Erros comuns de precificação na hotelaria que reduzem lucro: diagnóstico e correção

Capítulo 12

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

O que são “erros de precificação” (e por que eles derrubam o lucro)

Erros comuns de precificação na hotelaria raramente aparecem como “tarifa errada” de forma óbvia. Eles surgem como decisões repetidas (ou esquecimentos) que fazem a diária parecer competitiva, mas deixam dinheiro na mesa ou criam custos invisíveis. O diagnóstico é identificar o padrão (o erro), observar sinais de alerta (indicadores e sintomas operacionais) e aplicar um procedimento simples de correção, com regras que evitem a recorrência.

Erro 1: Copiar o concorrente automaticamente (sem checar contexto)

Como o erro acontece

O hotel replica a tarifa do concorrente “porque está vendendo”, sem validar diferenças de produto, localização, reputação, mix de canais, políticas e demanda real do próprio hotel. O resultado pode ser: tarifa baixa demais (perde margem) ou alta demais (perde volume), além de decisões reativas.

Sinais de alerta (indicadores e sintomas)

  • Indicadores: ADR cai sem melhora proporcional de ocupação; RevPAR estagna; aumento de cancelamentos quando sobe preço “junto” com o mercado; variação de tarifa muito frequente sem plano.
  • Sintomas operacionais: equipe diz “o concorrente baixou, precisamos baixar”; mudanças de preço diárias sem registro do motivo; reclamações de hóspedes sobre “não vale o que custa” em datas específicas.

Procedimento de correção (passo a passo)

  1. Defina 3–5 concorrentes comparáveis por tipo de quarto e política (ex.: com café, com cancelamento grátis, mesma categoria).
  2. Crie uma tabela de comparação por cenário: dia de semana, fim de semana, feriado/evento, baixa temporada.
  3. Registre o “porquê” do ajuste em um log simples (data, mudança, motivo, canal).
  4. Use uma regra de posicionamento (ex.: “ficar entre -5% e +10% do concorrente A em dias normais, e acima dele em datas de alta demanda quando a ocupação projetada passar de X%”).
  5. Teste por 2 semanas e compare: ocupação, ADR, cancelamentos e participação por canal.
Exemplo de regra simplesAplicação
Se ocupação projetada < 40% para D+14, ajustar tarifa para ficar até 5% abaixo do concorrente líder (mesma política).Evita ficar caro demais em baixa demanda.
Se ocupação projetada > 70% para D+7, subir tarifa em degraus (ex.: +5% a cada 10 pontos de ocupação).Evita vender barato quando a demanda já está forte.

Erro 2: Ignorar custos variáveis na decisão diária (limpeza, lavanderia, amenities, energia)

Como o erro acontece

O hotel aplica descontos ou aceita tarifas baixas sem considerar que cada quarto ocupado gera custos variáveis. Em períodos de baixa, pode parecer “melhor vender barato do que vazio”, mas a venda pode não cobrir o custo incremental e ainda aumentar desgaste operacional.

Sinais de alerta (indicadores e sintomas)

  • Indicadores: aumento de ocupação com caixa apertado; crescimento de despesas operacionais por UO (unidade ocupada); margem por canal piora quando entra promoção.
  • Sintomas operacionais: governança sobrecarregada em dias de tarifa baixa; compras emergenciais (amenities/lavanderia); reclamações por queda de padrão em picos de ocupação “barata”.

Procedimento de correção (passo a passo)

  1. Liste os custos variáveis por diária ocupada (limpeza, lavanderia, amenities, comissões variáveis, utilidades proporcionais, café da manhã por hóspede quando aplicável).
  2. Calcule um “piso operacional”: tarifa mínima por canal que cubra custo variável + margem mínima desejada.
  3. Crie um bloqueio de tarifa: nenhuma promoção pode ficar abaixo do piso operacional daquele canal.
  4. Revise o piso quando houver reajuste de fornecedores (lavanderia, energia, alimentos).
Piso operacional (exemplo simplificado) = Custo variável por UO + Margem mínima por UO + Comissões/fees do canal

Erro 3: Dar desconto sem regra (desconto “no balcão”, “para fechar”, “porque pediu”)

Como o erro acontece

Descontos são concedidos sem critérios claros, virando padrão. Isso treina o cliente a pedir desconto, reduz a percepção de valor e cria inconsistência entre canais e turnos.

Sinais de alerta (indicadores e sintomas)

  • Indicadores: diferença grande entre tarifa publicada e tarifa média efetiva; aumento de reservas diretas com ADR menor que OTAs; queda de ADR em dias de alta procura.
  • Sintomas operacionais: cada recepcionista “tem um preço”; hóspedes reclamam que “ontem estava mais barato”; conflitos entre reservas e recepção sobre valores prometidos.

Procedimento de correção (passo a passo)

  1. Defina uma política de desconto por motivo (ex.: antecipação, longa estadia, baixa demanda, corporativo com contrato).
  2. Crie limites: desconto máximo por cenário e quem aprova (ex.: até 5% recepção; 6–10% gerente; acima disso, não permitido).
  3. Troque desconto por benefício quando possível (ex.: upgrade sujeito à disponibilidade, late check-out) para proteger ADR.
  4. Padronize scripts para equipe: como responder pedido de desconto oferecendo alternativas.
  5. Audite semanalmente reservas com desconto manual e registre motivo.
Pedido do hóspedeResposta padronizada (exemplo)
“Consegue melhorar o preço?”“Posso verificar a melhor condição disponível. Hoje temos a tarifa X com cancelamento Y. Se preferir, posso oferecer a opção não reembolsável com Z% de desconto.”

Erro 4: Manter tarifa única o ano todo (sem variação por demanda real)

Como o erro acontece

O hotel mantém uma tarifa “fixa” por simplicidade, perdendo receita em alta demanda e ficando caro em baixa demanda. O problema não é ter poucas tarifas, e sim não ter gatilhos de ajuste.

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Sinais de alerta (indicadores e sintomas)

  • Indicadores: alta ocupação com ADR “travado” em feriados; baixa ocupação em meses fracos com tarifa igual à média anual; picos de overbooking em datas específicas e quartos vazios em outras.
  • Sintomas operacionais: equipe “não sabe” por que está lotado; hóspedes dizem “estava barato para feriado” ou “caro para terça-feira”.

Procedimento de correção (passo a passo)

  1. Separe o ano em 3–5 períodos práticos (ex.: baixa, média, alta, eventos/feriados).
  2. Defina 2–3 níveis de tarifa por tipo de quarto (ex.: Base, Flex, Premium) e associe cada nível a gatilhos de ocupação/antecedência.
  3. Crie um calendário de exceções (eventos locais, feriados, datas de alta procura recorrentes).
  4. Implemente degraus: quando a ocupação projetada atingir X%, subir para o próximo nível.
Exemplo de degraus (ilustrativo): 0–39% = Nível 1 | 40–69% = Nível 2 | 70–84% = Nível 3 | 85%+ = Nível 4

Erro 5: Pacotes mal calculados (café, jantar, passeio, estacionamento) que “comem” a diária

Como o erro acontece

O pacote é montado somando itens “de prateleira” sem checar custo real, capacidade operacional e impostos/fees aplicáveis. Às vezes o pacote vende bem, mas a margem é menor do que a tarifa simples.

Sinais de alerta (indicadores e sintomas)

  • Indicadores: pacote tem alta conversão, mas o lucro por reserva é menor; aumento de consumo de insumos sem aumento proporcional de receita; reclamações de qualidade quando o pacote inclui serviços terceirizados.
  • Sintomas operacionais: restaurante/cozinha não dá conta nos dias de pacote; falta de controle de vouchers; equipe não sabe o que está incluído.

Procedimento de correção (passo a passo)

  1. Liste cada componente do pacote e seu custo unitário real (inclua perdas e taxas de terceiros).
  2. Defina a “margem mínima do pacote” e compare com a margem da tarifa simples.
  3. Escolha o objetivo do pacote: aumentar ocupação em baixa demanda, aumentar ticket médio, diferenciar produto. Um pacote não precisa ser “barato”; precisa ser atrativo e rentável.
  4. Simule 3 cenários: 1 adulto, 2 adultos, família (se aplicável), e diferentes durações.
  5. Padronize a entrega: checklists operacionais (o que incluir, quando entregar, como registrar consumo).
Armadilha comumCorreção prática
Incluir jantar “para 2” sem limitar cardápioDefinir menu do pacote ou crédito com teto (ex.: até R$ X por pessoa)
Incluir estacionamento sem checar lotaçãoVincular à disponibilidade e prever alternativa (convênio) ou precificar como “crédito”

Erro 6: Restrições mal aplicadas (min stay, fechamento, CTA/CTD) que bloqueiam receita

Como o erro acontece

Restrições são aplicadas “por padrão” ou copiadas de outros períodos, causando buracos de ocupação, impedindo entradas/saídas estratégicas e reduzindo a conversão em canais importantes.

Sinais de alerta (indicadores e sintomas)

  • Indicadores: queda de conversão em datas específicas; aumento de buscas sem reserva (look-to-book baixo); “buracos” no calendário (ex.: terça vazia entre segunda e quarta cheias); muitas reservas de 1 noite em datas onde o hotel queria 2+ (ou o oposto).
  • Sintomas operacionais: recepção recebe ligações “não consigo reservar 1 noite”; equipe de reservas faz exceções manuais; reclamações de hóspedes sobre regras confusas.

Procedimento de correção (passo a passo)

  1. Mapeie o problema no calendário: quais datas estão com baixa conversão e quais regras estavam ativas.
  2. Defina o objetivo da restrição (ex.: proteger fim de semana, reduzir trocas de quarto, evitar estadias curtas em alta demanda).
  3. Aplique restrição apenas onde há evidência: datas de pico e janelas específicas, não o mês inteiro.
  4. Crie uma regra de revisão: se a ocupação projetada não atingir X% até D-7, relaxar min stay ou remover fechamento.
  5. Teste A/B por período (quando possível): um fim de semana com min stay 2 vs. sem min stay, medindo receita total e “buracos” gerados.

Erro 7: Esquecer comissões, taxas do canal e impostos ao comparar tarifas

Como o erro acontece

O hotel compara tarifas “cheias” entre canais, mas não compara o valor líquido. Assim, pode parecer que um canal está “vendendo bem”, quando na prática entrega menos lucro do que outro. Também ocorre ao criar promoções sem embutir corretamente taxas e impostos aplicáveis.

Sinais de alerta (indicadores e sintomas)

  • Indicadores: aumento de participação de OTAs com queda de lucro; discrepância entre ADR e receita líquida; promoções que “funcionam” em volume, mas pioram o resultado do mês.
  • Sintomas operacionais: financeiro aponta diferença entre faturamento e repasse; dificuldade de conciliar extratos; equipe decide preço olhando apenas a tarifa pública.

Procedimento de correção (passo a passo)

  1. Crie uma planilha de “tarifa líquida por canal” com: tarifa vendida, comissão/fee, impostos aplicáveis, custo de transação (quando houver).
  2. Defina um piso líquido: valor mínimo que precisa sobrar após comissões e impostos.
  3. Recalibre promoções por canal: um mesmo desconto percentual pode ter impacto muito diferente no líquido.
  4. Padronize a comparação: decisões de ajuste devem usar sempre o líquido estimado, não apenas o preço exibido.
Tarifa líquida estimada = Tarifa vendida - Comissão/fee do canal - Impostos aplicáveis - Custos de transação

Checklist de auditoria mensal (tarifas e políticas) para evitar recorrência

Use esta lista uma vez por mês (e sempre antes de feriados/eventos). Marque OK, Ajustar ou Investigar e registre ações com responsável e prazo.

1) Coerência e lógica de preços

  • Existe log de mudanças de tarifa com motivo (demanda, evento, ocupação projetada)?
  • Há degraus claros de ajuste (gatilhos) para subir/descer tarifa?
  • As diferenças entre tipos de quarto fazem sentido (ex.: categoria superior sempre acima da inferior)?
  • Há datas com tarifa “travada” que deveriam estar em nível mais alto/baixo?

2) Descontos e exceções

  • Descontos manuais foram registrados com motivo e aprovador?
  • Percentual de reservas com desconto manual está dentro do limite definido?
  • Existe consistência entre turnos/equipe (mesma regra, mesma resposta)?
  • Benefícios (upgrade/late check-out) estão sendo usados como alternativa ao desconto quando possível?

3) Pacotes

  • Custo real de cada item do pacote foi revisado (fornecedores, perdas, terceirizados)?
  • Margem do pacote é igual ou superior à margem mínima definida?
  • Regras do pacote estão claras (o que inclui, limites, horários, como entregar)?
  • Capacidade operacional (cozinha, estacionamento, parceiros) suporta o volume vendido?

4) Restrições e regras de venda

  • Min stay/fechamentos estão aplicados apenas nas datas necessárias (não “por hábito”)?
  • Existem “buracos” no calendário causados por restrições?
  • Há regra de relaxamento automático/manual quando a ocupação projetada não atinge o alvo até D-7/D-3?
  • Conversão caiu em datas específicas após aplicar restrições?

5) Canais, comissões e impostos

  • Planilha de tarifa líquida por canal está atualizada (comissões, fees, impostos)?
  • Promoções por canal respeitam o piso líquido?
  • Mix de canais mudou no mês? Isso melhorou ou piorou o líquido?
  • Conciliação financeira de repasses e comissões está batendo com o vendido?

6) Sinais rápidos de “alarme” (investigar imediatamente)

  • Ocupação subiu, mas o resultado do mês piorou.
  • ADR caiu em semanas de alta procura.
  • Pacote vende muito e gera reclamações operacionais.
  • Muitas ligações dizendo “não consigo reservar” em datas específicas.
  • Diferença grande entre tarifa publicada e tarifa efetiva por causa de descontos manuais.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao comparar tarifas entre canais (como site direto e OTAs), qual prática ajuda a evitar o erro de analisar apenas o preço exibido e acabar reduzindo o lucro?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Decisões baseadas apenas na tarifa pública ignoram comissões, taxas e impostos. Ao usar a tarifa líquida por canal, o hotel compara o que realmente sobra e evita promoções que aumentam volume, mas reduzem o resultado.

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