Escuta ativa e perguntas de aprofundamento na entrevista jornalística

Capítulo 7

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que é escuta ativa na entrevista jornalística

Escuta ativa é a habilidade de ouvir com intenção jornalística: captar o sentido literal do que foi dito e, ao mesmo tempo, identificar lacunas, termos vagos, mudanças de assunto e pontos que podem (e devem) ser verificados. Não é apenas “prestar atenção”; é ouvir para decidir a próxima pergunta com base em evidências, precisão e responsabilidade.

Na prática, a escuta ativa combina três ações simultâneas:

  • Compreender a afirmação (o que exatamente foi dito?).
  • Diagnosticar a qualidade da resposta (há evasiva, ambiguidade, generalização, contradição?).
  • Direcionar o aprofundamento (qual follow-up reduz a incerteza e produz informação utilizável?).

O que procurar enquanto a fonte fala (sinais de que você precisa aprofundar)

1) Evasivas

Ocorrem quando a fonte responde sem responder, desloca o foco ou “fala ao redor” do ponto central.

  • Marcadores comuns: “o importante é…”, “o que eu posso dizer é…”, “de modo geral…”, “não é bem assim…”, “vamos contextualizar…”.
  • Risco jornalístico: você sai com frases longas, mas sem informação verificável.

2) Ambiguidades

Termos que parecem claros, mas permitem múltiplas interpretações.

  • Exemplos: “medidas adequadas”, “valores significativos”, “melhoramos muito”, “houve falhas pontuais”.
  • Risco jornalístico: a citação fica bonita, porém imprecisa e difícil de checar.

3) Generalizações

Afirmações amplas sem delimitação de tempo, lugar, universo ou método.

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  • Exemplos: “sempre”, “nunca”, “todo mundo”, “a maioria”, “o setor inteiro”.
  • Risco jornalístico: você publica algo que pode ser contestado por falta de base.

4) Pontos verificáveis (pistas de checagem)

Qualquer elemento que possa ser confirmado por documentos, dados, registros, testemunhas ou cronologia.

  • Exemplos: números, datas, nomes, cargos, valores, locais, decisões, contratos, reuniões, mensagens, relatórios.
  • Oportunidade: transformar fala em informação sólida e atribuível.

Follow-ups: perguntas de aprofundamento que “amarram” a resposta

Follow-up é a pergunta construída a partir do que a fonte acabou de dizer, com o objetivo de reduzir vaguidão e aumentar verificabilidade. Em vez de trocar de assunto, você “segura” um ponto e o torna específico.

Tipos de follow-up (com modelos prontos)

  • Pedir exemplo concreto: “Você pode dar um exemplo específico de quando isso aconteceu?”
  • Pedir evidência/documento: “Que dados ou documentos sustentam essa afirmação?”
  • Quantificar: “Quando você diz ‘muitos’, estamos falando de quantos? Em que período?”
  • Delimitar tempo e local: “Isso ocorreu quando, exatamente? Em qual unidade/cidade?”
  • Pedir fonte/origem da informação: “De onde vem esse número? É de qual relatório ou sistema?”
  • Esclarecer responsabilidade: “Quem decidiu isso? Quem executou? Quem assinou?”
  • Base decisória: “Com base em quê essa decisão foi tomada? Quais critérios foram usados?”
  • Processo e cadeia de eventos: “Qual foi a sequência: o que aconteceu primeiro, depois e por último?”
  • Comparação verificável: “Melhorou em relação a qual indicador? Qual era o valor antes e qual é agora?”
  • Condições e exceções: “Em quais casos isso não se aplica? Há exceções?”

Passo a passo prático: como ouvir e aprofundar em tempo real

Passo 1 — Capture a afirmação central em uma frase

Enquanto a fonte fala, resuma mentalmente em uma frase curta. Isso evita que você se perca em justificativas e adjetivos.

Exemplo: A fonte fala por 40 segundos e você resume: “A prefeitura diz que reduziu a fila e que o sistema está estável.”

Passo 2 — Marque o tipo de problema (evasiva, ambiguidade, generalização, verificável)

Faça uma triagem rápida: o que impede essa fala de virar informação publicável e checável?

  • “reduziu a fila” → quantificação e período faltando
  • “sistema está estável” → ambiguidade (estável como?)

Passo 3 — Escolha um único alvo por vez

Evite follow-ups múltiplos na mesma pergunta. Se você perguntar “quantos, quando, onde e por quê” de uma vez, a fonte escolhe o que responder e você perde controle.

Modelo: uma pergunta = um objetivo de precisão.

Passo 4 — Use a técnica do “espelho + especificação”

Repita um trecho exato e peça precisão. Isso mostra que você ouviu e impede recuos.

Modelo: “Você disse ‘X’. O que significa X em termos de Y?”

Exemplo: “Você disse que ‘reduziu a fila’. Reduziu de quantas pessoas para quantas, e em qual período?”

Passo 5 — Peça base e rastreabilidade

Transforme afirmações em algo rastreável: documento, sistema, relatório, protocolo, ata, contrato, e-mail, registro.

Exemplo: “Esse número vem de qual relatório? Quem compila esses dados e com que frequência?”

Passo 6 — Confirme entendimento com uma paráfrase curta

Antes de avançar, valide o que foi entendido para evitar mal-entendidos e para “fixar” a informação.

Modelo: “Então, para ficar claro: [resumo]. Está correto?”

Passo 7 — Só então avance para a próxima camada

Depois de obter precisão, você pode seguir para responsabilidade, critérios e consequências.

Exemplo de sequência:

  • Quantificar → “De quantos para quantos?”
  • Delimitar → “Em qual período?”
  • Fonte → “De qual sistema/relatório?”
  • Responsável → “Quem definiu a meta e quem responde pelo indicador?”

Como construir a próxima pergunta usando o que foi dito (encadeamento)

O encadeamento é a habilidade de transformar a última resposta em um degrau para a próxima pergunta, mantendo coerência e pressão por precisão sem soar hostil. Três formas úteis:

1) Encadeamento por detalhe faltante

Você pega um ponto incompleto e completa.

Exemplo: “Você mencionou ‘falhas pontuais’. Quais falhas, em quais datas, e qual foi o impacto?”

2) Encadeamento por implicação

Você explora a consequência lógica do que foi dito.

Exemplo: “Se a fila caiu por causa do novo sistema, o que mudou no fluxo? Houve aumento de equipe, mudança de triagem ou ampliação de horário?”

3) Encadeamento por comparação

Você pede contraste com um marco anterior ou com outra fonte de referência.

Exemplo: “Você diz que está ‘estável’. Qual foi a taxa de indisponibilidade no último mês e como isso se compara ao mês anterior?”

Explorando contradições sem agressividade

Contradições podem surgir entre falas da própria fonte, entre diferentes momentos da entrevista, ou entre a fala e dados/documentos. O objetivo não é “pegar” a pessoa, e sim obter clareza e registro preciso.

Técnicas de abordagem

  • Contraste neutro: “Antes você disse X; agora disse Y. Como essas duas informações se encaixam?”
  • Pedido de reconciliação: “O que mudou entre aquele momento e agora para o cenário ser diferente?”
  • Hipótese aberta: “É possível que eu tenha entendido errado. Você pode explicar novamente a diferença entre X e Y?”
  • Linha do tempo: “Vamos organizar por datas: quando ocorreu A, quando ocorreu B e quando a decisão foi tomada?”

Exemplo prático (sem tom acusatório)

Fonte: “Não houve corte de verba.”

Depois: “Repriorizamos recursos e reduzimos algumas rubricas.”

Follow-up: “Para eu entender: quando você diz que não houve corte, você está falando do orçamento total? E ‘redução de rubricas’ significa que quais itens tiveram diminuição e de quanto?”

Como evitar perguntas que sugerem a resposta

Perguntas sugestivas embutem uma conclusão (“então foi erro”, “vocês sabiam e esconderam”, “isso é incompetência?”) e tendem a gerar defensividade, respostas ensaiadas ou negativas curtas. O foco é formular perguntas que abram espaço para fatos verificáveis, não para rótulos.

Trocas diretas: de sugestiva para investigativa

Pergunta sugestiva (evitar)Versão investigativa (preferir)
“Por que vocês ignoraram os alertas?”“Que alertas vocês receberam, em quais datas, e qual foi a decisão tomada após cada um?”
“Quem foi o culpado pelo atraso?”“Quais fatores levaram ao atraso e quem era responsável por cada etapa do cronograma?”
“Você admite que houve negligência?”“Quais protocolos existiam, quais foram seguidos e quais não foram? Quem validou o cumprimento?”
“Isso não foi maquiagem de números?”“Como os números foram calculados? Qual metodologia e quais bases de dados foram usadas?”

Checklist rápido antes de perguntar

  • Minha pergunta contém um adjetivo acusatório (“absurdo”, “irresponsável”, “maquiado”)? Se sim, troque por descrição factual.
  • Estou pedindo fatos (datas, números, documentos, responsáveis) ou pedindo opinião sobre um rótulo?
  • Há mais de um objetivo na mesma pergunta? Se sim, divida.

Roteiro de aprofundamento: perguntas curtas que destravam respostas vagas

Use como “cartões mentais” durante a entrevista. A ideia é ter frases curtas, repetíveis e neutras.

  • “Quando, exatamente?”
  • “Onde isso ocorreu?”
  • “Quantos casos foram?”
  • “Comparado a qual período?”
  • “Qual é a fonte desse dado?”
  • “Quem é responsável por essa etapa?”
  • “Quem tomou a decisão?”
  • “Com base em quais critérios?”
  • “Você pode me dar um exemplo específico?”
  • “O que você quer dizer com [termo]?”

Exercício guiado: transformar uma resposta em três follow-ups úteis

Resposta da fonte: “A gente melhorou muito o atendimento e os problemas foram pontuais.”

Diagnóstico: “melhorou muito” (ambíguo), “problemas pontuais” (ambíguo), falta de métrica e período.

Follow-up 1 (quantificação): “Em quais indicadores vocês medem ‘melhora’? Qual era o número antes e qual é agora?”

Follow-up 2 (delimitação temporal): “Essa melhora ocorreu a partir de quando? Em qual período vocês estão comparando?”

Follow-up 3 (exemplo + verificabilidade): “Quais foram os ‘problemas pontuais’? Em quais datas ocorreram e há registro ou relatório desses incidentes?”

Técnicas de anotação para escuta ativa (sem perder o fio)

Uma anotação eficiente ajuda a ouvir melhor, porque você reduz a ansiedade de “guardar tudo”. Em vez de transcrever, registre gatilhos de follow-up.

Método simples em duas colunas

O que a fonte disse (frase curta)O que falta / follow-up
“Reduzimos a fila”De X para Y? Quando? Fonte do dado?
“Foi decisão técnica”Quem decidiu? Critérios? Documento?
“Falhas pontuais”Quais falhas? Datas? Impacto?

Códigos rápidos (para marcar na hora)

  • Q = quantificar
  • D = data/delimitação temporal
  • F = fonte/documento
  • R = responsável/decisor
  • E = exemplo concreto
  • C = contradição a explorar

Exemplo: “melhoramos muito” → marque Q e D; “segundo relatórios internos” → marque F.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao ouvir uma resposta vaga durante uma entrevista, qual ação caracteriza melhor um follow-up baseado em escuta ativa?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Escuta ativa orienta follow-ups que reduzem vaguidão e aumentam verificabilidade. Repetir o que foi dito e pedir precisão (números, datas, locais, fontes e documentos) ajuda a transformar a fala em informação checável.

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