Silêncios, evasivas e resistência: manejo durante entrevistas jornalísticas

Capítulo 8

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que está em jogo: silêncio, evasiva e resistência

Em entrevistas jornalísticas, resistência é qualquer comportamento que dificulta a obtenção de informação verificável e atribuível: silêncio prolongado, respostas vagas, mudança de assunto, ataques ao entrevistador ou tentativas de impor condições. O objetivo do manejo não é “vencer” o entrevistado, e sim manter a pergunta no centro, registrar com precisão o que foi (ou não foi) respondido e preservar a civilidade para reduzir ruído e aumentar a chance de resposta útil.

Princípios práticos para manter o controle sem escalar conflito

  • Clareza e brevidade: intervenções curtas funcionam melhor sob tensão; frases longas abrem brechas para novas evasivas.
  • Uma pergunta por vez: perguntas múltiplas facilitam que o entrevistado escolha apenas a parte conveniente.
  • Repetição com variação: repetir a mesma pergunta com formulações diferentes reduz a chance de “não entendi” e expõe a evasiva.
  • Marcação de ausência de resposta: quando não há resposta, registre isso de forma neutra e verificável (sem adjetivos).
  • Tom estável: voz calma e ritmo controlado diminuem a probabilidade de hostilidade e ajudam a manter a entrevista utilizável.

Silêncio: quando a pausa é produtiva e quando é bloqueio

Silêncio pode ser uma ferramenta do entrevistado (para evitar compromisso) ou uma pausa legítima de reflexão. Em ambos os casos, o entrevistador pode usar a pausa de forma produtiva: não preencher imediatamente o vazio, observar linguagem corporal (em presencial) e manter a pergunta “no ar” por alguns segundos.

Como usar a pausa produtiva (passo a passo)

  1. Faça a pergunta e pare. Evite justificar a pergunta ou oferecer alternativas antes de ouvir a resposta.
  2. Conte mentalmente 5 a 8 segundos. Mantenha contato visual (presencial) ou silêncio firme (remoto), sem “hum-hum” excessivo.
  3. Se o silêncio continuar, ofereça um convite curto. Ex.: “Pode responder com sim ou não.”
  4. Se ainda não houver resposta, marque a ausência. Ex.: “Vou registrar que o senhor não respondeu.”
  5. Reformule uma vez. Ex.: “Pergunto de outro modo: o senhor autorizou o pagamento?”
  6. Se persistir, avance para a próxima pergunta relacionada. Isso evita travar a entrevista inteira e permite voltar depois.

Frases úteis para silêncio

  • “Vou esperar sua resposta.”
  • “Fique à vontade para pensar; a pergunta é objetiva.”
  • “Para ficar claro: é sim ou não?”
  • “Não houve resposta. Posso seguir para o próximo ponto?”

Respostas vagas: transformar generalidades em informação verificável

Respostas vagas costumam aparecer como abstrações (“sempre”, “nunca”, “a gente está trabalhando”), falta de números, ausência de responsáveis e de datas. O manejo consiste em pedir especificidade mínima: quem, o quê, quando, quanto, onde e com qual evidência.

Técnica de “ancoragem” (passo a passo)

  1. Identifique a parte vaga. Ex.: “o senhor disse ‘houve melhorias’.”
  2. Peça um dado concreto. Ex.: “Quais indicadores melhoraram?”
  3. Peça recorte temporal. Ex.: “Em que período?”
  4. Peça fonte/registro. Ex.: “Há relatório ou documento?”
  5. Feche com confirmação. Ex.: “Então foram X unidades entre março e junho, correto?”

Frases para cortar a vagueza sem agressividade

  • “Quando o senhor diz ‘muitos’, quantos exatamente?”
  • “Quem tomou essa decisão, nominalmente?”
  • “Qual foi a data?”
  • “O senhor pode citar um exemplo concreto?”
  • “Qual documento comprova isso?”

Exemplo rápido (vago → específico)

Resposta vagaIntervenção curtaResposta desejada
“Estamos apurando.”“Desde quando? Quem apura? Qual prazo?”Data de início, responsável, prazo e etapa atual.
“Foi dentro da lei.”“Qual artigo/ato normativo? Quem assinou?”Base legal citada e autoridade responsável.
“Não houve impacto.”“Qual métrica? Qual período comparado?”Métrica, período e método de comparação.

Mudança de assunto: como retomar o foco sem perder informação

Mudar de assunto pode ser uma fuga (desviar do ponto) ou uma tentativa de enquadrar a narrativa. O entrevistador pode reconhecer brevemente o desvio e voltar ao núcleo da pergunta, sem discutir a relevância do novo tema naquele momento.

Estratégia “ponte e retorno” (passo a passo)

  1. Reconheça em uma frase. “Entendo esse ponto.”
  2. Crie uma ponte curta. “Mas para esclarecer o fato…”
  3. Repita a pergunta original (ou o trecho central). “Quem autorizou o contrato?”
  4. Se insistir no desvio, delimite. “Vou voltar a isso depois; agora preciso da resposta sobre…”
  5. Se necessário, ofereça escolha fechada. “Foi antes ou depois de abril?”

Frases prontas para retomar o foco

  • “Vou voltar ao ponto da minha pergunta: …”
  • “Só para não ficar sem resposta: …”
  • “Entendo, mas isso não responde: …”
  • “O senhor pode responder objetivamente e depois detalhar?”
  • “Vou registrar sua observação; agora, sobre o fato X: …”

Ataques ao entrevistador: manter civilidade e proteger a entrevista

Ataques podem vir como desqualificação (“você é parcial”), provocação (“isso é perseguição”), ou tentativa de inverter papéis (“por que você não fala de…?”). A resposta eficaz é curta, neutra e volta ao conteúdo factual. Evite justificar intenções, discutir caráter ou entrar em disputa pessoal.

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Protocolo de desescalada (passo a passo)

  1. Não reaja no mesmo tom. Pausa breve, voz estável.
  2. Reafirme o objetivo em uma frase. “Estou pedindo esclarecimento sobre um fato.”
  3. Volte à pergunta. Repita o núcleo em uma linha.
  4. Se o ataque continuar, estabeleça limite. “Posso seguir se mantivermos respeito mútuo.”
  5. Se houver hostilidade persistente, encerre com segurança. Registre o motivo e finalize.

Frases para responder a ataques sem alimentar conflito

  • “Eu entendo sua discordância; minha pergunta é: …”
  • “Não vou entrar em avaliações pessoais. Sobre o fato: …”
  • “Para ficar claro ao público, preciso de uma resposta objetiva: …”
  • “Podemos continuar se mantivermos um tom respeitoso.”

Tentativas de impor condições: negociar sem comprometer a apuração

Condições podem incluir: “só respondo se você mostrar as perguntas”, “só se for ao vivo”, “sem gravar”, “apenas se eu aprovar a edição”, “isso é off”, “não cite meu nome”. O manejo depende do que é aceitável para o seu trabalho e do que já foi acordado. O ponto central é não aceitar, no calor do momento, termos que inviabilizem a publicação ou distorçam o registro.

Como responder a condições (passo a passo)

  1. Peça clareza. “Qual condição exatamente?”
  2. Responda com limite objetivo. “Não posso oferecer aprovação prévia do texto.”
  3. Ofereça alternativa viável. “Posso ler a frase atribuída para confirmar precisão, não para aprovar o conteúdo.”
  4. Reforce o registro. “A entrevista segue gravada para garantir fidelidade.”
  5. Se a condição for inaceitável, proponha pausa ou encerramento. “Sem gravação, não consigo prosseguir.”

Frases úteis para negociar condições

  • “Posso esclarecer o contexto, mas não posso prometer o resultado editorial.”
  • “Não há aprovação prévia; posso checar dados e grafias.”
  • “Se for ‘off’, preciso combinar antes da resposta. Esta pergunta está ‘on’.”
  • “Sem registro, eu não consigo garantir precisão. Prefere continuar gravado?”

Repetição de pergunta com variações: um método para quebrar a evasiva

Quando o entrevistado evita responder, repetir a pergunta com variações reduz ambiguidades e cria um trilho lógico. A chave é manter o mesmo núcleo factual, mudando a forma: aberta → fechada, geral → específica, opinião → fato, presente → linha do tempo.

Modelo de variações (do amplo ao fechado)

  • Versão aberta: “O que aconteceu na reunião de 12 de maio?”
  • Versão específica: “Nessa reunião, foi discutida a contratação da empresa X?”
  • Versão fechada: “Sim ou não: a empresa X foi aprovada nessa reunião?”
  • Versão de atribuição: “Quem propôs a contratação?”
  • Versão temporal: “A decisão foi antes ou depois do parecer técnico?”

Exemplo de sequência curta (3 tentativas)

Pergunta 1: “O senhor sabia do relatório antes da publicação?” (pausa)  Pergunta 2: “Pergunto objetivamente: alguém da sua equipe lhe mostrou o relatório antes?”  Pergunta 3: “Então é correto dizer que o senhor não teve acesso ao relatório antes da publicação?”

Marcação de ausência de resposta: como registrar sem editorializar

Quando não há resposta, o entrevistador precisa sinalizar isso de forma neutra, para que o registro seja fiel e utilizável. A marcação deve descrever o comportamento (não responder, desviar, condicionar) sem atribuir intenção (“fugiu”, “mentiu”, “se irritou”).

Formas neutras de marcar a não resposta

  • “O entrevistado não respondeu à pergunta sobre X.”
  • “Questionado sobre X, ele falou sobre Y e não informou Z.”
  • “Ele disse que só responderia se [condição], e não respondeu.”
  • “Repeti a pergunta duas vezes; não houve resposta objetiva.”

Checklist rápido antes de marcar

  • Você fez uma pergunta única e clara?
  • Você deu tempo para resposta (pausa)?
  • Você reformulou ao menos uma vez?
  • Você ofereceu opção fechada (quando aplicável)?
  • Você registrou a ausência com linguagem descritiva?

Encerramento com segurança em caso de hostilidade

Se a entrevista se torna hostil (ameaças, gritos, intimidação, perseguição física, tentativa de tomar equipamento), a prioridade é segurança. Encerrar não é “perder”: é preservar integridade, material coletado e a possibilidade de apuração posterior.

Protocolo de encerramento seguro (passo a passo)

  1. Sinalize o limite. “Nessas condições, não consigo continuar.”
  2. Registre o essencial. “Vou registrar que o senhor não respondeu à pergunta sobre X.”
  3. Finalize com frase curta. “Encerramos por aqui. Obrigado.”
  4. Saia do ambiente/encerre a chamada. Sem discutir, sem “última palavra”.
  5. Proteja o material. Salve/backup imediato quando possível.

Frases para encerrar sob hostilidade

  • “Vou encerrar a entrevista agora. Obrigado pelo seu tempo.”
  • “Não vou continuar com ofensas. Encerramos aqui.”
  • “Sem condições de respeito e segurança, eu encerro.”
  • “Registro que não houve resposta sobre X. Encerramos.”

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao lidar com uma resposta vaga em uma entrevista jornalística, qual abordagem melhor transforma generalidades em informação verificável sem escalar conflito?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A técnica recomendada é ancorar a fala: apontar o que está vago e pedir dados concretos, recorte temporal e fonte/registro, concluindo com confirmação. Isso aumenta a verificabilidade e reduz espaço para evasivas sem elevar o tom.

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Registro e segurança: gravação, anotações e organização de materiais de entrevista jornalística

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