O que está em jogo: silêncio, evasiva e resistência
Em entrevistas jornalísticas, resistência é qualquer comportamento que dificulta a obtenção de informação verificável e atribuível: silêncio prolongado, respostas vagas, mudança de assunto, ataques ao entrevistador ou tentativas de impor condições. O objetivo do manejo não é “vencer” o entrevistado, e sim manter a pergunta no centro, registrar com precisão o que foi (ou não foi) respondido e preservar a civilidade para reduzir ruído e aumentar a chance de resposta útil.
Princípios práticos para manter o controle sem escalar conflito
- Clareza e brevidade: intervenções curtas funcionam melhor sob tensão; frases longas abrem brechas para novas evasivas.
- Uma pergunta por vez: perguntas múltiplas facilitam que o entrevistado escolha apenas a parte conveniente.
- Repetição com variação: repetir a mesma pergunta com formulações diferentes reduz a chance de “não entendi” e expõe a evasiva.
- Marcação de ausência de resposta: quando não há resposta, registre isso de forma neutra e verificável (sem adjetivos).
- Tom estável: voz calma e ritmo controlado diminuem a probabilidade de hostilidade e ajudam a manter a entrevista utilizável.
Silêncio: quando a pausa é produtiva e quando é bloqueio
Silêncio pode ser uma ferramenta do entrevistado (para evitar compromisso) ou uma pausa legítima de reflexão. Em ambos os casos, o entrevistador pode usar a pausa de forma produtiva: não preencher imediatamente o vazio, observar linguagem corporal (em presencial) e manter a pergunta “no ar” por alguns segundos.
Como usar a pausa produtiva (passo a passo)
- Faça a pergunta e pare. Evite justificar a pergunta ou oferecer alternativas antes de ouvir a resposta.
- Conte mentalmente 5 a 8 segundos. Mantenha contato visual (presencial) ou silêncio firme (remoto), sem “hum-hum” excessivo.
- Se o silêncio continuar, ofereça um convite curto. Ex.: “Pode responder com sim ou não.”
- Se ainda não houver resposta, marque a ausência. Ex.: “Vou registrar que o senhor não respondeu.”
- Reformule uma vez. Ex.: “Pergunto de outro modo: o senhor autorizou o pagamento?”
- Se persistir, avance para a próxima pergunta relacionada. Isso evita travar a entrevista inteira e permite voltar depois.
Frases úteis para silêncio
- “Vou esperar sua resposta.”
- “Fique à vontade para pensar; a pergunta é objetiva.”
- “Para ficar claro: é sim ou não?”
- “Não houve resposta. Posso seguir para o próximo ponto?”
Respostas vagas: transformar generalidades em informação verificável
Respostas vagas costumam aparecer como abstrações (“sempre”, “nunca”, “a gente está trabalhando”), falta de números, ausência de responsáveis e de datas. O manejo consiste em pedir especificidade mínima: quem, o quê, quando, quanto, onde e com qual evidência.
Técnica de “ancoragem” (passo a passo)
- Identifique a parte vaga. Ex.: “o senhor disse ‘houve melhorias’.”
- Peça um dado concreto. Ex.: “Quais indicadores melhoraram?”
- Peça recorte temporal. Ex.: “Em que período?”
- Peça fonte/registro. Ex.: “Há relatório ou documento?”
- Feche com confirmação. Ex.: “Então foram X unidades entre março e junho, correto?”
Frases para cortar a vagueza sem agressividade
- “Quando o senhor diz ‘muitos’, quantos exatamente?”
- “Quem tomou essa decisão, nominalmente?”
- “Qual foi a data?”
- “O senhor pode citar um exemplo concreto?”
- “Qual documento comprova isso?”
Exemplo rápido (vago → específico)
| Resposta vaga | Intervenção curta | Resposta desejada |
|---|---|---|
| “Estamos apurando.” | “Desde quando? Quem apura? Qual prazo?” | Data de início, responsável, prazo e etapa atual. |
| “Foi dentro da lei.” | “Qual artigo/ato normativo? Quem assinou?” | Base legal citada e autoridade responsável. |
| “Não houve impacto.” | “Qual métrica? Qual período comparado?” | Métrica, período e método de comparação. |
Mudança de assunto: como retomar o foco sem perder informação
Mudar de assunto pode ser uma fuga (desviar do ponto) ou uma tentativa de enquadrar a narrativa. O entrevistador pode reconhecer brevemente o desvio e voltar ao núcleo da pergunta, sem discutir a relevância do novo tema naquele momento.
Estratégia “ponte e retorno” (passo a passo)
- Reconheça em uma frase. “Entendo esse ponto.”
- Crie uma ponte curta. “Mas para esclarecer o fato…”
- Repita a pergunta original (ou o trecho central). “Quem autorizou o contrato?”
- Se insistir no desvio, delimite. “Vou voltar a isso depois; agora preciso da resposta sobre…”
- Se necessário, ofereça escolha fechada. “Foi antes ou depois de abril?”
Frases prontas para retomar o foco
- “Vou voltar ao ponto da minha pergunta: …”
- “Só para não ficar sem resposta: …”
- “Entendo, mas isso não responde: …”
- “O senhor pode responder objetivamente e depois detalhar?”
- “Vou registrar sua observação; agora, sobre o fato X: …”
Ataques ao entrevistador: manter civilidade e proteger a entrevista
Ataques podem vir como desqualificação (“você é parcial”), provocação (“isso é perseguição”), ou tentativa de inverter papéis (“por que você não fala de…?”). A resposta eficaz é curta, neutra e volta ao conteúdo factual. Evite justificar intenções, discutir caráter ou entrar em disputa pessoal.
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Protocolo de desescalada (passo a passo)
- Não reaja no mesmo tom. Pausa breve, voz estável.
- Reafirme o objetivo em uma frase. “Estou pedindo esclarecimento sobre um fato.”
- Volte à pergunta. Repita o núcleo em uma linha.
- Se o ataque continuar, estabeleça limite. “Posso seguir se mantivermos respeito mútuo.”
- Se houver hostilidade persistente, encerre com segurança. Registre o motivo e finalize.
Frases para responder a ataques sem alimentar conflito
- “Eu entendo sua discordância; minha pergunta é: …”
- “Não vou entrar em avaliações pessoais. Sobre o fato: …”
- “Para ficar claro ao público, preciso de uma resposta objetiva: …”
- “Podemos continuar se mantivermos um tom respeitoso.”
Tentativas de impor condições: negociar sem comprometer a apuração
Condições podem incluir: “só respondo se você mostrar as perguntas”, “só se for ao vivo”, “sem gravar”, “apenas se eu aprovar a edição”, “isso é off”, “não cite meu nome”. O manejo depende do que é aceitável para o seu trabalho e do que já foi acordado. O ponto central é não aceitar, no calor do momento, termos que inviabilizem a publicação ou distorçam o registro.
Como responder a condições (passo a passo)
- Peça clareza. “Qual condição exatamente?”
- Responda com limite objetivo. “Não posso oferecer aprovação prévia do texto.”
- Ofereça alternativa viável. “Posso ler a frase atribuída para confirmar precisão, não para aprovar o conteúdo.”
- Reforce o registro. “A entrevista segue gravada para garantir fidelidade.”
- Se a condição for inaceitável, proponha pausa ou encerramento. “Sem gravação, não consigo prosseguir.”
Frases úteis para negociar condições
- “Posso esclarecer o contexto, mas não posso prometer o resultado editorial.”
- “Não há aprovação prévia; posso checar dados e grafias.”
- “Se for ‘off’, preciso combinar antes da resposta. Esta pergunta está ‘on’.”
- “Sem registro, eu não consigo garantir precisão. Prefere continuar gravado?”
Repetição de pergunta com variações: um método para quebrar a evasiva
Quando o entrevistado evita responder, repetir a pergunta com variações reduz ambiguidades e cria um trilho lógico. A chave é manter o mesmo núcleo factual, mudando a forma: aberta → fechada, geral → específica, opinião → fato, presente → linha do tempo.
Modelo de variações (do amplo ao fechado)
- Versão aberta: “O que aconteceu na reunião de 12 de maio?”
- Versão específica: “Nessa reunião, foi discutida a contratação da empresa X?”
- Versão fechada: “Sim ou não: a empresa X foi aprovada nessa reunião?”
- Versão de atribuição: “Quem propôs a contratação?”
- Versão temporal: “A decisão foi antes ou depois do parecer técnico?”
Exemplo de sequência curta (3 tentativas)
Pergunta 1: “O senhor sabia do relatório antes da publicação?” (pausa) Pergunta 2: “Pergunto objetivamente: alguém da sua equipe lhe mostrou o relatório antes?” Pergunta 3: “Então é correto dizer que o senhor não teve acesso ao relatório antes da publicação?”Marcação de ausência de resposta: como registrar sem editorializar
Quando não há resposta, o entrevistador precisa sinalizar isso de forma neutra, para que o registro seja fiel e utilizável. A marcação deve descrever o comportamento (não responder, desviar, condicionar) sem atribuir intenção (“fugiu”, “mentiu”, “se irritou”).
Formas neutras de marcar a não resposta
- “O entrevistado não respondeu à pergunta sobre X.”
- “Questionado sobre X, ele falou sobre Y e não informou Z.”
- “Ele disse que só responderia se [condição], e não respondeu.”
- “Repeti a pergunta duas vezes; não houve resposta objetiva.”
Checklist rápido antes de marcar
- Você fez uma pergunta única e clara?
- Você deu tempo para resposta (pausa)?
- Você reformulou ao menos uma vez?
- Você ofereceu opção fechada (quando aplicável)?
- Você registrou a ausência com linguagem descritiva?
Encerramento com segurança em caso de hostilidade
Se a entrevista se torna hostil (ameaças, gritos, intimidação, perseguição física, tentativa de tomar equipamento), a prioridade é segurança. Encerrar não é “perder”: é preservar integridade, material coletado e a possibilidade de apuração posterior.
Protocolo de encerramento seguro (passo a passo)
- Sinalize o limite. “Nessas condições, não consigo continuar.”
- Registre o essencial. “Vou registrar que o senhor não respondeu à pergunta sobre X.”
- Finalize com frase curta. “Encerramos por aqui. Obrigado.”
- Saia do ambiente/encerre a chamada. Sem discutir, sem “última palavra”.
- Proteja o material. Salve/backup imediato quando possível.
Frases para encerrar sob hostilidade
- “Vou encerrar a entrevista agora. Obrigado pelo seu tempo.”
- “Não vou continuar com ofensas. Encerramos aqui.”
- “Sem condições de respeito e segurança, eu encerro.”
- “Registro que não houve resposta sobre X. Encerramos.”