Conceitos essenciais: rumo, proa, azimute e rumo de trajetória
Ao trabalhar com cartas aeronáuticas e náuticas, é comum ver termos parecidos que, na prática, descrevem coisas diferentes: a direção para a qual o veículo aponta, a direção para a qual ele se desloca e a direção medida entre dois pontos. Separar esses conceitos evita erros de navegação e de registro.
Rumo (Course)
Rumo é a direção planejada a ser seguida sobre a carta, normalmente expressa em graus a partir do Norte (0° a 360°), no sentido horário. Em navegação marítima, “rumo” costuma ser o valor que você pretende manter (por exemplo, no piloto automático) para ir de um ponto a outro, considerando a rota planejada.
- Na carta: é a direção da linha traçada entre dois pontos (linha de rumo/rota).
- No registro: aparece como
RV(rumo verdadeiro) ouRM(rumo magnético), dependendo da referência usada.
Proa (Heading)
Proa é a direção para a qual a aeronave/embarcação está apontando (o “nariz” do veículo). Ela pode ser diferente do rumo/trajectória por causa de vento (aviação) ou corrente (marítimo), que empurram o veículo lateralmente.
- Aviação: proa é o que você voa (heading) para compensar o vento e manter uma trajetória desejada.
- Navegação marítima: proa é o ângulo do eixo do barco em relação ao Norte; pode diferir do rumo de trajetória por corrente e abatimento.
Azimute (Bearing)
Azimute
- Azimute verdadeiro (AzV): medido em relação ao Norte verdadeiro.
- Azimute magnético (AzM): medido em relação ao Norte magnético.
Rumo de trajetória (Track)
Rumo de trajetória (ou simplesmente trajetória, track) é a direção real do movimento sobre o solo/água (o caminho efetivo). É o que um GPS mostraria como “course over ground” (COG) ou “track”.
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- Aviação: trajetória (track) pode diferir da proa por vento.
- Marítimo: trajetória pode diferir da proa por corrente e abatimento.
| Termo | O que descreve | “Pergunta” que responde |
|---|---|---|
| Proa | Para onde o veículo aponta | “Para onde estou apontando?” |
| Rumo (planejado) | Direção planejada na carta | “Que direção eu quero seguir no plano?” |
| Trajetória (track) | Direção real do deslocamento | “Para onde estou realmente indo?” |
| Azimute | Direção de um ponto/objeto em relação a outro | “Em que direção está o alvo/ponto?” |
Direções verdadeiras e magnéticas: como a carta “fala” com a bússola
Direções podem ser referidas ao Norte verdadeiro (geográfico) ou ao Norte magnético (indicado pela bússola magnética, sujeito à variação magnética). Em cartas, você encontrará uma rosa dos ventos/diagrama (na náutica) ou informações de variação magnética (na aviação e náutica) que permitem converter entre verdadeiro e magnético.
Variação magnética (declinação): leitura e sinal
Variação magnética é o ângulo entre o Norte verdadeiro e o Norte magnético em uma região. Ela é indicada como E (leste) ou W (oeste) e pode vir acompanhada de uma taxa anual de mudança.
- Variação Leste (E): o Norte magnético está a leste do Norte verdadeiro.
- Variação Oeste (W): o Norte magnético está a oeste do Norte verdadeiro.
Regra prática de conversão (muito usada em navegação básica):
- Para ir de Verdadeiro para Magnético: subtraia variação E e some variação W.
- Para ir de Magnético para Verdadeiro: some variação E e subtraia variação W.
Em forma de fórmula (com sinal): considere variação Var positiva para E e negativa para W. Então:
Direção Magnética = Direção Verdadeira - VarExemplo: se Var = +7° (E), então M = T - 7°. Se Var = -10° (W), então M = T - (-10°) = T + 10°.
Onde encontrar a variação na carta
- Carta náutica: normalmente há uma rosa dos ventos com anéis graduados (verdadeiro e magnético) e a indicação da variação (e ano de referência).
- Carta aeronáutica: a variação pode aparecer em notas/margens, em isógonas (linhas de igual variação) ou em informações do produto cartográfico.
Ao usar a rosa/diagrama, confirme se o anel externo está em verdadeiro e o interno em magnético (ou vice-versa), pois isso varia conforme o padrão da carta.
Como medir e traçar direções na carta (passo a passo)
Ferramentas mais comuns
- Transferidor/plotter: mede ângulos diretamente sobre a carta, alinhando com meridianos (linhas Norte–Sul).
- Régua paralela: transfere uma direção (linha) até uma rosa dos ventos ou até um meridiano para leitura do ângulo.
- Triângulos de navegação: alternativa à régua paralela; dois triângulos permitem “caminhar” uma direção até a borda/rosa para leitura.
Traçar um rumo entre dois pontos (linha de rumo)
Objetivo: desenhar a linha que liga o ponto A ao ponto B e obter o rumo verdadeiro (e depois o magnético).
Marque os pontos A e B na carta (ex.: saída e destino, ou dois pontos de referência).
Trace a linha A–B com lápis fino e régua (linha reta). Essa é a linha de rumo (rota planejada).
Meça o ângulo em relação ao Norte verdadeiro:
- Com plotter: alinhe a base do plotter com a linha A–B e gire até que as linhas de referência do plotter fiquem paralelas a um meridiano (N–S) próximo. Leia o ângulo.
- Com régua paralela: alinhe a régua com a linha A–B; sem girar, “caminhe” com a régua até a rosa dos ventos (ou até um meridiano bem definido). Leia o ângulo no anel verdadeiro.
- Com triângulos: alinhe um triângulo com a linha A–B, encoste o segundo para formar uma “ponte” e deslize o conjunto até a rosa/meridiano. Leia o ângulo.
Registre o rumo verdadeiro como
RV 123°T(ou123°V, conforme seu padrão). Use sempre três dígitos (ex.: 005°, 090°, 275°).Converta para rumo magnético usando a variação da carta e registre como
RM 116°M(ou116°M).
Medir um azimute (direção de um ponto para um objeto)
Objetivo: obter a direção do ponto A para o ponto B (por exemplo, do seu ponto estimado até um farol/boia).
Trace uma linha reta de A até B.
Meça o ângulo dessa linha em relação ao Norte (verdadeiro ou magnético, conforme necessidade).
Registre como
AzV 045°ouAzM 038°. Se for relevante, acrescente “para” (TO) ou “de” (FROM) no seu caderno de navegação, pois a direção inversa difere em 180°.
Direção inversa (recíproca): útil em retornos e alinhamentos
Se você tem uma direção D, a direção recíproca é:
- Se
D < 180°, entãoDrec = D + 180° - Se
D ≥ 180°, entãoDrec = D - 180°
Exemplo: 065° recíproco 245°. 210° recíproco 030°.
Registro padronizado: como anotar para evitar ambiguidade
Uma boa prática é registrar sempre: tipo de direção + valor + referência + (se aplicável) origem/destino.
RV 132°T (A→B)RM 125°M (A→B)ProaM 128°M(proa magnética)TrajV 134°T(trajetória verdadeira)AzV 040° (A→Farol X)
Padronização recomendada:
- Use três dígitos (ex.:
007°,090°). - Indique T (true/verdadeiro) ou M (magnetic/magnético).
- Se estiver trabalhando com mais de uma direção no mesmo trecho, escreva explicitamente Proa, Rumo, Trajetória e Azimute.
Exemplos práticos de conversão: verdadeiro ↔ magnético
Exemplo 1: variação Leste (E)
Na rosa/diagrama da carta consta: Var 7°E.
- Dado:
RV = 120°T - Converter para magnético:
RM = 120° - 7° = 113°M
Checagem rápida: com variação Leste, o valor magnético tende a ficar menor que o verdadeiro.
Exemplo 2: variação Oeste (W)
Na carta consta: Var 10°W.
- Dado:
RV = 120°T - Como W equivale a variação negativa:
Var = -10° RM = 120° - (-10°) = 130°M
Checagem rápida: com variação Oeste, o valor magnético tende a ficar maior que o verdadeiro.
Exemplo 3: de magnético para verdadeiro
Na carta consta: Var 6°E.
- Dado:
RM = 084°M - Converter para verdadeiro:
RV = RM + 6° = 090°T
Exemplo 4: normalização para 0–360
Na carta consta: Var 12°W. Dado RV = 355°T.
RM = 355° - (-12°) = 367°- Normalize:
367° - 360° = 007°M
Exercícios de traçado de linhas de rumo (com gabarito numérico)
Faça os exercícios em uma carta impressa (aeronáutica ou náutica) usando lápis e uma das ferramentas (plotter, régua paralela ou triângulos). Como os pontos variam conforme a carta que você tiver em mãos, os exercícios abaixo usam um modelo genérico: você criará dois pontos na sua carta e aplicará o método. O gabarito numérico refere-se à conversão (que independe do ponto), e não ao ângulo específico do seu traçado.
Exercício 1 — Traçar e registrar um rumo verdadeiro e magnético
Escolha dois pontos visíveis na sua carta (A e B) separados por uma distância confortável (ex.: 10 a 30 milhas na náutica, ou um trecho curto na aeronáutica).
Trace a linha A→B.
Meça o rumo verdadeiro na carta e anote como
RV ___°T (A→B).Leia a variação magnética indicada na carta (ex.:
Var 8°E).Converta e registre
RM ___°M (A→B).
Gabarito (conversão): se Var 8°E, então RM = RV - 8°. Se Var 8°W, então RM = RV + 8°.
Exercício 2 — Direção recíproca e dupla anotação
Use o mesmo trecho A→B do exercício 1.
Calcule a direção recíproca (B→A) em verdadeiro:
RVrec.Converta também para magnético:
RMrec.Registre em duas linhas:
RV ___°T (A→B)eRV ___°T (B→A)RM ___°M (A→B)eRM ___°M (B→A)
Gabarito (recíproca): some/subtraia 180° e normalize para 0–360.
Exercício 3 — Azimute para um ponto de referência
Marque um ponto A (sua posição estimada) e escolha um objeto/cartografia marcante B (ex.: farol/boia na náutica; um ponto notável/auxílio na aviação, se estiver na carta).
Trace A→B e meça o azimute verdadeiro
AzV.Converta para azimute magnético
AzMusando a variação.Registre:
AzV ___° (A→B)eAzM ___° (A→B).
Exercício 4 — Conferência por dois métodos (plotter vs. paralela/triângulos)
Escolha um novo par de pontos C e D.
Meça o rumo verdadeiro por um método (ex.: plotter) e anote.
Meça novamente por outro método (ex.: régua paralela ou triângulos) e compare.
Se houver diferença, verifique: alinhamento com meridiano, leitura do anel correto (T vs M), e se a régua “caminhou” sem girar.