Como usar este capítulo
Os erros abaixo aparecem com frequência em empresas pequenas e em fase de organização. Para cada um, você verá: o que é, consequências e um plano de correção dividido em: ação imediata (hoje), ajuste de processo (rotina) e indicador de acompanhamento (para não voltar a errar).
Erro 1: Misturar contas (empresa e pessoa)
O que é
Usar a conta bancária, cartão ou dinheiro do caixa da empresa para pagar gastos pessoais (e o contrário), sem registro e sem regra. Mesmo quando “vai devolver depois”, a mistura distorce números e decisões.
Consequências comuns
- Você não sabe quanto a empresa realmente gera e consome de dinheiro.
- Fica difícil identificar se o negócio é sustentável ou se está sendo “bancado” pelo dono.
- Risco de atrasos em contas da empresa por saques pessoais inesperados.
Plano de correção
- Ação imediata: defina uma data de corte (ex.: a partir de amanhã) e pare de pagar despesas pessoais com recursos da empresa. Se já houver mistura, registre como retirada do sócio (ou empréstimo do sócio, se for o caso) para “dar nome” ao que aconteceu.
- Ajuste de processo: crie uma regra simples: toda retirada do sócio precisa ter categoria e motivo, e ocorrer em dia fixo (ex.: toda 2ª feira ou dia 5). Se houver reembolso (ex.: sócio pagou algo da empresa), faça por procedimento: comprovante + lançamento + reembolso em data definida.
- Indicador: % de transações sem categoria (meta: 0%) e número de retiradas fora do dia combinado (meta: 0 ou limite definido).
Erro 2: Não registrar tudo (ou registrar “quando der”)
O que é
Deixar pagamentos, recebimentos, taxas, pequenos gastos e reembolsos fora do controle. O problema não é só “falta de planilha”; é falta de completude e disciplina de registro.
Consequências comuns
- Diferença entre saldo do banco e saldo “no controle”.
- Decisões baseadas em achismo (comprar, contratar, investir, parcelar).
- Perda de dinheiro por cobranças duplicadas, assinaturas esquecidas e taxas invisíveis.
Passo a passo prático (para fechar a semana sem buracos)
- Baixe o extrato bancário e do cartão do período (ex.: segunda a domingo).
- Liste todas as movimentações em uma tabela (data, descrição, valor, tipo, categoria, centro de custo).
- Marque o que não tem comprovante e peça/recupere (nota, recibo, print).
- Classifique tudo. Se não souber a categoria, crie uma provisória “A CLASSIFICAR” e resolva em até 48h.
- Concilie: o total do controle precisa bater com o extrato.
Plano de correção
- Ação imediata: faça um “mutirão” de 60–90 minutos para registrar os últimos 7 dias e conciliar com extrato.
- Ajuste de processo: defina uma rotina curta: registrar diariamente (5–10 min) e conciliar semanalmente (30 min). Padronize categorias e proíba “outros” sem revisão.
- Indicador: taxa de conciliação = (transações conciliadas / transações do extrato) (meta: 100% semanal) e itens em “A CLASSIFICAR” (meta: 0 em 48h).
Erro 3: Confundir lucro com caixa
O que é
Achar que “se entrou dinheiro, deu lucro” ou que “se não tem dinheiro no banco, a empresa está no prejuízo”. Caixa é momento (quando entra/sai). Lucro é resultado (receitas menos custos/despesas do período), mesmo que parte ainda não tenha sido paga/recebida.
Consequências comuns
- Retirar dinheiro em meses com caixa alto, mas resultado fraco (ou com contas futuras grandes).
- Ficar sem dinheiro para pagar obrigações porque vendeu muito no prazo.
- Tomar decisões erradas de preço e de crescimento.
Plano de correção
- Ação imediata: crie duas visões separadas no seu controle: resultado do mês (competência) e movimentação de caixa (entradas/saídas). Mesmo que simples, não misture.
- Ajuste de processo: toda semana, revise: (1) contas a receber (com datas) e (2) contas a pagar (com datas). Todo mês, feche um resumo de resultado e compare com a variação do caixa para entender a diferença (prazo, estoque, impostos, parcelas).
- Indicador: cobertura de caixa = caixa disponível / saídas previstas dos próximos 30 dias (meta: definir mínimo, ex.: ≥ 1,0) e prazo médio de recebimento (acompanhar tendência).
Erro 4: Não separar impostos (tratar como “dinheiro da empresa”)
O que é
Receber vendas e usar o dinheiro inteiro, esquecendo que uma parte pertence ao governo (impostos sobre faturamento, guias, retenções). O imposto vira “surpresa” quando vence.
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Consequências comuns
- Atrasos, multas e juros.
- Necessidade de empréstimo para pagar imposto.
- Estresse no caixa em meses de maior faturamento.
Plano de correção
- Ação imediata: crie uma “reserva de impostos” separada (subconta, poupança, cofre digital ou conta distinta). Ao receber, transfira um percentual definido (mesmo que provisório) para essa reserva.
- Ajuste de processo: defina um gatilho: toda entrada de venda gera transferência automática/manual para a reserva. Mantenha um calendário de vencimentos e revise semanalmente se a reserva cobre as guias do mês.
- Indicador: cobertura de impostos = saldo da reserva / impostos previstos do mês (meta: ≥ 1,0) e número de guias pagas em atraso (meta: 0).
Erro 5: Parcelar sem controle (compras e vendas)
O que é
Fazer compras parceladas no cartão/fornecedor e vender parcelado para clientes sem mapear o impacto nas próximas semanas/meses. O problema não é parcelar; é parcelar sem enxergar o compromisso futuro.
Consequências comuns
- “Bola de neve” de parcelas que consome o caixa.
- Falsa sensação de folga no mês atual e sufoco nos próximos.
- Margem corroída por juros embutidos e antecipações.
Passo a passo prático (mapa de parcelas em 15 minutos)
- Liste todas as parcelas a pagar (cartões, fornecedores, empréstimos): valor e mês de vencimento.
- Liste todas as parcelas a receber (clientes, plataformas, boletos): valor e mês de recebimento.
- Some por mês:
parcelas a receber - parcelas a pagar. - Se algum mês ficar negativo, congele novas parcelas e renegocie prazos antes de comprar/vender mais.
Plano de correção
- Ação imediata: crie um quadro simples “Parcelas futuras” (próximos 6 meses) e preencha com o que já existe.
- Ajuste de processo: estabeleça regra de aprovação: toda compra parcelada só pode ocorrer se o mês de maior compromisso ainda respeitar uma folga mínima de caixa. Para vendas parceladas, defina limite de prazo e entrada mínima.
- Indicador: comprometimento do caixa futuro = parcelas a pagar dos próximos 60 dias / média de entradas dos últimos 60 dias (meta: definir teto) e número de novas parcelas sem aprovação (meta: 0).
Erro 6: Retirar dinheiro sem pró-labore (ou sem regra)
O que é
Fazer retiradas aleatórias conforme a necessidade pessoal, sem valor fixo, sem data e sem previsão. Isso impede a empresa de se planejar e cria instabilidade.
Consequências comuns
- Caixa imprevisível e atrasos em contas.
- Dificuldade de medir se a empresa sustenta o dono de forma saudável.
- Conflitos entre sócios (quando existe mais de um).
Plano de correção
- Ação imediata: defina um valor provisório de pró-labore para os próximos 30 dias e uma data fixa de retirada. Se precisar de extra, registre como “retirada extraordinária” e justifique.
- Ajuste de processo: crie uma política: pró-labore fixo + distribuição variável (se houver) condicionada a metas (ex.: caixa mínimo, impostos reservados, contas do mês pagas). Formalize em um documento simples.
- Indicador: número de retiradas extraordinárias (meta: reduzir mês a mês) e caixa mínimo após pró-labore (meta: nunca abaixo do piso definido).
Erro 7: Não cobrar clientes (ou cobrar tarde)
O que é
Vender e não acompanhar vencimentos, não enviar lembretes, ter vergonha de cobrar ou não ter um processo de cobrança. Cobrança é parte do serviço e protege o caixa.
Consequências comuns
- Aumento de inadimplência e atrasos.
- Mais tempo gasto “apagando incêndio” no financeiro.
- Necessidade de capital de giro para cobrir o buraco.
Passo a passo prático (cobrança em 3 etapas)
- Antes do vencimento: lembrete automático/manual 3 dias antes com valor, data e forma de pagamento.
- No vencimento: mensagem objetiva confirmando se o pagamento foi realizado e reenviando o link/boleto.
- Após vencimento: régua de cobrança (D+1, D+3, D+7) com registro do contato e próxima ação (renegociar, suspender entrega, protesto/negativação quando aplicável).
Plano de correção
- Ação imediata: gere uma lista de contas a receber vencidas e a vencer nos próximos 7 dias e execute a cobrança hoje (com script curto e educado).
- Ajuste de processo: implemente uma régua de cobrança fixa e defina responsável. Padronize condições: entrada, multa/juros (quando aplicável), e política de suspensão de serviço/entrega.
- Indicador: % de recebimentos em dia e valor vencido (total e por faixa: 1–7, 8–30, >30 dias). Meta: reduzir o vencido e aumentar o em dia.
Erro 8: Ignorar taxas (cartão, antecipação, marketplace, banco)
O que é
Não considerar taxas de adquirência, antecipação, tarifas bancárias, comissões de plataformas e custos de transação. Elas “somem” no extrato e corroem margem sem você perceber.
Consequências comuns
- Preço que parece bom, mas dá margem menor do que o esperado.
- Escolha ruim de meios de pagamento (vender muito no canal errado).
- Surpresas no recebimento líquido e no caixa.
Passo a passo prático (mapa de taxas por canal)
- Liste os canais de venda/pagamento (PIX, boleto, cartão, marketplace etc.).
- Para cada canal, registre: taxa percentual, taxa fixa, prazo de recebimento e custo de antecipação (se usar).
- Calcule o líquido em um exemplo real (ex.: venda de R$ 200):
líquido = valor - taxas - antecipação. - Compare canais e ajuste regras: incentivar o canal mais eficiente quando fizer sentido.
Plano de correção
- Ação imediata: identifique no extrato as taxas dos últimos 30 dias e crie uma categoria específica “Taxas financeiras” para registrar tudo.
- Ajuste de processo: revise mensalmente o relatório da adquirente/plataforma e negocie taxas quando houver volume. Defina quando antecipar é permitido (ex.: só para cobrir pico de caixa, com limite).
- Indicador: taxas sobre vendas = total de taxas do mês / total vendido no mês (meta: acompanhar e reduzir) e prazo médio de recebimento por canal (acompanhar para evitar dependência de antecipação).
Modelo de tabela para aplicar (use no seu controle)
| Erro | Ação imediata (hoje) | Ajuste de processo (rotina) | Indicador (meta) |
|---|---|---|---|
| Misturar contas | Parar a partir da data de corte e registrar retiradas | Dia fixo para retiradas e regra de reembolso | % sem categoria = 0% |
| Não registrar tudo | Registrar e conciliar últimos 7 dias | Registro diário + conciliação semanal | Conciliação semanal = 100% |
| Lucro x caixa | Separar visão de resultado e caixa | Revisão semanal de a pagar/receber | Cobertura de caixa ≥ mínimo |
| Impostos | Criar reserva e transferir percentual | Gatilho por venda + revisão de vencimentos | Reserva/previsto ≥ 1,0 |
| Parcelas | Mapa de parcelas 6 meses | Regra de aprovação e limites | Comprometimento futuro ≤ teto |
| Sem pró-labore | Valor e data fixos por 30 dias | Política: fixo + variável com condições | Extraordinárias em queda |
| Não cobrar | Régua nos vencidos e próximos 7 dias | Régua padrão + política de suspensão | % em dia subindo |
| Ignorar taxas | Mapear taxas 30 dias e categorizar | Revisão mensal e regra de antecipação | Taxas/vendas em queda |