Giro de estoque: o que é e por que muda suas decisões de compra
Giro de estoque é um indicador que mostra quantas vezes, em um período, o seu estoque “se renova” por meio das vendas. Na prática, ele responde: “o que eu compro está saindo com velocidade compatível com o capital que eu deixei parado em mercadoria?”. Quanto maior o giro, mais rapidamente o estoque se transforma em venda; quanto menor, mais tempo o dinheiro fica imobilizado e maior tende a ser o risco de encalhe, perdas, obsolescência e promoções forçadas.
Existem duas formas comuns (e complementares) de olhar giro:
- Giro por valor: compara o custo das mercadorias vendidas no período (CMV/CSV) com o estoque médio (também a custo). É útil para entender a eficiência do capital investido em estoque.
- Giro por quantidade: compara unidades vendidas com estoque médio em unidades. É útil para operações com itens de baixo valor unitário ou quando o custo não está confiável.
Um cuidado importante: giro não é “bom” ou “ruim” isoladamente. Ele precisa ser lido junto com cobertura, ruptura e margem. Um giro altíssimo pode indicar estoque baixo demais e risco de falta; um giro baixo pode ser aceitável em itens estratégicos (por exemplo, itens de vitrine) ou em produtos sazonais, desde que planejado.
Fórmulas práticas (para usar no Power BI)
Para um período selecionado (mês, trimestre, últimos 90 dias), as fórmulas mais usadas são:
- Giro (valor) = CMV no período ÷ Estoque médio no período
- Estoque médio (valor) = (Estoque inicial + Estoque final) ÷ 2
- Dias de estoque (Days on Hand) = Dias do período ÷ Giro (valor)
Quando você tem estoque diário (snapshot diário), o ideal é calcular o estoque médio como a média dos saldos diários no período, porque isso reduz distorções (por exemplo, compras grandes no último dia do mês).
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Curva ABC: priorização do que realmente importa
A Curva ABC é uma técnica de classificação que separa itens em grupos A, B e C com base na contribuição para um critério de negócio. O critério mais comum é valor de vendas (faturamento), mas para compras e mix costuma ser ainda mais útil classificar por valor de consumo, isto é, CMV (custo consumido) ou margem (lucro bruto). A ideia é simples: poucos itens normalmente respondem por grande parte do resultado.

Uma regra prática bastante usada (ajuste conforme seu negócio):
- Classe A: itens que somados representam ~70% a 80% do critério (ex.: CMV ou faturamento), normalmente com ~10% a 20% dos SKUs.
- Classe B: próximos ~15% a 25% do critério, com ~20% a 30% dos SKUs.
- Classe C: o restante (baixa contribuição individual), normalmente muitos SKUs.
O valor da Curva ABC não é “rotular” produtos, e sim orientar decisões: onde colocar atenção de compras, negociação com fornecedor, reposição, espaço de prateleira, campanhas e controle de ruptura.
ABC por quê? Escolha o critério certo
Antes de construir a Curva ABC, defina qual pergunta você quer responder:
- Priorizar compras e reposição: use CMV (consumo a custo) ou unidades vendidas. Isso aproxima a análise do que você precisa repor.
- Priorizar mix para lucro: use margem bruta (valor) ou % de margem combinado com volume.
- Priorizar exposição e receita: use faturamento.
- Reduzir capital parado: combine giro com estoque médio (valor) para achar itens que “seguram” dinheiro.
É comum ter mais de uma Curva ABC no dashboard: uma por faturamento e outra por margem ou CMV. Um item pode ser A em faturamento e C em margem (vende muito, mas dá pouco lucro), e isso muda a estratégia.
Como giro e ABC se complementam na prática
Giro responde “velocidade”; ABC responde “importância relativa”. Juntos, eles formam uma matriz de decisão poderosa para compras e mix:
- A + Giro alto: itens críticos. Reposição frequente, estoque de segurança bem definido, monitoramento de ruptura diário/semanal, negociação de prazo e preço com fornecedor.
- A + Giro baixo: alerta. Pode ser item caro, sazonal ou com compra mínima alta. Avalie reduzir profundidade de estoque, renegociar lote mínimo, ajustar preço, revisar previsão e exposição.
- C + Giro alto: itens “formiguinha” que giram bem. Podem ser bons para venda por impulso e complementaridade. Reposição pode ser simples, mas cuidado para não aumentar variedade sem necessidade.
- C + Giro baixo: candidatos a descontinuação, queima controlada, venda casada, redução de compras e liberação de espaço.
Essa leitura evita um erro comum: tratar todos os SKUs com o mesmo esforço. Em pequenos negócios, tempo e capital são limitados; o objetivo é concentrar energia onde há impacto.
Passo a passo no Power BI: construindo Giro e Curva ABC por produto
A seguir está um roteiro prático para montar as análises no Power BI sem depender de estruturas avançadas além do que você já tem no modelo (vendas e estoque). O foco aqui é criar medidas e visuais para decisão.
1) Defina o período de análise (janela)
Para giro e ABC, uma janela móvel costuma ser mais útil do que “mês fechado” apenas. Exemplos: últimos 30, 60, 90 ou 180 dias. Isso reduz distorções de sazonalidade curta e dá uma visão mais operacional.
Crie uma medida base para o período, por exemplo, usando um filtro de data no relatório (segmentação) ou uma tabela desconectada de “janelas” (30/60/90 dias). Se você optar pela tabela desconectada, a medida usa o valor selecionado para filtrar datas.
2) Medidas de consumo (CMV) e vendas por produto
Para Curva ABC de compras, o ideal é usar consumo a custo. Se você já tem uma medida de CMV, garanta que ela respeita o contexto de produto e período.
CMV := SUM ( FatoVendas[Valor_Custo] )Se seu modelo registra custo unitário e quantidade:
CMV := SUMX ( FatoVendas, FatoVendas[Quantidade] * FatoVendas[Custo_Unitario] )Para ABC por faturamento:
Vendas := SUM ( FatoVendas[Valor_Liquido] )Para ABC por margem (valor):
Margem := [Vendas] - [CMV]3) Estoque médio por produto (valor)
Você precisa de uma medida de estoque médio no período. O método depende de como você registra estoque:
- Se você tem saldo diário por produto (snapshot): calcule a média dos saldos diários no período.
- Se você só tem saldo inicial e final do período: use (inicial + final)/2, sabendo que pode distorcer quando há compras grandes no fim.
Exemplo com snapshot diário (tabela FatoEstoque com Data, Produto e ValorEstoqueCusto):
Estoque Médio := AVERAGEX ( VALUES ( DimData[Data] ), [Estoque no Dia] )Onde:
Estoque no Dia := SUM ( FatoEstoque[ValorEstoqueCusto] )Se você não tem snapshot diário e usa saldo final por data (por exemplo, último registro do mês), uma alternativa é calcular estoque médio como média dos saldos disponíveis no período (desde que existam vários pontos).
4) Giro e dias de estoque
Giro Estoque := DIVIDE ( [CMV], [Estoque Médio] )Para dias do período, se você usa filtro de datas no relatório:
Dias no Período := DISTINCTCOUNT ( DimData[Data] )Dias de estoque:
Dias de Estoque := DIVIDE ( [Dias no Período], [Giro Estoque] )Interpretação rápida: se Dias de Estoque está muito acima do seu prazo de reposição + segurança, há excesso; se está muito abaixo, risco de ruptura.
5) Curva ABC (medidas de ranking e acumulado)
O coração da Curva ABC é ordenar produtos do maior para o menor pelo critério e calcular o percentual acumulado.
Escolha um critério, por exemplo CMV:
Rank CMV Produto := RANKX ( ALL ( DimProduto[Produto] ), [CMV], , DESC, Dense )Total do critério (no contexto de período e demais filtros, mas sem restringir produto):
Total CMV (Todos Produtos) := CALCULATE ( [CMV], ALL ( DimProduto[Produto] ) )Acumulado por ranking:
CMV Acumulado := VAR r = [Rank CMV Produto] RETURN CALCULATE ( [CMV], FILTER ( ALL ( DimProduto[Produto] ), [Rank CMV Produto] <= r ) )Percentual acumulado:
% CMV Acumulado := DIVIDE ( [CMV Acumulado], [Total CMV (Todos Produtos)] )Classificação ABC (ajuste os cortes conforme sua regra):
Classe ABC (CMV) := SWITCH ( TRUE(), [% CMV Acumulado] <= 0.80, "A", [% CMV Acumulado] <= 0.95, "B", "C" )Você pode repetir o mesmo padrão para Vendas ou Margem, criando “Classe ABC (Vendas)” e “Classe ABC (Margem)”.
6) Visualizações recomendadas para decisão
- Tabela por produto com: CMV, Vendas, Margem, Giro, Dias de Estoque, Classe ABC. Ordene por CMV ou por “capital parado” (Estoque Médio).
- Gráfico de Pareto: barras de CMV por produto (ordenadas) + linha de % acumulado. Isso mostra claramente onde está a concentração.
- Matriz A/B/C: um visual (ou tabela) com contagem de SKUs e participação no critério por classe.
- Dispersão: eixo X = Giro, eixo Y = Margem (ou Vendas), tamanho = Estoque Médio, cor = Classe ABC. Excelente para achar itens com muito estoque e pouco retorno.
Regras de negócio para priorização de compras (usando ABC + Giro)
Depois de classificar, transforme em ações. Abaixo estão regras simples que você pode implementar como colunas/medidas de “recomendação” e usar em filtros.
1) Itens A: política de reposição e negociação
- Reposição: defina uma frequência (semanal/quinzenal) e estoque de segurança baseado no prazo de entrega e variabilidade de vendas.
- Compra mínima: se o fornecedor exige lote alto e isso derruba o giro, negocie fracionamento, consignação ou mais entregas no mês.
- Preço: itens A com margem baixa podem exigir revisão de preço, troca de fornecedor ou substituição por similar.
2) Itens B: otimização e testes controlados
- Reposição: pode ser menos frequente, mas com monitoramento para não virar ruptura silenciosa.
- Mix: bons candidatos para testes de exposição, combos e cross-sell (principalmente se complementam itens A).
3) Itens C: reduzir complexidade e liberar capital
- Compras: evite recomprar automaticamente. Reponha sob demanda ou com gatilhos mais conservadores.
- Descontinuação: se C e giro baixo, avalie retirar do mix, substituir por item com melhor saída ou manter apenas sob encomenda.
- Queima controlada: promoções com objetivo claro (liberar espaço e capital), evitando canibalizar itens A.
Passo a passo: criando um “score de prioridade de compra” no Power BI
Para sair do diagnóstico e ir para a ação, você pode criar um score simples que combine importância (ABC) e risco operacional (dias de estoque vs. meta). A ideia é gerar uma lista de compras priorizada.

1) Defina uma meta de dias de estoque por classe
Exemplo de metas (ajuste ao seu prazo de reposição e segurança):
- A: 15 a 25 dias
- B: 20 a 35 dias
- C: 30 a 60 dias (ou compra sob demanda)
Você pode criar uma medida que retorna a meta conforme a classe:
Meta Dias Estoque := SWITCH ( [Classe ABC (CMV)], "A", 20, "B", 30, "C", 45 )2) Calcule o “gap” de dias (risco de ruptura)
Gap Dias := [Meta Dias Estoque] - [Dias de Estoque]Interpretação: se Gap Dias é positivo e alto, você está abaixo da meta (risco de ruptura). Se é negativo, você está acima da meta (excesso).
3) Transforme em prioridade (score)
Uma forma simples é dar peso maior para itens A e para gaps positivos:
Peso Classe := SWITCH ( [Classe ABC (CMV)], "A", 3, "B", 2, "C", 1 )Score Compra := VAR gap = [Gap Dias] RETURN IF ( gap > 0, gap * [Peso Classe], 0 )Com isso, você cria um ranking de compra:
Rank Prioridade Compra := RANKX ( ALL ( DimProduto[Produto] ), [Score Compra], , DESC, Dense )Use esse ranking em uma tabela “Lista de Compras” com filtros adicionais (por exemplo, excluir itens descontinuados, itens sem fornecedor, itens com venda zero no período).
Mix de produtos: como usar ABC para decidir variedade, substituição e espaço
“Mix” é a combinação de produtos que você oferece. Em pequenos negócios, o mix costuma crescer por tentativa e erro, e isso aumenta complexidade: mais SKUs para controlar, mais capital parado, mais risco de ruptura nos itens certos. A Curva ABC ajuda a racionalizar o mix sem perder vendas.
1) Identifique itens “A de margem” e “A de faturamento”
Crie duas classificações ABC: uma por Vendas e outra por Margem. Depois, cruze:
- A em Vendas e A em Margem: itens estrela. Proteja disponibilidade e exposição.
- A em Vendas e C em Margem: itens chamariz. Avalie preço, custo, embalagem, fornecedor, ou estratégia de “ganhar no combo”.
- C em Vendas e A em Margem: itens nicho lucrativos. Podem merecer exposição melhor ou venda consultiva, mas com compra cuidadosa para não derrubar giro.
- C em ambos: candidatos a simplificação do mix.
2) Use “participação” para decidir espaço e foco
Além da classe, observe a participação percentual no critério. Dois itens podem ser A, mas um pode representar 12% do CMV e outro 2%. No Power BI, mostre “% do total” ao lado do valor absoluto para orientar espaço de prateleira e prioridade de negociação.
3) Detecte duplicidade de SKUs (variações que canibalizam)
Quando há muitas variações semelhantes (tamanho, cor, marca), é comum diluir o giro. Uma forma prática é analisar por “família” (categoria/subcategoria) e ver quantos SKUs estão em C com giro baixo. Se a família tem muitos C, pode ser sinal de excesso de variedade.
No dashboard, crie uma tabela por categoria com: número de SKUs, % de SKUs C, estoque médio total e giro médio ponderado. Categorias com muitos SKUs C e alto estoque médio são candidatas a enxugamento.
Erros comuns e como evitar ao montar giro e ABC
1) Calcular giro com bases diferentes (venda a preço e estoque a custo)
Se você usa CMV (custo) no numerador, use estoque médio também a custo. Misturar venda (preço) com estoque (custo) distorce o giro. Se você só tem estoque a preço, então calcule giro por venda e estoque a preço, mas deixe isso explícito.
2) Usar ABC com critério errado para a decisão
Se o objetivo é compra, ABC por faturamento pode enganar: itens caros podem parecer importantes por receita, mas não necessariamente por consumo ou por margem. Para compra, priorize CMV ou unidades; para lucro, priorize margem.
3) Ignorar itens com venda zero no período
Itens sem venda podem desaparecer do ranking dependendo do visual. Crie uma visão específica de “sem venda” com estoque atual e dias desde a última venda (se você tiver a data da última venda). Esses itens são frequentemente onde está o capital parado.
4) Não tratar sazonalidade
Para itens sazonais, compare janelas equivalentes (por exemplo, últimos 90 dias vs. mesmos 90 dias do ano anterior) ou use uma janela maior. Caso contrário, o ABC pode rebaixar itens que só vendem em épocas específicas.
5) Tomar decisão só com base em classe
Classe A não significa “comprar mais” automaticamente. Significa “monitorar e planejar melhor”. A decisão de compra deve considerar dias de estoque, prazo de reposição, lote mínimo, margem e risco de ruptura.