Conceito de gestão por processos no Judiciário (ponta a ponta)
Gestão por processos é a forma de organizar e melhorar o trabalho a partir do fluxo real de atividades que transforma uma demanda (entrada) em um resultado entregue (saída), com responsáveis definidos e critérios de qualidade. No Judiciário, isso significa enxergar rotinas administrativas como cadeias ponta a ponta, atravessando unidades, sistemas e níveis de decisão, evitando que cada setor otimize apenas “sua parte” e gere atrasos ou retrabalho no todo.
Um processo ponta a ponta começa quando a necessidade surge (por exemplo, uma unidade solicita uma compra) e termina quando o resultado é efetivamente entregue e registrado (bem recebido e pago, contrato formalizado e fiscalizado, diária concedida e prestação de contas aprovada, movimentação de pessoal publicada e efetivada). A gestão por processos busca padronizar o caminho mais seguro e eficiente, com pontos de controle para reduzir riscos e aumentar conformidade.
Visão ponta a ponta em rotinas administrativas típicas
Compras e contratações (visão de processo)
- Entrada: demanda formalizada (requisição), justificativa, estimativa de preço/quantidade, especificação do objeto.
- Saídas: contratação concluída (empenho/ordem de fornecimento/contrato), recebimento atestado, pagamento autorizado, registros atualizados.
- Áreas envolvidas: unidade demandante, compras/contratações, orçamento/finanças, jurídico/assessoria, controle interno, fiscalização/almoxarifado.
Diárias e passagens
- Entrada: solicitação com motivo, período, destino, autorização, estimativa de custos.
- Saídas: concessão paga, viagem realizada, prestação de contas analisada e aprovada (ou glosa/ajuste), registro arquivado.
- Áreas envolvidas: solicitante, chefia, setor de diárias, finanças, controle interno.
Gestão de contratos
- Entrada: contrato vigente, plano de fiscalização, indicadores do serviço, medições/relatórios, ocorrências.
- Saídas: pagamentos com lastro, aditivos quando necessários, aplicação de sanções quando cabível, encerramento com termo e lições aprendidas.
- Áreas envolvidas: gestor/fiscal, unidade demandante, contratos, finanças, jurídico, controle interno.
Movimentação de pessoal (remoção, lotação, substituição, designações)
- Entrada: pedido/necessidade, critérios e documentação, disponibilidade de vagas, anuências.
- Saídas: ato publicado, atualização em sistemas, comunicação às unidades, transição organizada.
- Áreas envolvidas: unidade solicitante, gestão de pessoas, chefias, área de cadastro/folha, administração predial/ti (quando impacta acessos).
Levantamento do processo (como descobrir o fluxo real)
O levantamento é a etapa em que se mapeia como o trabalho acontece de fato, e não como “deveria” acontecer. O objetivo é identificar entradas, atividades, decisões, responsáveis, sistemas utilizados, documentos gerados e pontos de espera.
Passo a passo prático do levantamento
- 1) Defina o escopo ponta a ponta: estabeleça evento inicial e final (ex.: “da requisição de compra ao pagamento”).
- 2) Identifique clientes e fornecedores internos: quem pede, quem executa, quem aprova, quem recebe o resultado.
- 3) Liste entregas e critérios de qualidade: o que é “processo bem feito” (ex.: documentação completa, prazos cumpridos, ausência de devoluções).
- 4) Colete evidências: amostras de processos recentes, checklists existentes, modelos de documentos, prints de telas, registros de tramitação.
- 5) Entrevistas rápidas por papel: pergunte “o que você recebe?”, “o que você faz?”, “o que você entrega?”, “o que costuma dar errado?”.
- 6) Meça o tempo: registre tempo de execução (mão na massa) e tempo de espera (fila/pendência).
- 7) Registre exceções: variações frequentes (ex.: compra emergencial, diária internacional, contrato com dedicação exclusiva).
Modelo simples de ficha de levantamento
Processo: ____________________________ Versão: ____ Data: __/__/____ Responsável pelo mapeamento: ____________ Início: ____________________________ Fim: ____________________________ Clientes (quem recebe a entrega): ____________________________ Entradas (documentos/dados): - ____________________________ - ____________________________ Regras/critério de aceite: - ____________________________ Sistemas usados: ____________________________ Saídas (entregas): - ____________________________ - ____________________________ Exceções comuns: ____________________________ Principais dores (gargalos/retrabalho): ____________________________Modelagem do processo: entradas, atividades, saídas e responsáveis
Modelar é organizar o processo em etapas claras, com responsáveis e decisões explícitas. Uma modelagem útil para gestão deve permitir: (a) executar com previsibilidade, (b) treinar novos servidores, (c) auditar conformidade, (d) medir desempenho.
Elementos mínimos da modelagem
- Entradas: documentos, dados, autorizações e pré-requisitos.
- Atividades: tarefas executadas (o “verbo + objeto”), incluindo análises e conferências.
- Decisões: pontos “sim/não” com critérios objetivos (ex.: “documentação completa?”).
- Saídas: produtos gerados (minuta, despacho, empenho, publicação, relatório).
- Responsáveis: papel/unidade (evite nome de pessoa), e quem aprova.
- Pontos de controle: checagens de conformidade e qualidade antes de avançar.
Exemplo de modelagem (diárias) em formato de tabela textual
Etapa | Entrada | Atividade | Saída | Responsável | Controle 1 | Solicitação | Conferir motivo, período, destino e autorização | Solicitação validada | Setor de diárias | Checklist de documentos 2 | Solicitação validada | Calcular valores e estimar custo | Demonstrativo | Setor de diárias | Regra de cálculo aplicada 3 | Demonstrativo | Submeter para autorização | Autorização registrada | Chefia/Autoridade | Critério de competência 4 | Autorização | Providenciar pagamento | Ordem de pagamento | Finanças | Disponibilidade orçamentária 5 | Viagem realizada | Receber prestação de contas | Prestação recebida | Setor de diárias | Prazo de entrega 6 | Prestação recebida | Analisar comprovantes e aderência | Aprovação/Glosa | Setor de diárias/Controle | Conformidade documentalPadronização: como transformar o mapeamento em rotina executável
Padronizar é definir “o jeito oficial” de executar o processo, reduzindo variações desnecessárias. O padrão deve ser simples o suficiente para ser seguido e robusto o suficiente para sustentar auditorias e substituições de pessoal.
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O que padronizar (mínimo viável)
- Fluxo: sequência de etapas e decisões.
- Modelos: minutas, formulários, despachos, termos, e-mails padrão.
- Checklists: lista objetiva de conferência por etapa crítica.
- Prazos internos: tempo máximo de permanência em cada etapa (SLA interno).
- Critérios de aceite: o que caracteriza “documento completo” e “processo apto a seguir”.
- Regras de exceção: quando pode pular etapas e quais justificativas/documentos são obrigatórios.
Pontos de controle (qualidade e conformidade)
Pontos de controle são barreiras de qualidade para evitar que erros avancem e se tornem mais caros de corrigir. Devem estar posicionados antes de etapas irreversíveis (ex.: antes de empenhar, antes de publicar, antes de pagar).
- Controle de completude: conferência de documentos obrigatórios.
- Controle de consistência: dados coerentes (datas, valores, assinaturas, competência).
- Controle de aderência: atendimento a regras internas (ex.: limites, justificativas, aprovações).
- Controle de rastreabilidade: registro de quem fez, quando fez e com base em qual documento.
Como identificar gargalos, riscos e retrabalho
Gargalos (atrasos e filas)
Gargalo é o ponto do processo onde o trabalho acumula e o tempo de espera domina o tempo total. Para identificar, compare tempo de ciclo total com tempo de execução por etapa e observe onde há maior fila.
- Sinais práticos: processos parados aguardando assinatura, devoluções frequentes, dependência de uma única pessoa, etapas com “vai e volta”.
- Ferramenta simples: planilha com colunas “etapa”, “data de entrada”, “data de saída”, “motivo de espera”.
Riscos (erros com impacto)
Risco é a possibilidade de ocorrer um evento que comprometa conformidade, prazo, custo ou integridade do processo. Em rotinas administrativas, riscos comuns incluem pagamento indevido, contratação com documentação incompleta, falhas de fiscalização contratual, concessão de diária sem justificativa adequada, ato de pessoal com dados incorretos.
- Como mapear riscos por etapa: para cada etapa, pergunte “o que pode dar errado?”, “qual o impacto?”, “como detectar cedo?”, “qual controle previne?”.
- Priorize: alto impacto + alta frequência + baixa detectabilidade.
Retrabalho (refazer, corrigir, devolver)
Retrabalho é o esforço gasto para corrigir algo que deveria ter sido feito certo na primeira vez. Ele costuma surgir de entradas ruins (documentos incompletos), padrões inexistentes, critérios subjetivos e comunicação falha entre áreas.
- Exemplos por rotina: compras devolvidas por especificação incompleta; diárias devolvidas por falta de autorização/relatório; contratos com medições inconsistentes; movimentação de pessoal com dados divergentes entre sistemas.
- Como medir: taxa de devolução de documentos e número de idas e voltas por processo.
Indicadores operacionais para gestão por processos
Indicadores operacionais permitem acompanhar estabilidade do processo e orientar melhorias. Devem ser poucos, claros, com fonte de dados definida e periodicidade.
Indicadores essenciais (com definições)
- Tempo de ciclo (lead time): tempo entre a entrada e a saída do processo. Ex.: dias da requisição de compra até a contratação.
- Tempo de etapa (processing + waiting): tempo em cada fase, separando execução e espera quando possível.
- Conformidade na primeira passagem (first pass yield): percentual de processos que passam por uma etapa sem devolução/correção.
- Taxa de devolução de documentos: devoluções ÷ total de processos analisados, por motivo (incompletude, inconsistência, falta de autorização).
- Backlog: quantidade de processos pendentes por etapa e por faixa de tempo (0–7, 8–15, 16–30 dias etc.).
- Retrabalho por processo: média de retornos/ajustes por demanda.
Exemplo de painel mínimo (estrutura)
Painel mensal do processo de diárias: - Tempo de ciclo médio (dias): ____ - % concluídas no prazo interno: ____ - Taxa de devolução de documentos (%): ____ - Principais motivos de devolução: 1) ____ 2) ____ 3) ____ - Backlog atual (quantidade): ____ - Etapa com maior espera: ____Elaboração de fluxogramas e checklists
Fluxograma: como desenhar de forma útil
O fluxograma deve representar o caminho padrão e as decisões críticas. Mesmo sem notação sofisticada, é importante manter consistência: começo/fim, atividades, decisões e responsáveis.
- Regras práticas: uma atividade por caixa; decisões com pergunta objetiva; setas sem cruzamentos quando possível; indicar responsável por “raia” (unidade/papel) ou por etiqueta na atividade.
- Granularidade: detalhe suficiente para executar e auditar, sem virar manual de microtarefas.
Exemplo textual de fluxograma (compras) para orientar desenho
Início: Unidade demandante abre requisição -> Conferir documentação mínima? (Decisão) - Não: devolver com checklist de pendências -> volta para unidade - Sim: analisar especificação e estimativa -> definir modalidade/forma de contratação -> elaborar termo de referência/projeto básico -> aprovar TR? (Decisão) - Não: ajustar -> reapresentar - Sim: instruir processo -> verificar disponibilidade orçamentária -> iniciar fase de seleção/contratação -> adjudicar/homologar (quando aplicável) -> emitir empenho/contrato -> receber e atestar -> liquidar e pagar -> FimChecklists: como construir e usar
Checklist é um padrão operacional de conferência. Ele reduz devoluções e acelera análises, pois transforma “memória do servidor” em critério objetivo.
- Boas práticas: itens verificáveis (sim/não), referência ao documento/parte do processo, campo para observação, versão e data.
- Uso disciplinado: anexar ao processo (quando possível) ou registrar em sistema; devolver sempre apontando itens faltantes.
Exemplo de checklist (movimentação de pessoal)
Checklist de instrução - Movimentação de pessoal (versão __): [ ] Pedido formal com motivação e unidade de origem/destino [ ] Anuência(s) exigida(s) registrada(s) [ ] Verificação de vaga/lotação compatível [ ] Dados cadastrais conferidos (nome, matrícula, cargo) [ ] Impacto em folha/sistemas identificado (se aplicável) [ ] Minuta do ato preparada conforme padrão [ ] Revisão de competência/assinatura [ ] Comunicação às unidades envolvidas preparadaRoteiro prático para revisar um processo administrativo (simplificação e conformidade)
Este roteiro pode ser aplicado em compras, diárias, contratos ou movimentação de pessoal. A lógica é: estabilizar o padrão, reduzir variação, eliminar desperdícios e reforçar controles onde o risco é maior.
1) Selecione o processo e defina o problema
- Escolha um processo com alto volume, alto tempo de ciclo ou alta taxa de devolução.
- Defina objetivo mensurável: reduzir tempo de ciclo em X%, reduzir devolução em Y%, aumentar conformidade na primeira passagem.
2) Mapeie o “as is” (como está) com dados
- Desenhe o fluxo ponta a ponta com responsáveis.
- Meça tempos por etapa e identifique filas.
- Liste motivos de devolução e pontos de retrabalho.
3) Identifique desperdícios e simplificações possíveis
- Elimine duplicidades: mesma informação digitada em locais diferentes; mesma conferência feita por duas áreas sem critério distinto.
- Reduza handoffs: trocas excessivas entre unidades; consolide etapas quando não houver ganho de controle.
- Padronize entradas: formulário único de solicitação; campos obrigatórios; anexos mínimos.
- Transforme decisões subjetivas em critérios: regras claras para devolução, aprovação e exceções.
4) Reforce controles onde o risco é maior (sem burocratizar o todo)
- Posicione controles antes de atos críticos (pagamento, publicação, assinatura de contrato).
- Use checklists curtos nas etapas de maior erro.
- Defina trilha de auditoria: registro do responsável, data e evidência do controle.
5) Desenhe o “to be” (como deve ficar) e valide com as áreas
- Crie o novo fluxograma com menos etapas e decisões mais objetivas.
- Valide com quem executa e com quem aprova, garantindo que o padrão é exequível.
- Defina exceções e como tratá-las (sem virar “regra geral”).
6) Implante padrões: modelos, checklists e SLAs internos
- Publique modelos e checklists com controle de versão.
- Defina prazos internos por etapa e critérios de priorização (ex.: urgência justificada).
- Treine por papel: o que entra, o que confere, o que entrega.
7) Monitore indicadores e ajuste continuamente
- Acompanhe tempo de ciclo, conformidade e devoluções por motivo.
- Faça revisão periódica do checklist: itens que não agregam controle devem ser removidos; itens que evitam erro recorrente devem permanecer.
- Registre lições aprendidas (ex.: principais causas de devolução) e atualize o padrão.
Exercício aplicado: diagnóstico rápido de um processo (modelo replicável)
Use este modelo para qualquer rotina administrativa e obtenha um diagnóstico em 60–90 minutos com base em uma amostra de processos recentes.
Passo a passo
- 1) Pegue 10 processos concluídos (compras/diárias/contratos/pessoal) e registre datas de entrada e saída por etapa.
- 2) Conte devoluções e classifique por motivo (incompletude, inconsistência, falta de autorização, erro de cálculo, ausência de comprovação).
- 3) Identifique a etapa com maior espera (maior tempo parado) e a etapa com maior erro (mais devoluções).
- 4) Proponha 3 melhorias de baixo custo (ex.: checklist de entrada, modelo padronizado, critério objetivo de decisão).
- 5) Defina 2 indicadores para acompanhar por 30 dias (tempo de ciclo e taxa de devolução).
Quadro de diagnóstico (preencher): Processo: ____________ Amostra: 10 casos Tempo de ciclo médio: ____ dias Etapa com maior espera: ____________ (____ dias) Taxa de devolução: ____% Motivos principais: 1) ____ 2) ____ 3) ____ Melhorias propostas: A) ____ B) ____ C) ____ Indicadores e meta: - Tempo de ciclo: atual ____ / meta ____ - Devolução: atual ____ / meta ____