Escrita jornalística: clareza, precisão e estrutura de uma matéria

Capítulo 9

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Princípios de linguagem jornalística

Objetividade como método (não como neutralidade absoluta)

Em jornalismo, objetividade funciona como um método de trabalho: descrever o que foi apurado com base em evidências, separar fato de interpretação, indicar o que é estimativa e atribuir afirmações a quem as fez. Isso não significa “ausência total de escolhas” (toda matéria seleciona recortes), mas sim regras de escrita que reduzem distorções: precisão, transparência de fontes e linguagem verificável.

  • Fato verificável: “A prefeitura publicou o decreto no Diário Oficial às 8h.”
  • Interpretação (precisa ser sustentada): “A medida pode reduzir a circulação no centro, segundo urbanistas.”
  • Opinião (atribuir): “Para a associação comercial, a regra é ‘exagerada’.”

Frases claras: uma ideia por frase

Clareza vem de estrutura simples: sujeito + verbo + complemento. Evite “frases-cobra” com muitas orações e parênteses. Se você precisa respirar no meio, provavelmente precisa dividir.

  • Preferir: frases curtas (em média 15–25 palavras), com ordem direta.
  • Evitar: excesso de adjetivos, abstrações (“questão”, “cenário”, “problemática”) e construções passivas desnecessárias.

Verbos fortes e específicos

Verbos genéricos (“fazer”, “realizar”, “colocar”, “ocorrer”) enfraquecem a informação. Troque por verbos que indiquem ação concreta e verificável.

GenéricoMais forte e específico
“A empresa fez um anúncio.”“A empresa anunciou…”
“O acidente ocorreu na rodovia.”“O carro capotou na rodovia…”
“O governo colocou novas regras.”“O governo publicou novas regras…”
“O projeto foi aprovado.”“A Câmara aprovou o projeto.”

Números contextualizados (o número sozinho não informa)

Número sem contexto vira ruído ou pode induzir erro. Sempre que possível, responda: comparado a quê? em que período? qual a base? qual o impacto?

  • Base e universo: “30% de aumento” de quê? Em relação a qual mês? Em qual cidade?
  • Escala: “R$ 2 milhões” é muito ou pouco no orçamento total?
  • Proporção: “3 casos” em um universo de 10 mil ou de 30?
  • Período: “neste ano” (qual recorte?) vs. “nos últimos 12 meses”.

Exemplo: em vez de “A fila aumentou 40%”, prefira “A fila passou de 500 para 700 pessoas em um mês (alta de 40%), segundo a secretaria”.

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Termos definidos e precisão de linguagem

Termos vagos (“muitos”, “vários”, “em breve”, “alta”, “crise”) pedem definição. Quando a definição não for possível, explique o limite: “não há dados consolidados” ou “o órgão não informou”.

  • Evite: “muitos moradores reclamaram”.
  • Prefira: “ao menos 18 moradores registraram reclamações na ouvidoria entre 2 e 10 de maio”.
  • Se não houver número: “moradores ouvidos pela reportagem relatam…” (deixe claro o método e o alcance).

Estruturas comuns de uma matéria

Pirâmide invertida (mais usada em hard news)

Organiza a matéria do mais importante para o menos importante. Ajuda o leitor a entender rapidamente e permite cortes sem perder o essencial.

  • Topo: o que aconteceu + onde + quando + quem + consequência imediata.
  • Meio: detalhes relevantes, contexto, números, reações, explicações.
  • Base: histórico mínimo, informações complementares, próximos passos.

Narrativa cronológica (quando a sequência é a notícia)

Útil para eventos com encadeamento claro (operação policial, acidente, audiência, apagão). O risco é “demorar para chegar ao ponto”. Para evitar isso, abra com um lead que já entregue o fato principal e depois reconstrua a linha do tempo.

  • Passo 1: lead com o fato central e o desfecho parcial.
  • Passo 2: sequência de eventos com horários, locais e ações.
  • Passo 3: pontos de incerteza (o que ainda não se sabe) e próximos passos.

Explicativa por blocos (serviço e contexto)

Boa para temas complexos (mudança de regra, impacto econômico, saúde pública). Divide o texto em blocos com subtítulos que respondem perguntas do leitor.

  • O que mudou?
  • Quem é afetado?
  • Quando começa a valer?
  • Como funciona na prática?
  • O que dizem os envolvidos?
  • O que ainda falta esclarecer?

Lead e sublead: como construir

O que é lead

Lead é o primeiro parágrafo que entrega o essencial. Ele deve permitir que alguém entenda a notícia mesmo lendo só esse trecho.

Checklist do lead (prático)

  • Fato principal: qual é a novidade?
  • Quem: instituição/pessoa com nome e cargo quando relevante.
  • O quê: ação concreta (verbo forte).
  • Onde e quando: com precisão.
  • Impacto: quem muda de vida com isso? qual consequência imediata?
  • Fonte do dado: “segundo…”, “de acordo com…”, quando a informação depende de documento/declaração.

Modelos de lead (com exemplos)

1) Lead direto (hard news)

A Câmara de Porto Alegre aprovou nesta terça-feira (12) um projeto que aumenta em 15% a tarifa de táxi na cidade, com vigência a partir de 1º de junho, segundo o texto publicado no site do Legislativo.

Por que funciona: verbo forte (“aprovou”), data, impacto (tarifa), número contextualizado (15%) e vigência.

2) Lead com dado (quando o número é a notícia)

O número de furtos de celulares no centro de Belo Horizonte subiu de 820 para 1.140 casos entre janeiro e março (alta de 39%), segundo dados da Polícia Civil obtidos pela reportagem.

Por que funciona: traz base e período, evita “aumentou muito”.

3) Lead com contraste (quando há mudança)

Após três meses de restrições, o governo estadual liberou a visitação em parques a partir de sábado (20), mas manteve limite de 50% da capacidade, de acordo com decreto publicado no Diário Oficial.

Por que funciona: mostra o que muda e o que permanece.

O que é sublead

Sublead é o segundo parágrafo (ou a sequência imediata) que completa o lead: adiciona contexto, explica o “como” e antecipa as próximas informações (reação, justificativa, consequências, controvérsia).

Passo a passo: do lead ao sublead

  1. Escreva o lead com o fato principal e o impacto.
  2. Liste 3 perguntas que o leitor fará em seguida (ex.: “por quê?”, “quanto custa?”, “quem é contra?”).
  3. Responda 1 ou 2 no sublead com dados e atribuição.
  4. Prepare a ponte para o próximo bloco (reação, explicação técnica, histórico mínimo).

Exemplo (sublead): A proposta foi aprovada por 22 votos a 14 e, segundo a relatoria, o reajuste busca compensar a alta do combustível. Entidades de consumidores criticaram a medida e pediram auditoria nos custos.

Citações e atribuições: uso correto

Quando citar literalmente

Use aspas quando a frase tem valor próprio: é precisa, controversa, revela posição, traz termo técnico importante ou tem impacto público. Se a fala é longa ou repetitiva, prefira paráfrase fiel.

Regras práticas de atribuição

  • Atribua cedo: o leitor precisa saber quem fala antes de aceitar a afirmação.
  • Identifique: nome + cargo + instituição (quando relevante).
  • Evite “aspas órfãs”: não deixe citação sem autor claro.
  • Não “melhore” a fala: corrija apenas vícios que atrapalhem a compreensão, sem mudar sentido. Se precisar ajustar, faça por paráfrase.
  • Separe fato de versão: “disse”, “afirmou”, “alegou” (use “alegou” quando houver contestação ou ausência de prova).

Verbos de citação (nuance importa)

VerboQuando usar
disse / afirmoudeclaração direta, sem indicar julgamento
explicouquando há esclarecimento de procedimento/causa
negouresposta a acusação ou suspeita
admitiureconhecimento de algo desfavorável (use com cuidado)
alegouquando é versão que não está comprovada ou é contestada

Exemplos comentados (citação vs. paráfrase)

Exemplo A (melhor com aspas)

“Não há risco de desabastecimento”, disse a diretora da companhia, Maria Silva.

Comentário: afirmação categórica e verificável depois; vale preservar a literalidade.

Exemplo B (melhor em paráfrase)

O secretário afirmou que o cronograma deve ser concluído até agosto e que a equipe foi reforçada.

Comentário: informação operacional; aspas não acrescentariam valor.

Reescrita e edição: exercícios práticos

Exercício 1 — Reduzir jargões e burocratês

Objetivo: trocar termos vagos por ações concretas e linguagem comum, sem perder precisão.

Passo a passo

  1. Sublinhe palavras abstratas (ex.: “viabilizar”, “otimizar”, “demandas”, “tratativas”).
  2. Pergunte: qual é a ação real? (ex.: “pagar”, “abrir”, “cortar”, “contratar”, “publicar”).
  3. Reescreva com sujeito claro (quem faz) e verbo forte.
  4. Cheque se o sentido original foi mantido.

Texto original

A secretaria realizou tratativas para viabilizar a implementação de melhorias com foco na otimização do atendimento à população.

Reescrita sugerida

A secretaria negociou mudanças para reduzir o tempo de espera no atendimento, segundo o órgão.

Comentário: “realizou tratativas” vira “negociou”; “otimização do atendimento” vira efeito concreto (“reduzir o tempo de espera”). Mantém atribuição.

Exercício 2 — Cortar redundâncias e “enchimento”

Objetivo: remover repetições e expressões que não acrescentam informação.

Passo a passo

  1. Corte intensificadores vazios (“muito”, “extremamente”) quando não houver medida.
  2. Remova duplicações (“planejar antecipadamente”, “consenso geral”).
  3. Troque locuções longas por palavras simples (“em virtude de” → “por”).
  4. Releia buscando a mesma informação com menos palavras.

Texto original

O novo projeto foi aprovado por unanimidade de todos os vereadores presentes na sessão realizada na noite de ontem.

Reescrita sugerida

O projeto foi aprovado por unanimidade na sessão de ontem à noite.

Comentário: “de todos” é redundante; “realizada” é dispensável; mantém tempo.

Exercício 3 — Tornar números compreensíveis

Objetivo: adicionar base, período e comparação.

Texto original

O hospital registrou aumento de 25% nos atendimentos.

Reescrita sugerida (modelo)

O hospital passou de 4.000 para 5.000 atendimentos por mês entre março e abril (alta de 25%), segundo a direção.

Comentário: o leitor agora sabe “25% de quê” e em qual recorte.

Exercício 4 — Lead fraco para lead forte

Objetivo: colocar o fato principal e o impacto no topo, com atribuição.

Lead fraco

Em uma reunião realizada nesta terça-feira, autoridades discutiram medidas importantes para a segurança na cidade.

Problemas

  • Não diz qual medida, nem qual mudança prática.
  • “Importantes” é avaliação sem evidência.
  • Não há impacto, números, prazo ou decisão.

Lead reescrito (exemplo)

A prefeitura vai instalar 120 novas câmeras em áreas de maior registro de furtos até julho, segundo o secretário de Segurança, após reunião nesta terça-feira (12).

Comentário: ação concreta, número, prazo, atribuição e contexto mínimo.

Checklist de edição antes de publicar

  • O lead responde ao essencial sem rodeios?
  • Há verbos fortes e sujeitos claros (quem fez o quê)?
  • Números têm base, período e fonte?
  • Termos vagos foram definidos ou atribuídos?
  • Citações estão atribuídas e são necessárias?
  • Ordem: o mais importante está antes do detalhe?
  • Coerência: nomes, cargos, datas e unidades estão consistentes?

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao escrever um lead de hard news, qual combinação de elementos torna o primeiro parágrafo mais informativo e alinhado à escrita jornalística?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Um lead eficaz entrega o essencial logo no início: fato principal, quem/o quê com verbo forte, onde e quando, impacto e atribuição. Isso favorece clareza, precisão e permite que o leitor entenda a notícia rapidamente.

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Títulos, chamadas e olhos no jornalismo: como sintetizar sem distorcer

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