Estimativa ≠ compromisso: para que estimamos em Agile
Em gestão de projetos com Agile, estimativas existem para prever cenários e apoiar decisões (priorização, sequenciamento, alocação de pessoas, negociação de escopo e datas). Elas não são uma promessa de entrega “exata”. Uma boa estimativa é aquela que permite responder perguntas como:
- “Se mantivermos o time como está, qual a faixa provável de entrega até o fim do trimestre?”
- “Se adicionarmos 1 pessoa, quanto a previsão muda (e com qual risco)?”
- “Se o escopo crescer 20%, qual o impacto provável?”
Para isso, estimativas ágeis trabalham com incerteza explícita e com dados históricos sempre que possível. O objetivo é aumentar a confiança gradualmente conforme aprendemos (refinamento, descoberta, execução e feedback).
Dois tipos de “tamanho” que você precisa separar
- Tamanho do trabalho: quão grande/complexo é um item (história, tarefa, épico). Ex.: pontos, T-shirt sizes, classes de serviço.
- Capacidade do time: quanto trabalho o time consegue concluir em um período, dadas as restrições reais (pessoas, férias, suporte, interrupções, dependências).
Previsão surge da combinação: tamanho + capacidade + variabilidade.
Planning Poker (pontos): estimando por comparação
Planning Poker é uma técnica colaborativa para estimar tamanho relativo (não horas). Em vez de discutir “quanto tempo”, o time compara itens entre si e cria uma escala consistente. Pontos funcionam bem quando o time entrega em iterações e quer um indicador agregado para forecast.
Quando usar
- Backlog com itens pequenos o suficiente para caberem em uma iteração (ou que possam ser quebrados).
- Time estável o bastante para criar uma referência comum.
- Você precisa de previsões baseadas em velocidade histórica (com cuidado, ver seção de velocidade).
Passo a passo prático (Planning Poker)
- Defina a escala (ex.: Fibonacci: 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21). Evite muitos números intermediários para forçar decisões.
- Escolha uma história de referência (ex.: uma história já entregue e bem compreendida) e atribua um valor (ex.: 5 pontos). Essa história vira âncora.
- Apresente a história: objetivo, critérios de aceitação, dependências conhecidas, riscos.
- Estimativa silenciosa: cada pessoa escolhe uma carta (número) sem influenciar os demais.
- Revelação simultânea: todos mostram ao mesmo tempo.
- Discuta divergências: foque nos extremos (maior e menor). Perguntas úteis: “O que você está assumindo que os outros não estão?”
- Reestime até convergir (ou aceite uma faixa e trate como risco).
- Registre suposições relevantes (ex.: “depende da API X estar disponível”). Isso melhora previsões futuras.
Exemplo prático
História: “Como analista, quero exportar relatório em CSV com filtros aplicados.” Referência: “Exportar PDF simples” foi 5 pontos. O time discute e percebe que CSV exige mapeamento de campos, volume grande e performance. Estimativas: 5, 8, 13. Após discutir, convergem em 8 com nota: “risco de performance; pode virar 13 se volume real for maior”.
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Erros comuns no Planning Poker (e correções)
- Converter pontos em horas automaticamente: isso transforma pontos em contrato de tempo e destrói o propósito. Correção: use pontos para comparação e use histórico para forecast; se precisar de horas, trate como planejamento interno de curto prazo, não como métrica de performance.
- Estimar sem critérios claros: vira chute. Correção: antes de estimar, alinhe critérios de aceitação e principais riscos.
- “Vencer no grito”: a pessoa mais sênior impõe o número. Correção: mantenha estimativa silenciosa e peça que extremos expliquem suposições.
- Itens grandes demais (ex.: 40 pontos): previsibilidade cai. Correção: quebre em itens menores; se não der, use T-shirt size/épicos e forecast por throughput.
T-shirt sizes: estimativa rápida para níveis mais altos
T-shirt sizes (XS, S, M, L, XL) são úteis quando você precisa de estimativa rápida com baixa precisão, especialmente para épicos/iniciativas, triagem inicial e conversas com stakeholders. Elas funcionam bem para ordenar e identificar itens que precisam de decomposição.
Como aplicar na prática
- Defina o significado de cada tamanho com exemplos reais (ex.: S = mudança simples em tela existente; L = envolve múltiplos sistemas e validações).
- Crie um “catálogo” de referência: 2–3 exemplos por tamanho, já entregues.
- Classifique em grupo (rápido): para cada item, escolha o tamanho mais provável.
- Use regras de decisão: itens L/XL não entram em planejamento de curto prazo sem decomposição.
Convertendo T-shirt para números (com cuidado)
Às vezes é útil mapear tamanhos para uma escala numérica (ex.: XS=1, S=2, M=3, L=5, XL=8) para fazer simulações. Faça isso apenas como ponte para forecast e sempre valide com histórico. Evite usar o mapeamento como “contrato”.
Erros comuns (e correções)
- Tamanhos viram opinião sem referência. Correção: mantenha exemplos âncora e revise periodicamente.
- Usar T-shirt para microplanejamento. Correção: use para triagem e roadmap; para execução, refine e estime em nível adequado.
Estimativa por throughput: previsões sem pontos
Throughput é a quantidade de itens concluídos por unidade de tempo (ex.: histórias concluídas por semana). Em vez de estimar “tamanho”, você mede entrega real e usa o histórico para prever. Essa abordagem é especialmente útil quando:
- O time trabalha com itens relativamente homogêneos (ou consegue padronizar o “tamanho” dos itens).
- Há muita variabilidade e pontos não trazem consistência.
- Você quer previsões mais objetivas e baseadas em dados.
Pré-requisito: padronizar o que conta como “item”
Throughput só é útil se “item concluído” tiver significado consistente. Ex.: “história pronta” com critérios claros de pronto e itens fatiados em tamanhos semelhantes.
Passo a passo prático (forecast por throughput)
- Defina a unidade: semana, quinzena ou iteração.
- Coleta histórica: registre quantos itens foram concluídos em cada período (ex.: últimas 8–12 semanas).
- Calcule uma faixa: use percentis simples para comunicar variabilidade. Ex.: P50 (mediana) e P85 (mais conservador).
- Estime o backlog em número de itens: quantos itens faltam para o objetivo (ou para um conjunto de features).
- Projete a data: tempo ≈ itens restantes / throughput. Faça isso para P50 e P85 para ter uma faixa de previsão.
Exemplo numérico
Histórico semanal de itens concluídos (12 semanas): 6, 5, 7, 4, 6, 8, 5, 6, 7, 3, 6, 5. Mediana (P50) ≈ 6 itens/semana. Um valor conservador (aprox. P85 para “tempo”, ou seja, throughput mais baixo) pode ser 5 itens/semana. Se faltam 30 itens:
- Previsão P50: 30/6 = 5 semanas
- Previsão conservadora: 30/5 = 6 semanas
Você comunica: “Provável entre 5 e 6 semanas, assumindo que o padrão de trabalho se mantenha”.
Erros comuns (e correções)
- Itens com tamanhos muito diferentes distorcem throughput. Correção: fatiar melhor e/ou separar classes (ex.: “histórias pequenas” vs “médias”).
- Contar itens parcialmente prontos. Correção: conte apenas concluídos com critérios de pronto atendidos.
Forecast com base histórica: faixas de previsão e confiança
Previsão ágil madura é feita em faixas, não em uma data única. A faixa reflete incerteza real: variação de demanda, interrupções, dependências e mudanças.
Três formas práticas de criar faixas
- Percentis com throughput: como no exemplo, use P50/P85 para comunicar “provável” e “conservador”.
- Velocidade histórica (pontos por iteração): use média/mediana e variação para projetar quantas iterações são necessárias para um total de pontos.
- Simulação simples (Monte Carlo): sorteie valores históricos de throughput/velocidade para simular muitos cenários e obter probabilidades de datas. Mesmo sem ferramenta, dá para fazer em planilha.
Passo a passo (faixa por velocidade em pontos)
- Some o tamanho do escopo (ex.: 120 pontos para um conjunto de histórias).
- Levante a velocidade histórica (ex.: últimas 6 iterações: 18, 22, 15, 20, 19, 21).
- Use mediana e um cenário conservador: mediana ≈ 19,5 (arredonde para 20). Conservador pode ser 18 (ou um percentil mais baixo).
- Calcule iterações necessárias: 120/20 = 6 iterações (provável); 120/18 ≈ 6,7 (conservador: 7 iterações).
- Converta para datas considerando calendário real (feriados, releases, janelas de aprovação).
Como comunicar confiança sem “vender certeza”
Use linguagem de probabilidade e condições. Modelos úteis:
- Faixa com probabilidade: “Temos ~50% de chance até 10/mai e ~85% até 24/mai.”
- Data-alvo + data de compromisso: “Alvo: 10/mai (se nada mudar). Compromisso: 24/mai (com margem para variabilidade).”
- Escopo variável: “Até 10/mai entregamos com alta confiança as features A e B; C é opcional dependendo do throughput.”
Inclua sempre as premissas que sustentam a previsão (ex.: time estável, dependência X resolvida até tal data, WIP controlado, sem aumento de suporte).
Velocidade e capacidade: como usar com cuidado
Velocidade (pontos concluídos por iteração)
Velocidade é um indicador interno do time para ajudar a prever. Ela é útil quando o time estima de forma consistente e mantém um padrão de fatiamento. Porém, velocidade é sensível a mudanças de contexto.
Capacidade (tempo/pessoas disponíveis)
Capacidade é a disponibilidade real do time no período. Ela ajuda a ajustar previsões quando há férias, treinamentos, suporte, incidentes ou mudanças na composição do time.
Boas práticas para combinar capacidade e velocidade
- Não “recalibre” pontos para caber na capacidade. Ajuste o escopo ou a previsão, não o tamanho.
- Use capacidade para ajustar expectativa: se 30% do time estará em suporte, espere queda no throughput/velocidade.
- Trate mudanças de time como “reset parcial” do histórico: entradas/saídas podem alterar a distribuição de entrega.
- Separe trabalho planejado de trabalho não planejado: registre interrupções para explicar variação e melhorar previsões.
Erro comum: usar velocidade como meta
Quando velocidade vira meta, surgem distorções: inflar pontos, fatiar artificialmente, reduzir qualidade para “fechar” mais pontos. Correção: velocidade é métrica de previsão, não de performance. Avalie performance por resultados (valor entregue, qualidade, satisfação, redução de risco) e use velocidade apenas para planejamento.
Técnicas rápidas de forecast para conversas com stakeholders
1) Forecast por “itens restantes” (quando não há pontos)
Se você tem 40 itens restantes e o throughput histórico varia entre 5 e 8 itens/semana, comunique: “Entre 5 e 8 semanas, com maior probabilidade em ~6–7 semanas”.
2) Forecast por “pontos restantes” (quando há pontos)
Se faltam 90 pontos e a velocidade típica varia entre 15 e 22 pontos/iteração, comunique: “Entre 5 e 6 iterações; mais provável 5, conservador 6”.
3) Forecast com escopo fixo vs escopo variável
- Escopo fixo: data vira variável (faixa de datas). Útil para compromissos regulatórios, contratos, eventos.
- Data fixa: escopo vira variável (faixa de escopo). Útil para janelas de mercado, campanhas, releases.
Uma forma prática de apresentar escopo variável é listar Must/Should/Could (sem repetir técnicas de priorização): “Must” entra com alta confiança; “Should” depende do cenário provável; “Could” apenas no cenário otimista.
Erros comuns de estimativas e previsões (e como corrigir)
| Erro | Como aparece | Correção prática |
|---|---|---|
| Tratar estimativa como promessa | “Você disse 3 pontos, então tem que terminar até sexta” | Trocar por forecast em faixa e revisar a cada período com dados reais |
| Ignorar variabilidade | Usar média única e comunicar uma data única | Usar P50/P85, cenários (provável/conservador) e premissas explícitas |
| Backlog com itens grandes | Previsões oscilam muito; itens “travados” por semanas | Fatiar para itens menores e mais homogêneos; usar T-shirt no alto nível |
| Misturar tipos de trabalho | Suporte e projeto no mesmo funil sem visibilidade | Separar classes e medir throughput por tipo; reservar capacidade para não planejado |
| Comparar velocidade entre times | “Time A faz 40 pontos, time B faz 20” | Não comparar; pontos são relativos ao time. Comparar por outcomes e qualidade |
| Reestimar para “bater” a data | Pontos diminuem sem mudança real | Manter tamanho estável; negociar escopo, capacidade ou data |
| Não registrar premissas | Discussões se repetem; previsões não melhoram | Registrar riscos e suposições junto ao item; revisar após entrega |
Checklist prático para uma previsão confiável
- Itens estão fatiados em tamanho consistente (ou classificados por tamanho)?
- Definição de concluído está clara para contar throughput/velocidade?
- Histórico suficiente (ideal: 8–12 períodos) e representativo do contexto atual?
- Capacidade do período considerada (férias, suporte, mudanças de time)?
- Faixa de previsão definida (P50/P85 ou provável/conservador)?
- Premissas e riscos explicitados para stakeholders?
- Revisão periódica do forecast com dados reais (cadência fixa)?