Gelo e condições de congelamento na Meteorologia para Aviação e Navegação: formação, risco e prevenção

Capítulo 12

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

O que é congelamento e por que ele é crítico na operação

Em meteorologia operacional, “congelamento” é a condição em que a água líquida ou o vapor d’água passam a formar gelo em superfícies expostas. O ponto-chave para aviação e navegação é que o gelo pode se formar mesmo quando a temperatura do ar está ligeiramente acima de 0 °C, dependendo da temperatura da superfície, do resfriamento pelo escoamento do ar/água e do tipo de gota presente na nuvem ou precipitação.

O risco não é apenas “ter gelo”: é a combinação de água líquida disponível (nuvem/chuva/garoa/spray) com temperatura favorável e superfície exposta (aeronave, convés, superestrutura, cabos, antenas, hélices, entradas de ar, bordos de ataque, para-brisa, sensores).

Água super-resfriada (supercooled water)

Água super-resfriada é água líquida que permanece líquida abaixo de 0 °C (comum entre 0 e -20 °C, podendo ocorrer em temperaturas ainda menores). Em nuvens, isso ocorre porque as gotículas são muito pequenas e não encontram “gatilhos” (núcleos de congelamento) suficientes para cristalizar. Quando essas gotículas atingem uma superfície (por exemplo, o bordo de ataque de uma asa ou a superestrutura de uma embarcação), elas congelam rapidamente, formando gelo aderente.

Tipos básicos de gelo em aeronaves (conceitos gerais)

Na prática operacional, os tipos de gelo são classificados pelo aspecto e pelo mecanismo de formação. Isso ajuda a antecipar severidade, aderência e resposta a sistemas anti-ice/de-ice.

  • Gelo claro (clear ice / glaze): forma-se quando gotículas maiores (ou chuva/garoa super-resfriada) atingem a superfície e espalham antes de congelar. Resultado: camada lisa, transparente ou translúcida, muito aderente e difícil de remover. Pode alterar significativamente o perfil aerodinâmico.
  • Gelo opaco (rime ice): forma-se com gotículas pequenas que congelam quase instantaneamente ao impacto, aprisionando ar. Resultado: aspecto branco/opaco, mais “granulado”, geralmente menos aderente que o gelo claro, mas ainda perigoso.
  • Gelo misto (mixed): combinação dos dois, comum em nuvens com distribuição variada de tamanho de gota e em regiões de forte conteúdo de água líquida. Pode ser irregular e acumular rapidamente.

Onde o gelo costuma aparecer primeiro na aeronave

  • Bordos de ataque de asas e estabilizadores.
  • Entradas de ar e lábios de naceles.
  • Hélices/rotor e spinner.
  • Para-brisa e estruturas expostas.
  • Sensores (pitot, tomadas estáticas, AoA, TAT/OAT): risco de indicação errada.

Formação de gelo em embarcações e superfícies em regiões frias

Na navegação, o gelo pode se formar por dois caminhos principais: congelamento de precipitação (chuva/garoa congelante) e spray congelante (respingo de água do mar que congela ao atingir a embarcação). O spray congelante é especialmente relevante com vento forte, mar agitado e temperaturas do ar abaixo de 0 °C, pois a água lançada sobre o convés e superestrutura congela rapidamente.

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Impactos típicos na embarcação

  • Aumento de peso e alteração de estabilidade (acúmulo em superestrutura eleva o centro de gravidade).
  • Perda de funcionalidade (cabos, guinchos, escotilhas, antenas, radares, passadiço, visores).
  • Risco de queda e acidentes em convés por gelo liso.
  • Redução de visibilidade por congelamento em janelas e spray.

Sinais meteorológicos de risco: como reconhecer o “ambiente de gelo”

1) Temperatura próxima de 0 °C com umidade/nuvens

Um cenário clássico de risco é quando a temperatura do ar está entre +2 °C e -10 °C e há nuvens com água líquida (especialmente estratiformes espessas) ou precipitação. Em aviação, a faixa de maior frequência de gelo significativo costuma ocorrer entre 0 e -15 °C, mas o risco existe fora dela dependendo do conteúdo de água e do tipo de gota.

Indicador prático: temperatura e ponto de orvalho próximos (pequena diferença entre T e Td) sugerem ar úmido e maior chance de nuvem/precipitação, aumentando a probabilidade de água líquida disponível para congelar.

2) Precipitação congelante (freezing rain / freezing drizzle)

Precipitação congelante é um dos cenários mais perigosos porque envolve gotas super-resfriadas relativamente grandes que geram gelo claro rápido e muito aderente. Pode ocorrer quando há uma camada de ar quente acima (derretendo flocos de neve) e uma camada rasa de ar frio próximo à superfície, onde as gotas ficam super-resfriadas antes de tocar o solo/superfície.

  • Chuva congelante: gotas maiores, potencial de acúmulo rápido e severo.
  • Garoa congelante: gotas menores, ainda perigosa, pode formar camada contínua em superfícies.

3) Nuvens convectivas e estratiformes com alto conteúdo de água

Estratiformes (camadas extensas) podem produzir gelo persistente ao longo de grandes áreas, especialmente quando a aeronave permanece por tempo prolongado dentro da nuvem em temperaturas negativas moderadas. Convectivas (com desenvolvimento vertical) podem concentrar grande conteúdo de água líquida e gerar acúmulo rápido, além de associar-se a turbulência e variações bruscas de temperatura e umidade.

Na leitura operacional, procure sinais de nuvem espessa, precipitação e temperaturas negativas em níveis de voo/altitudes de interesse. Em navegação, procure combinação de vento (spray), temperatura abaixo de 0 °C e mar agitado.

Leitura prática de temperatura e ponto de orvalho para estimar risco de gelo

Você não precisa “calcular gelo” com precisão para tomar decisões seguras; precisa reconhecer rapidamente quando o ambiente favorece água líquida e congelamento.

Regra prática 1: diferença pequena entre T e Td indica umidade alta

Quando T - Td é pequeno (por exemplo, 0 a 3 °C), o ar está muito úmido e é mais provável haver nuvens, neblina ou precipitação. Se, além disso, a temperatura está próxima ou abaixo de 0 °C, o risco de gelo aumenta.

CenárioExemploLeitura operacional
Ar úmido e frioT = 1 °C, Td = 0 °CAlta chance de nuvem/precipitação; risco de gelo em superfícies e, em voo, em camadas frias com água líquida.
Ar frio, mas mais secoT = -5 °C, Td = -15 °CMenor chance de nuvem/água líquida; risco de gelo por nuvem é menor, mas ainda pode haver gelo por precipitação/spray se presente.
Ar ligeiramente acima de 0 °CT = 3 °C, Td = 2 °CUmidade alta; se houver chuva e superfície mais fria (noite, vento, altitude), pode ocorrer congelamento em contato.

Regra prática 2: procure a “zona de 0 °C” e a camada abaixo de 0 °C

Em aviação, a altitude do nível de 0 °C (freezing level) é uma referência. Se você voa dentro de nuvem em temperaturas negativas, assume-se potencial de gelo. Se há indicação de chuva/garoa congelante, o risco pode existir mesmo com temperatura do ar ligeiramente positiva em alguns trechos, pois a gota pode estar super-resfriada.

Regra prática 3: precipitação + temperatura próxima de 0 °C = atenção máxima

Se há precipitação e a temperatura está entre +2 °C e -5 °C, trate como cenário de alto risco para gelo em superfícies e possibilidade de gelo claro (dependendo do tipo de precipitação).

Termos comuns em previsões e avisos (aviação e navegação) e como interpretar

Aviação: termos frequentes

  • ICING: indicação genérica de formação de gelo em voo. Pode vir com intensidade (leve, moderada, severa) e faixa de altitude/nível.
  • FZRA: freezing rain (chuva congelante). Forte indicativo de gelo claro e potencialmente severo.
  • FZDZ: freezing drizzle (garoa congelante).
  • PL: ice pellets (grãos de gelo). Indica perfil térmico complexo; pode coexistir com camadas de gota super-resfriada.
  • SN: neve. Em geral, neve seca tende a aderir menos do que gelo claro, mas pode reduzir visibilidade e, se úmida/próxima de 0 °C, aderir e congelar em superfícies.
  • BR/FG com temperatura baixa: pode indicar ambiente saturado; se abaixo de 0 °C, atenção a cristais de gelo e congelamento em superfícies.
  • Freezing level / 0 °C level: referência para planejar altitudes fora de camadas com temperatura negativa quando possível.

Navegação: termos frequentes

  • Freezing spray (spray congelante): respingo que congela ao atingir a embarcação; risco elevado com vento forte e ar abaixo de 0 °C.
  • Ice accretion (acúmulo de gelo): pode aparecer em avisos marítimos com indicação de taxa (leve/moderada/forte).
  • Gale/Storm + subzero air: combinação que favorece spray congelante e acúmulo rápido.

Passo a passo prático: triagem rápida de risco de gelo (aviação)

Passo 1: identifique se haverá água líquida

  • Há previsão/observação de nuvens no nível de voo?
  • precipitação (chuva/garoa/neve) no trajeto, decolagem ou aproximação?
  • T e Td estão próximos (ar úmido)?

Passo 2: verifique a faixa de temperatura onde você ficará exposto

  • Em rota/subida/descida, você ficará em temperaturas negativas dentro de nuvem?
  • Existe menção a FZRA/FZDZ ou “icing” moderado/severo?

Passo 3: classifique o cenário em “evitar”, “mitigar” ou “monitorar”

  • Evitar: presença/risco de FZRA/FZDZ, gelo severo, ou camadas extensas com alto conteúdo de água líquida em temperaturas negativas sem alternativa operacional clara.
  • Mitigar: gelo leve a moderado esperado com possibilidade de mudar altitude (subir acima da camada, descer abaixo do nível de 0 °C quando seguro), reduzir tempo em nuvem e usar sistemas anti-ice/de-ice conforme procedimentos.
  • Monitorar: ar frio porém mais seco, nuvens finas e pouca água líquida; ainda assim, vigiar sinais iniciais (acúmulo em limpadores, antenas, bordos, mudança de ruído/vibração, aumento de potência requerida).

Passo 4: durante a operação, procure sinais precoces

  • Acúmulo visível em superfícies de referência (por exemplo, limpador, molduras, bordos).
  • Mudança de desempenho: necessidade de mais potência, aumento de arrasto, perda de razão de subida.
  • Vibração em hélice/rotor e ruídos aerodinâmicos diferentes.
  • Indicações anômalas de velocidade/altitude (possível gelo em sensores).

Passo a passo prático: triagem rápida de risco de gelo (navegação)

Passo 1: confirme a condição térmica

  • Temperatura do ar prevista/observada abaixo de 0 °C ou muito próxima disso?
  • Há tendência de queda de temperatura com vento (advecção fria)?

Passo 2: avalie o potencial de spray

  • Vento forte e mar agitado aumentam respingos sobre o convés.
  • Rota e proa em relação ao mar podem aumentar embarque de água.

Passo 3: procure gatilhos de congelamento em contato

  • Precipitação com temperatura próxima de 0 °C (risco de película de gelo em convés e superestrutura).
  • Spray atingindo áreas elevadas (antenas, mastros, passadiço), onde o acúmulo afeta estabilidade e equipamentos.

Passo 4: monitore acúmulo e priorize áreas críticas

  • Superestrutura e pontos altos (impacto em estabilidade).
  • Equipamentos de navegação/comunicação (radar, antenas).
  • Acessos e áreas de trabalho (escorregamento e travamento).

Exercícios guiados de leitura (temperatura, ponto de orvalho e termos)

Exercício 1: risco de gelo em aproximação

Você observa: T = 0 °C, Td = -1 °C, teto baixo e garoa. Interpretação: ar quase saturado e temperatura na faixa crítica; se a garoa for FZDZ ou houver camada ligeiramente negativa acima, o risco de gelo claro aumenta. A decisão operacional tende a exigir alternativa (mudança de nível/rota, espera fora de nuvem, ou evitar o cenário conforme limitações).

Exercício 2: risco de gelo em rota em camada estratiforme

Você planeja cruzar uma camada de nuvem entre níveis com temperatura estimada de -6 °C a -12 °C. Interpretação: faixa típica de gelo em nuvem; se a camada for extensa, o tempo de exposição pode tornar o acúmulo significativo. Procure no planejamento menções a ICING e avalie se há como reduzir tempo em nuvem (subir/descer) ou contornar.

Exercício 3: risco de spray congelante

Previsão marítima indica vento forte, mar agitado e temperatura do ar -3 °C. Interpretação: cenário favorável a freezing spray. Mesmo sem precipitação, o respingo pode congelar ao contato, acumulando em superestrutura e degradando estabilidade. Ajustes de rota/velocidade e vigilância de acúmulo tornam-se prioridades.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em uma aproximação com temperatura do ar próxima de 0 °C, qual combinação de fatores indica maior risco de formação de gelo em superfícies e por quê?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Quando T e Td estão próximos, o ar tende a estar muito úmido, favorecendo nuvens/neblina/precipitação. Se isso ocorre perto de 0 °C, há água líquida disponível que pode congelar em superfícies expostas, elevando o risco operacional.

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