Falhas e retrabalho na impressão 3D: como precificar risco e reduzir perdas

Capítulo 5

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

O que é “taxa de falha” e por que ela precisa entrar no preço

Em um pequeno negócio de impressão 3D, falha não é exceção: é um evento estatístico. A taxa de falha é a proporção de trabalhos que precisam ser reimpressos (total ou parcialmente) ou que viram sucata por não atenderem ao padrão de qualidade combinado. Quando você mede essa taxa por material, equipamento e geometria, consegue criar uma margem de risco baseada em dados (e não em “achismo”).

Na prática, precificar risco significa: embutir no preço uma parcela do custo esperado de retrabalho (material + tempo de máquina + tempo de operador + consumíveis específicos do processo), proporcional à probabilidade de falha daquele tipo de peça.

Definições operacionais (para padronizar)

  • Falha total: peça inutilizável (descolou, deformou, quebrou, delaminou, ficou com porosidade crítica, resina não curou corretamente etc.).
  • Falha parcial: peça aproveitável com retrabalho adicional (lixar, preencher, colar, refazer inserto, refazer rosca, refazer suporte quebrado) ou reimpressão de um componente.
  • Retrabalho: tempo extra para salvar a peça (pós-processo adicional, correções dimensionais, limpeza extra, cura extra, reimpressão parcial).
  • Sucata: tudo o que foi consumido e não vira produto vendável (inclui tentativas, suportes descartados, peças de teste quando necessárias).

Como registrar taxa de falha por material, equipamento e geometria (passo a passo)

1) Crie uma ficha de produção mínima por pedido

Padronize um registro simples (planilha ou formulário) com campos que você consiga preencher sempre, em menos de 2 minutos:

  • ID do pedido e data
  • Tecnologia (ex.: FDM, resina)
  • Equipamento (impressora A, B; ou “linha 1/2”)
  • Material (ex.: PLA, PETG, ABS, TPU; resina standard, tough, flex etc.)
  • Perfil (nome do preset: “PLA_0.20_Qualidade”, “Resina_50um_Tough”)
  • Geometria (tags) (marque 1–3 tags, ver lista abaixo)
  • Resultado (OK / Falha parcial / Falha total)
  • Causa principal (lista padronizada)
  • Tempo extra de retrabalho (minutos)
  • Reimpressão? (sim/não; parcial/total)
  • Observação curta (máx. 1 linha)

2) Use uma taxonomia curta de “geometrias de risco”

Você não precisa classificar tudo; precisa classificar o que muda a chance de falhar. Sugestão de tags:

  • Base pequena (pouca área de contato com mesa)
  • Peça alta e fina (torre, coluna, alavanca)
  • Overhang crítico (muito balanço)
  • Muitas pontes (bridges longas)
  • Parede fina (≤ 1,2 mm em FDM; muito delicada em resina)
  • Grande área plana (tende a warping)
  • Encaixe dimensional (tolerância apertada)
  • Rosca (interna/externa)
  • Suporte pesado (muito suporte necessário)
  • Detalhe fino (texto em relevo pequeno, microfuros, nervuras)

3) Padronize “causas” para permitir estatística

Evite escrever causas livres diferentes (“descolou”, “soltou”, “perdeu adesão”). Use uma lista fixa e, se necessário, um campo “observação”. Exemplo de causas:

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  • Aderência insuficiente
  • Warping/contração
  • Entupimento/subextrusão
  • Delaminação/baixa adesão entre camadas
  • Suportes (falha de suporte / marca excessiva / quebra ao remover)
  • Resina: falha de exposição
  • Resina: falha de elevação (peel/sucção)
  • Resina: peça oca com drenagem ruim
  • Dimensional fora
  • Acabamento inaceitável

4) Calcule taxas por “famílias” (não por peça individual)

O objetivo é chegar em números utilizáveis. Comece com agrupamentos:

  • Material + equipamento (ex.: PETG na Impressora B)
  • Material + geometria (ex.: ABS com “grande área plana”)
  • Resina + perfil + tipo de peça (ex.: Tough 50 µm com “suporte pesado”)

Fórmula básica:

Taxa de falha total = (nº falhas totais) / (nº trabalhos)  em um período (ex.: 30 dias)
Taxa de falha com retrabalho = (nº falhas parciais) / (nº trabalhos)

Se você tiver poucos dados, use janela maior (60–90 dias) e atualize mensalmente.

5) Transforme taxa em “margem de risco” (fator de sucata)

Para precificar, você precisa de um multiplicador simples que aumente o preço base conforme o risco. Um modelo prático é o fator de sucata:

Fator de sucata (FS) = 1 / (1 - p)

Onde p é a probabilidade de precisar reimprimir (falha total) para aquele grupo (material/equipamento/geometria). Exemplo: se 12% das impressões daquele grupo falham totalmente, p = 0,12 e FS = 1 / 0,88 = 1,136. Isso significa que, em média, você precisa cobrar ~13,6% a mais para cobrir as reimpressões esperadas.

Para falhas parciais (retrabalho), use um segundo componente: tempo extra esperado. Exemplo:

Tempo extra esperado (TE) = (taxa de falha parcial) × (tempo médio de retrabalho em minutos)

Esse TE entra como minutos adicionais no seu orçamento (como se fosse tempo normal de produção).

Causas comuns de falhas e contramedidas padronizáveis

Aderência (primeira camada / fixação)

Sintomas: peça solta, “skirt” ok mas perímetro levanta, cantos descolam, peça arrasta e vira “espaguete”.

Causas frequentes: mesa suja, Z-offset incorreto, temperatura inadequada, pouca área de contato, velocidade alta na primeira camada, fluxo insuficiente.

Contramedidas padronizáveis:

  • Checklist de início de turno: limpeza da superfície (procedimento fixo), verificação rápida de nivelamento/mesh, teste de primeira camada em 2 minutos.
  • Preset de primeira camada: velocidade reduzida, altura e largura de linha padronizadas, temperatura de mesa e bico definidas por material.
  • Regras de geometria: se “base pequena”, aplicar brim padrão (ex.: X mm) e/ou aumentar área de contato com “orelha”/tab quando permitido.
  • Critério de abortar cedo: se a primeira camada falhar, cancelar imediatamente (economiza horas de máquina).

Warping (empenamento/levantamento por contração)

Sintomas: cantos levantam, base curva, dimensões fora, peça “banana”.

Causas frequentes: material com maior contração, grande área plana, resfriamento desigual, correntes de ar, temperatura de mesa baixa, falta de câmara/isolamento.

Contramedidas padronizáveis:

  • Regra de projeto/orientação: evitar colocar a maior face plana no leito quando possível; quebrar peça em partes; adicionar chanfros/raios em cantos.
  • Preset por material: controle de fan (reduzir em materiais sensíveis), temperatura de mesa e bico consistentes.
  • Ambiente: padronizar “zona de impressão” sem vento; usar barreira/fechamento quando aplicável.
  • Adesão extra: brim/raft conforme regra (ex.: “grande área plana” = brim obrigatório).

Entupimento, subextrusão e falhas de alimentação (FDM)

Sintomas: falhas de camada, linhas faltando, estalos no extrusor, “moagem” do filamento, peça frágil.

Causas frequentes: filamento úmido, bico parcialmente obstruído, temperatura baixa, retração agressiva, caminho do filamento com atrito, sujeira.

Contramedidas padronizáveis:

  • Procedimento de material: armazenagem seca; regra de “secagem antes de trabalhos longos” para materiais críticos.
  • Manutenção preventiva: troca/limpeza de bico em periodicidade definida; checagem do PTFE/engrenagens.
  • Presets validados: limites de retração por impressora/material; temperatura mínima segura por material.
  • Teste rápido: extrusão de linha e inspeção visual antes de iniciar peças longas.

Delaminação (baixa adesão entre camadas)

Sintomas: peça “abre” em camadas, trinca ao esforço, separação visível.

Causas frequentes: temperatura baixa, fan alto, material úmido, velocidade alta, orientação desfavorável (esforço perpendicular às camadas).

Contramedidas padronizáveis:

  • Preset: aumentar temperatura dentro de faixa segura; reduzir fan; reduzir velocidade em paredes.
  • Regra de orientação: orientar para que o esforço principal fique ao longo das camadas quando possível.
  • Critério de qualidade: se a peça é funcional e crítica, exigir “teste de resistência” simples (ex.: flexão manual padronizada) antes de liberar.

Suportes (FDM e resina)

Sintomas: suporte quebra durante impressão, peça cai, marcas profundas, superfície ruim, remoção danifica detalhes.

Causas frequentes: densidade/ângulo inadequados, interface ruim, orientação que exige suporte demais, pontos de contato mal distribuídos.

Contramedidas padronizáveis:

  • Regra de orientação: reduzir área suportada; preferir orientar para esconder marcas em faces não estéticas.
  • Preset de suporte por categoria: “estético” (menos marcas, mais tempo) vs “funcional” (mais robusto, menos risco de queda).
  • Checklist de fatiamento: revisar ilhas, pontos finos, overhangs críticos e estabilidade do suporte antes de iniciar.

Resina: exposição e cura (sub/superexposição)

Sintomas: peça mole, detalhes “derretem”, dimensões erradas, falha de aderência na plataforma, camadas não formam.

Causas frequentes: tempo de exposição inadequado, resina fria, resina velha/contaminada, tela/LED degradado, perfil errado para pigmentação.

Contramedidas padronizáveis:

  • Calibração por resina: manter um teste padrão (peça de calibração) e registrar o perfil aprovado.
  • Controle de temperatura: faixa mínima de operação definida; procedimento quando ambiente está frio.
  • Rotina de resina: filtrar após falhas; agitar/misturar conforme regra; controlar validade/lote.

Resina: elevação/peel, sucção e falhas em peças ocas

Sintomas: peça “gruda” no FEP, falha em determinada altura, camadas deslocadas, “pancake” na cuba, rachaduras em peças ocas.

Causas frequentes: força de sucção alta (peça grande paralela ao FEP), orientação ruim, suportes insuficientes, velocidade de elevação alta, drenagem ruim em peças ocas, furos de respiro ausentes.

Contramedidas padronizáveis:

  • Regra de orientação: inclinar peças grandes para reduzir área por camada; evitar grandes seções paralelas ao FEP.
  • Peças ocas: regra de furos de drenagem (quantidade/diâmetro mínimo) e posicionamento para evitar bolsões.
  • Preset de elevação: velocidades e alturas de lift padronizadas por resina/peça; usar perfil “alto risco” quando “suporte pesado” ou peça grande.
  • Checklist: revisar ilhas, espessura mínima, pontos de suporte em áreas críticas.

Como incorporar falhas no preço: cálculo prático (fator de sucata + retrabalho)

Modelo simples e aplicável

Você vai montar um preço base (sem risco) e depois aplicar:

  • Fator de sucata (FS) para cobrir reimpressões por falha total
  • Tempo extra esperado (TE) para cobrir falhas parciais/retrabalho

Estrutura:

Preço com risco = (Preço base × FS) + (TE × taxa interna por minuto)

Onde:

  • FS = 1 / (1 - p_total)
  • TE = p_parcial × t_retrabalho_médio

Exemplo numérico

Suponha que você tenha dados dos últimos 60 dias para “PETG na Impressora B” com tag “grande área plana”:

  • Trabalhos: 50
  • Falhas totais: 6 → p_total = 6/50 = 0,12
  • Falhas parciais: 10 → p_parcial = 10/50 = 0,20
  • Tempo médio de retrabalho quando falha parcial: 18 min → t_retrabalho_médio = 18

Então:

FS = 1 / (1 - 0,12) = 1,136
TE = 0,20 × 18 = 3,6 minutos

Se o seu preço base para a peça (já calculado por seus métodos internos) for R$ 120, e sua taxa interna por minuto de trabalho for R$ 2,50/min:

Preço com risco = (120 × 1,136) + (3,6 × 2,50)
Preço com risco = 136,32 + 9,00 = R$ 145,32

Interpretação: você não está “cobrando caro”; está cobrando o custo esperado de manter a operação sustentável naquele cenário de risco.

Quando usar FS por material/equipamento vs por geometria

  • FS por material/equipamento: bom para começar e para peças comuns (risco médio).
  • FS por geometria: use quando a geometria muda muito o risco (base pequena, suporte pesado, peça oca em resina, grande área plana).
  • FS combinado (recomendado): use o maior entre “FS do material/equipamento” e “FS da geometria” para evitar dupla contagem e manter simples.

Critérios objetivos: reimpressão, desconto ou cancelamento

Decidir no improviso gera perda e conflito com cliente. Use critérios padronizados com base em: causa, impacto no uso, prazo e custo marginal de reimprimir.

1) Matriz rápida de decisão (operacional)

SituaçãoImpactoAção padrãoObservação
Falha total detectada cedo (primeiras camadas / primeiros %)Baixo custo marginalAbortar e reimprimirRegistrar causa; aplicar contramedida antes da nova tentativa
Falha total detectada tarde (muitas horas)Alto custo marginalReavaliar: reimprimir se prazo permitir; senão negociar alternativaSe recorrente, elevar FS do grupo
Falha parcial estética em área não críticaBaixo impacto funcionalOferecer desconto ou refazer conforme padrão do clienteDefina limites de “aceitável” por categoria (decorativo/funcional)
Falha parcial dimensional em encaixe/roscaAlto impactoReimprimir ou refazer componenteRetrabalho só se previsível e repetível
Falha por especificação do cliente (arquivo ruim, tolerância impossível, mudança tardia)Risco fora do controleCancelar ou reorçar antes de reimprimirRegistrar como “mudança de escopo” (não entra como falha do processo)
Falha por erro interno (perfil errado, material errado, falta de checklist)Responsabilidade internaReimprimir sem custo ao clienteObrigatório registrar e criar ação preventiva

2) Limites de retrabalho: quando “salvar” deixa de ser econômico

Defina um teto simples para evitar gastar tempo demais tentando salvar peça:

  • Regra do teto de retrabalho: se o retrabalho estimado exceder X% do tempo total planejado de pós-processo, reimprimir.
  • Regra do risco de qualidade: se o retrabalho introduz chance alta de falha no uso (ex.: colagem estrutural em peça funcional), reimprimir.
  • Regra do prazo: se reimprimir compromete a entrega, oferecer desconto com aceite formal (quando o defeito for apenas estético e dentro de limites).

Exemplo de parametrização inicial (ajuste com seus dados): X = 30% para peças comuns; X = 15% para peças críticas (encaixe/funcional).

3) Política de desconto padronizada (para reduzir atrito)

Desconto não deve ser “no sentimento”. Vincule a categorias:

  • Defeito estético leve (não afeta montagem/uso): desconto fixo (ex.: 5–10%) ou brinde (ex.: reimpressão futura com prioridade).
  • Defeito estético moderado (visível, mas aceitável): desconto maior (ex.: 10–20%) mediante aceite.
  • Defeito funcional: não oferecer desconto como solução principal; reimprimir ou cancelar.

Padronize também o que é “leve/moderado” com fotos internas de referência (biblioteca de qualidade) para sua equipe aplicar de forma consistente.

Redução de perdas: rotinas e checklists que atacam as causas mais comuns

Checklist pré-impressão (5 itens que evitam a maioria das falhas)

  • Material correto e condição (seco/limpo; resina filtrada quando necessário)
  • Preset correto (perfil validado para material e altura de camada)
  • Orientação e suportes revisados (ilhas, overhangs críticos, estabilidade)
  • Primeira camada / base (brim/raft conforme regra; área de contato suficiente)
  • Critério de abortar definido (o que observar nos primeiros minutos)

Checklist pós-falha (para transformar erro em dado)

  • Classificar: falha total vs parcial
  • Marcar causa principal (lista fixa)
  • Anotar geometria (tags)
  • Registrar ação tomada (reimprimir / retrabalhar / desconto / cancelar)
  • Registrar contramedida aplicada (ex.: “brim obrigatório”, “reduzir lift”, “secar filamento”)

Regras de atualização da margem de risco

  • Atualize p_total e p_parcial mensalmente por grupo.
  • Se uma contramedida reduzir falhas por 2 ciclos seguidos, reduza o FS gradualmente (ex.: em passos de 0,02–0,05 no p).
  • Se ocorrerem 2 falhas totais seguidas no mesmo grupo/geom, aplique imediatamente um FS provisório mais alto para novos orçamentos até investigar.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao calcular o preço com risco em um serviço de impressão 3D, qual abordagem descreve corretamente como incorporar falhas totais e falhas parciais (retrabalho) no orçamento?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Falhas totais entram como um multiplicador (FS = 1/(1-p_total)) para cobrir reimpressões esperadas. Falhas parciais entram como tempo extra esperado (TE = p_parcial × tempo médio de retrabalho), somado ao orçamento pela taxa interna por minuto.

Próximo capitúlo

Precificação de impressão 3D para pequenos negócios: fórmulas, margem e posicionamento

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