Por que envolver as equipes na identificação e validação
O envolvimento das equipes é o método de organizar a participação de trabalhadores e lideranças para identificar perigos e confirmar (validar) se o Mapa de Riscos representa a realidade da área. Na prática, isso significa combinar percepções de quem executa o trabalho com evidências observáveis (condições do ambiente, tarefas reais, registros e ocorrências), transformando tudo em um mapa que seja compreendido, aceito e usado no dia a dia.
Quando a equipe participa, o mapa tende a ficar mais preciso (menos “achismos”), mais útil (aponta o que realmente interfere no trabalho) e mais sustentável (as pessoas reconhecem o que foi registrado e ajudam a manter atualizado).
Roteiro de participação: do convite à validação do que será exibido
Visão geral do fluxo
- Preparar: definir áreas, agenda, participantes e materiais.
- Reuniões rápidas por área: alinhar objetivo, coletar percepções e priorizar pontos para observar.
- Caminhada de segurança guiada: observar o trabalho e o ambiente, registrando evidências.
- Consolidar e tratar divergências: organizar registros, checar evidências e documentar discordâncias.
- Validação: confirmar com a área o que será exibido no mapa (conteúdo e forma de comunicação).
1) Preparação (antes de envolver a área)
Objetivo: garantir que a participação seja rápida, respeitosa e baseada em fatos.
- Defina o escopo da rodada: qual área/setor será trabalhado, quais turnos e quais atividades serão observadas (incluindo variações como setup, limpeza, manutenção, troca de turno).
- Escolha participantes: inclua quem executa a tarefa, liderança imediata e apoio técnico quando aplicável.
- Separe materiais: planta simples da área (ou croqui), prancheta/planilha, caneta, celular/câmera (se permitido), EPIs necessários para a visita, lista de verificação de observação.
- Combine regras de condução (ver seção “Regras para garantir qualidade”).
Dica prática: planeje sessões curtas e repetíveis. É melhor fazer 3 rodadas de 30–40 minutos em horários diferentes do que uma reunião longa que não pega a realidade do trabalho.
2) Reuniões rápidas por área (15–25 minutos)
Objetivo: coletar percepções, identificar pontos críticos e preparar a caminhada guiada.
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Formato sugerido: em pé, no próprio setor (quando seguro), com no máximo 8–12 pessoas por rodada. Se a equipe for maior, faça mais de uma rodada.
- Abertura (2–3 min): explique que a atividade é para representar riscos e condições reais, sem caça a culpados.
- Coleta de percepções (8–12 min): pergunte e registre em linguagem simples. Exemplos de perguntas úteis:
- “Em quais momentos do dia o trabalho fica mais arriscado?”
- “Quais tarefas mudam muito (variam) e por quê?”
- “Onde já aconteceu quase-acidente ou incidente?”
- “O que costuma falhar: equipamento, processo, organização, comunicação?”
- “Quais controles existem e quando não funcionam?”
- Priorizar o que observar (3–5 min): escolha 3–5 pontos para a caminhada (locais e tarefas).
- Combinar a caminhada (2–3 min): definir trajeto, duração, quem acompanha, e cuidados (não interromper operação crítica, respeitar áreas restritas).
Registro recomendado: use uma tabela simples com colunas: “tarefa/local”, “percepção do risco”, “evidência a verificar”, “observações”. Isso ajuda a transformar opinião em hipótese verificável.
3) Caminhada de segurança guiada (20–45 minutos)
Objetivo: observar evidências no local, confirmando ou ajustando o que foi levantado na reunião rápida.
Como conduzir:
- Comece pelo trabalho real: observe uma tarefa acontecendo (quando possível) em vez de olhar apenas o ambiente parado.
- Use roteiro por pontos: siga os 3–5 pontos priorizados e registre o que é visto/medido/confirmado.
- Faça perguntas curtas durante a observação: “Quando isso acontece?”, “Com que frequência?”, “O que muda quando está corrido?”, “Qual é o improviso mais comum?”.
- Registre evidências: condições físicas (proteções, sinalização, rotas), organização (armazenamento, fluxo), comportamento observado (sem expor pessoas), e documentos disponíveis no posto (procedimentos, permissões, checklists).
- Identifique variações: se o risco aparece só em manutenção, limpeza, troca de ferramenta, abastecimento, etc., registre explicitamente.
Exemplos de evidências úteis:
- Proteção de máquina ausente, danificada ou “bypassada” (observação direta).
- Rotas de circulação com obstáculos recorrentes (foto/registro e horário).
- Ruído percebido como alto: registrar ponto, horário e fonte (e, se houver, leitura de medição disponível).
- Uso de produto químico: verificar rótulo, local de armazenamento, ventilação e disponibilidade de FISPQ no setor.
- Trabalho em altura: checar pontos de ancoragem, condição de escadas/plataformas e método usado na prática.
4) Coleta estruturada de percepções (sem perder a objetividade)
Percepções são valiosas porque revelam “o que acontece quando ninguém está olhando” (pressa, improvisos, falhas intermitentes). Para manter qualidade, transforme percepções em itens verificáveis.
| Percepção relatada | Como transformar em verificação | Exemplo de evidência |
|---|---|---|
| “Aqui sempre escorrega quando chove.” | Checar pontos de entrada de água, drenagem, tipo de piso, rotina de limpeza e horários. | Registro de ocorrência, marcas no piso, fotos em dia de chuva, relato de turno. |
| “A empilhadeira passa muito perto.” | Mapear fluxo real, horários de pico, largura de corredor, segregação e sinalização. | Observação em horário de pico, marcas no chão, quase-acidentes relatados. |
| “O exaustor não dá conta.” | Verificar manutenção, funcionamento, posição de captação e queixas recorrentes. | Ordem de serviço, filtro saturado, fumaça/névoa visível, relatos consistentes. |
5) Consolidação e validação do que será exibido
Objetivo: garantir que o conteúdo do mapa (o que aparece e como aparece) esteja correto, compreensível e aprovado pela área.
Passo a passo:
- Organize os registros: agrupe por local/tarefa e destaque o que tem evidência forte, o que é provável e o que precisa de confirmação adicional.
- Checagem rápida com manutenção (quando aplicável): confirmar condições de máquinas, proteções, intertravamentos, ventilação, iluminação, alarmes, e pendências de OS que impactam risco.
- Checagem com CIPA/SSMT (quando aplicável): alinhar consistência técnica, linguagem e aderência a práticas internas (sem transformar a validação em “auditoria”).
- Reunião de validação por área (20–30 min): apresentar o rascunho do mapa (ou recorte da área) e confirmar item a item:
- O risco está no lugar certo?
- A descrição está clara para quem trabalha aqui?
- O risco acontece em qual tarefa/condição?
- Há algo importante faltando?
- Há algo que não representa a realidade?
- Registrar divergências: se houver discordância, documente (ver seção “Regras de condução”).
- Ajustar e preparar publicação: aplicar correções, padronizar termos e garantir legibilidade.
Papéis e responsabilidades (quem faz o quê)
Facilitador (pode ser do SSMT, qualidade, liderança treinada ou consultor interno)
- Planejar agenda, conduzir reuniões rápidas e caminhada guiada.
- Garantir as regras de condução (respeito, foco em evidências, tempo).
- Fazer perguntas que esclareçam tarefa, frequência e condição.
- Registrar de forma neutra, sem julgamento e sem expor pessoas.
- Consolidar informações e preparar o rascunho para validação.
Representante da área (operador experiente e/ou líder do setor)
- Indicar tarefas reais, variações e momentos críticos (pico, setup, limpeza).
- Apontar locais e situações que “não aparecem” em visitas rápidas.
- Ajudar a traduzir termos técnicos para linguagem do time.
- Confirmar se o mapa está compreensível e aplicável no dia a dia.
Manutenção
- Confirmar condições de equipamentos e proteções, e limitações técnicas.
- Informar falhas recorrentes, pendências e controles existentes.
- Apoiar na verificação de evidências (ex.: funcionamento de exaustão, alarmes, intertravamentos) dentro das regras de segurança.
CIPA e/ou SSMT (quando aplicável)
- Apoiar na metodologia, padronização e coerência do registro.
- Contribuir com visão transversal (riscos comuns entre áreas, lições aprendidas).
- Garantir que o mapa seja um instrumento de comunicação e não um documento “para arquivo”.
Liderança (supervisão/coordenação/gerência)
- Assegurar tempo e prioridade para participação (sem punição por apontar problemas).
- Remover barreiras (acesso a áreas, autorização para registros, agenda por turno).
- Validar o resultado final do ponto de vista operacional (sem “suavizar” riscos).
Regras de condução para garantir qualidade e confiança
- Foco em evidências: toda percepção deve buscar confirmação por observação, registro, condição física ou consistência de relatos. Quando não houver evidência, registrar como “a confirmar”.
- Linguagem respeitosa e neutra: descreva condições e tarefas, não pessoas. Ex.: prefira “proteção removida durante ajuste” em vez de “operador remove proteção”.
- Sem caça a culpados: o objetivo é comunicação de perigos e melhoria, não disciplina.
- Registrar divergências: quando houver discordância, documente: quem diverge (função, não nome), qual ponto, qual evidência apresentada, e qual ação para resolver (nova observação, medição, consulta técnica).
- Representatividade: incluir pelo menos um participante por turno ou por variação relevante de tarefa, quando existirem diferenças.
- Tempo e objetividade: reuniões rápidas com pauta fixa; caminhada com trajeto definido; evitar debates longos no local.
- Segurança durante a atividade: cumprir regras do setor, EPIs e permissões. Se algo crítico for identificado, tratar como ação imediata (não esperar a publicação do mapa).
Modelo simples de registro de divergências
Item: Risco em (local/tarefa) ____________________________ Data: ___/___/____ Turno: ___ Participantes (funções): ____________________ Descrição do ponto: ____________________________________ Posição A (resumo): ____________________________________ Evidências apresentadas (A): ____________________________ Posição B (resumo): ____________________________________ Evidências apresentadas (B): ____________________________ Decisão provisória para o mapa: ( ) incluir ( ) incluir com observação ( ) não incluir por enquanto Ação para resolver: ____________________________________ Responsável: __________________ Prazo: ___/___/____Checklist de validação antes de publicar o mapa
- Representatividade
- ( ) Houve participação de trabalhadores da área (incluindo variações de turno/tarefa quando aplicável).
- ( ) A liderança da área participou ou revisou o rascunho.
- Qualidade do conteúdo
- ( ) Cada item do mapa está associado a um local/tarefa real (não genérico).
- ( ) Há evidência registrada para os principais pontos (observação, registro, condição física, consistência de relatos).
- ( ) Itens “a confirmar” estão identificados e têm ação definida.
- ( ) Não há linguagem que atribua culpa a pessoas; o texto descreve condições e situações.
- Clareza e comunicação
- ( ) A linguagem está compreensível para quem trabalha na área.
- ( ) O mapa está legível no tamanho e local de exposição previstos (contraste, símbolos, organização).
- ( ) O que será exibido não expõe dados pessoais, nomes ou informações sensíveis.
- Alinhamentos técnicos e operacionais
- ( ) Manutenção revisou itens relacionados a máquinas/instalações quando aplicável.
- ( ) CIPA/SSMT revisou consistência e padronização quando aplicável.
- ( ) Divergências foram registradas e tratadas (decisão provisória + ação).
- Prontidão para uso
- ( ) Responsável pela atualização do mapa na área está definido.
- ( ) Data de validação e versão do mapa estão registradas internamente.
- ( ) Há um canal definido para a equipe reportar mudanças após a publicação (ex.: líder, CIPA/SSMT, formulário interno).