Fundamentos de Rádio VHF na Aviação e no Mar

Capítulo 1

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que é o VHF e como ele é usado operacionalmente

O rádio VHF (Very High Frequency) é o meio padrão de comunicação por voz de curto alcance tanto na aviação quanto no ambiente marítimo. Operacionalmente, ele é usado para coordenação imediata: autorizações, instruções, avisos de tráfego, manobras, segurança e serviços locais. A principal característica prática do VHF é a propagação predominantemente por linha de visada: a comunicação depende de “enxergar” eletricamente a antena da outra estação, com alcance limitado pela curvatura da Terra e por obstáculos.

Frequência x canal: como pensar na seleção correta

Frequência é o valor em MHz no qual o rádio transmite/recebe (ex.: 118.100 MHz na aviação). Canal é uma forma padronizada de “nomear” uma frequência (muito comum no mar, ex.: Canal 16), e em alguns sistemas pode envolver regras de duplex/simplex e espaçamento de canal. Na prática:

  • Aviação: o piloto normalmente seleciona uma frequência específica publicada para um órgão/serviço (TWR/APP/ACC/ATIS etc.).
  • Mar: a operação costuma ser por canais VHF marítimos (ex.: 16 para chamada/escuta, 13 para segurança de navegação em certas áreas, canais portuários/locais), embora tecnicamente sejam frequências associadas.

Boa regra operacional: confirme se você está selecionando o serviço certo (quem você quer chamar) e o meio certo (frequência/canal correto), antes de transmitir.

Cobertura por linha de visada e fatores que mudam o alcance

Linha de visada: o que limita na prática

Como o VHF se comporta quase como “luz” em termos de propagação, o alcance é limitado por:

  • Altura das antenas (sua e da estação remota).
  • Curvatura da Terra (o horizonte rádio).
  • Obstáculos (relevo, prédios, estruturas metálicas, navios, hangares).
  • Posição e polarização da antena (instalação e integridade).

Influência de altitude (aviação)

Na aviação, a altitude aumenta muito a cobertura: quanto mais alto, maior a linha de visada e maior a chance de “pegar” estações distantes. Por isso, é comum:

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  • Em baixa altitude, ter sombras por relevo e perda de contato com órgãos mais distantes.
  • Em cruzeiro, ouvir várias estações e tráfegos de áreas diferentes, aumentando a necessidade de disciplina de escuta para não confundir frequências.

Influência de relevo e obstáculos (mar e aeródromos)

No mar, apesar de a superfície ser relativamente “limpa”, a altura da antena da embarcação costuma ser baixa, então o alcance pode ser limitado. Próximo a portos, canais estreitos, ilhas, falésias e áreas urbanas, podem ocorrer:

  • Sombras atrás de morros/edificações.
  • Reflexões em estruturas metálicas e prédios, causando variações de intensidade e áudio “instável”.

Em aeródromos, hangares, terminais e o próprio relevo ao redor podem bloquear parcialmente o sinal, especialmente no solo.

Diferenças de contexto operacional: aviação x mar

Aviação: TWR, APP e ACC (visão prática)

Órgão/serviçoOnde atuaComo o VHF é usadoO que você tende a ouvir
TWR (Torre)Solo e proximidades do aeródromoInstruções imediatas de taxi, decolagem, pouso, tráfego localMuitas transmissões curtas, alta densidade, chamadas frequentes
APP (Aproximação)Área terminal (chegadas/saídas)Vetoração, sequenciamento, altitudes, procedimentosCoordenação intensa, mudanças de frequência, instruções rápidas
ACC (Centro)En-route (rotas)Separação em rota, níveis, coordenação entre setoresChamadas mais espaçadas, porém com tráfego de grande área

Implicação prática: você alterna frequências conforme muda de fase de voo e de área de controle. A gestão de active/standby e a escuta antes de falar são essenciais para não “entrar” em cima de outra transmissão.

Mar: estações costeiras, portos e embarcações

EstaçãoObjetivo típicoComo o VHF é usado
Estações costeirasCoordenação regional, avisos, suporteChamadas e orientações, retransmissões, tráfego local
Portos/autoridades locaisManobras e segurança em área portuáriaInstruções de entrada/saída, atracação, tráfego em canal
Embarcação ↔ embarcaçãoCoordenação diretaEvitar colisão, cruzamentos, ultrapassagens, acordos de manobra

Implicação prática: em áreas portuárias, o canal correto e a escuta ativa evitam conflitos de manobra. Em mar aberto, o alcance pode ser limitado pela baixa altura das antenas, e a qualidade do áudio pode variar com o estado do mar e a orientação da embarcação.

Monitoramento e escuta ativa: para que servem

Monitoramento é manter o rádio sintonizado no canal/frequência apropriado para receber chamadas e informações relevantes. Escuta ativa é ouvir com intenção: identificar quem está falando, para quem, qual a instrução/aviso, e se aquilo afeta sua operação.

O que observar durante a escuta ativa

  • Ocupação do canal: há muitas transmissões? Há “janelas” para chamar?
  • Qualidade do sinal: está limpo, fraco, com ruído, cortando?
  • Coerência operacional: as mensagens fazem sentido para sua posição/fase (ex.: você está ouvindo o órgão/porto correto)?
  • Risco de sobreposição: se o canal está congestionado, aguarde uma pausa clara antes de transmitir.

Escuta ativa reduz retrabalho: menos repetições, menos “diga novamente”, menos chamadas desnecessárias e menor chance de perder uma instrução importante.

Interferências comuns e limitações práticas do VHF

Interferências e problemas típicos

  • Sobreposição (doubling): duas estações transmitem ao mesmo tempo; o resultado pode ser áudio incompreensível ou “picotado”.
  • Captura por sinal mais forte: um transmissor próximo pode “dominar” o receptor, fazendo você não ouvir um sinal mais fraco.
  • Ruído e estática: pode vir de fontes elétricas a bordo, aterramento ruim, cabos/antenas com mau contato.
  • Intermodulação: em áreas com muitos transmissores (aeródromos grandes, portos, áreas urbanas), sinais podem se misturar e gerar áudio estranho em frequências/canais onde não deveria haver tráfego.
  • Sombras e multipercurso: relevo/estruturas causam variação rápida de intensidade e cortes.

Limitações práticas importantes

  • Não é “além do horizonte” de forma confiável: se você está baixo (avião em circuito/solo; embarcação com antena baixa), espere alcance menor.
  • Congestionamento: em áreas movimentadas, o problema não é potência, e sim tempo de canal disponível.
  • Áudio pode enganar: você pode ouvir bem uma estação e ela ouvir você mal (diferença de potência, antena, posição, obstáculos).

Checagem rápida do equipamento: passo a passo antes de transmitir

Use este roteiro como verificação prática de 10–20 segundos quando algo “não parece certo” ou antes de uma chamada importante.

1) Volume (nível de áudio)

  • Ajuste para ouvir claramente transmissões fracas sem distorção.
  • Se o ambiente está ruidoso (motor/vento), aumente o volume antes de concluir que “não há ninguém na frequência”.

2) Squelch (silenciador)

  • Se o squelch estiver alto demais, sinais fracos não abrem o áudio e você “não ouve nada”.
  • Se estiver baixo demais, você terá ruído constante, mascarando transmissões.
  • Procedimento prático: reduza o squelch até aparecer ruído e então aumente lentamente até o ruído sumir (ponto mínimo de corte), mantendo sensibilidade.

3) Seleção correta de frequência/canal

  • Confirme se está no canal/frequência do serviço desejado (torre/APP/ACC; porto/estação costeira/canal local).
  • Verifique se não houve troca inadvertida ao manipular o painel.

4) Active/Standby (quando aplicável)

  • Confira se a frequência pretendida está no ACTIVE (a que transmite/recebe).
  • Se estiver no STANDBY, faça a troca (swap) conscientemente e reconfira o display.

5) Verificação de áudio e PTT

  • Pressione o PTT e observe se há indicação de transmissão (TX) no equipamento.
  • Se houver monitoramento de sidetone (retorno de áudio), confirme se você se ouve ao falar; ausência pode indicar problema de microfone/PTT/áudio.
  • Cheque conexões de headset/microfone (quando aplicável) e seletores de áudio (ex.: qual rádio está selecionado para ouvir/falar).

6) Escute antes de falar

  • Aguarde alguns segundos para confirmar que a frequência/canal está ativo e para evitar sobreposição.
  • Se você não ouve ninguém, não conclua imediatamente que “está mudo”: pode ser squelch alto, volume baixo, sombra de sinal ou canal errado.

Como reconhecer a qualidade do sinal (e o que fazer antes de insistir)

Padrões comuns de recepção

  • Sinal fraco: áudio baixo, mas inteligível; pode piorar com pequenas mudanças de posição.
  • Sinal com ruído: “chiado” junto da voz; indica baixa relação sinal/ruído ou interferência elétrica.
  • Sinal cortado/picotado: partes da frase somem; típico de sombra por obstáculo, multipercurso, ou sobreposição com outra transmissão.
  • Distorção: voz “estourada” ou metálica; pode ser transmissor saturando, microfone muito próximo, ou problema de áudio.

O que fazer antes de repetir transmissões várias vezes

Se você chamou e não obteve resposta, ou se está ouvindo mal, execute uma sequência curta de ações antes de insistir:

  1. Reconfira o básico: volume, squelch, frequência/canal correto, active/standby, seleção de áudio e PTT.

  2. Escute por 10–20 segundos: verifique se há tráfego (talvez o canal esteja ocupado) e se outras estações estão sendo respondidas.

  3. Mude a posição/orientação quando possível: no solo, avance alguns metros para sair da sombra de hangar/terminal; no mar, ajuste rumo/posição para melhorar linha de visada; na aviação, pequenas mudanças de altitude (quando autorizadas e aplicáveis) podem melhorar muito o contato.

  4. Reduza interferência a bordo: se suspeitar de ruído elétrico, identifique cargas que geram interferência (quando operacionalmente seguro) e verifique conexões/antena.

  5. Tente uma chamada curta e objetiva: evite transmissões longas em sinal ruim; faça uma chamada breve para confirmar contato antes de passar informação extensa.

  6. Se continuar sem contato: considere alternar para outro rádio (se houver), tentar uma estação alternativa apropriada ao contexto (ex.: outro órgão/serviço ou estação costeira/porto), ou buscar melhor cobertura (linha de visada) antes de repetir no mesmo canal congestionado.

Exemplos práticos de leitura de cenário

Cenário (Aviação - solo): você ouve a torre bem fraca e cortando perto do terminal. Ação: aumentar volume, ajustar squelch, confirmar frequência ACTIVE, taxi para fora da “sombra” do prédio (se autorizado), e só então chamar novamente.
Cenário (Mar - porto): canal local com muitas chamadas e você não recebe resposta. Ação: escutar para identificar janelas, confirmar canal correto, checar squelch (muito alto pode “esconder” respostas fracas), e fazer chamada curta quando o canal estiver livre.
Cenário (Aviação - cruzeiro): você ouve várias estações ao fundo e fica em dúvida se está no ACC correto. Ação: confirmar frequência no ACTIVE, comparar com a publicada para o setor, e escutar chamadas destinadas a outras aeronaves para validar se é o órgão esperado antes de transmitir.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao perceber que chamou no VHF e não recebeu resposta, qual atitude inicial mais adequada para reduzir retrabalho e evitar sobreposição antes de insistir na transmissão?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Antes de insistir, a conduta recomendada é checar configurações básicas (volume, squelch, canal/frequência e ACTIVE), escutar para evitar congestão/sobreposição e repetir com chamada curta, reduzindo repetições e erros.

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