Gestão de pessoas na prefeitura: cargos, equipes, rotinas e responsabilidades

Capítulo 10

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Como se organiza a força de trabalho na prefeitura

A gestão de pessoas na prefeitura precisa garantir que cada serviço tenha gente suficiente, com as competências certas, trabalhando com clareza de responsabilidades e com registro do que foi feito. Na prática, isso significa combinar diferentes tipos de vínculos (efetivos, comissionados, funções de confiança, temporários e terceirizados) e organizar rotinas como lotação, controle de jornada, escalas, capacitação e comunicação de ordens.

Cargos efetivos (servidores concursados)

São a base permanente da prefeitura. Em geral, ocupam funções técnicas e operacionais contínuas (ex.: administrativos, fiscais, profissionais de saúde e educação, engenheiros, assistentes sociais). Responsabilidades típicas:

  • Executar atividades permanentes do serviço público, seguindo normas e procedimentos.
  • Manter continuidade do trabalho mesmo com mudanças de governo.
  • Responder tecnicamente por rotinas e registros (relatórios, pareceres, lançamentos em sistema, atendimento ao cidadão).

Linha de comando (na prática): o servidor efetivo recebe orientações da chefia imediata (coordenação, direção, gerência) e segue fluxos internos de autorização. Mesmo quando a chefia é comissionada, o efetivo mantém responsabilidade pessoal pelos atos que pratica (por isso, ordens precisam ser claras e registráveis).

Cargos comissionados (nomeação e exoneração)

São cargos de direção, chefia e assessoramento, normalmente ligados à confiança da gestão. Responsabilidades típicas:

  • Definir prioridades operacionais da unidade (o que vem primeiro, prazos, metas).
  • Distribuir tarefas e coordenar equipes.
  • Articular com outras áreas para destravar demandas (ex.: pedir apoio de logística, TI, comunicação, jurídico).
  • Responder pela gestão do setor (organização do trabalho, acompanhamento e cobrança de entregas).

Ponto de atenção: comissionados não substituem a necessidade de capacidade técnica. Quando o trabalho exige assinatura técnica, fiscalização, laudo ou parecer específico, deve-se observar quem tem competência legal e atribuição no cargo.

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Funções de confiança (chefias exercidas por efetivos)

São atribuições de chefia ou coordenação dadas a servidores efetivos, geralmente com gratificação. Na prática, ajudam a manter estabilidade e memória institucional na liderança do dia a dia. Responsabilidades típicas:

  • Chefiar equipes com base em conhecimento do serviço e das rotinas.
  • Padronizar procedimentos e garantir qualidade e conformidade.
  • Treinar e orientar novos servidores e temporários.

Quando é útil: em unidades com alta complexidade técnica (ex.: vigilância sanitária, obras, contabilidade, regulação), onde a chefia precisa dominar normas e sistemas.

Temporários (quando cabível)

Contratações por tempo determinado, usadas em situações específicas e justificadas (ex.: necessidade excepcional, sazonalidade, substituições, demandas emergenciais). Responsabilidades típicas:

  • Atuar em atividades delimitadas por prazo e escopo (o que faz e até quando).
  • Seguir supervisão direta e rotinas padronizadas.
  • Registrar entregas para permitir continuidade após o término do contrato.

Cuidados práticos: temporários precisam de integração rápida (treinamento curto, manual de rotina, checklists) e supervisão mais próxima para evitar erros e retrabalho.

Terceirizados (serviços contratados)

São trabalhadores vinculados a uma empresa contratada pela prefeitura para executar serviços (ex.: limpeza, vigilância, recepção, apoio administrativo, manutenção). Responsabilidades típicas:

  • Executar o serviço conforme contrato (escopo, horários, quantitativos, padrões de qualidade).
  • Responder à empresa quanto a questões trabalhistas e gestão de pessoal (admissão, férias, substituições).

Linha de comando (essencial): a prefeitura não deve gerir o terceirizado como se fosse servidor (por exemplo, dar ordens personalizadas de RH, aplicar punições diretamente ou definir férias). O correto é a prefeitura:

  • Designar um fiscal do contrato e um gestor do contrato (quando previsto) para acompanhar a execução.
  • Emitir ordens de serviço e solicitações por canais formais (e-mail institucional, sistema, livro de ocorrências), direcionadas ao preposto/encarregado da empresa.
  • Registrar não conformidades e cobrar correções conforme o contrato.

Responsabilidades e linhas de comando no cotidiano

Para a rotina funcionar, é útil separar quatro papéis práticos (mesmo que a prefeitura use nomes diferentes):

  • Chefia imediata: distribui tarefas, aprova prioridades, acompanha prazos, valida entregas.
  • Responsável técnico (quando houver): responde pela qualidade técnica e conformidade (ex.: engenheiro, enfermeiro, contador, fiscal).
  • Executores: realizam as atividades e registram o que foi feito.
  • Apoio administrativo: organiza documentos, agenda, protocolo, controle de prazos, relatórios e comunicação interna.

Regra de ouro: toda tarefa deve ter um responsável (quem entrega) e um validador (quem confere/autoriza), com prazos e forma de registro definidos.

Rotinas administrativas de gestão de pessoas (como funciona na prática)

Lotação e movimentação interna

Lotação é onde o servidor está formalmente vinculado para trabalhar. A rotina envolve: necessidade do setor, disponibilidade de pessoal, perfil do servidor e formalização do ato (portaria/ato administrativo, conforme regras locais).

Passo a passo prático para ajustar lotação:

  • 1) Identificar a necessidade: qual serviço está descoberto, qual impacto (fila, atraso, risco).
  • 2) Mapear atividades: quais tarefas exigem competência específica e quais são treináveis rapidamente.
  • 3) Verificar disponibilidade: quem pode ser remanejado sem paralisar outra entrega.
  • 4) Definir escopo e prazo: remanejamento definitivo ou por período (ex.: 60 dias).
  • 5) Formalizar: ato de movimentação, ciência do servidor e da chefia de origem/destino.
  • 6) Integrar: repasse de senhas, acesso a sistemas, checklist de rotina, apresentação da equipe.
  • 7) Acompanhar 2 semanas: checagem diária curta para corrigir dúvidas e evitar erros.

Controle de ponto e jornada

O controle de jornada (ponto eletrônico, livro ponto ou sistema) protege tanto a prefeitura quanto o servidor. Na prática, a chefia precisa garantir:

  • Regras claras: horários, tolerâncias, intervalos, compensações e banco de horas (se existir).
  • Tratamento de exceções: atrasos, saídas para serviço externo, plantões, sobreavisos.
  • Registro de justificativas: atestados, declarações, autorizações de saída.

Boa prática: quando há atividade externa (fiscalização, visita domiciliar, vistoria), usar um registro simples de saída e retorno (data, horário, destino, objetivo, servidor, assinatura/validação), físico ou digital.

Escalas e plantões

Escalas são comuns em saúde, assistência social, guarda municipal, limpeza urbana e serviços essenciais. O objetivo é garantir cobertura sem sobrecarga e com previsibilidade.

Passo a passo prático para montar escala:

  • 1) Definir cobertura mínima: quantas pessoas por turno e quais perfis (ex.: 1 responsável técnico por turno).
  • 2) Levantar restrições: férias, licenças, limitações médicas, cursos, acúmulo de funções.
  • 3) Distribuir de forma equilibrada: alternância de fins de semana/noites, evitando concentração.
  • 4) Publicar com antecedência: reduzir trocas de última hora.
  • 5) Criar regra de troca: como solicitar, quem aprova, como registrar.
  • 6) Monitorar indicadores simples: faltas, horas extras, buracos de escala, tempo de resposta.

Capacitações internas (treinamento rápido e padronização)

Capacitação interna não precisa ser complexa para ser eficaz. O foco é padronizar rotinas e reduzir erros repetidos.

  • Treinamento de integração: para novos servidores/temporários (fluxos, sistemas, atendimento, conduta).
  • Treinamento por procedimento: como preencher um formulário, como registrar atendimento, como abrir uma ordem de serviço.
  • Treinamento de atualização: mudanças de norma, novo sistema, novo contrato.

Ferramentas simples: checklists, modelos de documentos, perguntas frequentes, roteiro de atendimento, vídeos curtos internos, simulação de casos.

Avaliação de desempenho (quando existente) e acompanhamento contínuo

Quando há avaliação formal, ela costuma considerar assiduidade, produtividade, qualidade, iniciativa e relacionamento. Mesmo sem um sistema formal, a chefia pode fazer acompanhamento contínuo com base em evidências:

  • Metas de rotina: quantidade de processos analisados, vistorias realizadas, atendimentos concluídos.
  • Qualidade: taxa de devolução por erro, retrabalho, reclamações recorrentes.
  • Prazos: tempo médio de resposta, cumprimento de prazos legais.

Boa prática: reuniões curtas quinzenais (15 a 20 minutos) para alinhar prioridades, remover obstáculos e registrar combinados.

Comunicação de ordens e registro de atividades

Para evitar ruído e retrabalho, a prefeitura precisa transformar pedidos em tarefas rastreáveis. Isso vale para equipes internas e para contratos terceirizados.

Modelo prático de comunicação de ordem:

  • O que fazer: descrição objetiva da tarefa.
  • Por que: base legal, demanda do cidadão, prioridade do serviço.
  • Quem faz: responsável e apoio.
  • Prazo: data e hora.
  • Como comprovar: foto, relatório, protocolo, número de processo, checklist assinado.
  • Quem valida: chefia/responsável técnico.

Registros úteis: livro de ocorrências, planilha de controle, sistema de chamados, relatório diário de campo, ata de reunião, e-mail institucional com encaminhamento.

Situações práticas do dia a dia

1) Montagem de equipe para um mutirão (ex.: limpeza urbana, saúde, regularização)

Mutirão é uma ação concentrada, com prazo curto e alta coordenação. O risco comum é juntar gente sem definir papéis, gerando filas, retrabalho e desgaste.

Passo a passo prático:

  • 1) Definir objetivo e escopo: o que será entregue (ex.: 800 atendimentos, 3 bairros, 2 dias).
  • 2) Mapear etapas: triagem, execução, registro, orientação ao cidadão, logística.
  • 3) Dimensionar equipe por função: quantos na triagem, quantos executores, quantos no registro, quem decide dúvidas.
  • 4) Nomear um coordenador do mutirão: ponto único de decisão no local.
  • 5) Definir responsáveis por turno: para cobrir ausências e manter comando claro.
  • 6) Preparar materiais e acessos: formulários, senhas, tablets, EPIs, veículos, internet, lista de contatos.
  • 7) Padronizar o registro: um único modelo para todos (evita dados incompletos).
  • 8) Briefing de 10 minutos antes: papéis, fluxo, critérios de prioridade, como escalar problemas.
  • 9) Debriefing no fim do dia: pendências, ajustes de fluxo, redistribuição de pessoas.

Exemplo de distribuição de tarefas (mutirão de zeladoria):

FunçãoResponsávelEntregávelRegistro
Triagem de demandas2 atendentesLista priorizada por ruaPlanilha com protocolo
Equipe de execução3 equipesServiço realizadoFoto antes/depois + localização
Logística1 encarregadoMateriais e deslocamentoChecklist de carga/retorno
Validação1 coordenadorConferência e liberaçãoRelatório diário

2) Substituições (férias, licença, afastamento repentino)

Substituição mal feita costuma gerar perda de prazos, documentos incompletos e duplicidade de trabalho. O segredo é ter rotinas documentadas e um plano mínimo de continuidade.

Passo a passo prático para substituir alguém:

  • 1) Levantar o que está em andamento: lista de processos/tarefas com prazos.
  • 2) Separar por criticidade: o que vence em 48h, 7 dias, 30 dias.
  • 3) Definir substituto: alguém com competência e acesso aos sistemas.
  • 4) Transferir acessos de forma regular: perfis e permissões conforme norma interna (evitar compartilhamento informal de senha).
  • 5) Fazer repasse estruturado: 30 a 60 minutos com checklist (status, pendências, contatos, modelos).
  • 6) Registrar a substituição: ato interno/portaria quando exigido, e comunicação à equipe.
  • 7) Criar ponto de controle: revisão diária dos prazos na primeira semana.

Checklist de repasse (exemplo):

  • Principais rotinas diárias/semanais
  • Processos com prazo legal
  • Demandas de gabinete/chefia
  • Contatos-chave (outras secretarias, fornecedores, conselhos)
  • Modelos de documentos e onde ficam
  • Relatórios pendentes

3) Distribuição de tarefas e acompanhamento (para evitar gargalos)

Distribuir tarefas não é apenas “passar serviço”. É equilibrar carga, garantir clareza e criar um ciclo de acompanhamento.

Método simples (passo a passo):

  • 1) Quebrar a entrega em tarefas pequenas: cada uma com início e fim claros.
  • 2) Definir prioridade: urgente/importante, prazo legal, impacto no cidadão.
  • 3) Atribuir responsável único: uma pessoa responde pela entrega, mesmo com apoio.
  • 4) Definir padrão de qualidade: o que é “feito” (critério de aceite).
  • 5) Registrar em um quadro de controle: pode ser planilha com colunas: A fazer / Em andamento / Em validação / Concluído.
  • 6) Rodada rápida diária (10 minutos): o que fiz ontem, o que farei hoje, impedimentos.
  • 7) Validação e arquivamento: conferir e guardar evidências (número, relatório, foto, protocolo).

4) Como evitar retrabalho (erros repetidos e tarefas duplicadas)

Retrabalho costuma vir de quatro causas: falta de padrão, comunicação incompleta, ausência de validação e registros dispersos.

  • Padronize entradas: use formulários e checklists para não faltar informação (ex.: endereço completo, CPF/CNPJ, fotos, anexos).
  • Crie um “dono” do processo: uma pessoa acompanha do início ao fim e evita duplicidade.
  • Defina ponto de validação: antes de finalizar, alguém confere itens críticos.
  • Centralize registros: um local oficial para anexos e histórico (sistema, pasta padrão, protocolo).
  • Use modelos: minutas, respostas padrão, relatórios com campos fixos.
  • Faça análise de causa de erros: quando algo volta, registrar o motivo e ajustar o checklist.

Exemplo prático (evitar retrabalho em atendimento): se a equipe recebe muitos pedidos incompletos, criar uma triagem com lista de documentos obrigatórios e só abrir a demanda quando estiver completa. Isso reduz idas e vindas e melhora o tempo de resposta.

Instrumentos simples que ajudam a chefia no dia a dia

Quadro de responsabilidades (RACI simplificado)

Um quadro rápido para deixar claro quem faz o quê em uma rotina recorrente. Exemplo de legenda: R (Responsável por executar), A (Aprova/valida), C (Consultado), I (Informado).

AtividadeChefiaExecutorResponsável técnicoApoio adm.
Atendimento inicialIRCR
Análise técnicaICR/AI
Registro em sistemaIRCR
Resposta ao cidadãoARCR

Modelo de relatório diário de atividades (para equipes internas ou mutirões)

Data: __/__/____  Unidade: __________  Responsável: __________  Turno: ________  Equipe: ________
1) Principais atividades realizadas (com números):
- ________________________________________________
- ________________________________________________
2) Pendências e prazos:
- ________________________________________________
3) Problemas encontrados (impedimentos):
- ________________________________________________
4) Ações corretivas adotadas / solicitações:
- ________________________________________________
5) Evidências anexas (fotos, protocolos, relatórios):
- ________________________________________________

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao lidar com trabalhadores terceirizados na prefeitura, qual prática está mais alinhada à linha de comando correta e ao acompanhamento formal do serviço?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Em terceirização, a prefeitura acompanha a execução pelo contrato: designa fiscalização, emite ordens por canais formais ao preposto e registra não conformidades. A gestão de pessoal (férias, punições) é responsabilidade da empresa contratada.

Próximo capitúlo

Atendimento ao cidadão e canais de entrada: protocolo, ouvidoria e transparência

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