Estrutura de uma prefeitura: organograma municipal e fluxos de autoridade

Capítulo 2

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que é um organograma municipal (e por que ele importa)

O organograma é um desenho da estrutura da prefeitura: quem responde a quem, quais áreas existem e como as decisões e tarefas se distribuem. Ele não mostra “tudo o que acontece”, mas indica a cadeia de autoridade (linhas de comando), a divisão de responsabilidades e os canais formais de comunicação e assinatura.

Na prática, o organograma ajuda a responder perguntas como: quem pode autorizar uma despesa? quem assina um documento? para qual secretaria vai uma demanda? qual unidade executa e qual dá suporte?

Estrutura básica de uma prefeitura: peças comuns

1) Gabinete do Prefeito

É o núcleo de coordenação política e administrativa do chefe do Executivo. Em muitos municípios, o Gabinete concentra:

  • Chefia de Gabinete: organiza agenda, prioriza demandas, articula com secretarias, acompanha entregas e providências.
  • Assessoria de comunicação (ou secretaria específica): relacionamento institucional, divulgação de atos e serviços, comunicação com a população.
  • Assessoria jurídica do gabinete (quando não centralizada na Procuradoria): apoio imediato ao prefeito em decisões e atos.
  • Ouvidoria (em alguns casos): recebe manifestações e encaminha às áreas responsáveis.

2) Vice-Prefeito

O vice-prefeito pode ter atuação variável: desde funções representativas e substituição do prefeito até coordenação de projetos, programas e comitês. Em municípios maiores, pode existir um gabinete do vice com equipe própria e atribuições definidas em lei/decreto.

3) Procuradoria Geral do Município (PGM)

É a área jurídica institucional. Atua, em geral, em:

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  • Consultoria e assessoramento jurídico: pareceres sobre minutas de contratos, convênios, editais, projetos de lei, processos administrativos.
  • Representação judicial: ações em que o município é parte (defesa e cobrança).
  • Dívida ativa (em muitos municípios): inscrição, cobrança e execução fiscal (pode haver setor específico).

Na leitura do organograma, a PGM costuma estar ligada diretamente ao prefeito (órgão de assessoramento superior), mas sua atuação permeia todas as secretarias.

4) Controladoria (quando houver) e controle interno

Nem todo município tem uma “Controladoria Geral” formalizada, mas todo município precisa ter função de controle interno. Quando existe, a Controladoria costuma:

  • Orientar e fiscalizar a regularidade de processos (compras, contratos, convênios, folha, patrimônio).
  • Emitir recomendações e relatórios, apoiar auditorias e responder a órgãos de controle.
  • Promover integridade, gestão de riscos e transparência (dependendo da maturidade institucional).

Na prática, controle interno não “manda” na secretaria, mas pode condicionar o andamento de processos ao apontar falhas e exigir correções formais.

5) Secretarias: áreas finalísticas e áreas meio

As secretarias são os grandes blocos executores. Uma forma útil de entender é separar:

  • Secretarias finalísticas: entregam políticas e serviços diretamente (ex.: Saúde, Educação, Assistência Social, Obras/Infraestrutura, Meio Ambiente, Mobilidade/Trânsito, Cultura, Esportes).
  • Secretarias meio: dão suporte para as finalísticas funcionarem (ex.: Administração, Fazenda/Finanças, Planejamento, Gestão de Pessoas, Compras/Licitações, Tecnologia da Informação).

Em organogramas mais modernos, algumas funções meio podem estar centralizadas em uma secretaria (ex.: Administração) e outras distribuídas (ex.: compras na Fazenda; TI em Planejamento).

6) Unidades internas: diretorias, departamentos, coordenações e divisões

Dentro de cada secretaria, é comum haver níveis hierárquicos. Os nomes variam, mas a lógica costuma ser:

  • Secretário(a): autoridade máxima da secretaria; define prioridades, responde ao prefeito, assina atos e autoriza despesas conforme delegação.
  • Secretário(a) adjunto(a) (quando houver): coordena rotinas e substitui o secretário.
  • Diretorias/Departamentos: grandes áreas (ex.: Diretoria de Atenção Básica; Departamento de Compras).
  • Coordenações: gestão operacional de programas/processos (ex.: Coordenação de Imunização; Coordenação de Transporte Escolar).
  • Divisões/Seções/Núcleos: execução direta e tarefas específicas (ex.: Seção de Protocolo; Núcleo de Manutenção Predial).

Quanto maior o município, maior a tendência de existir mais camadas e especialização; quanto menor, maior a tendência de acumular funções em menos unidades.

Como ler um organograma municipal: guia prático

Passo 1 — Identifique o topo e as ligações diretas

Comece pelo prefeito e veja quais órgãos estão ligados diretamente: Gabinete, Procuradoria, Controladoria (se houver) e secretarias. Isso indica o que é assessoramento superior e o que é execução.

Passo 2 — Separe “linha” e “staff”

Em termos práticos:

  • Órgãos de linha: executam políticas e rotinas (secretarias e suas unidades).
  • Órgãos de staff: assessoram, normatizam e controlam (Procuradoria, Controladoria, às vezes Planejamento e Comunicação).

Isso ajuda a entender por que certas áreas emitem pareceres e orientações, mas não executam diretamente o serviço.

Passo 3 — Observe a profundidade hierárquica

Conte quantos níveis existem até chegar na ponta executora. Exemplo típico: Secretário → Diretor → Coordenador → Chefe de Seção → Equipe. Quanto mais níveis, mais importante é padronizar comunicação e delegações para evitar gargalos.

Passo 4 — Localize “pontos de decisão” e “pontos de execução”

Marque no organograma:

  • Quem decide: quem autoriza, prioriza, assina, homologa.
  • Quem executa: quem faz o processo andar, atende, fiscaliza, opera sistemas, realiza serviços.

Um erro comum é encaminhar demandas diretamente para quem executa sem envolver quem precisa autorizar (ou o inverso: mandar tudo para o secretário, travando a rotina).

Passo 5 — Verifique se há descentralização territorial

Procure por termos como regionais, subprefeituras, distritos, administrações regionais, unidades descentralizadas. Isso muda o fluxo: parte das decisões e da execução pode ocorrer fora da sede.

Como a autoridade circula: comando, delegação e responsabilidade

Autoridade na prefeitura costuma circular por três mecanismos principais:

  • Hierarquia: chefias orientam e cobram resultados das unidades subordinadas.
  • Delegação formal: o prefeito/secretário delega competência para assinatura e decisão (por portaria/decreto/ordem interna).
  • Processos administrativos: a decisão é registrada no processo (despachos, pareceres, autorizações), criando trilha de auditoria.

Exemplo prático: compra de material para uma unidade

Fluxo típico (pode variar):

  1. Unidade solicitante (ex.: escola/UBS) formaliza a necessidade com justificativa e especificação.
  2. Coordenação/Diretoria valida a demanda e consolida com outras unidades (se aplicável).
  3. Secretaria (área meio de compras/licitações ou setor de compras da própria secretaria) abre processo e verifica saldo/planejamento.
  4. Fazenda/Finanças verifica dotação e emite autorização orçamentária (conforme regras locais).
  5. Procuradoria emite parecer jurídico quando necessário (edital, contrato, dispensa/inexigibilidade).
  6. Autoridade competente homologa/adjudica/autoriza (prefeito ou secretário, conforme delegação).
  7. Execução: recebimento, conferência, liquidação e pagamento (com controles e registros).

O organograma ajuda a entender quem entra em cada etapa e quem tem a competência de assinatura.

Estruturas típicas: município pequeno vs. médio/grande

Município pequeno: estrutura enxuta e acumulação de funções

Características comuns:

  • Menos secretarias, com áreas agrupadas (ex.: “Secretaria de Administração e Finanças”; “Secretaria de Educação, Cultura e Esportes”).
  • Menos camadas (às vezes sem diretorias formais; coordenações acumulam funções).
  • Decisão mais centralizada no prefeito e em poucos secretários.
  • Equipe reduzida e maior dependência de rotinas padronizadas para não perder controle.

O que muda na prática: demandas chegam “direto” ao topo com frequência; por isso, é essencial definir quem filtra (chefia de gabinete, secretários) e criar rotas claras para processos (protocolo, compras, jurídico).

Município médio/grande: especialização, capilaridade e descentralização

Características comuns:

  • Mais secretarias e órgãos vinculados (autarquias, fundações, empresas públicas, dependendo do município).
  • Mais níveis hierárquicos (secretarias adjuntas, diretorias gerais, superintendências).
  • Capilaridade: unidades na ponta (escolas, unidades de saúde, CRAS, regionais) com rotinas próprias.
  • Descentralização territorial: regionais/subprefeituras com capacidade de resolver parte das demandas localmente.

O que muda na prática: aumenta a necessidade de coordenação (reuniões de alinhamento, comitês, fluxos de aprovação), de delegações formais para evitar gargalos e de padronização documental para manter controle e rastreabilidade.

Exemplo comparativo de organograma (simplificado)

ElementoMunicípio pequeno (típico)Município médio/grande (típico)
Secretarias4–8, com áreas agrupadas10–20+, áreas separadas
Níveis internosSecretário → Coordenação → EquipeSecretário → Adjuntos → Diretorias → Coordenações → Unidades
DecisãoMais centralizadaMais delegada (quando bem desenhada)
TerritórioAtendimento concentradoRegionais e unidades descentralizadas
Risco comumDependência de poucas pessoasFragmentação e retrabalho entre áreas

Comunicação interna na prefeitura: como fazer a informação circular

Além da hierarquia, a prefeitura funciona por documentos e ritos que registram decisões e orientações. Os principais são:

Memorando (ou comunicação interna)

Usado para solicitar, informar ou encaminhar providências entre unidades. Boas práticas:

  • Assunto objetivo (ex.: “Solicitação de vistoria técnica – Escola X”).
  • Contexto curto + pedido claro + prazo.
  • Indicar responsável e anexos (fotos, planilhas, relatórios).
MEMORANDO Nº 012/2026 – Coordenação de Manutenção Predial Para: Diretoria de Obras Assunto: Vistoria e orçamento – reparo de telhado na Escola Municipal X Solicitamos vistoria técnica até 10/02, com estimativa de custos e prazo de execução. Anexos: fotos e relatório da direção escolar.

Despacho

É a manifestação de uma autoridade dentro de um processo (físico ou eletrônico), orientando o próximo passo. Pode ser um “encaminhe-se”, “autorizo”, “indeferido”, “à Procuradoria”, “à Controladoria”, etc. Boas práticas:

  • Ser direto e indicar a ação seguinte.
  • Quando negar, registrar motivo e base normativa (quando aplicável).
  • Evitar despachos genéricos que geram idas e vindas.
DESPACHO: Autorizo a abertura do processo de contratação, condicionada à apresentação de pesquisa de preços com no mínimo 3 cotações e manifestação do controle interno quanto à instrução.

Portaria interna

É um ato formal para organizar a administração: designar fiscal de contrato, instituir comissão, nomear responsáveis por almoxarifado, delegar competências, estabelecer rotinas. Boas práticas:

  • Definir claramente quem faz o quê, desde quando e com quais limites.
  • Evitar portarias “genéricas” que não mudam a rotina.
  • Publicar e dar ciência às áreas envolvidas.
PORTARIA Nº 045/2026: Designa servidores para fiscalização do Contrato nº 10/2026 (manutenção predial) e estabelece rotina de medição mensal e registro fotográfico.

Reuniões de alinhamento (ritual de coordenação)

São essenciais para integrar áreas meio e finalísticas e reduzir retrabalho. Para funcionar, precisam de método:

  1. Pauta enviada antes (com itens e decisões esperadas).
  2. Participantes certos (quem decide e quem executa).
  3. Registro (ata simples ou encaminhamentos por e-mail/memorando).
  4. Responsáveis e prazos definidos por item.
  5. Follow-up na reunião seguinte (o que foi feito e o que travou).

Exemplo de pauta objetiva:

  • Status de processos críticos (compras, contratos, obras).
  • Riscos e pendências com jurídico/controle interno.
  • Demandas das unidades descentralizadas (regionais, escolas, UBS).
  • Decisões necessárias do gabinete/secretário.

Checklist prático: usando o organograma no dia a dia

  • Antes de encaminhar uma demanda, identifique: quem executa e quem autoriza.
  • Verifique se há delegação de competência (quem pode assinar e até que limite).
  • Use o canal adequado: memorando para solicitar/encaminhar, despacho para decidir no processo, portaria para organizar responsabilidades.
  • Se houver regionalização, confirme se a demanda é resolvida na ponta ou na sede.
  • Registre decisões e encaminhamentos para evitar “ordens verbais” sem rastreabilidade.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao analisar um organograma municipal, qual é a forma mais útil de evitar que uma demanda seja enviada para a unidade errada e gere gargalos?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O organograma ajuda a localizar pontos de decisão e de execução. Ao distinguir quem executa e quem autoriza, e checar delegações e canais formais (memorando, despacho, portaria), reduz-se retrabalho e travamentos por falta de assinatura ou validação.

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Papel do prefeito na gestão municipal: decisões, prioridades e responsabilidade

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