ETFs para Iniciantes: Liquidez, volume, formador de mercado e execução de ordens

Capítulo 6

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Liquidez: o que é e por que importa no ETF

Liquidez é a facilidade de comprar ou vender um ETF rapidamente, em quantidade, com pouca diferença entre o preço que você aceita pagar e o preço que você aceita receber. Na prática, liquidez aparece em dois lugares: (1) no mercado secundário (negociação do ETF na bolsa) e (2) na capacidade do ecossistema do ETF (participantes autorizados e formador de mercado) de manter o preço do ETF próximo ao valor da carteira que ele representa.

Para o investidor, liquidez é relevante porque afeta: custo de execução (via spread e “escorregão” de preço), probabilidade de execução (ordens que não pegam) e risco em momentos de estresse (spreads abrem e o book pode ficar raso).

Liquidez não é só “volume alto”

Volume ajuda, mas o que você quer observar é a combinação de: volume médio diário, número de negócios, profundidade do book, spread e presença/atuação de formador de mercado. Um ETF pode ter volume razoável, mas com poucos negócios e book raso (liquidez frágil). Outro pode ter volume menor, porém com formador de mercado ativo e spread estreito (liquidez funcional).

Como avaliar liquidez na prática (checklist de leitura de tela)

1) Volume médio diário

O volume médio diário (em quantidade de cotas e/ou em dinheiro) indica o quanto o ETF costuma girar. Use como referência inicial para saber se sua ordem é pequena ou grande em relação ao fluxo normal.

  • Boa prática: compare o tamanho da sua ordem com o volume médio diário. Quanto maior a sua ordem em relação ao volume, maior a chance de impactar o preço e pagar mais spread/escorregão.
  • Armadilha comum: olhar apenas o volume de um dia específico (que pode estar inflado por um evento) e ignorar a média.

2) Número de negócios (trades)

O número de negócios mostra se o volume está distribuído em várias negociações (mais “orgânico”) ou concentrado em poucas (potencialmente menos confiável). Muitos negócios ao longo do dia tendem a indicar um mercado mais “vivo”.

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  • Sinal de atenção: volume alto com pouquíssimos negócios pode significar que o ETF negocia em “blocos” e fica parado no restante do tempo, aumentando o risco de spreads maiores quando você precisar executar.

3) Book de ofertas (profundidade e consistência)

O book (livro de ofertas) mostra as melhores ofertas de compra (bid) e venda (ask) e, dependendo da corretora, vários níveis de preço com suas quantidades. Avalie:

  • Profundidade: há quantidade suficiente nos primeiros níveis para absorver sua ordem sem “varrer” muitos preços?
  • Consistência: as ofertas aparecem e somem rapidamente (book “nervoso”) ou ficam estáveis?
  • Simetria: há ofertas razoáveis dos dois lados (compra e venda) ou um lado está vazio?

Exemplo prático: você quer comprar 2.000 cotas. No book, o melhor ask tem 300 cotas, o próximo 200, depois 150… Se você mandar ordem a mercado, pode consumir vários níveis e terminar com preço médio bem acima do primeiro ask. Nesse caso, uma ordem limitada ou fracionamento em partes pode reduzir o custo.

4) Spread (diferença entre bid e ask)

Spread é a diferença entre o melhor preço de venda (ask) e o melhor preço de compra (bid). Ele é um termômetro direto do custo de entrar e sair rapidamente.

  • Como medir: observe bid e ask e calcule o spread em %: (ask - bid) / ((ask + bid)/2).
  • Interpretação: spreads menores tendem a indicar melhor liquidez e menor custo de execução. Spreads maiores podem tornar caro comprar e vender em sequência, além de aumentar o risco de pagar “caro demais” numa ordem a mercado.

Boa prática: compare o spread do ETF em diferentes horários do dia. Em muitos ativos, o spread é pior perto da abertura e pode piorar em momentos de volatilidade.

5) Presença de formador de mercado (market maker)

O formador de mercado é um participante que busca manter ofertas de compra e venda no book, ajudando a dar continuidade às negociações e a reduzir spreads. Em ETFs, a atuação do formador de mercado pode ser especialmente importante quando o fluxo “natural” de investidores é baixo.

  • O que observar na prática: se há ofertas frequentes e relativamente estáveis nos dois lados do book, com quantidades razoáveis e spread mais contido.
  • Sinal de atenção: book com “buracos” (sem ofertas) ou spreads que abrem muito e ficam abertos por tempo prolongado.

Execução de ordens: tipos e quando usar

Ordem a mercado

Na ordem a mercado, você aceita executar pelo melhor preço disponível naquele momento. A vantagem é a maior chance de execução imediata; o risco é pagar (ou receber) um preço pior do que o esperado, especialmente em ETFs com book raso ou spread alto.

  • Quando faz mais sentido: quando o ETF é muito líquido, com spread estreito e book profundo, e sua ordem é pequena em relação ao volume.
  • Quando evitar: baixa liquidez, spread aberto, momentos de estresse, ou quando sua ordem é grande e pode “varrer” o book.

Ordem limitada

Na ordem limitada, você define o preço máximo que aceita pagar (compra) ou o preço mínimo que aceita receber (venda). A vantagem é controlar o preço; a desvantagem é o risco de não executar (ou executar parcialmente).

  • Uso típico em ETFs: colocar a compra próxima ao ask (ou entre bid e ask) e ajustar gradualmente se não houver execução, em vez de aceitar qualquer preço.
  • Boa prática: se o spread estiver largo, uma ordem limitada pode reduzir o custo ao evitar pagar o topo do spread em um momento ruim.

Boas práticas para reduzir custos de execução

1) Escolha horários com melhor liquidez

Em muitos casos, a liquidez melhora após os primeiros minutos de pregão, quando o mercado “assenta” e o book ganha profundidade. Também pode piorar perto do fechamento, quando há ajustes e maior volatilidade em alguns ativos.

  • Prática recomendada: prefira operar fora dos extremos do dia (abertura e últimos minutos), a menos que você tenha um motivo específico e esteja confortável com spreads potencialmente maiores.
  • Se o ETF tiver exposição a ativos de outros mercados: observe se o horário de negociação do mercado de referência está aberto, pois isso pode influenciar a qualidade de preço e o spread.

2) Compare o tamanho da sua ordem com a profundidade do book

Antes de enviar a ordem, verifique quantas cotas existem no melhor bid/ask e nos níveis seguintes. Se sua ordem for maior do que a quantidade disponível nos primeiros níveis, você pode:

  • Fracionar a ordem (ex.: 4 ordens menores ao longo de alguns minutos).
  • Usar ordem limitada para evitar “varrer” vários níveis de preço.
  • Aguardar momentos em que o book esteja mais cheio (mais ofertas no ask, no caso de compra).

3) Use o spread como “semáforo”

Transforme o spread em um critério objetivo:

  • Se o spread estiver estreito e estável, a execução tende a ser mais eficiente.
  • Se o spread estiver largo ou oscilando, prefira ordem limitada e reduza o tamanho por envio.

Exemplo prático: você observa que o spread típico do ETF durante o dia é de 0,10%, mas agora está em 0,40%. Isso pode indicar momento ruim (baixa liquidez pontual ou volatilidade). Uma alternativa é esperar normalizar ou usar limite mais conservador.

4) Cuidado com momentos de estresse (volatilidade e notícias)

Em momentos de estresse, é comum ver: book mais raso, spreads abrindo, ofertas “sumindo” e maior risco de execução ruim em ordem a mercado.

  • Boas práticas: reduzir tamanho, usar ordens limitadas, aceitar execução parcial e evitar perseguir preço (ficar aumentando o limite rapidamente).
  • Sinal de alerta no book: grandes saltos entre níveis de preço (degraus), indicando pouca liquidez intermediária.

5) Evite “armadilhas” de baixa liquidez

  • Negociar quando quase não há negócios: se o ETF passa longos períodos sem trades, o preço exibido pode estar “desatualizado” e o spread pode ser enganoso.
  • Confiar em último preço (last) como referência: o último negócio pode ter ocorrido há minutos; prefira olhar bid/ask e o book.
  • Enviar ordem grande de uma vez: em ETF pouco líquido, isso aumenta escorregão e pode chamar atenção de arbitradores contra você.

Passo a passo: roteiro de verificação antes de comprar um ETF

Passo 1 — Verifique o “ambiente” do momento

  • Há volatilidade incomum no mercado hoje?
  • O spread está maior do que o normal para esse ETF?
  • O book parece raso ou instável?

Passo 2 — Meça sua ordem vs. liquidez

  • Anote o volume médio diário e compare com a sua ordem (em R$ e em cotas).
  • Olhe o número de negócios: há fluxo constante?
  • Confira a profundidade do book: sua ordem cabe nos primeiros níveis sem varrer muitos preços?

Passo 3 — Defina um spread “aceitável” para você

Crie uma regra simples antes de operar. Por exemplo:

  • Se o spread estiver dentro do seu padrão (ex.: “até X%”), você pode executar com mais tranquilidade.
  • Se estiver acima, use ordem limitada, reduza tamanho, ou aguarde.

Para operacionalizar, calcule rapidamente o spread percentual usando bid/ask e compare com o que você observa normalmente nesse ETF.

Passo 4 — Escolha o tipo de ordem

  • ETF líquido + ordem pequena + spread estreito: ordem limitada próxima ao ask (compra) ou ao bid (venda) costuma ser eficiente; ordem a mercado pode ser aceitável, mas ainda assim é mais arriscada.
  • ETF menos líquido ou spread largo: prefira ordem limitada e considere fracionar.

Passo 5 — Defina o preço limite de forma prática

Três abordagens comuns:

  • No ask (compra): maior chance de execução rápida, ainda com controle de preço.
  • No meio do spread: pode reduzir custo, mas pode demorar ou não executar.
  • Escalonamento: começar no meio e, se não executar, ajustar em pequenos passos até um limite máximo aceitável.

Passo 6 — Monitore execução e evite “perseguir” o preço

  • Se executar parcialmente, avalie se o book continua saudável antes de completar.
  • Se o spread abrir enquanto sua ordem está ativa, considere cancelar e reavaliar.
  • Se o mercado estiver rápido, priorize controle de preço (limite) em vez de pressa (mercado).

Tabela rápida: sinais de boa vs. má liquidez (na tela)

IndicadorMais saudávelSinal de atenção
Volume médio diárioCompatível com seu tamanho de ordemSua ordem é grande vs. volume
Número de negóciosMuitos trades ao longo do diaPoucos trades, longos intervalos
BookProfundo, com níveis próximosRaso, “degraus” grandes de preço
SpreadEstreito e estávelLargo e oscilando
Formador de mercadoOfertas frequentes nos dois ladosBook vazio, ofertas somem rápido

Mini-exemplo de decisão (aplicando o roteiro)

Cenário: você quer comprar 10.000 reais de um ETF. Ao abrir o book, vê spread maior que o usual e pouca quantidade no ask.

  • Ação 1: em vez de ordem a mercado, você define uma ordem limitada no meio do spread ou levemente abaixo do ask.
  • Ação 2: fraciona em 2 a 4 partes para testar a liquidez real.
  • Ação 3: se o spread normalizar e o book encher, você completa a posição; se piorar, você pausa e evita pagar caro em um momento ruim.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao avaliar a liquidez de um ETF antes de enviar uma ordem, qual análise é mais adequada para reduzir o custo de execução e evitar “escorregão” de preço?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Liquidez em ETFs não é só volume: envolve spreads, profundidade do book, número de trades e a presença de formador de mercado. Ao combinar esses sinais, você escolhe melhor entre ordem limitada/mercado e pode fracionar para evitar varrer o book e pagar caro.

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