Escalas e Medidas na Carta: distância, unidades e nível de detalhe

Capítulo 3

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que é escala e por que ela muda a forma de navegar

Escala é a relação entre uma distância medida na carta e a distância real no terreno (ou no mar). Ela determina dois pontos essenciais para a navegação: quanto detalhe aparece e quão confiável é medir pequenas distâncias/posições. Em termos práticos, a escala define se você está olhando um “panorama” (útil para planejamento) ou um “zoom” (útil para manobras, aproximações e navegação costeira/portuária).

Escala numérica (representativa)

A escala numérica aparece como uma razão do tipo 1:500 000. Isso significa que 1 unidade na carta equivale a 500 000 unidades na realidade (na mesma unidade). Exemplos rápidos:

  • 1:50 000 → 1 cm na carta = 50 000 cm na realidade = 500 m
  • 1:250 000 → 1 cm na carta = 2,5 km
  • 1:1 000 000 → 1 cm na carta = 10 km

Regra mental útil: quanto maior o denominador (500 000, 1 000 000…), menor a escala e menos detalhe.

Escala gráfica (barra de escala)

A escala gráfica é uma barra graduada (por exemplo, em milhas náuticas e/ou quilômetros) impressa na carta. Ela é especialmente útil quando:

  • você está usando uma cópia impressa que pode ter sido ampliada/reduzida (a escala numérica pode deixar de ser válida, mas a barra “encolhe/expande” junto);
  • você quer converter rapidamente distâncias sem fazer contas.

Boa prática: sempre que possível, confira a distância pela escala gráfica quando houver suspeita de impressão fora do tamanho original.

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Pequena, média e grande escala: o que muda no nível de detalhe

As expressões “pequena escala” e “grande escala” costumam confundir porque não se referem ao tamanho físico do papel, e sim ao nível de redução do mundo real para caber na carta.

Tipo de cartaExemplo de escalaO que você ganhaO que você perde
Pequena escala1:1 000 000 (ou menor)Grande área coberta; visão geral para planejamentoPouco detalhe; medir pequenas distâncias fica impreciso
Média escala1:250 000 a 1:500 000 (aprox.)Equilíbrio entre cobertura e detalheNem sempre mostra obstáculos/recortes finos; limita manobras detalhadas
Grande escala1:50 000 a 1:100 000 (aprox.)Alto detalhe; melhor para navegação costeira, aproximações e áreas complexasCobre área menor; exige mais folhas/cartas para rotas longas

Impacto direto na navegação

  • Planejamento de rota longa: uma carta de pequena escala ajuda a enxergar alternativas, grandes restrições e o “corredor” geral.
  • Execução em área complexa: uma carta de grande escala reduz ambiguidades (curvas de costa, canais, detalhes de relevo/obstáculos, áreas restritas pequenas).
  • Risco de usar escala inadequada: detalhes podem simplesmente não existir na carta (não é “erro”; é generalização cartográfica). Isso afeta decisões como distância de segurança, pontos de referência e estimativas de tempo.

Unidades de distância usadas na navegação

Milha náutica (NM)

A milha náutica é a unidade mais comum em navegação marítima e aeronáutica. Aproximações úteis:

  • 1 NM = 1,852 km
  • 10 NM ≈ 18,52 km

Por que ela é prática em cartas: a milha náutica se relaciona diretamente com a medida angular da Terra, e muitas cartas permitem medir NM usando a graduação de latitude.

Quilômetro (km)

O quilômetro é comum em contextos terrestres e em algumas cartas/legendas. Conversão rápida:

  • 1 km ≈ 0,54 NM
  • 100 km ≈ 54 NM

Milha estatutária (SM) — quando aplicável

A milha estatutária (usada em alguns contextos terrestres e em materiais específicos) vale:

  • 1 SM = 1,609 km
  • 1 SM ≈ 0,87 NM

Se a carta ou o procedimento mencionar SM, confirme a unidade antes de medir e registrar distâncias para evitar erros de ~15% em relação à NM.

Como medir distâncias na carta: métodos e passo a passo

Você pode medir distâncias com régua, compasso de pontas secas (dividers) e/ou usando a escala gráfica. Em muitas cartas, também é possível usar a referência de latitude para converter diretamente em milhas náuticas.

Método 1: régua + escala numérica (com conversão)

Quando usar: quando você tem uma régua e a escala numérica está confiável (carta no tamanho original).

Passo a passo:

  1. Meça a distância entre os dois pontos na carta (por exemplo, em cm).
  2. Use a escala 1:N para converter: distância real = distância na carta × N.
  3. Converta unidades para km ou NM conforme necessário.

Exemplo: carta 1:250 000. Você mediu 3,2 cm entre dois pontos. Distância real = 3,2 × 250 000 cm = 800 000 cm = 8 000 m = 8 km. Em NM: 8 km ÷ 1,852 ≈ 4,32 NM.

Método 2: régua/compasso + escala gráfica (recomendado)

Quando usar: quase sempre, especialmente se houver chance de impressão ampliada/reduzida.

Passo a passo com régua:

  1. Meça a distância na carta com a régua.
  2. Transfira essa medida para a barra de escala gráfica (alinhando o “zero”).
  3. Leia diretamente o valor em NM ou km.

Passo a passo com compasso:

  1. Ajuste o compasso abrindo as pontas exatamente entre os dois pontos da rota.
  2. Sem alterar a abertura, leve o compasso até a escala gráfica.
  3. Conte quantas divisões completas cabem e leia a fração restante.

Dica prática: o compasso costuma ser mais preciso do que a régua em cartas com muitos detalhes, porque você “captura” a distância sem depender de alinhamento visual ao longo de uma linha.

Método 3: compasso + referência de latitude (milhas náuticas)

Quando usar: para medir em milhas náuticas usando a graduação de latitude na borda da carta (muito comum em cartas náuticas e também aplicável em cartas com grade/graduação apropriada).

Ideia central: 1 minuto de latitude = 1 milha náutica. Assim, a escala de latitude na margem permite ler NM diretamente.

Passo a passo:

  1. Capture a distância entre os pontos com o compasso.
  2. Leve o compasso até a borda lateral (ou onde estiver a graduação de latitude).
  3. Escolha a latitude mais próxima da área onde você está medindo (para manter consistência visual e reduzir erro de leitura).
  4. Conte os minutos (e frações) entre as pontas do compasso na escala de latitude: o número lido é a distância em NM.

Atenção: use a escala de latitude para distância, não a de longitude. A longitude varia com a latitude e pode induzir erro se usada como “régua” universal.

Medindo rotas com curvas, pernas múltiplas e desvios

Rotas reais raramente são uma linha reta única. Para medir uma rota com várias pernas:

  • Quebre a rota em segmentos (pernas) entre pontos de mudança de rumo.
  • Meça cada perna separadamente (compasso + escala gráfica ou latitude).
  • Some as distâncias para obter o total.

Para trajetos curvos (por exemplo, acompanhando costa/canal):

  • aproxime a curva por vários segmentos curtos e some;
  • ou use uma régua flexível/linha (se disponível) e depois compare com a escala gráfica.

Erros comuns e como evitá-los

  • Confundir unidade: registrar NM como km (ou vice-versa). Solução: anote sempre a unidade junto do número (ex.: 12,5 NM).
  • Usar escala numérica em impressão redimensionada: a conta fica “certa”, mas o resultado fica errado. Solução: priorize a escala gráfica.
  • Medir na longitude: usar minutos de longitude como se fossem NM. Solução: use minutos de latitude.
  • Exigir detalhe que a carta não oferece: tentar navegar “no fino” em carta de pequena escala. Solução: trocar para carta de maior escala na área crítica.

Atividades práticas (com registro de resultados)

Atividade 1 — Medição de rota curta (precisão e detalhe)

Objetivo: perceber como a escala influencia a leitura de detalhes e a precisão de uma rota curta.

  1. Escolha dois pontos próximos em uma área com recortes/detalhes (ex.: entrada de baía, trecho costeiro complexo ou área com muitos elementos).
  2. Meça a distância em NM usando compasso + latitude (ou escala gráfica).
  3. Meça novamente em km usando a escala gráfica (se houver).
  4. Registre em uma tabela: distância (NM), distância (km), método usado.
TrechoMétodoDistância (NM)Distância (km)Observações
A → BCompasso + latitudeDetalhes que ajudaram/atrapalharam
A → BEscala gráficaDiferença percebida

Atividade 2 — Medição de rota longa (planejamento)

Objetivo: medir uma rota longa e praticar soma de pernas.

  1. Defina uma rota com 3 a 6 pernas (pontos intermediários).
  2. Meça cada perna com compasso e leia na escala gráfica.
  3. Some as pernas e registre o total em NM e km.
  4. Compare o total com uma medição “reta” (origem direto ao destino) e anote a diferença.

Atividade 3 — Comparação entre escalas diferentes (mesma rota)

Objetivo: observar como a mesma rota pode mudar de comprimento medido dependendo do nível de generalização.

  1. Escolha uma rota que exista em duas cartas de escalas diferentes (ex.: uma de média escala e outra de grande escala).
  2. Meça a mesma rota nas duas cartas, usando o mesmo método (preferencialmente compasso + escala gráfica).
  3. Registre os valores e calcule a diferença percentual: (diferença ÷ valor da grande escala) × 100.
  4. Anote quais detalhes aparecem na grande escala e não aparecem na média/pequena (curvas, recortes, desvios, áreas estreitas).

Atividade 4 — Reconhecer quando a carta não é adequada

Objetivo: treinar o “diagnóstico” de insuficiência de detalhe.

  1. Observe uma área operacionalmente crítica (ex.: passagem estreita, proximidade de costa, área com muitos elementos próximos).
  2. Responda (por escrito) às perguntas abaixo com base no que a carta mostra:
  • Consigo identificar com clareza os limites e referências necessárias para manter uma margem de segurança?
  • Os detalhes relevantes estão representados ou parecem “simplificados” demais?
  • Se eu precisar ajustar a rota em poucos minutos, a carta oferece pontos suficientes para reposicionamento rápido?

Critério prático: se você precisa tomar decisões com base em detalhes menores do que a espessura de uma linha ou do que a separação mínima entre símbolos na carta, você provavelmente precisa de uma carta de maior escala para essa fase da navegação.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao suspeitar que uma carta impressa foi ampliada ou reduzida, qual prática é mais adequada para medir distâncias com precisão?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Em impressões redimensionadas, a escala numérica pode ficar inválida. A escala gráfica encolhe/expande junto com a carta, permitindo ler distâncias corretamente ao transferir a medida para a barra.

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