Tracking difference vs. tracking error: dois números, duas perguntas diferentes
Ao avaliar um ETF, é comum ver a frase “acompanha o índice”. Na prática, nenhum ETF replica um índice com perfeição o tempo todo. Por isso, dois conceitos ajudam a medir o “quão perto” o ETF ficou do índice: tracking difference e tracking error. Eles não são sinônimos e respondem a perguntas diferentes.
Tracking difference (TD): “em média, ficou acima ou abaixo do índice?”
Tracking difference é o desvio médio do retorno do ETF em relação ao retorno do índice no mesmo período. Em outras palavras, mede o quanto o ETF entregou a mais ou a menos do que o índice, em média.
- TD negativo: o ETF ficou, em média, abaixo do índice (o caso mais comum).
- TD próximo de zero: o ETF acompanhou bem o índice no período.
- TD positivo: o ETF superou o índice (pode acontecer por fatores específicos, mas exige entender o motivo).
Exemplo simples (anual): índice +10,0% no ano; ETF +9,4% no ano. Então o tracking difference aproximado é 9,4% - 10,0% = -0,6 p.p..
Tracking error (TE): “o desvio foi estável ou oscilou muito?”
Tracking error mede a variabilidade do desvio entre ETF e índice ao longo do tempo. Ou seja, não é “quanto ficou abaixo”, mas o quanto esse abaixo/acima variou de um período para outro.
- TE baixo: o ETF tende a ficar consistentemente perto do índice (mesmo que um pouco abaixo por custos).
- TE alto: o ETF às vezes fica bem perto, às vezes se afasta bastante; o acompanhamento é menos previsível.
Exemplo intuitivo (mensal): se em vários meses o ETF fica sempre ~0,05 p.p. abaixo do índice, o TE tende a ser baixo. Se em alguns meses fica 0,05 p.p. abaixo e em outros 0,50 p.p. abaixo (ou até acima), o TE tende a ser mais alto.
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Como TD e TE se complementam na análise
| Você quer saber… | Olhe principalmente… | Interpretação prática |
|---|---|---|
| Quanto o ETF “perdeu” (ou ganhou) vs. índice no período | Tracking difference | Mostra o custo/benefício líquido do acompanhamento no horizonte analisado |
| Se o acompanhamento é consistente ao longo do tempo | Tracking error | Mostra previsibilidade do desvio (estabilidade do tracking) |
| Se um ETF é “barato” mas vive se afastando do índice | Ambos | TD pode parecer bom em um ano, mas TE alto pode indicar risco de desvios inesperados |
Principais fontes de desvio entre ETF e índice
O desvio não acontece “por acaso”. Abaixo estão fontes comuns que afetam o tracking difference (desvio médio) e/ou aumentam o tracking error (variabilidade).
1) Taxas do ETF (administração, gestão, custódia etc.)
Taxas recorrentes tendem a gerar tracking difference negativo relativamente estável. Em geral, quanto maior a taxa, maior o “desconto” do ETF em relação ao índice, mantendo o resto constante.
Leitura prática: se o índice é “total return” e o ETF reinveste dividendos, um TD anual próximo de -taxa total (mais outros custos) é esperado.
2) Custos de transação e fricções de rebalanceamento
Quando o ETF compra e vende ativos para seguir o índice (rebalanceamentos, entradas/saídas de papéis, ajustes de pesos), ele paga custos: corretagens, emolumentos, impacto de mercado, bid-ask dos ativos da carteira. Isso tende a:
- piorar o tracking difference (custo líquido);
- aumentar o tracking error em períodos de maior giro, volatilidade ou baixa liquidez dos ativos do índice.
3) Replicação por amostragem (sampling) vs. replicação completa
Alguns ETFs não compram todos os ativos do índice (especialmente quando o índice tem muitos componentes, ativos pouco líquidos ou restrições operacionais). Em vez disso, usam amostragem para aproximar o comportamento do índice.
- Pode manter TD razoável, mas
- pode elevar TE, porque a carteira “aproximada” nem sempre se comporta igual ao índice em todos os cenários (setores, fatores, eventos específicos).
4) Dividendos: reinvestimento vs. distribuição e o tipo de índice (price vs. total return)
Dividendos são uma das maiores fontes de confusão ao comparar ETF e índice. Existem dois pontos críticos:
- O índice de referência é “price return” ou “total return”? Índice price ignora dividendos; índice total return considera dividendos reinvestidos (normalmente brutos ou líquidos, dependendo da metodologia).
- O ETF reinveste ou distribui dividendos? Se o ETF distribui, o preço da cota pode cair na data “ex” (ajuste), e o retorno total do investidor depende de reinvestir ou não o provento.
Como isso afeta TD/TE: comparar um ETF que distribui dividendos (olhando só a variação de preço) contra um índice total return quase sempre cria um “desvio” artificial. O correto é comparar retorno total do ETF (preço + proventos) com o índice equivalente.
5) Tributação no nível do fundo
Em alguns mercados/estruturas, o fundo pode sofrer retenções ou impostos sobre dividendos recebidos, ganhos de capital, ou eventos corporativos. Se o índice assume dividendos “brutos” e o ETF recebe “líquidos”, o ETF tende a ter tracking difference negativo adicional.
Leitura prática: quando a metodologia do índice presume uma tributação diferente da efetiva no veículo, o TD pode ser persistentemente pior do que “taxa de administração + custos operacionais”.
6) Timing de rebalanceamentos e eventos corporativos
Índices têm regras e datas de rebalanceamento. O ETF tenta acompanhar, mas pode haver diferenças de timing por:
- janelas operacionais (executar ao longo do dia vs. no fechamento);
- fluxos de criação/resgate de cotas;
- restrições de negociação em determinados ativos;
- tratamento de eventos corporativos (desdobramentos, grupamentos, spin-offs).
Essas diferenças tendem a aumentar o tracking error em períodos específicos (rebalanceamentos, mudanças grandes no índice).
Passo a passo: como comparar ETF vs. índice de forma consistente
O objetivo aqui é evitar comparações “injustas” (que geram alarmes falsos) e identificar desvios reais.
Passo 1 — Identifique o índice exato e a versão correta
Nos documentos do ETF (ficha, lâmina, relatório, regulamento), encontre:
- nome do índice;
- provedor do índice;
- moeda do índice (se aplicável);
- versão: price return vs. total return (e se TR é bruto ou líquido).
Checklist rápido: se o ETF reinveste dividendos, prefira comparar com índice total return. Se o ETF distribui, compare retorno total do ETF (incluindo proventos) com o índice equivalente.
Passo 2 — Use o mesmo horizonte e a mesma frequência
Escolha um período e mantenha consistência:
- Horizonte: 1 ano, 3 anos, 5 anos (ou desde o início do ETF).
- Frequência: mensal costuma ser um bom equilíbrio para TE; diária pode “inflar” ruídos por microdiferenças de precificação.
Evite comparar “ETF em 12 meses” com “índice no ano-calendário” sem alinhar datas.
Passo 3 — Compare retornos totais (quando aplicável)
Se houver distribuição de dividendos, some os proventos ao retorno do período (ou use uma série de retorno total do ETF, se o relatório fornecer). Se você comparar apenas preço da cota com índice total return, o TD ficará artificialmente negativo.
Passo 4 — Calcule o tracking difference do período
Com retornos do mesmo período:
TD = Retorno do ETF - Retorno do ÍndiceFaça isso para 1 ano e também para períodos mais longos (ex.: 3 e 5 anos), porque um único ano pode ser atípico (rebalanceamentos, volatilidade, eventos).
Passo 5 — Estime o tracking error com retornos periódicos
Usando retornos mensais (exemplo), calcule a série de diferenças:
Diferença_mês = Retorno_ETF_mês - Retorno_Índice_mêsO tracking error é a variabilidade dessas diferenças (na prática, costuma-se usar o desvio-padrão dessas diferenças e, às vezes, anualizar). Mesmo sem fazer a conta, você pode observar:
- diferenças mensais sempre próximas de um valor constante → TE tende a ser baixo;
- diferenças mensais “espalhadas” (ora muito negativas, ora menos, às vezes positivas) → TE tende a ser alto.
Passo 6 — Confronte o TD esperado vs. o observado
Monte uma expectativa simples do que poderia explicar o TD:
- taxas recorrentes;
- custos de transação estimados (maiores em índices com mais giro);
- diferenças de dividendos (TR vs PR; bruto vs líquido);
- tributação no nível do fundo (se aplicável).
Exemplo de raciocínio: se a taxa total é 0,30% a.a. e o índice é total return compatível, um TD de aproximadamente -0,30% a -0,70% a.a. pode ser plausível dependendo do mercado e do giro. Um TD de -2,0% a.a. persistente pede investigação.
Onde encontrar essas informações nos relatórios do ETF (o que procurar)
1) Seção de desempenho (performance)
- verifique se a performance do ETF é apresentada como retorno total;
- confira o benchmark e se há nota sobre TR/PR;
- observe tabelas de retorno por períodos (mês, ano, 12m, 24m, 36m).
2) Seção de “tracking” (quando existir)
Alguns emissores mostram tracking difference e/ou tracking error diretamente. Quando aparecer:
- confira a janela (ex.: 1 ano, 3 anos);
- confira a frequência (diária, mensal);
- confira se é baseado em retorno total do ETF e qual versão do índice.
3) Carteira, giro e operações
- nível de aderência à composição do índice (replicação completa vs. amostragem);
- indicadores de giro/turnover (quando divulgados);
- comentários sobre rebalanceamentos e eventos relevantes no período.
4) Proventos e política de dividendos
- se o ETF distribui ou reinveste;
- calendário e valores distribuídos;
- impacto esperado na comparação com o índice.
Sinais de alerta: quando o desvio merece investigação
Desvios persistentes sem explicação
- TD muito pior do que taxas + custos plausíveis, repetido por vários períodos (ex.: 1, 3 e 5 anos).
- TE alto de forma crônica em um índice que, pela natureza, deveria ser fácil de replicar (ex.: poucos ativos líquidos), sem justificativa clara (amostragem, restrições, eventos).
Comparação “errada” sendo usada para mascarar problema
- ETF com dividendos distribuídos comparado a índice total return usando apenas preço;
- benchmark divulgado que não é a versão correta do índice (moeda, TR/PR, bruto/líquido).
Saltos de desvio em datas recorrentes
Se você observa que o ETF se afasta do índice sempre em certas janelas (rebalanceamentos, datas de dividendos, eventos corporativos), isso pode indicar:
- custo elevado de execução;
- timing diferente do índice;
- restrições operacionais na replicação.
Diferença grande entre retorno do ETF e retorno da carteira divulgada
Quando relatórios mostram retorno da carteira vs. retorno do ETF, divergências relevantes podem sugerir efeitos de:
- caixa e arrasto (cash drag);
- custos e impostos;
- precificação/valorização em horários diferentes (especialmente em ativos internacionais).
Mini-roteiro prático de checagem (em 10 minutos)
- 1) Anote o benchmark exato e se é TR ou PR.
- 2) Confirme se o retorno do ETF no relatório é total (inclui dividendos) ou apenas preço.
- 3) Compare ETF vs. índice no mesmo período (ex.: 12 meses terminando na mesma data).
- 4) Calcule TD do período (diferença de retornos).
- 5) Olhe diferenças mensais (se disponíveis) para sentir o TE (estável vs. espalhado).
- 6) Verifique se o TD observado faz sentido frente a taxas, dividendos e possíveis impostos.
- 7) Se houver desvio persistente, procure no relatório: amostragem, giro, rebalanceamentos, restrições e notas de tributação.