O que é “estrutura” do fluxo de caixa (e por que ela muda suas decisões)
Estruturar o fluxo de caixa significa definir um plano de contas (categorias padronizadas de entradas e saídas) para que cada lançamento seja classificado sempre do mesmo jeito. Sem essa estrutura, o fluxo vira apenas uma lista de movimentos; com estrutura, ele vira um painel de leitura: você enxerga de onde vem o dinheiro, para onde vai e o que está pressionando o caixa (taxas, impostos, folha, fornecedores, marketing etc.).
Uma boa estrutura precisa ser: simples (para ser usada todo dia), padronizada (para comparar meses) e útil para decisão (mostrar alavancas e problemas).
Como montar um plano de contas simples e útil (passo a passo)
Passo 1 — Defina o objetivo de análise
Antes de criar categorias, responda: quais decisões você quer tomar com o fluxo?
- Controlar pressão de taxas (cartão, marketplace, banco)?
- Separar impostos de outras despesas?
- Entender peso de folha vs fornecedores?
- Comparar canais (loja, delivery, serviços)?
Essas respostas determinam o nível de detalhe (granularidade) e se você vai usar centros de custo e tags.
Passo 2 — Crie duas grandes famílias: Entradas e Saídas
Comece com o essencial e só depois refine. Um modelo prático para pequenas empresas:
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- Entradas: tudo que aumenta o saldo (recebimentos).
- Saídas: tudo que diminui o saldo (pagamentos).
Passo 3 — Defina subcategorias padrão de Entradas
Use subcategorias que reflitam forma de recebimento (ajuda a conciliar com extratos e entender prazos/taxas) e/ou tipo de receita (ajuda a entender mix). Um conjunto enxuto e comum:
- Vendas à vista (dinheiro/PIX)
- Recebimentos de cartão (crédito/débito)
- Boletos/transferências
- Outras receitas (ex.: juros recebidos, aluguel de equipamento, reembolso)
Se você vende em marketplace/app, pode criar “Recebimentos de marketplace” separado de “Recebimentos de cartão” para enxergar o custo do canal.
Passo 4 — Defina subcategorias padrão de Saídas
Para saídas, priorize categorias que representem “alavancas” de gestão e itens recorrentes:
- Fornecedores (compra de mercadorias/insumos)
- Folha (salários, pró-labore, benefícios)
- Aluguel (aluguel, condomínio, IPTU quando aplicável)
- Marketing (tráfego pago, agência, material gráfico)
- Impostos (DAS, ISS, ICMS, guias diversas)
- Taxas (taxa de cartão, antecipação, tarifas bancárias, taxas de marketplace)
- Despesas administrativas (contabilidade, sistemas, telefone, internet, papelaria)
- Investimentos (equipamentos, reformas, móveis, melhorias)
Se “Fornecedores” ficar grande demais, você pode dividir em “Fornecedores – mercadoria” e “Fornecedores – serviços” (ex.: manutenção, terceirizados). Se “Despesas administrativas” ficar grande demais, crie 2–3 subgrupos (ex.: “Tecnologia/Sistemas”, “Serviços profissionais”, “Utilidades”).
Passo 5 — Ajuste a granularidade (nem genérico demais, nem detalhado demais)
Granularidade é o nível de detalhe das categorias. O equilíbrio ideal é aquele que permite agir.
Quando está genérico demais
- Categoria única “Despesas” ou “Gastos gerais”.
- Você não sabe se o problema é taxa, imposto, aluguel ou folha.
Quando está detalhado demais
- Dezenas de categorias como “Copo descartável 200ml”, “Copo 300ml”, “Guardanapo”, “Canudo”.
- Você perde tempo classificando e deixa de registrar/atualizar.
Regra prática de equilíbrio
- Comece com 8 a 15 categorias principais (somando entradas e saídas) e refine só o que for relevante.
- Crie uma nova categoria apenas se ela atender a pelo menos um critério: (1) representa valor relevante no mês; (2) tem comportamento diferente (sazonal, variável, com prazo); (3) gera decisão específica (cortar, renegociar, aumentar, trocar fornecedor/canal).
- Se uma categoria tiver muitos lançamentos e você sempre pergunta “o que tem aqui dentro?”, ela pede subdivisão.
Passo 6 — Padronize regras de nomenclatura (para não virar bagunça)
Padronização evita duplicidade (“Marketing”, “Mkt”, “Anúncios”) e melhora relatórios.
- Use um padrão fixo:
ENTRADA - ...eSAÍDA - ...ou use grupos por numeração. - Evite abreviações (a menos que sejam padrão interno).
- Use singular e termos claros: “Taxas de cartão” (não “Taxa cartão”, “Cartões”).
- Não misture forma de pagamento com categoria: a categoria é “Fornecedores”; a forma de pagamento pode ser um campo separado (PIX, boleto, cartão).
- Defina um dicionário (1 linha por categoria) dizendo o que entra e o que não entra.
Exemplo de dicionário simples:
- SAÍDA - Taxas: taxas de cartão, antecipação, tarifas bancárias, taxas de marketplace. Não inclui impostos.
- SAÍDA - Impostos: guias e tributos. Não inclui taxas de adquirente.
- SAÍDA - Investimentos: compra de bens duráveis e melhorias. Não inclui manutenção rotineira (vai em Fornecedores/Serviços).
Centros de custo (opcional): quando e como usar
Centro de custo é uma dimensão extra para separar resultados por área/canal, sem precisar duplicar categorias. É útil quando você quer responder: “qual canal consome mais caixa?” ou “qual unidade está pressionando despesas?”.
Exemplos comuns
- Loja
- Delivery
- Serviços (instalação, manutenção, atendimento externo)
Como aplicar na prática
- Mantenha o mesmo plano de contas para todos.
- Em cada lançamento, preencha também o centro de custo.
- Se um gasto for compartilhado (ex.: internet), defina uma regra: (1) lançar em “Administrativo” como centro de custo próprio; ou (2) ratear por percentual fixo (ex.: 60% loja, 40% delivery) e manter o critério por 3–6 meses para comparação.
Tags (opcional): para análises rápidas sem criar novas categorias
Tags são marcadores livres para recortes temporários ou específicos. Elas evitam criar categorias demais.
Boas tags para pequenas empresas
- Campanha:
#campanha_blackfriday,#campanha_inauguracao - Fornecedor-chave:
#fornecedor_X - Evento:
#manutencao_emergencial,#multa - Projeto:
#reforma,#novo_equipamento
Regra prática: use tags para o que é temporário ou investigativo. Se virar recorrente e relevante, transforme em categoria ou subcategoria.
Modelo pronto de estrutura (plano de contas) para copiar
Abaixo um modelo enxuto e funcional. Você pode usar exatamente assim e adaptar depois.
| Grupo | Categoria | O que entra aqui | Exemplos |
|---|---|---|---|
| ENTRADAS | Vendas à vista (dinheiro/PIX) | Recebimentos imediatos | PIX do cliente, dinheiro no caixa |
| ENTRADAS | Recebimentos de cartão | Crédito/débito recebidos (líquidos ou brutos, conforme sua regra) | Repasse da adquirente |
| ENTRADAS | Boletos/transferências | Recebimentos via boleto/TED/DOC | Boleto pago por cliente PJ |
| ENTRADAS | Outras receitas | Receitas não operacionais ou pontuais | Reembolso, juros recebidos |
| SAÍDAS | Fornecedores | Compras e serviços de terceiros ligados à operação | Compra de mercadoria, insumos, manutenção terceirizada |
| SAÍDAS | Folha | Pessoas | Salários, pró-labore, vale-transporte |
| SAÍDAS | Aluguel | Ocupação do ponto | Aluguel, condomínio, IPTU (se você decidir incluir aqui) |
| SAÍDAS | Marketing | Aquisição e comunicação | Anúncios, agência, panfletos |
| SAÍDAS | Impostos | Tributos e guias | DAS, ISS, ICMS, taxas municipais tributárias |
| SAÍDAS | Taxas | Custos financeiros e operacionais de meios de pagamento | Taxas de cartão, antecipação, tarifa bancária, marketplace |
| SAÍDAS | Despesas administrativas | Estrutura e gestão | Contabilidade, sistema, telefone, internet, material de escritório |
| SAÍDAS | Investimentos | Bens duráveis e melhorias | Equipamento, reforma, móveis |
Regras de classificação (para evitar dúvidas no dia a dia)
Regra 1 — Classifique pelo “motivo” do gasto, não pelo fornecedor
Se você paga uma empresa que faz anúncios, isso é Marketing, mesmo que o nome do fornecedor não deixe claro.
Regra 2 — Separe “Impostos” de “Taxas”
Taxa de cartão não é imposto. Essa separação costuma revelar vazamentos importantes no caixa.
Regra 3 — Investimento não é despesa recorrente
Compra de equipamento entra em Investimentos. Manutenção rotineira pode entrar em Fornecedores (serviços) ou “Despesas administrativas”, conforme sua regra.
Regra 4 — Defina uma regra para lançamentos “líquidos” vs “brutos” no cartão
Você pode registrar recebimentos de cartão de duas formas. Escolha uma e mantenha:
- Opção A (mais simples): lançar o valor líquido que entrou no banco em “Recebimentos de cartão”. As taxas ficam “embutidas” e você perde visão detalhada de “Taxas”.
- Opção B (mais analítica): lançar o valor bruto da venda em “Recebimentos de cartão” e lançar as taxas/antecipações em “SAÍDA - Taxas”. Exige disciplina, mas melhora decisões.
Exercícios práticos: classifique lançamentos comuns
Instrução: para cada item, escolha (1) a categoria do plano de contas e, se fizer sentido, (2) um centro de custo (Loja/Delivery/Serviços) e (3) uma tag.
Exercício 1 — Classificação básica (categoria)
- Recebimento de R$ 2.450 da adquirente (vendas no crédito): ________
- Pagamento de R$ 980 para fornecedor de mercadorias: ________
- Pagamento do DAS do Simples Nacional: ________
- Tarifa bancária mensal: ________
- Pagamento de R$ 300 em anúncios (tráfego pago): ________
- Pagamento de salário de funcionário: ________
- Compra de um computador para o escritório: ________
- Pagamento de contabilidade: ________
- Recebimento via PIX de cliente no balcão: ________
- Pagamento de aluguel do ponto: ________
Exercício 2 — Com centro de custo
- Compra de embalagens usadas apenas no delivery: Categoria ________ | Centro de custo ________
- Anúncios feitos para promover serviços (não produtos): Categoria ________ | Centro de custo ________
- Conta de internet usada por toda a empresa: Categoria ________ | Centro de custo (ou regra de rateio) ________
Exercício 3 — Com tags (campanha e fornecedor-chave)
- Pagamento de R$ 1.200 em anúncios da campanha de Dia das Mães: Categoria ________ | Tag ________
- Compra recorrente do Fornecedor X (principal fornecedor): Categoria ________ | Tag ________
- Gasto emergencial com manutenção após quebra de equipamento: Categoria ________ | Tag ________
Modelo de preenchimento (para você replicar no seu controle)
Se você usa planilha ou sistema, tente manter estes campos mínimos por lançamento:
- Data
- Tipo (Entrada/Saída)
- Categoria (do plano de contas)
- Descrição (curta e objetiva)
- Valor
- Forma (PIX, dinheiro, boleto, cartão, transferência)
- Centro de custo (opcional)
- Tags (opcional)
Exemplo de lançamento: 15/03 | Saída | Taxas | Taxa adquirente março | 185,40 | Débito em conta | Delivery | #campanha_blackfriday