Finanças empresariais versus finanças pessoais: separação total do dinheiro

Capítulo 2

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que muda quando o dinheiro é da empresa (e não “seu”)

Finanças empresariais tratam do dinheiro que pertence ao CNPJ e precisa sustentar a operação: compras, impostos, folha, aluguel, marketing, investimentos e reservas. Finanças pessoais tratam do dinheiro do CPF: moradia, alimentação, lazer, dívidas pessoais e objetivos familiares.

Quando as duas coisas se misturam, você perde a capacidade de responder perguntas básicas com precisão, como: “a empresa dá lucro?”, “quanto posso retirar sem quebrar o caixa?” e “qual é o custo real para operar?”. A separação total não é “burocracia”: é o que permite medir resultado e proteger o caixa.

Por que misturar distorce resultados e causa falta de caixa

1) Lucro “falso” e prejuízo “escondido”

Se despesas pessoais entram como se fossem da empresa, o resultado parece pior do que é. Se despesas da empresa são pagas no cartão pessoal e não registradas, o resultado parece melhor do que é. Nos dois casos, você toma decisões com base em números errados (preço, contratação, investimento, retirada).

2) Caixa some sem explicação

O caixa da empresa é finito e tem compromissos com data. Quando você usa o caixa para gastos pessoais, cria um “vazamento” que não está ligado à operação. O problema aparece depois como atraso de fornecedor, imposto ou folha, mesmo que “parecia que tinha dinheiro”.

3) Impostos, contabilidade e riscos

Pagamentos pessoais pela empresa podem ser interpretados como distribuição irregular, adiantamento sem formalização ou despesa não dedutível (dependendo do regime e do tipo de gasto). Além disso, dificulta conciliação bancária e organização de documentos.

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4) Conflito entre sócios e desorganização interna

Quando não há regra clara, cada pessoa “acha” que pode retirar de um jeito. Isso gera discussões, sensação de injustiça e falta de previsibilidade para a empresa.

Separação total na prática: o que implementar

Passo 1) Conta bancária PJ como “coração” do dinheiro da empresa

  • Abra e use uma conta PJ para todas as entradas e saídas do negócio.
  • Defina uma regra simples: venda entra na PJ; despesa da empresa sai da PJ.
  • Evite exceções. Exceção vira hábito e o hábito vira bagunça.

Checklist rápido:

  • Recebimentos (PIX, cartão, boletos) direcionados para a PJ.
  • Pagamentos recorrentes (aluguel, sistemas, impostos) em débito/PIX pela PJ.
  • Transferências para pessoa física apenas com finalidade definida (pró-labore, lucros, reembolso).

Passo 2) Cartão da empresa (e regra de uso)

Tenha um cartão corporativo (crédito ou débito) para despesas do negócio. O objetivo é rastreabilidade: cada gasto precisa ter justificativa e comprovante.

  • Regra 1: cartão PJ só para despesas da empresa.
  • Regra 2: toda compra precisa de comprovante (nota, recibo, fatura detalhada).
  • Regra 3: se alguém usar o cartão PJ para algo pessoal, vira retirada do sócio (registrada) ou deve ser devolvido ao caixa em até X dias (política interna).

Passo 3) Pró-labore: salário do sócio que trabalha

Pró-labore é a remuneração do sócio/administrador pelo trabalho na empresa. Ele deve ser fixo ou com regra clara (ex.: valor mensal) e pago em data definida, como se fosse uma folha.

  • Como fazer: defina valor, data de pagamento e conta de destino (CPF).
  • Por que ajuda: cria previsibilidade pessoal e evita “beliscar” o caixa ao longo do mês.

Exemplo: pró-labore de R$ 4.000 todo dia 5. Se o sócio precisa de mais dinheiro, não “passa no caixa”; ele avalia retirada de lucros (se houver) ou ajuste formal do pró-labore para os próximos meses.

Passo 4) Retirada de lucros: distribuição do que sobrou (com regra)

Lucro é o que sobra depois de pagar custos e despesas do negócio. A retirada de lucros deve seguir uma política: periodicidade, percentual e condição mínima de caixa.

Política simples (modelo):

  • Periodicidade: mensal ou trimestral.
  • Condição: só distribuir se não houver contas em atraso e se a empresa mantiver um caixa mínimo (ex.: 1 mês de despesas fixas).
  • Percentual: distribuir até X% do lucro apurado no período (ex.: 50%), mantendo o restante para reinvestimento e reserva.

Importante: retirada de lucros não é “qualquer valor quando dá”. É uma decisão baseada em apuração e capacidade de caixa.

Passo 5) Reembolso de despesas: quando o sócio/funcionário paga algo da empresa

Às vezes alguém paga uma despesa da empresa com dinheiro pessoal (por urgência ou falta de cartão PJ). Isso não deve virar bagunça: vira reembolso com registro e comprovante.

Regra de reembolso (simples e funcional):

  • Prazo para solicitar: até X dias após a compra.
  • Obrigatório: comprovante + descrição do motivo + centro de custo (ex.: “entrega”, “insumos”, “visita comercial”).
  • Forma de pagamento: transferência da PJ para o CPF do pagador, identificada como “reembolso”.

O que não é reembolso: gasto pessoal “disfarçado” (mercado, farmácia, lazer) sem relação com a operação.

Situações comuns (e como corrigir sem drama)

Situação 1: “Paguei o mercado com dinheiro do caixa”

O que acontece: o caixa da empresa diminui, mas a despesa não tem relação com a operação. Se você lança como “despesa da empresa”, o resultado fica pior e você perde noção do custo real do negócio.

Como corrigir (duas opções):

  • Opção A — Devolução: transfira do CPF para a conta PJ o mesmo valor e registre como “reposição de caixa/estorno de retirada”.
  • Opção B — Retirada do sócio: registre como “retirada do sócio (antecipação)” e desconte do próximo pró-labore ou trate como retirada de lucros (se houver política e base para isso).

Política simples para evitar repetição: “Gastos pessoais nunca saem da conta PJ. Se acontecer, deve ser devolvido em até 48h ou será descontado do pró-labore.”

Situação 2: “Usei meu cartão pessoal para pagar um fornecedor da empresa”

O que acontece: a empresa teve uma despesa real, mas ela não aparece no extrato PJ. O resultado pode parecer melhor do que é, e você perde controle de quanto a empresa realmente custa.

Como corrigir:

  • Registre a despesa na empresa com a data e o fornecedor corretos.
  • Classifique como “despesa paga por sócio/funcionário a reembolsar”.
  • Faça o reembolso pela conta PJ, com descrição “reembolso fornecedor X”.

Política simples: “Compras de fornecedor devem ser pagas pela PJ. Se for inevitável usar cartão pessoal, o reembolso só ocorre com nota/recibo e aprovação.”

Situação 3: “Paguei uma conta da empresa com meu dinheiro e esqueci de registrar”

Risco: você acha que a empresa está sobrando dinheiro, mas parte do custo ficou “fora” dos números. Isso leva a retirada excessiva e falta de caixa depois.

Correção rápida:

  • Liste os pagamentos pessoais feitos para a empresa no mês (cartão, PIX, boleto).
  • Para cada um, registre como despesa da empresa + obrigação de reembolso (ou como aporte, se você decidir não reembolsar).
  • Guarde comprovantes em uma pasta única (digital) por mês.

Situação 4: “A empresa pagou minha internet/celular”

Depende do caso: se é uma linha/plano usado no trabalho, pode ser despesa da empresa (idealmente com contrato/linha em nome da empresa ou política de uso). Se é uso majoritariamente pessoal, vira retirada do sócio ou reembolso parcial.

Como organizar:

  • Defina uma regra: “Empresa paga até R$ X do plano usado para trabalho” ou “Empresa reembolsa 50% mediante fatura”.
  • Registre sempre do mesmo jeito (consistência).

Políticas simples que resolvem 80% do problema

1) Regra de ouro: três tipos de transferência PJ → PF

Para manter clareza, toda saída da PJ para CPF deve ser classificada como:

  • Pró-labore (remuneração pelo trabalho)
  • Lucros (distribuição do resultado, conforme política)
  • Reembolso (devolução de gasto da empresa pago por pessoa física)

Se não se encaixa em nenhum dos três, provavelmente é retirada indevida e precisa ser tratada como retirada do sócio com ajuste/devolução.

2) Um formulário simples de reembolso

Você pode usar um modelo padrão (papel, planilha ou sistema), com campos mínimos:

  • Data
  • Quem pagou
  • Fornecedor
  • Motivo/atividade
  • Valor
  • Comprovante anexado (sim/não)
  • Aprovador

3) Um “dia fixo” para pagamentos e um “dia fixo” para retiradas

Rotina reduz improviso. Exemplo:

  • Pagamentos a fornecedores: segundas e quintas
  • Reembolsos: toda sexta
  • Pró-labore: dia 5
  • Lucros: dia 15 (se cumprir condições)

Exemplo prático de registros (para não distorcer o resultado)

Imagine que a empresa tinha R$ 10.000 no caixa. No mês:

  • R$ 600 de mercado pago com dinheiro da empresa (pessoal)
  • R$ 1.200 de fornecedor pago no cartão pessoal do sócio (empresa)
EventoComo NÃO registrarComo registrar corretamente
Mercado (pessoal) pago pela PJDespesa operacionalRetirada do sócio (ou devolução ao caixa)
Fornecedor (empresa) pago no cartão pessoalNão registrar (fica “invisível”)Despesa operacional + reembolso a pagar ao sócio

Com o registro correto, você enxerga: (1) o custo real da operação (fornecedor), (2) o que foi retirada pessoal (mercado) e (3) o que a empresa ainda deve reembolsar.

Implementação em 7 dias (roteiro enxuto)

Dia 1: Definir as regras

  • Escreva as 3 categorias de transferência PJ→PF (pró-labore, lucros, reembolso).
  • Defina prazo de devolução para gastos pessoais pagos pela PJ.

Dia 2: Estruturar contas e meios de pagamento

  • Conta PJ ativa e centralizada.
  • Cartão PJ para despesas do negócio.

Dia 3: Pró-labore

  • Defina valor e data fixa.
  • Programe transferência recorrente (se possível).

Dia 4: Política de lucros

  • Defina periodicidade e condição mínima de caixa.

Dia 5: Política de reembolso

  • Crie formulário e pasta de comprovantes por mês.

Dia 6: Limpeza do passado (últimos 30 dias)

  • Liste gastos pessoais pagos pela PJ e trate como retirada/devolução.
  • Liste gastos da empresa pagos no CPF e registre para reembolso.

Dia 7: Rotina

  • Escolha dias fixos para pagamentos, reembolsos e retiradas.
  • Combine com sócios/equipe e aplique sem exceções.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Qual prática ajuda a evitar distorções no lucro e falta de caixa ao separar finanças empresariais das pessoais?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A separação total exige conta PJ como centro do dinheiro e regras claras para saídas PJ→PF (pró-labore, lucros ou reembolso). Isso evita lucro “falso”, prejuízo “escondido” e vazamentos de caixa sem explicação.

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Receita nas finanças empresariais: entradas, faturamento e recebimentos

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