Gestão de Produto com Agile: visão, objetivos e valor

Capítulo 3

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Visão de produto em Agile: o “norte” que orienta decisões

Em gestão de produto com Agile, visão é uma descrição clara e compartilhável do futuro desejado: para quem o produto existe, qual problema resolve e qual mudança relevante pretende causar. A visão não é um slogan; ela funciona como um filtro para priorização, desenho de soluções e decisões de escopo ao longo das iterações.

Uma visão bem construída ajuda a responder rapidamente perguntas comuns do dia a dia: “isso aproxima ou afasta do resultado que queremos?”, “qual hipótese estamos testando?”, “qual trade-off é aceitável?”.

Componentes práticos de uma boa visão

  • Público-alvo: quem é o usuário/cliente principal.
  • Problema/necessidade: qual dor, tarefa ou objetivo relevante existe hoje.
  • Proposta de valor: como o produto melhora a vida do usuário (benefício) e por que é diferente/melhor.
  • Resultado esperado: o que muda no mundo (outcome), não apenas o que será construído (output).
  • Limites: o que o produto não é (evita dispersão).

Exemplo de visão (formato simples)

Para analistas financeiros de pequenas empresas, que precisam fechar o mês com rapidez e confiança, nosso produto automatiza conciliações e destaca inconsistências, para que o fechamento mensal leve horas (não dias) e com menos retrabalho, sem exigir conhecimento técnico avançado.

Objetivos, valor e outcomes: conectando intenção a entrega

Em Agile, é comum confundir entregas com valor. Entregas (outputs) são funcionalidades, telas, integrações, relatórios. Valor é o benefício gerado para usuários e para o negócio. O caminho entre ambos é medido por outcomes: mudanças observáveis em comportamento, desempenho ou indicadores.

Definições rápidas (para alinhar linguagem)

  • Output: o que foi entregue (ex.: “novo fluxo de cadastro”).
  • Outcome: efeito gerado (ex.: “aumentou a taxa de cadastro completo”).
  • Impacto: consequência mais ampla e duradoura (ex.: “crescimento de receita recorrente por aumento de ativação”).
  • Valor: combinação de benefícios para usuário e negócio, considerando custo, risco e tempo.

Exemplo de cadeia de valor (do objetivo à entrega)

CamadaExemploComo medir
ObjetivoMelhorar ativação de novos usuários% usuários ativados em 7 dias
OutcomeMais usuários completam o onboardingTaxa de conclusão do onboarding
OutputsTutorial guiado, checklist, e-mails de boas-vindasEntrega + uso das funcionalidades
HipótesesReduzir fricção aumenta conclusãoTeste A/B, funil, tempo por etapa

OKRs na prática: objetivos mensuráveis conectados a entregas

OKRs ajudam a tornar objetivos mensuráveis e a manter foco em outcomes. O ponto crítico é evitar transformar Key Results em lista de features. Um bom Key Result mede mudança de resultado, não “quantidade de coisas feitas”.

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Como escrever OKRs orientados a outcome

  • Objective: direção qualitativa e inspiradora, mas concreta.
  • Key Results: 2 a 4 métricas que provam avanço (baseline + alvo + prazo).
  • Iniciativas: apostas/entregas que podem influenciar os KRs (não garantem resultado).

Exemplo (bom) vs. (ruim)

Ruim (KR como output): “Lançar 5 melhorias no onboarding”.

Bom (KR como outcome): “Aumentar a taxa de conclusão do onboarding de 42% para 60% até o fim do trimestre”.

Iniciativas (possíveis outputs): reduzir campos, salvar progresso, tutorial contextual, mensagens in-app.

Passo a passo: definir persona/usuário, necessidades, proposta de valor e critérios de sucesso

Use o passo a passo abaixo para construir uma base consistente e comunicável. O objetivo é sair de “achismos” para um conjunto de decisões rastreáveis: quem, qual problema, qual valor, como medir sucesso.

Passo 1 — Delimite o público-alvo e o contexto de uso

  • Escolha um segmento inicial (evite “todo mundo”).
  • Descreva o contexto: onde, quando e por que a pessoa usa (ou deveria usar) a solução.
  • Defina o “job” principal: a tarefa/objetivo que a pessoa tenta cumprir.

Exemplo: “Gerentes de loja de varejo que precisam repor estoque diariamente usando celular durante o expediente.”

Passo 2 — Crie uma persona prática (sem excesso de ficção)

Uma persona útil é um resumo operacional para orientar decisões. Inclua apenas o que influencia comportamento e necessidades.

  • Perfil: função, experiência, restrições (tempo, ambiente, ferramentas).
  • Objetivos: o que ela tenta alcançar.
  • Dores: o que atrapalha hoje (fricções, riscos, custos).
  • Critérios de decisão: o que faz ela adotar/abandonar uma solução.

Modelo rápido:

Persona: [nome curto] — [papel] em [contexto]  Objetivo principal: [...]  Dores: [...]  Restrições: [...]  O que é sucesso para ela: [...]

Passo 3 — Mapeie necessidades e evidências

Liste necessidades como frases do tipo “preciso de…” e associe evidências (dados, feedback, observação). Isso reduz discussões baseadas em opinião.

  • Necessidade funcional (ex.: “preciso encontrar produtos rapidamente”).
  • Necessidade emocional (ex.: “preciso confiar que não vou errar”).
  • Necessidade social (ex.: “preciso mostrar resultado para minha liderança”).

Exemplo: “Preciso repor estoque sem sair do salão” (evidência: tempo médio de reposição alto; reclamações de ruptura).

Passo 4 — Formule a proposta de valor (benefício + diferenciação)

Proposta de valor é a promessa central: qual benefício principal e por que sua abordagem é melhor para aquele público.

Template:

Para [persona], que precisa [necessidade], nossa solução oferece [benefício principal] por meio de [mecanismo/diferencial], resultando em [resultado].

Exemplo: “Para gerentes de loja, que precisam repor estoque rápido, o app sugere reposição com base em vendas do dia e alerta rupturas, reduzindo faltas e tempo de conferência.”

Passo 5 — Defina objetivos mensuráveis e resultados esperados

Transforme a proposta de valor em objetivos e outcomes mensuráveis. Comece com uma métrica norte (North Star) e complemente com métricas de suporte.

  • Métrica norte: mede o valor principal entregue (ex.: “itens repostos sem ruptura por dia”).
  • Métricas de suporte: qualidade, velocidade, adoção, custo, satisfação.
  • Baseline: valor atual.
  • Alvo: valor desejado.
  • Prazo: janela de medição.

Exemplo: Baseline: 18 rupturas/semana por loja. Alvo: reduzir para 10 em 8 semanas.

Passo 6 — Estabeleça critérios de sucesso (produto e experimento)

Critérios de sucesso evitam “entregamos, então deu certo”. Defina critérios em dois níveis:

  • Critérios de produto (aceitação): o que precisa estar verdadeiro para considerar a entrega pronta e utilizável.
  • Critérios de resultado (sucesso): o que precisa mudar no mundo para considerar que gerou valor.

Exemplo (aceitação): “Sugestão de reposição aparece em menos de 2s; funciona offline; permite confirmar reposição.”

Exemplo (sucesso): “Aumentar uso semanal do app de 30% para 55% dos gerentes e reduzir rupturas em 20%.”

Passo 7 — Conecte OKRs a um mapa de entregas (sem virar lista fixa)

Em vez de um plano fechado, use um mapa de entregas por hipóteses: cada iniciativa existe para influenciar um KR. Se não influenciar, deve ser revista.

KRHipóteseIniciativas (candidatas)Sinal de validação
Reduzir rupturas 18→10Alertas proativos reduzem faltasAlertas de ruptura, lista priorizadaQueda de rupturas em lojas piloto
Aumentar adoção 30%→55%Menos fricção aumenta usoLogin simplificado, offlineAumento de sessões/semana

Como manter a visão viva durante o ciclo iterativo

Visão e objetivos não devem ficar em um documento esquecido. Em ciclos iterativos, a disciplina é conectar decisões semanais (priorização, escopo, trade-offs) aos outcomes.

Rituais e artefatos para reforçar visão e objetivos

  • Visão em 1 slide: público, problema, proposta de valor, métricas de sucesso. Use como abertura em reuniões-chave.
  • Revisão de objetivos com evidências: a cada ciclo, mostre métricas e aprendizados (não apenas o que foi entregue).
  • Backlog orientado a outcomes: itens descritos como “capacidade para…” ou “reduzir…” e ligados a KRs.
  • Quadro de hipóteses: hipótese → experimento → resultado → decisão (manter, ajustar, descartar).

Exemplo de linguagem para manter foco em outcome

  • Em vez de: “precisamos entregar o recurso X”, use: “qual resultado queremos melhorar e como o recurso X contribui?”
  • Em vez de: “o escopo aumentou”, use: “o que é essencial para mover o KR e o que é apenas ‘bom ter’?”

Checklist rápido para decisões de priorização

  • Qual KR/outcome este item influencia?
  • Qual hipótese está por trás?
  • Qual é o menor experimento/entrega que testa a hipótese?
  • Como vamos medir (métrica, baseline, alvo)?
  • Quais riscos (técnico, adoção, compliance) e como mitigar?

Exemplo completo (mini-caso) do início ao ciclo iterativo

1) Persona e necessidade

Persona: Camila, gerente de loja, 35 anos, usa celular no salão, pouco tempo para tarefas administrativas. Necessidade: repor estoque sem perder vendas por ruptura. Dor: conferência manual e atrasada.

2) Proposta de valor

“Sugerir reposição diária baseada em vendas e alertar rupturas para reduzir faltas e tempo de conferência.”

3) Objetivo e KRs

  • Objective: Tornar a reposição diária mais rápida e confiável nas lojas piloto.
  • KR1: Reduzir rupturas semanais de 18 para 12 em 6 semanas.
  • KR2: Aumentar adoção semanal do app de 30% para 50% dos gerentes em 6 semanas.
  • KR3: Reduzir tempo médio de reposição de 45 para 30 minutos.

4) Entregas iterativas conectadas a hipóteses

  • Iteração 1 (teste de valor): lista simples de itens críticos + confirmação manual. Mede: uso e tempo.
  • Iteração 2 (reduzir fricção): modo offline + carregamento em <2s. Mede: adoção semanal.
  • Iteração 3 (melhorar precisão): sugestão baseada em vendas + alertas. Mede: rupturas.

5) Revisão baseada em evidências

Se a adoção não subir, a hipótese pode estar errada (ou a entrega não resolveu a fricção real). A decisão pode ser ajustar onboarding, mudar canal de alerta, ou simplificar ainda mais o fluxo. Se a adoção subir mas rupturas não caírem, o problema pode estar na qualidade dos dados ou no processo operacional da loja, exigindo nova hipótese e novas iniciativas.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em gestão de produto com Agile, qual alternativa melhor diferencia output de outcome ao definir e acompanhar objetivos?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Em Agile, output é a entrega realizada (ex.: telas, fluxos, integrações). Outcome é a mudança observável gerada por essa entrega, medida por métricas (ex.: aumento de conclusão do onboarding), conectando entrega a valor.

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