O que a diária precisa cobrir (e o que ela precisa gerar)
Uma diária bem definida não é “um número qualquer”: ela precisa pagar a operação, remunerar o negócio e comunicar o posicionamento do hotel. Para começar com consistência, pense na diária como um valor que precisa atender a três objetivos ao mesmo tempo:
- Cobrir custos: tudo o que você gasta para manter o hotel aberto e entregar a hospedagem.
- Gerar lucro: a remuneração do risco e do investimento (e a capacidade de reinvestir em manutenção, melhorias e equipe).
- Sustentar o posicionamento: a diária também “diz” ao mercado que tipo de experiência você oferece (econômico, midscale, superior, boutique etc.).
Custos que a diária precisa cobrir (visão prática)
Para precificar sem se perder, agrupe custos em duas caixas. Isso ajuda a entender o que muda com a ocupação e o que existe mesmo com o hotel vazio.
- Custos fixos (existem mesmo com baixa ocupação): aluguel/financiamento, salários fixos, internet/softwares, contratos, impostos fixos, manutenção preventiva, seguros.
- Custos variáveis (crescem conforme vende mais diárias): lavanderia, amenities, comissões de canais, taxa de cartão, consumo de água/energia por hóspede, café da manhã por pessoa, limpeza por ocupação.
Na prática, a diária precisa “carregar” uma parte dos custos fixos e, ao mesmo tempo, pagar os custos variáveis daquela venda específica. Se você ignora custos variáveis (como comissão e cartão), pode achar que está lucrando quando, na verdade, está apenas girando caixa.
Preço x valor percebido (por que nem sempre o mais barato vence)
Preço é o número cobrado. Valor percebido é o que o hóspede acredita receber em troca desse número. Dois hotéis podem cobrar a mesma diária e serem percebidos como “caro” ou “justo” dependendo de fatores como localização, conforto, café da manhã, estacionamento, atendimento, reputação e fotos.
Exemplo rápido: um quarto standard por R$ 280 pode ser percebido como caro se as fotos são ruins, o quarto parece antigo e o check-in é confuso. O mesmo R$ 280 pode ser percebido como justo se o quarto é bem apresentado, a cama é excelente, há boa acústica, e a comunicação é clara (o hóspede entende o que está comprando).
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Na precificação, isso significa: não basta cobrir custos. Você precisa alinhar a diária ao que o mercado entende como valor para aquele tipo de hospedagem.
Variáveis que movem a diária: o que você decide (e o que o mercado decide)
Para iniciantes, é útil separar variáveis em “alavancas” (o que você configura) e “contexto” (o que muda a demanda). A diária final é o resultado do encontro entre as duas.
1) Tipo de acomodação (inventário e diferenciação)
O tipo de quarto é uma das variáveis mais diretas. Cada categoria deve ter uma lógica de preço própria, porque entrega e custo podem ser diferentes.
- Categoria: standard, superior, luxo, família, suíte etc.
- Capacidade: quantas pessoas cabem com conforto e regra (ex.: 2 adultos; 2+1 criança; 3 adultos).
- Diferenciais: vista, metragem, varanda, banheira, cozinha, acessibilidade.
Dica prática: evite “um preço para tudo”. Mesmo em hotéis pequenos, defina ao menos 2–3 níveis (ex.: Standard / Superior / Família) para não perder receita quando há procura por algo melhor.
2) Público-alvo (por que o mesmo quarto pode ter preços diferentes)
O público-alvo influencia sensibilidade a preço, antecedência de compra e expectativas.
- Corporativo: tende a valorizar localização, rapidez, nota/reputação, nota fiscal, política de cancelamento mais flexível. Pode aceitar preço maior em dias úteis.
- Lazer: tende a comparar mais, valoriza experiência, fotos, café da manhã, estacionamento, políticas para família. Geralmente concentra em fins de semana e férias.
- Grupos/eventos: negociam volume, exigem condições e prazos; podem preencher períodos fracos se bem trabalhados.
Na prática, você pode ter regras de tarifa diferentes por segmento (ex.: tarifa corporativa com cancelamento flexível; tarifa lazer não reembolsável com desconto).
3) Canal de venda (o preço “na vitrine” muda o seu resultado)
O canal não muda apenas a visibilidade; ele muda o custo de vender e, portanto, o preço mínimo saudável.
- Direto (telefone/WhatsApp/site): normalmente menor custo de aquisição; permite mais flexibilidade e relacionamento.
- OTAs (agências online): maior alcance, porém comissões e regras; pode exigir paridade e impactar margem.
- Agências/operadoras: podem trazer volume, mas com condições comerciais e prazos.
Regra prática: se um canal cobra comissão, sua diária “de vitrine” precisa considerar esse custo para não reduzir sua margem sem perceber.
Exemplo numérico simples:
Diária vendida: R$ 300,00 Canal com 15% de comissão: R$ 45,00 Taxa de cartão (2,5%): R$ 7,50 Receita líquida antes de custos operacionais: R$ 247,50Se o seu custo variável por hospedagem (limpeza + lavanderia + amenities + café) for, por exemplo, R$ 70, sobra R$ 177,50 para ajudar a pagar custos fixos e gerar lucro. Esse tipo de conta evita “promoções” que parecem boas, mas não sustentam a operação.
4) Período: semana x fim de semana (padrões de demanda)
Mesmo sem sazonalidade forte, muitos hotéis têm comportamento previsível:
- Hotéis corporativos: maior demanda de segunda a quinta; queda no fim de semana.
- Hotéis de lazer: pico em sexta/sábado e feriados; menor demanda em dias úteis.
Isso pede grades de tarifa diferentes por dia da semana. Se você usa a mesma diária todos os dias, tende a:
- perder receita nos dias de alta (poderia cobrar mais), e/ou
- ficar caro demais nos dias fracos (e vender menos).
5) Sazonalidade (o calendário manda na procura)
Sazonalidade é a variação de demanda ao longo do ano por fatores como férias, clima, calendário escolar, eventos locais e feriados prolongados. Ela afeta duas decisões:
- Quanto cobrar (nível de tarifa).
- Quais regras aplicar (mínimo de noites, cancelamento, não reembolsável).
Organize seu calendário em blocos simples (ex.: baixa, média, alta e super alta) e marque datas especiais (eventos, feriados, congressos). Mesmo uma primeira versão já melhora muito a consistência.
6) Restrições e regras (o “como vender” influencia o “quanto cobrar”)
Restrições são ferramentas para proteger receita e organizar ocupação. Elas não são “complicação”; são controles simples que evitam vender mal em dias críticos.
- Mínimo de noites (MinLOS): ex.: exigir 2 noites em feriado para evitar “buracos” no calendário.
- Fechar para chegada (CTA): permite hospedagens, mas impede check-in em um dia específico (útil para evitar estadias de 1 noite em datas muito disputadas).
- Fechar para saída (CTD): impede check-out em um dia (menos comum, mas útil em alguns cenários).
- Política de cancelamento: flexível x moderada x rígida; quanto mais flexível, maior o risco de cancelamento e, geralmente, maior deve ser a tarifa.
- Não reembolsável: reduz risco e pode permitir desconto controlado.
Exemplo prático: em um feriado de alta procura, você pode combinar tarifa mais alta + mínimo de 2 noites. Em um período fraco, pode usar tarifa mais baixa + flexibilidade para estimular conversão.
Informações mínimas do hotel para começar a precificar com consistência
Antes de mexer em números, organize um “pacote mínimo” de informações. Isso evita decisões no improviso e facilita ajustes semanais.
Checklist 1: Inventário de quartos (o que você tem para vender)
- Lista de categorias (ex.: Standard, Superior, Família).
- Quantidade de unidades por categoria.
- Capacidade por categoria (adultos/crianças, cama extra, berço).
- Características que justificam diferença de preço (vista, metragem, acessibilidade, varanda).
- Restrições físicas (ex.: alguns quartos não aceitam cama extra; alguns são conjugados).
Modelo simples em tabela:
| Categoria | Qtd. | Capacidade padrão | Máx. pessoas | Diferenciais |
|---|---|---|---|---|
| Standard | 10 | 2 | 2 | Sem varanda |
| Superior | 6 | 2 | 3 | Varanda, vista |
| Família | 4 | 3 | 4 | 2 ambientes |
Checklist 2: Capacidade e ocupação (como seu hotel “enche”)
- Ocupação máxima em pessoas e em UH (unidades habitacionais).
- Regras de criança (idade grátis, cobrança, cama extra).
- Política de hóspedes adicionais (valor por pessoa extra, limite por categoria).
Isso é essencial para evitar dois erros comuns: vender um quarto barato para 4 pessoas quando ele foi pensado para 2, ou bloquear receita por não ter regras claras de adicional.
Checklist 3: Políticas atuais (o que você promete ao hóspede)
- Horários: check-in/check-out, early/late (se cobra ou não).
- Cancelamento: prazos, multas, no-show.
- Formas de pagamento: pré-pagamento, parcelamento, depósito, cartão.
- Inclusões: café da manhã, estacionamento, taxas (serviço/turismo), internet.
- Pet e regras de ruído/visitas (se aplicável).
Políticas influenciam valor percebido e risco. Uma tarifa com cancelamento flexível não é “igual” a uma não reembolsável, mesmo que o quarto seja o mesmo.
Checklist 4: Estrutura de canais (onde você vende e quanto custa vender)
- Lista de canais ativos (direto, OTA A, OTA B, agência etc.).
- Comissão por canal e condições (ex.: 15% + impostos; promoções obrigatórias).
- Taxas de pagamento (cartão, antecipação, gateway).
- Quem controla disponibilidade e preço (um responsável e uma rotina).
Sem isso, você pode criar uma tarifa “boa” no papel e descobrir depois que, em um canal específico, ela vira uma tarifa ruim por causa do custo de venda.
Passo a passo prático: montando sua base de precificação em 60–90 minutos
Passo 1 — Monte sua tabela de inventário
Crie uma tabela com categorias, quantidade, capacidade e diferenciais (como no modelo acima). Se houver variações dentro da mesma categoria (ex.: alguns Standard com vista), considere separar em duas categorias para não misturar valor.
Passo 2 — Liste custos variáveis por hospedagem (estimativa inicial)
Mesmo que você ainda não tenha números perfeitos, estime por categoria ou por ocupação:
- Lavanderia (por troca de enxoval)
- Limpeza (tempo/equipe/terceirização)
- Amenities
- Café da manhã (por pessoa)
- Comissão média por canal (se aplicável)
- Taxa de cartão
Organize em um quadro simples para enxergar o “custo por venda”.
Passo 3 — Defina suas regras comerciais mínimas
Escolha um conjunto inicial de regras para evitar inconsistência:
- Política padrão de cancelamento (ex.: até X dias sem multa; depois, 1 diária).
- Uma opção não reembolsável (com desconto controlado).
- Regras de hóspedes adicionais e crianças.
Escreva essas regras em linguagem clara, porque elas afetam conversão e reduzem conflitos no atendimento.
Passo 4 — Crie uma grade simples de períodos
Sem complicar, comece com:
- Semana (dom–qui) e fim de semana (sex–sáb), ou o padrão que fizer sentido para seu perfil.
- Baixa e alta (você pode adicionar “média” depois).
Marque no calendário os feriados e eventos locais que alteram demanda.
Passo 5 — Defina uma “tarifa base” por categoria e aplique variações
Escolha uma tarifa base por categoria (o ponto de partida) e crie variações por período e canal. Um modelo inicial pode ser:
- Standard: Base
- Superior: Base + adicional fixo (ex.: +R$ 40)
- Família: Base + adicional maior (ex.: +R$ 80)
Depois aplique multiplicadores simples por período:
Base (baixa/semana) = 1,00x Fim de semana (baixa) = 1,15x Alta/semana = 1,25x Alta/fim de semana = 1,40xEsses fatores são apenas um ponto de partida. O importante é ter uma lógica repetível.
Passo 6 — Ajuste por canal para proteger margem
Se um canal tem comissão, você pode:
- manter a mesma tarifa pública e aceitar menor margem (estratégia de volume), ou
- criar uma estrutura que preserve resultado (ex.: benefícios no direto, ou tarifas que considerem custo de venda).
O essencial é registrar: qual canal é prioritário e qual margem mínima você quer preservar.
Passo 7 — Documente tudo em uma “folha-mestra”
Reúna em um único documento:
- Inventário por categoria
- Capacidades e regras de adicional
- Políticas (cancelamento, pagamento, horários)
- Canais e comissões
- Grade de períodos (semana/fim de semana; baixa/alta)
- Tarifas base e variações
Essa folha-mestra vira sua referência para não “reinventar” a precificação a cada pedido e para manter consistência entre equipe, canais e comunicação com o hóspede.