o gerente do setor,
o qualfoi promovido.” (o gerente)
Pronomes indefinidos (alguém, ninguém, tudo, cada…): generalização com precisão
Indefinidos expressam quantidade ou identidade imprecisa: alguém, ninguém, algo, tudo, nada, cada, qualquer, algum, nenhum, muitos, poucos.
Cuidados para não criar “sujeitos fantasma”
- Evite indefinidos quando você pode nomear. “Alguém decidiu” pode soar evasivo; se possível, diga quem ou qual setor.
- Cheque a referência de “tudo/isso”. Em textos longos, “tudo” pode ficar amplo demais.
Exemplos
- “
Algunsalunos preferem estudar de manhã.” - “
Ninguémrespondeu ao e-mail até agora.” - “
Cadaparticipante deve enviar seu documento.” (se houver risco comseu, prefira “o documentode cada participante”.)
Pronomes interrogativos (quem, que, qual, quanto): perguntas claras
Interrogativos introduzem perguntas diretas ou indiretas e ajudam a delimitar informação.
quem: pessoa. “Quemassinou?”que: coisa/assunto. “Queaconteceu?”qual: escolha entre opções (explícitas ou implícitas). “Qualversão você quer?”quanto: quantidade/valor. “Quantocusta?”
Exemplos de pergunta indireta (com coesão)
- “Não sei
quemenviou o arquivo.” - “Explique
qualfoi o critério usado.”
Pronomes de tratamento (senhor, senhora, você, Vossa…): adequação e consistência
Pronomes de tratamento marcam o grau de formalidade e a relação entre interlocutores. O ponto-chave para o dia a dia é manter consistência no texto.
Uso comum
você: neutro/informal em muitos contextos.o senhor/a senhora: mais formal, respeitoso.Vossa Senhoria,Vossa Excelência: muito formais (documentos específicos).
Consistência verbal (ponto prático)
- “
O senhorpode enviar?” (verbo na 3ª pessoa) - “
Vocêpode enviar?” (também 3ª pessoa)
Colocação pronominal (próclise, ênclise, mesóclise) no uso cotidiano
Colocação pronominal é a posição de pronomes átonos (como me, te, se, o, a, lhe, nos) em relação ao verbo. No dia a dia, o objetivo é soar natural e manter clareza, variando conforme o registro.
Próclise (pronome antes do verbo): a mais comum na fala
Geralmente ocorre quando há palavras que “puxam” o pronome para antes do verbo (negação, advérbios, pronomes relativos etc.).
- “
Não meavisaram.” - “
Quando meligarem, eu respondo.” - “Esse é o documento
que mepediram.”
Ênclise (pronome depois do verbo): comum em escrita mais formal
Em textos formais, é frequente após verbo no início da oração.
- Mais formal: “
Envie-meo arquivo.” - Mais neutro/informal: “
Me enviao arquivo.”
Mesóclise (pronome no meio do verbo): rara no cotidiano
Aparece em registros muito formais, com futuro do presente/pretérito. Para uso cotidiano, basta reconhecer e preferir alternativas simples.
- Muito formal: “Enviar-
lhe-ei os dados.” - Alternativa natural: “
Vou lhe enviaros dados.” / “Enviareios dados para você.”
Guia funcional (sem decorar regra longa)
- Se houver “não”, “que”, “quando”, “se”, “já”, “ainda” antes do verbo, a próclise costuma soar natural: “não
mediga”, “quemeavisem”. - Se você estiver escrevendo um e-mail formal, considere ênclise em comandos: “Informe-
me”, “Envie-nos”. - Se a frase ficar travada, reescreva com “vou + verbo”: “vou te mandar”, “vou lhe informar”.
Prática 1: corrigindo frases ambíguas (clareza de referência)
Reescreva para que fique claro quem é quem. Abaixo, veja opções de correção (há mais de uma resposta possível).
| Frase ambígua | Por que é ambígua | Reescrita clara (exemplos) |
|---|---|---|
“Mariana contou a Júlia que ela foi promovida.” | ela pode ser Mariana ou Júlia | “Mariana contou a Júlia: ‘Você foi promovida.’” / “Mariana contou a Júlia que Júlia foi promovida.” |
“Pedro encontrou Carlos quando ele saiu do trabalho.” | ele pode ser Pedro ou Carlos | “Pedro encontrou Carlos quando Carlos saiu do trabalho.” / “Ao sair do trabalho, Carlos encontrou Pedro.” |
“A gerente falou com a analista sobre seu relatório.” | seu pode ser de qualquer uma | “A gerente falou com a analista sobre o relatório da analista.” / “...sobre o relatório dela.” |
“Coloquei o livro na mesa e peguei ele depois.” | Referência possível, mas repetitiva e pouco natural | “Coloquei o livro na mesa e o peguei depois.” / “...e peguei o livro depois.” |
Passo a passo para “desambiguar”
- 1) Sublinhe os pronomes (
ele,ela,seu,isso,que). - 2) Liste os possíveis antecedentes na frase/parágrafo.
- 3) Se houver dois ou mais candidatos, escolha uma estratégia: (a) repetir o nome; (b) trocar por
dele/dela; (c) reorganizar a ordem; (d) dividir em duas frases. - 4) Releia como se você não soubesse o contexto. Se ainda der para entender de dois jeitos, ajuste.
Prática 2: substituindo repetições por pronomes sem perder clareza
Objetivo: reduzir repetição, mas mantendo o antecedente evidente.
Exercício A (substituição direta)
Reescreva substituindo o termo repetido por um pronome adequado.
- “A empresa divulgou o relatório. A empresa também anunciou mudanças.”
- “Comprei um celular. O celular chegou ontem.”
- “Falei com a professora. A professora explicou a atividade.”
Possíveis respostas
- “A empresa divulgou o relatório.
Elatambém anunciou mudanças.” - “Comprei um celular.
Elechegou ontem.” - “Falei com a professora.
Elaexplicou a atividade.”
Exercício B (quando NÃO trocar por pronome)
Reescreva mantendo clareza. Em alguns casos, repetir o nome é melhor do que usar pronome.
- “Ana falou com Beatriz. Depois,
elaenviou o arquivo.” - “O diretor conversou com o coordenador.
Elepediu mudanças.”
Possíveis respostas
- “Ana falou com Beatriz. Depois,
Anaenviou o arquivo.” (ou “Beatriz enviou…”, conforme a intenção) - “O diretor conversou com o coordenador.
O diretorpediu mudanças.”
Resumo e guia rápido de escolha
Este/esse/aquele (e isto/isso/aquilo)
este/isto: perto de quem fala; ou para anunciar o que vem: “Esteé o ponto: …”esse/isso: perto de quem ouve; ou para retomar o que já foi dito: “Falamos dos prazos.Issomuda tudo.”aquele/aquilo: distante (espaço/tempo) ou mais distante no texto: “Aqueleano foi difícil.”
Que/quem/o qual
que: padrão, versátil, geralmente suficiente.quem: pessoas, especialmente com preposição: “com quem”, “de quem”.o qual: mais formal e útil para evitar ambiguidade quando há dois antecedentes possíveis.
Seu/dele (e sua/dela)
- Use
seu/suaquando só houver um possuidor possível no contexto. - Use
dele/delaquando houver chance de dupla interpretação ou quando você quiser máxima clareza.