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Perito Criminal da Polícia Civil: Fundamentos Técnicos e Científicos para Concursos

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16 páginas

Fundamentos do Perito Criminal da Polícia Civil: atribuições, escopo pericial e produto do trabalho

Capítulo 1

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Conceitos essenciais: criminalística, perícia oficial e Perito Criminal

Criminalística é o conjunto de conhecimentos técnico-científicos aplicados à análise de vestígios relacionados a fatos de interesse penal, com o objetivo de produzir informações confiáveis para esclarecer o que ocorreu, como ocorreu e, quando possível, quem participou. Ela se materializa por meio de métodos de observação, coleta, preservação, análise e interpretação de evidências.

Perícia oficial é a atividade pericial realizada por órgão público competente, por profissionais legalmente investidos, com dever de imparcialidade e observância de procedimentos técnicos. Seu produto tem finalidade probatória e deve ser rastreável, verificável e fundamentado em metodologia adequada.

O Perito Criminal da Polícia Civil é o profissional responsável por executar exames periciais em vestígios materiais, digitais ou documentais, produzindo resultados técnicos que subsidiam investigações e processos. Seu papel não é “confirmar suspeitas”, mas testar hipóteses com base em evidências e registrar limitações, incertezas e alternativas plausíveis.

Atribuições típicas do Perito Criminal na Polícia Civil

Atividades centrais

  • Atendimento a locais: análise do cenário, documentação, identificação e coleta de vestígios, preservando integridade e contexto.
  • Exames laboratoriais e instrumentais: análises físico-químicas, balísticas, documentoscópicas, informática forense, entre outras, conforme a estrutura do órgão.
  • Interpretação técnico-científica: correlação entre vestígios e hipóteses, avaliação de compatibilidades/incompatibilidades e estimativas de dinâmica.
  • Elaboração de documentos técnicos: relatórios, pareceres internos quando cabíveis e, principalmente, laudo pericial com metodologia, resultados e conclusões técnicas.
  • Gestão de cadeia de custódia: registro de coleta, acondicionamento, lacre, transporte, recebimento, armazenamento, processamento e descarte/devolução, garantindo rastreabilidade.
  • Esclarecimentos técnicos: resposta a quesitos, complementações e, quando demandado, explicação do conteúdo técnico em ambiente formal (sempre dentro do que foi examinado e documentado).

Limites de atuação (escopo pericial)

  • Limite material: o perito se pronuncia sobre o que foi efetivamente examinado e documentado. Ausência de vestígio, degradação ou coleta inadequada impõem restrições que devem ser registradas.
  • Limite metodológico: conclusões dependem de métodos validados, instrumentos calibrados e procedimentos reconhecidos. Quando não houver método conclusivo, o perito deve indicar a impossibilidade ou o grau de incerteza.
  • Limite jurídico-funcional: o perito não conduz interrogatório, não decide autoria jurídica e não substitui a autoridade policial ou o Judiciário. Ele fornece informação técnica para subsidiar decisões.
  • Imparcialidade: o perito não atua como parte; deve manter independência técnica, inclusive registrando achados que contrariem a hipótese inicial.

Responsabilidades técnicas

  • Fidelidade ao vestígio: registrar o estado do local/objeto e evitar contaminação, perda ou alteração.
  • Rastreabilidade: manter registros completos (quem, quando, onde, como) de cada etapa.
  • Reprodutibilidade e verificabilidade: descrever procedimentos de forma que outro profissional possa compreender o caminho técnico adotado.
  • Clareza e fundamentação: conclusões devem derivar dos resultados e ser justificadas, evitando afirmações categóricas sem suporte.
  • Sigilo e proteção de dados: especialmente em perícias digitais e documentais, limitar o acesso ao necessário e registrar manuseio.

O que é um exame pericial e quais são seus objetivos

Exame pericial é o procedimento técnico-científico aplicado a um vestígio (ou conjunto de vestígios) para responder a questões objetivas relacionadas ao fato investigado. Ele envolve planejamento, execução controlada, registro e interpretação, culminando em um produto documental.

Objetivos principais do exame pericial

  • Reconstrução de eventos: inferir dinâmica provável (sequência de ações, posições, trajetórias, mecanismos) a partir de padrões materiais.
  • Identificação: atribuir uma natureza/classe ao vestígio (por exemplo, tipo de ferramenta, tipo de arquivo, tipo de substância, tipo de projétil).
  • Individualização: vincular um vestígio a uma fonte específica quando tecnicamente possível (por exemplo, correspondência de marcas, autoria de escrita, associação de dispositivo a artefatos digitais).
  • Correlação: relacionar vestígios entre si e com o contexto (por exemplo, compatibilidade entre danos e mecanismo, coerência entre registros digitais e linha do tempo).

Entregáveis do trabalho pericial: o que compõe o produto

1) Vestígios documentados

O primeiro entregável é a documentação do vestígio, que inclui registros que preservam informação mesmo quando o vestígio é consumido, degradado ou devolvido. Exemplos de documentação:

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  • Fotografias (visão geral, média e detalhe, com referência de escala quando aplicável).
  • Esquemas e croquis (posicionamento de objetos, medidas, orientações).
  • Descrições padronizadas (estado, localização, condições ambientais, integridade).
  • Registros de cadeia de custódia (lacre, embalagem, identificação, movimentações).

2) Relatórios técnicos (registros de procedimento)

Relatórios técnicos podem existir como documentos de suporte (internos ou anexos), contendo detalhes operacionais: instrumentos utilizados, parâmetros, logs, versões de software, calibração, controles, incertezas e limitações. Em perícia digital, por exemplo, logs de aquisição e hashes são parte essencial do registro técnico.

3) Laudo pericial

O laudo pericial é o documento formal que apresenta, de forma estruturada, o que foi solicitado, o que foi examinado, como foi examinado, quais resultados foram obtidos e quais conclusões técnicas podem ser sustentadas. Um laudo robusto costuma conter:

  • Identificação do procedimento, do objeto examinado e das solicitações (quesitos/demandas).
  • Metodologia: técnicas, instrumentos, critérios e condições de exame.
  • Resultados: achados observáveis e mensuráveis, com tabelas/imagens quando necessário.
  • Discussão técnica: interpretação, compatibilidades/incompatibilidades, limitações e hipóteses alternativas.
  • Conclusões: respostas objetivas aos quesitos, no limite do que os dados permitem.
  • Anexos: registros fotográficos, gráficos, logs, listas de evidências, hashes, medições.

Passo a passo prático: fluxo de trabalho do exame pericial

O fluxo abaixo se aplica, com adaptações, a diferentes tipos de perícia (local, laboratório e digital).

1) Recebimento da demanda e definição do escopo

  • Identificar o que se pretende responder (quesitos) e quais objetos/locais serão examinados.
  • Verificar riscos, necessidade de equipamentos e equipe, e prioridades (vestígios perecíveis).
  • Definir limites: o que é possível concluir com os vestígios disponíveis.

2) Preservação e segurança do cenário/objeto

  • Confirmar condições de isolamento e controle de acesso (quando em local).
  • Adotar medidas para evitar contaminação (EPIs, rotas de circulação, áreas limpas).
  • Registrar condições iniciais antes de qualquer manipulação.

3) Documentação sistemática

  • Fotografar e descrever em níveis (geral → particular → detalhe).
  • Medir e posicionar vestígios relevantes (croquis, referências fixas).
  • Registrar quem acessou, o que foi tocado e em que momento.

4) Busca, identificação e seleção de vestígios

  • Aplicar técnicas de varredura compatíveis com o ambiente (visual, luminol/ALS quando aplicável, varredura digital lógica/física etc.).
  • Priorizar vestígios de maior valor informativo e maior risco de perda.
  • Evitar coleta excessiva sem critério, que aumenta custo e ruído interpretativo.

5) Coleta, acondicionamento e cadeia de custódia

  • Coletar com técnica adequada ao tipo de vestígio (biológico, impressões, fragmentos, mídia digital).
  • Acondicionar com embalagem correta (evitar umidade, atrito, campos magnéticos, descargas eletrostáticas).
  • Lacrar, identificar e registrar movimentações e responsáveis.

6) Exames e análises

  • Selecionar métodos validados e controles (padrões, branco, repetição quando necessário).
  • Registrar parâmetros e condições (instrumento, configuração, versão de software).
  • Manter integridade do material (em digital, trabalhar com cópias forenses e verificar hashes).

7) Interpretação e correlação

  • Comparar achados com hipóteses e com outros vestígios do caso.
  • Checar coerência interna (linha do tempo, compatibilidade física, consistência de logs).
  • Explicitar incertezas e limitações (por exemplo, degradação, ausência de amostras, ruído).

8) Produção do laudo e anexos

  • Responder aos quesitos de forma objetiva e fundamentada.
  • Anexar documentação essencial (fotos, tabelas, logs, hashes, medições).
  • Garantir linguagem clara, evitando jargões sem explicação.

Exemplos práticos de demandas periciais comuns e o que se espera do perito

1) Local de morte (suspeita de homicídio, suicídio ou morte acidental)

Objetivo típico: avaliar a dinâmica provável, identificar vestígios relevantes e correlacionar lesões/posições/objetos com hipóteses.

  • O que o perito faz no local: documentação completa do ambiente e do corpo no contexto (posição, roupas, manchas, objetos próximos), registro de acessos e condições (iluminação, portas/janelas, sinais de luta).
  • Vestígios comuns: padrões de manchas, impressões, marcas de arrasto, fragmentos, projéteis/estojos, instrumentos, vestígios biológicos.
  • O que é esperado no produto: descrição técnica do cenário, correlação entre vestígios (por exemplo, trajetória compatível/incompatível com determinada posição), indicação de limitações (alteração do local, intempéries, socorro prévio).

2) Acidentes de trânsito (colisão, atropelamento, capotamento)

Objetivo típico: reconstruir a dinâmica e correlacionar danos, marcas e posições finais com a sequência do evento.

  • Passos práticos no atendimento: delimitar área, fotografar marcas de frenagem/derrapagem, medir distâncias e ângulos, registrar sinalização e condições da via (pavimento, iluminação, clima), documentar danos nos veículos e pontos de impacto.
  • Vestígios comuns: deformações, transferência de material (tinta, plástico), fragmentos, marcas no pavimento, posição final, dados de módulos/registradores quando disponíveis.
  • O que é esperado no laudo: croquis com medidas, descrição de marcas e danos, correlação entre ponto de impacto e trajetória, discussão de fatores que limitam estimativas (remoção de veículos, alteração da cena, ausência de marcas).

3) Crimes patrimoniais (furto, roubo, arrombamento)

Objetivo típico: identificar o modo de acesso, caracterizar instrumentos/ações e buscar vestígios que permitam correlação com suspeitos ou com outros eventos.

  • O que o perito observa: pontos de entrada/saída, padrões de violação (fechaduras, janelas, cofres), sequência provável de deslocamento no ambiente, locais de contato frequente.
  • Vestígios comuns: marcas de ferramenta, impressões papilares, pegadas, fragmentos de material, microvestígios, imagens de CFTV (quando encaminhadas para exame).
  • O que é esperado no produto: caracterização técnica do arrombamento (tipo de marca e compatibilidades), documentação fotográfica detalhada, indicação de áreas com maior probabilidade de contato e limitações (limpeza prévia, grande circulação de pessoas).

4) Crimes digitais (fraudes, invasões, vazamentos, extorsão digital)

Objetivo típico: preservar e analisar dados para estabelecer linha do tempo, identificar artefatos digitais e correlacionar ações em sistemas/dispositivos.

  • Passos práticos essenciais: definir escopo (quais contas, dispositivos, períodos), realizar aquisição forense adequada (imagem/extração), calcular e registrar hashes, trabalhar em cópias, documentar ferramentas e versões.
  • Vestígios comuns: logs de acesso, metadados de arquivos, histórico de navegação, mensagens, artefatos de aplicativos, indicadores de comprometimento, registros de transações.
  • O que é esperado no laudo: descrição do método de aquisição e validação de integridade, apresentação de linha do tempo, correlação entre eventos (por exemplo, login, criação de arquivo, envio de mensagem), explicitação de limites (criptografia, ausência de logs, dados apagados).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao elaborar o laudo pericial, qual prática está mais alinhada às responsabilidades técnicas do Perito Criminal quanto à imparcialidade e aos limites do exame?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O perito deve atuar com imparcialidade e dentro do escopo: concluir a partir de métodos e resultados, registrar limitações/incertezas e indicar alternativas plausíveis, inclusive quando os achados contrariem a hipótese inicial.

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Método científico aplicado à Perícia Criminal: observação, hipóteses, testes e inferência

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