Gramática normativa e língua em uso: duas lentes para o mesmo idioma
No dia a dia, você usa o português para objetivos diferentes: pedir algo no grupo da família, enviar um e-mail no trabalho, responder uma atividade na escola, preencher um formulário. Em cada situação, você faz escolhas de palavras, pontuação e estrutura. Essas escolhas podem deixar o texto mais claro, mais formal, mais direto ou mais “conversado”.
Gramática normativa é o conjunto de regras e recomendações que orienta o uso considerado padrão em contextos formais (documentos, textos acadêmicos, comunicação institucional, avaliações). Ela funciona como um “acordo” que ajuda pessoas de regiões e estilos diferentes a se entenderem com previsibilidade.
Língua em uso (uso real) é como as pessoas efetivamente falam e escrevem em situações concretas. Esse uso varia conforme contexto, intenção, relação entre interlocutores, meio (fala, mensagem, e-mail) e grau de formalidade.
Na prática, você não escolhe entre “certo” e “errado” o tempo todo; você escolhe entre mais adequado e menos adequado para cada situação.
Exemplos rápidos de adequação
- Mensagem para amigo: “Chego aí 10 min. Pode ser?”
- E-mail para cliente: “Chegarei em aproximadamente 10 minutos. Pode ser?”
- Recado no trabalho: “Vou me atrasar 10 minutos por causa do trânsito.”
As três frases comunicam a mesma ideia, mas mudam em formalidade, precisão e tom.
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Como usar a gramática como ferramenta (passo a passo prático)
Quando você estiver escrevendo (mensagem importante, e-mail, texto escolar), use este roteiro rápido para alinhar uso real e norma padrão:
1) Defina o contexto e o nível de formalidade
- Quem vai ler? amigo, professor, chefe, cliente, público geral
- Qual o canal? WhatsApp, e-mail, documento, plataforma escolar
- Qual o objetivo? pedir, informar, justificar, convencer
2) Garanta clareza antes de “enfeitar”
Clareza vem de frases bem recortadas e informações na ordem certa.
- Prefira frases curtas quando o assunto for operacional.
- Evite ambiguidade: deixe explícito quem faz o quê.
Exemplo (ambíguo): “Avisei o Pedro que o João faltou porque estava doente.” (Quem estava doente?)
Mais claro: “Avisei o Pedro que o João faltou porque o João estava doente.”
Ou: “Avisei o Pedro que o João faltou. Ele estava doente.”
3) Ajuste para o padrão quando necessário
Em contextos formais, revise pontos que costumam marcar informalidade:
- abreviações (“vc”, “pq”, “blz”)
- excesso de interjeições e repetição de pontuação (“!!!”, “???”)
- concordância e regência em trechos-chave (assunto de e-mail, pedidos, instruções)
Exemplo (mensagem informal): “Oi, vc consegue me mandar o arquivo hj?”
Versão mais formal: “Olá, você consegue me enviar o arquivo hoje?”
Versão ainda mais formal: “Olá, você poderia me enviar o arquivo ainda hoje, por favor?”
4) Releia procurando “pontos de falha”
- Há alguma palavra que pode ser interpretada de dois jeitos?
- Faltou informação (data, horário, responsável, local)?
- As frases estão longas demais?
- O tom está adequado (muito seco, muito íntimo, muito duro)?
Conceitos indispensáveis para os próximos capítulos
A seguir estão as unidades básicas que você vai identificar e manipular para escrever e revisar melhor.
Palavra
Palavra é uma unidade de sentido usada para construir frases. Em textos, as palavras aparecem separadas por espaços (na maioria dos casos) e podem mudar de forma para expressar gênero, número, tempo, pessoa etc.
Exemplos: “casa”, “casas”, “chego”, “chegaremos”, “rápido”, “rapidamente”.
Frase
Frase é um enunciado com sentido completo em um contexto, podendo ter ou não verbo.
- Sem verbo: “Silêncio.” / “Que calor!”
- Com verbo: “Volto já.”
Na escrita, a frase costuma terminar com ponto final, ponto de interrogação ou exclamação, mas em mensagens pode aparecer quebrada em linhas curtas (ainda assim, cada trecho precisa fazer sentido).
Oração
Oração é um enunciado que tem verbo (ou locução verbal). É uma peça central para entender pontuação e organização de ideias.
- “Eu enviei o relatório.” (1 oração)
- “Eu enviei o relatório e aguardo retorno.” (2 orações)
Período
Período é um trecho que se organiza em torno de uma ou mais orações e termina com pontuação final (geralmente ponto final, interrogação ou exclamação).
- Período simples: tem 1 oração. “O sistema caiu.”
- Período composto: tem 2 ou mais orações. “O sistema caiu, então avisamos a equipe.”
Morfologia (o que a palavra é e como se forma)
Morfologia estuda as classes de palavras e suas formas (por exemplo, como variam em gênero, número, tempo, pessoa) e como são construídas.
Para o uso prático, pense assim: morfologia ajuda a reconhecer o tipo de palavra e suas variações.
- Substantivo: “prazo”, “equipe”
- Verbo: “enviar”, “precisar”, “confirmar”
- Adjetivo: “urgente”, “claro”
- Advérbio: “hoje”, “rapidamente”
- Pronome: “eu”, “você”, “isso”
Exemplo de variação que muda o sentido: “documento anexo” (singular) vs. “documentos anexos” (plural).
Sintaxe (como as palavras se organizam na frase)
Sintaxe estuda como as palavras se combinam para formar frases e orações: ordem, funções e relações entre termos.
Para o uso prático, pense assim: sintaxe ajuda a organizar a informação para ficar clara e sem ambiguidades.
Exemplo (ordem e foco):
- “Eu só preciso do seu retorno hoje.” (foco no prazo)
- “Eu preciso só do seu retorno hoje.” (foco no que é necessário)
Exemplo (clareza de referência): “Enviei o arquivo para a Ana e para a Carla. Elas vão revisar.” (referente claro)
Como escolhas gramaticais mudam clareza e formalidade
Pontuação: separar ideias para evitar confusão
Sem vírgula (pode soar brusco ou confuso): “Se puder me responda hoje.”
Com vírgula (mais legível): “Se puder, me responda hoje.”
Dois pontos para introduzir lista: “Preciso de três itens: RG, comprovante de residência e foto.”
Pronomes e tratamento: proximidade vs. formalidade
Mais informal: “Você consegue ver isso pra mim?”
Mais formal: “Você consegue verificar isso para mim?”
Mais institucional: “Você poderia verificar isso, por favor?”
Escolha de palavras: precisão e tom
Vago: “Me manda aquele negócio.”
Preciso: “Você pode me enviar o contrato em PDF?”
Períodos longos: quando dividir ajuda
Longo e pesado: “Como tivemos problemas no sistema e não conseguimos finalizar a atualização, pedimos que aguardem porque vamos retornar assim que possível.”
Mais claro: “Tivemos problemas no sistema e não conseguimos finalizar a atualização. Pedimos que aguardem. Retornaremos assim que possível.”
Resumo dos conceitos-chave
- Gramática normativa: orienta o padrão esperado em contextos formais; ajuda a padronizar e reduzir ruídos.
- Língua em uso: é o português real do cotidiano; varia conforme contexto, canal e intenção.
- Palavra: unidade básica de sentido que pode variar de forma.
- Frase: enunciado com sentido completo (com ou sem verbo).
- Oração: enunciado com verbo (uma unidade dentro do período).
- Período: conjunto com uma ou mais orações, fechado por pontuação final.
- Morfologia: identifica classes e formas das palavras.
- Sintaxe: organiza palavras e funções para construir sentido e clareza.
Lista de verificação: o que você deve saber identificar após este capítulo
- Distinguir norma padrão (contexto formal) de uso cotidiano (contexto informal) e escolher o registro adequado.
- Reconhecer palavras e perceber quando uma mudança de forma altera o sentido (singular/plural, tempos verbais, etc.).
- Identificar frases (com ou sem verbo) em mensagens e textos curtos.
- Identificar orações (presença de verbo) dentro de um texto.
- Diferenciar período simples (1 oração) de período composto (2+ orações).
- Entender, em nível inicial, que morfologia trata do tipo e da forma das palavras e que sintaxe trata da organização delas na frase.
- Revisar um texto curto buscando clareza (evitar ambiguidade) e adequação (ajustar formalidade, pontuação e escolhas de palavras).