Estrutura do Fluxo de Caixa na Prática: plano de contas e categorias que ajudam a decidir

Capítulo 2

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

O que é “estrutura” do fluxo de caixa (e por que ela muda suas decisões)

Estruturar o fluxo de caixa significa definir um plano de contas (categorias padronizadas de entradas e saídas) para que cada lançamento seja classificado sempre do mesmo jeito. Sem essa estrutura, o fluxo vira apenas uma lista de movimentos; com estrutura, ele vira um painel de leitura: você enxerga de onde vem o dinheiro, para onde vai e o que está pressionando o caixa (taxas, impostos, folha, fornecedores, marketing etc.).

Uma boa estrutura precisa ser: simples (para ser usada todo dia), padronizada (para comparar meses) e útil para decisão (mostrar alavancas e problemas).

Como montar um plano de contas simples e útil (passo a passo)

Passo 1 — Defina o objetivo de análise

Antes de criar categorias, responda: quais decisões você quer tomar com o fluxo?

  • Controlar pressão de taxas (cartão, marketplace, banco)?
  • Separar impostos de outras despesas?
  • Entender peso de folha vs fornecedores?
  • Comparar canais (loja, delivery, serviços)?

Essas respostas determinam o nível de detalhe (granularidade) e se você vai usar centros de custo e tags.

Passo 2 — Crie duas grandes famílias: Entradas e Saídas

Comece com o essencial e só depois refine. Um modelo prático para pequenas empresas:

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  • Entradas: tudo que aumenta o saldo (recebimentos).
  • Saídas: tudo que diminui o saldo (pagamentos).

Passo 3 — Defina subcategorias padrão de Entradas

Use subcategorias que reflitam forma de recebimento (ajuda a conciliar com extratos e entender prazos/taxas) e/ou tipo de receita (ajuda a entender mix). Um conjunto enxuto e comum:

  • Vendas à vista (dinheiro/PIX)
  • Recebimentos de cartão (crédito/débito)
  • Boletos/transferências
  • Outras receitas (ex.: juros recebidos, aluguel de equipamento, reembolso)

Se você vende em marketplace/app, pode criar “Recebimentos de marketplace” separado de “Recebimentos de cartão” para enxergar o custo do canal.

Passo 4 — Defina subcategorias padrão de Saídas

Para saídas, priorize categorias que representem “alavancas” de gestão e itens recorrentes:

  • Fornecedores (compra de mercadorias/insumos)
  • Folha (salários, pró-labore, benefícios)
  • Aluguel (aluguel, condomínio, IPTU quando aplicável)
  • Marketing (tráfego pago, agência, material gráfico)
  • Impostos (DAS, ISS, ICMS, guias diversas)
  • Taxas (taxa de cartão, antecipação, tarifas bancárias, taxas de marketplace)
  • Despesas administrativas (contabilidade, sistemas, telefone, internet, papelaria)
  • Investimentos (equipamentos, reformas, móveis, melhorias)

Se “Fornecedores” ficar grande demais, você pode dividir em “Fornecedores – mercadoria” e “Fornecedores – serviços” (ex.: manutenção, terceirizados). Se “Despesas administrativas” ficar grande demais, crie 2–3 subgrupos (ex.: “Tecnologia/Sistemas”, “Serviços profissionais”, “Utilidades”).

Passo 5 — Ajuste a granularidade (nem genérico demais, nem detalhado demais)

Granularidade é o nível de detalhe das categorias. O equilíbrio ideal é aquele que permite agir.

Quando está genérico demais

  • Categoria única “Despesas” ou “Gastos gerais”.
  • Você não sabe se o problema é taxa, imposto, aluguel ou folha.

Quando está detalhado demais

  • Dezenas de categorias como “Copo descartável 200ml”, “Copo 300ml”, “Guardanapo”, “Canudo”.
  • Você perde tempo classificando e deixa de registrar/atualizar.

Regra prática de equilíbrio

  • Comece com 8 a 15 categorias principais (somando entradas e saídas) e refine só o que for relevante.
  • Crie uma nova categoria apenas se ela atender a pelo menos um critério: (1) representa valor relevante no mês; (2) tem comportamento diferente (sazonal, variável, com prazo); (3) gera decisão específica (cortar, renegociar, aumentar, trocar fornecedor/canal).
  • Se uma categoria tiver muitos lançamentos e você sempre pergunta “o que tem aqui dentro?”, ela pede subdivisão.

Passo 6 — Padronize regras de nomenclatura (para não virar bagunça)

Padronização evita duplicidade (“Marketing”, “Mkt”, “Anúncios”) e melhora relatórios.

  • Use um padrão fixo: ENTRADA - ... e SAÍDA - ... ou use grupos por numeração.
  • Evite abreviações (a menos que sejam padrão interno).
  • Use singular e termos claros: “Taxas de cartão” (não “Taxa cartão”, “Cartões”).
  • Não misture forma de pagamento com categoria: a categoria é “Fornecedores”; a forma de pagamento pode ser um campo separado (PIX, boleto, cartão).
  • Defina um dicionário (1 linha por categoria) dizendo o que entra e o que não entra.

Exemplo de dicionário simples:

  • SAÍDA - Taxas: taxas de cartão, antecipação, tarifas bancárias, taxas de marketplace. Não inclui impostos.
  • SAÍDA - Impostos: guias e tributos. Não inclui taxas de adquirente.
  • SAÍDA - Investimentos: compra de bens duráveis e melhorias. Não inclui manutenção rotineira (vai em Fornecedores/Serviços).

Centros de custo (opcional): quando e como usar

Centro de custo é uma dimensão extra para separar resultados por área/canal, sem precisar duplicar categorias. É útil quando você quer responder: “qual canal consome mais caixa?” ou “qual unidade está pressionando despesas?”.

Exemplos comuns

  • Loja
  • Delivery
  • Serviços (instalação, manutenção, atendimento externo)

Como aplicar na prática

  • Mantenha o mesmo plano de contas para todos.
  • Em cada lançamento, preencha também o centro de custo.
  • Se um gasto for compartilhado (ex.: internet), defina uma regra: (1) lançar em “Administrativo” como centro de custo próprio; ou (2) ratear por percentual fixo (ex.: 60% loja, 40% delivery) e manter o critério por 3–6 meses para comparação.

Tags (opcional): para análises rápidas sem criar novas categorias

Tags são marcadores livres para recortes temporários ou específicos. Elas evitam criar categorias demais.

Boas tags para pequenas empresas

  • Campanha: #campanha_blackfriday, #campanha_inauguracao
  • Fornecedor-chave: #fornecedor_X
  • Evento: #manutencao_emergencial, #multa
  • Projeto: #reforma, #novo_equipamento

Regra prática: use tags para o que é temporário ou investigativo. Se virar recorrente e relevante, transforme em categoria ou subcategoria.

Modelo pronto de estrutura (plano de contas) para copiar

Abaixo um modelo enxuto e funcional. Você pode usar exatamente assim e adaptar depois.

GrupoCategoriaO que entra aquiExemplos
ENTRADASVendas à vista (dinheiro/PIX)Recebimentos imediatosPIX do cliente, dinheiro no caixa
ENTRADASRecebimentos de cartãoCrédito/débito recebidos (líquidos ou brutos, conforme sua regra)Repasse da adquirente
ENTRADASBoletos/transferênciasRecebimentos via boleto/TED/DOCBoleto pago por cliente PJ
ENTRADASOutras receitasReceitas não operacionais ou pontuaisReembolso, juros recebidos
SAÍDASFornecedoresCompras e serviços de terceiros ligados à operaçãoCompra de mercadoria, insumos, manutenção terceirizada
SAÍDASFolhaPessoasSalários, pró-labore, vale-transporte
SAÍDASAluguelOcupação do pontoAluguel, condomínio, IPTU (se você decidir incluir aqui)
SAÍDASMarketingAquisição e comunicaçãoAnúncios, agência, panfletos
SAÍDASImpostosTributos e guiasDAS, ISS, ICMS, taxas municipais tributárias
SAÍDASTaxasCustos financeiros e operacionais de meios de pagamentoTaxas de cartão, antecipação, tarifa bancária, marketplace
SAÍDASDespesas administrativasEstrutura e gestãoContabilidade, sistema, telefone, internet, material de escritório
SAÍDASInvestimentosBens duráveis e melhoriasEquipamento, reforma, móveis

Regras de classificação (para evitar dúvidas no dia a dia)

Regra 1 — Classifique pelo “motivo” do gasto, não pelo fornecedor

Se você paga uma empresa que faz anúncios, isso é Marketing, mesmo que o nome do fornecedor não deixe claro.

Regra 2 — Separe “Impostos” de “Taxas”

Taxa de cartão não é imposto. Essa separação costuma revelar vazamentos importantes no caixa.

Regra 3 — Investimento não é despesa recorrente

Compra de equipamento entra em Investimentos. Manutenção rotineira pode entrar em Fornecedores (serviços) ou “Despesas administrativas”, conforme sua regra.

Regra 4 — Defina uma regra para lançamentos “líquidos” vs “brutos” no cartão

Você pode registrar recebimentos de cartão de duas formas. Escolha uma e mantenha:

  • Opção A (mais simples): lançar o valor líquido que entrou no banco em “Recebimentos de cartão”. As taxas ficam “embutidas” e você perde visão detalhada de “Taxas”.
  • Opção B (mais analítica): lançar o valor bruto da venda em “Recebimentos de cartão” e lançar as taxas/antecipações em “SAÍDA - Taxas”. Exige disciplina, mas melhora decisões.

Exercícios práticos: classifique lançamentos comuns

Instrução: para cada item, escolha (1) a categoria do plano de contas e, se fizer sentido, (2) um centro de custo (Loja/Delivery/Serviços) e (3) uma tag.

Exercício 1 — Classificação básica (categoria)

  • Recebimento de R$ 2.450 da adquirente (vendas no crédito): ________
  • Pagamento de R$ 980 para fornecedor de mercadorias: ________
  • Pagamento do DAS do Simples Nacional: ________
  • Tarifa bancária mensal: ________
  • Pagamento de R$ 300 em anúncios (tráfego pago): ________
  • Pagamento de salário de funcionário: ________
  • Compra de um computador para o escritório: ________
  • Pagamento de contabilidade: ________
  • Recebimento via PIX de cliente no balcão: ________
  • Pagamento de aluguel do ponto: ________

Exercício 2 — Com centro de custo

  • Compra de embalagens usadas apenas no delivery: Categoria ________ | Centro de custo ________
  • Anúncios feitos para promover serviços (não produtos): Categoria ________ | Centro de custo ________
  • Conta de internet usada por toda a empresa: Categoria ________ | Centro de custo (ou regra de rateio) ________

Exercício 3 — Com tags (campanha e fornecedor-chave)

  • Pagamento de R$ 1.200 em anúncios da campanha de Dia das Mães: Categoria ________ | Tag ________
  • Compra recorrente do Fornecedor X (principal fornecedor): Categoria ________ | Tag ________
  • Gasto emergencial com manutenção após quebra de equipamento: Categoria ________ | Tag ________

Modelo de preenchimento (para você replicar no seu controle)

Se você usa planilha ou sistema, tente manter estes campos mínimos por lançamento:

  • Data
  • Tipo (Entrada/Saída)
  • Categoria (do plano de contas)
  • Descrição (curta e objetiva)
  • Valor
  • Forma (PIX, dinheiro, boleto, cartão, transferência)
  • Centro de custo (opcional)
  • Tags (opcional)
Exemplo de lançamento: 15/03 | Saída | Taxas | Taxa adquirente março | 185,40 | Débito em conta | Delivery | #campanha_blackfriday

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao montar um plano de contas para o fluxo de caixa, qual prática melhora a tomada de decisão sem aumentar demais o trabalho de classificação?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Uma estrutura eficaz é simples, padronizada e útil para decisão. A recomendação é começar com poucas categorias (ex.: 8 a 15) e só criar novas quando forem relevantes, tiverem comportamento diferente ou levarem a uma ação específica.

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Montagem do Fluxo de Caixa na Prática: campos obrigatórios, regras e rotina de lançamentos

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