Coleta e preservação de amostras biológicas: o que muda quando o objetivo é DNA
Em genética forense, a qualidade do resultado começa na escolha do que coletar e em como preservar. Diferente de outras análises, o DNA é altamente sensível a contaminação (introdução de DNA estranho), degradação (quebra do material genético) e inibidores (substâncias que atrapalham a amplificação). O objetivo prático da coleta é obter material biológico suficiente, com o mínimo de mistura e o máximo de integridade, mantendo rastreabilidade e condições adequadas até o laboratório.
Principais matrizes biológicas e particularidades
Sangue: geralmente rico em DNA nuclear (células brancas). Em manchas antigas pode haver degradação; em superfícies porosas (tecido) tende a fixar melhor do que em superfícies lisas.
Saliva: comum em bitucas, copos, canudos, envelopes, mordidas. Pode ter baixa quantidade de células e sofrer degradação por umidade/calor.
Sêmen: frequente em crimes sexuais; pode conter mistura com células epiteliais da vítima. Em tecidos, pode estar distribuído em áreas pequenas; a localização correta é crítica.
Tecidos/fragmentos biológicos: pele, músculo, órgãos; úteis em identificação e casos com restos humanos. Podem exigir refrigeração/congelamento conforme o tempo até o laboratório.
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Contato/“touch DNA”: baixa quantidade de DNA (células deixadas por contato). Muito vulnerável à contaminação e a perfis parciais; exige estratégia de coleta e interpretação cautelosa.
Controle de contaminação: como evitar que o perfil seja do coletor ou do ambiente
Contaminação pode ocorrer por contato direto (mãos, fala, tosse), por transferência indireta (luvas tocando múltiplos itens) ou por acondicionamento inadequado (itens úmidos em recipientes fechados). Em genética forense, uma contaminação pequena pode gerar alelos espúrios e confundir a interpretação, especialmente em amostras de baixa quantidade.
Boas práticas essenciais (checklist operacional)
EPI e conduta: máscara, touca, luvas (troca frequente), mangas longas. Evitar falar sobre vestígios expostos e nunca soprar para “secar” ou “limpar”.
Troca de luvas: ao mudar de item, de área de coleta, após tocar superfícies não controladas (maçanetas, celular, caneta), ou se houver suspeita de contato acidental.
Ferramentas: preferir descartáveis (swabs, bisturis). Se reutilizáveis, acondicionar limpas e aplicar protocolo de descontaminação conforme rotina institucional.
Ordem de coleta: priorizar amostras mais frágeis e com menor quantidade (touch DNA) antes de manusear itens com grande carga biológica (sangue/sêmen), reduzindo transferência.
Separação física: embalar itens individualmente; evitar contato entre peças de roupa; nunca colocar múltiplos itens no mesmo saco.
Controle de referência: quando aplicável, coletar amostras de referência (vítima, suspeito, eliminatórias) com identificação clara para comparação e para investigar contaminações.
Triagem e encaminhamento: decidir o que vai ao laboratório e como
Triagem é a seleção racional de amostras com maior potencial informativo, considerando contexto, hipótese investigativa e limitações do laboratório (capacidade, tempo, custo). O objetivo é evitar encaminhar material redundante ou de baixa probabilidade de sucesso quando há alternativas melhores.
Passo a passo prático de triagem no local/na unidade
1) Mapear pontos de contato e deposição: onde houve luta, contato oral, penetração, sangramento, manipulação de objetos.
2) Priorizar por valor probatório: itens que conectam pessoa–ato–local (ex.: swab de área interna de máscara usada; mancha seminal em roupa íntima; sangue em ferramenta).
3) Avaliar risco de mistura: superfícies compartilhadas (maçanetas, corrimãos) tendem a misturas; preferir áreas de contato mais “exclusivas” (parte interna de luvas, empunhadura isolada, nó de corda).
4) Avaliar integridade: umidade, calor, exposição ao sol, tempo decorrido. Manchas úmidas exigem atenção para secagem/ventilação antes de embalar (quando o protocolo permitir) ou acondicionamento que evite mofo.
5) Definir técnica de coleta: swab umedecido, recorte de tecido, raspagem, coleta do item inteiro.
6) Embalar e rotular individualmente: recipientes adequados, evitando plástico para itens úmidos (risco de degradação por fungos/bactérias). Encaminhar com descrição objetiva do ponto coletado e do racional.
Escolha da técnica de coleta (exemplos práticos)
Mancha em superfície não porosa (vidro, metal): swab estéril levemente umedecido (água estéril), fricção controlada na área; se possível, segundo swab seco para “varrer” o resíduo restante.
Mancha em tecido: recorte da área com margem mínima (evitar diluir a amostra). Alternativa: swab se o recorte comprometer o item.
Objeto pequeno (bituca, canudo, preservativo): coletar o item inteiro, acondicionar individualmente; evitar manipulação excessiva.
Touch DNA em empunhadura: swab duplo (um umedecido + um seco) com pressão moderada e cobertura total da área; coletar controles de áreas adjacentes quando pertinente (para avaliar fundo ambiental).
Fundamentos de DNA nuclear e mitocondrial: quando cada um é útil
DNA nuclear (nDNA)
Está no núcleo das células e é herdado metade do pai e metade da mãe. Em genética forense, o nDNA é a base dos perfis STR (Short Tandem Repeats), que permitem alta discriminação entre indivíduos. Em geral, é a escolha preferencial quando há material suficiente e relativamente preservado.
DNA mitocondrial (mtDNA)
Está nas mitocôndrias e existe em muitas cópias por célula, o que aumenta a chance de sucesso em amostras muito degradadas ou com pouco material (ex.: fios de cabelo sem raiz, ossos antigos). A discriminação é menor: pessoas da mesma linhagem materna podem compartilhar o mesmo perfil mitocondrial. Por isso, o mtDNA costuma ser usado como ferramenta complementar, especialmente em identificação humana e restos mortais.
Implicação pericial prática
nDNA (STR): melhor para individualização e comparação direta com suspeitos/bancos.
mtDNA: melhor para amostras difíceis; interpretações mais cautelosas quanto à exclusividade do resultado.
Perfis genéticos e o que o laboratório entrega ao perito
O resultado típico de STR é um conjunto de marcadores (loci) com alelos numéricos. Um perfil “completo” tem muitos loci informativos; um perfil “parcial” tem loci faltantes (dropout) por baixa quantidade/degradação/inibição. Em misturas, podem aparecer mais de dois alelos em um locus, indicando múltiplos contribuintes.
Conceitos-chave para leitura
Alelo: variante observada em um locus (ex.: 12, 14).
Heterozigoto/homozigoto: dois alelos diferentes/iguais no locus.
Pico (eletroferograma): representação do sinal; picos baixos podem indicar baixa quantidade, degradação ou contribuição minoritária.
Dropout: alelo verdadeiro que não aparece (comum em perfis parciais).
Drop-in: alelo estranho que aparece por contaminação ou artefato.
Stutter: pico artefactual próximo ao alelo verdadeiro, típico de STR; pode confundir misturas.
Mistura de contribuintes: reconhecer, coletar melhor e interpretar com cautela
Mistura ocorre quando DNA de mais de uma pessoa está presente na mesma amostra (ex.: sêmen + células vaginais; objeto manuseado por várias pessoas). A interpretação depende de quantos contribuintes há, da proporção entre eles (majoritário/minoritário) e da qualidade do perfil.
Como reduzir mistura ainda na coleta
Coletar áreas específicas: em roupas, buscar a mancha-alvo em vez de grandes recortes.
Separar regiões: em um objeto, coletar empunhadura e outras áreas separadamente, para tentar isolar o usuário principal.
Evitar “swab único” em área extensa: dividir em quadrantes quando fizer sentido.
Em crimes sexuais: direcionar coleta para locais e tempos compatíveis com deposição; quando houver múltiplas áreas, coletar separadamente para não “misturar misturas”.
Indicadores de mistura no resultado
Mais de dois alelos em um ou mais loci.
Relação de alturas de pico sugerindo contribuições em proporções diferentes.
Inconsistências entre loci (alguns parecem “simples”, outros “complexos”), típico de mistura + dropout.
Degradação e inibidores: por que o perfil fica parcial
Degradação
O DNA se fragmenta por calor, umidade, luz UV, microrganismos e tempo. Em STR, a degradação tende a afetar mais fragmentos maiores, gerando perda seletiva de loci e picos mais fracos. Na prática, isso pode produzir perfis parciais e aumentar risco de dropout.
Inibidores
São substâncias que atrapalham a PCR (amplificação), como hemoglobina (sangue), corantes/íons de certos tecidos, solo/húmus, produtos de limpeza e alguns cosméticos. O efeito pode ser falha total, picos muito baixos ou desequilíbrio entre loci.
O que o perito pode fazer (decisões antes do laboratório)
Preservar seco e fresco: reduzir degradação por umidade e calor.
Evitar acondicionamento que favoreça mofo: itens úmidos em recipientes fechados aumentam degradação e inibidores biológicos.
Selecionar amostras “limpas” quando possível: por exemplo, preferir mancha em área menos suja do tecido; evitar coletar junto com excesso de terra.
Interpretação probabilística (conceitual): como expressar força da evidência e limitações
Em genética forense moderna, a pergunta central não é “bateu ou não bateu”, e sim: quão mais provável é observar este perfil se o suspeito contribuiu do que se não contribuiu? Essa lógica é probabilística e costuma ser expressa por uma medida de força da evidência (frequentemente na forma de razão de verossimilhança, LR), sem que o perito precise fazer contas avançadas no local. O essencial é compreender o significado e comunicar limitações.
Três níveis de resultado e como comunicar
Exclusão: o perfil do suspeito é incompatível com a amostra (considerando qualidade e possíveis dropout). Exige cuidado quando a amostra é muito parcial: incompatibilidades fortes em loci presentes sustentam exclusão; ausência de alelos pode ser dropout.
Inclusão/compatibilidade: o perfil do suspeito é compatível com a amostra. A força depende de: número de loci informativos, presença de mistura, qualidade do sinal e população de referência.
Inconclusivo: dados insuficientes (perfil muito parcial, mistura complexa, inibição). É um resultado tecnicamente válido e deve ser assumido quando não há suporte para inclusão/exclusão robustas.
Como traduzir “força da evidência” sem jargão excessivo
Evitar: “certeza”, “prova absoluta”, “100%”.
Preferir formulações: “os resultados são X vezes mais prováveis sob a hipótese de contribuição do suspeito do que sob a hipótese de um indivíduo desconhecido” (quando houver LR), ou “há suporte forte/moderado/limitado” conforme a escala adotada pelo laboratório.
Declarar limitações: mistura, possibilidade de dropout, baixa quantidade, degradação, potencial de DNA de fundo (background) em objetos compartilhados.
Perguntas-guia para interpretar um laudo de DNA (checklist conceitual)
Qual é a matriz e o local exato de onde veio a amostra?
O perfil é completo ou parcial? Quantos loci informativos?
Há indícios de mistura? Quantos contribuintes foram considerados?
Há sinais de degradação/inibição?
O resultado é comparação direta (suspeito/vítima) ou busca em banco?
A conclusão expressa força da evidência e hipóteses comparadas (contribuiu vs não contribuiu)?
Estudos de caso simulados: decisões de coleta e interpretação
Caso 1: Roupa com possível sêmen e risco de mistura
Cenário: vítima relata violência sexual. Há uma calcinha com manchas esbranquiçadas e áreas úmidas. O suspeito alega não ter contato. O ambiente é quente e a roupa foi guardada em sacola plástica por algumas horas antes da chegada da equipe.
Decisões de coleta (passo a passo):
1) Priorizar preservação: se o item estiver úmido, adotar procedimento institucional para reduzir umidade (ex.: ventilação controlada em embalagem apropriada), evitando selar úmido em plástico.
2) Coleta direcionada: identificar visualmente as manchas e coletar por áreas (ex.: região central e laterais separadas), evitando um único recorte grande.
3) Evitar mistura adicional: não dobrar a peça de modo que as manchas encostem em outras áreas; embalar individualmente.
4) Encaminhar com contextualização: indicar quais áreas correspondem às manchas e quais são controles (área sem mancha) se coletados.
Resultado laboratorial (simulado): mistura de dois contribuintes, com um componente majoritário masculino e um componente feminino. Perfil masculino parcial (alguns loci ausentes), sinais de degradação.
Interpretação conceitual:
A presença de mistura é esperada (vítima + possível agressor). O componente masculino majoritário dá suporte à hipótese de contribuição masculina, mas o perfil parcial exige cautela.
Se o suspeito for compatível com o componente masculino, a força da evidência dependerá do número de loci úteis e do modelo de mistura. Deve-se comunicar que a degradação pode causar dropout e que a inferência é probabilística.
Se houver incompatibilidades em loci bem definidos do componente masculino, pode sustentar exclusão; porém, ausências isoladas podem ser dropout.
Caso 2: Arma branca com “touch DNA” e múltiplos manuseios
Cenário: faca encontrada em pia de cozinha. Há lavagem aparente. Vítima e suspeito moram na mesma casa. A faca é de uso comum.
Decisões de coleta (passo a passo):
1) Separar áreas: coletar empunhadura (principal) e lâmina (secundária) em swabs separados.
2) Técnica para baixa quantidade: swab duplo na empunhadura (umedecido + seco), cobrindo toda a área de contato.
3) Controle de contaminação rigoroso: troca de luvas entre áreas; evitar apoiar a faca em superfícies não controladas.
4) Contextualização no encaminhamento: informar que é objeto de uso comum e possivelmente lavado (alto risco de perfil fraco/mistura).
Resultado laboratorial (simulado): perfil muito baixo e parcial na empunhadura, com indícios de pelo menos dois contribuintes; lâmina sem perfil interpretável.
Interpretação conceitual:
Objeto compartilhado + lavagem favorece DNA de fundo e perfis parciais. A mistura e a baixa quantidade elevam risco de dropout/drop-in.
Mesmo que o suspeito seja compatível, a força pode ser limitada; deve-se evitar inferir “uso no crime” apenas pela compatibilidade, pois pode refletir manuseio prévio legítimo.
Resultado pode ser mais útil para exclusão (se houver incompatibilidades claras) do que para atribuição positiva, dependendo da qualidade.
Caso 3: Manchas de sangue em local externo com solo e produtos de limpeza
Cenário: área externa com manchas avermelhadas no piso e respingos em parede. Há terra e relato de que alguém “jogou água sanitária”.
Decisões de coleta (passo a passo):
1) Selecionar pontos protegidos: coletar respingos em parede (menos contato com solo) e áreas de piso com menor sujeira visível.
2) Coleta por swab controlado: swab levemente umedecido em áreas delimitadas; evitar arrastar terra para o swab.
3) Amostras múltiplas: coletar mais de um ponto para aumentar chance de obter perfil útil, já que inibidores podem variar por local.
4) Informar suspeita de inibidores: registrar possível uso de alvejante e presença de solo, pois isso orienta estratégias laboratoriais.
Resultado laboratorial (simulado): uma amostra com falha parcial (inibição), outra com perfil parcial compatível com a vítima, e uma terceira inconclusiva.
Interpretação conceitual:
A variabilidade entre pontos é compatível com inibidores e degradação química. A amostra compatível com a vítima sustenta a hipótese de que o sangue pode ser dela naquele ponto, mas a força depende do número de loci e da qualidade.
As falhas/inconclusões não negam a presença de sangue; indicam limitações técnicas por inibição/degradação.
Leitura de perfis parciais: tomada de decisão pericial (sem cálculos)
Perfis parciais são comuns em campo. A decisão não é “forçar” uma conclusão, e sim avaliar se há suporte suficiente para exclusão, inclusão com força limitada, ou inconclusão.
Roteiro prático para perfis parciais
1) Verificar quantos loci são utilizáveis: loci ausentes reduzem discriminação e aumentam ambiguidade.
2) Checar sinais de baixa quantidade: picos muito baixos e desequilíbrio sugerem dropout.
3) Considerar o contexto da amostra: touch DNA e objetos compartilhados exigem maior cautela para atribuição.
4) Diferenciar incompatibilidade de ausência: incompatibilidade é presença de alelo que o suspeito não poderia ter naquele locus; ausência pode ser dropout.
5) Preferir linguagem probabilística: quando houver suporte, expressar como “suporte limitado/moderado/forte” conforme o laboratório; quando não houver, declarar inconclusivo.
Boas práticas de documentação técnica específica para genética forense (sem repetir cadeia de custódia)
Para maximizar interpretabilidade, a descrição do vestígio deve permitir reconstruir onde e como a amostra foi obtida, e quais riscos estavam presentes.
Localização precisa: “empunhadura, face direita, 3 cm abaixo do guarda-mão” é melhor do que “na faca”.
Condição do item: seco/úmido, presença de sujeira, sinais de lavagem, exposição ao sol.
Técnica aplicada: swab umedecido, swab duplo, recorte, coleta do item inteiro.
Riscos e hipóteses: objeto compartilhado, possível mistura, possível inibidor (solo/alvejante), tempo decorrido.