Encaminhamento ao Farmacêutico: Critérios, Urgência e Registro de Ocorrências

Capítulo 5

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

O que é encaminhamento ao farmacêutico (e por que ele protege o cliente e a equipe)

Encaminhar ao farmacêutico é transferir, de forma rápida e organizada, a demanda do cliente para avaliação técnica quando há risco, dúvida clínica, necessidade de orientação detalhada de uso ou exigência legal de dispensação. O objetivo é evitar erros, reduzir danos e garantir que a decisão final (orientação, dispensação, recusa justificada ou encaminhamento a serviço de saúde) seja tomada por quem tem atribuição técnica para isso.

Na prática, o atendente identifica sinais de alerta, situações especiais ou pedidos que exigem avaliação, preserva a privacidade do cliente e comunica ao farmacêutico um resumo objetivo do caso, sem interpretações pessoais e sem expor dados desnecessários.

Critérios objetivos para encaminhar (checklist de balcão)

1) Sintomas graves ou sinais de alerta

Encaminhe imediatamente quando houver queixa que sugira urgência, piora rápida ou risco de complicação. Exemplos de sinais de alerta (não exaustivos):

  • Falta de ar, chiado intenso, dor no peito, palpitações importantes.
  • Desmaio, confusão, sonolência excessiva, convulsão.
  • Sangramento importante, fezes pretas, vômitos com sangue.
  • Reação alérgica com inchaço de face/lábios, urticária extensa, dificuldade para respirar.
  • Febre alta persistente, rigidez de nuca, manchas roxas na pele sem causa.
  • Dor intensa súbita, dor abdominal forte, vômitos persistentes, sinais de desidratação.
  • Suspeita de intoxicação/ingestão acidental, especialmente em crianças.

Nesses casos, além de chamar o farmacêutico, pode ser necessário orientar busca imediata de pronto atendimento conforme avaliação do farmacêutico.

2) Gestantes e lactantes

Encaminhe sempre que a cliente estiver grávida ou amamentando e solicitar qualquer orientação de uso, mesmo para itens considerados “comuns” (analgésicos, antigripais, anti-inflamatórios, fitoterápicos, pomadas). A avaliação do risco/benefício e a escolha de alternativas devem ser feitas pelo farmacêutico.

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3) Crianças

Encaminhe quando o pedido envolver criança, especialmente:

  • Menores de 2 anos (qualquer queixa ou medicação).
  • Dúvida de dose, forma farmacêutica, intervalo, duração.
  • Febre, diarreia, vômitos, tosse persistente, dor de ouvido, falta de apetite importante.
  • Uso de mais de um produto (risco de duplicidade de princípio ativo).

4) Idosos frágeis e pessoas com comorbidades relevantes

Encaminhe quando o cliente for idoso com fragilidade (queda recente, confusão, múltiplas doenças) ou quando relatar condições que aumentam risco de eventos adversos, como insuficiência renal/hepática, hipertensão descompensada, diabetes descompensado, asma/DPOC, histórico de úlcera/sangramento, glaucoma, hiperplasia prostática, arritmias.

5) Polimedicação (muitos medicamentos em uso)

Encaminhe quando o cliente usa vários medicamentos contínuos, principalmente se não souber informar nomes/doses ou se estiver iniciando algo novo. Polimedicação aumenta risco de interação, duplicidade terapêutica e erro de uso.

6) Alergias relatadas e reações anteriores

Encaminhe se o cliente mencionar alergia a medicamentos, alimentos, corantes, látex, ou relatar reação prévia (ex.: “já tive falta de ar com tal remédio”, “me deu urticária”). O farmacêutico deve avaliar risco de reexposição e alternativas.

7) Interações suspeitas

Encaminhe quando houver suspeita de interação entre o que o cliente quer comprar e o que ele já usa, ou quando ele perguntar diretamente sobre “pode tomar junto?”. Exemplos comuns de gatilhos:

  • Uso de anticoagulantes/antiagregantes e pedido de anti-inflamatórios.
  • Uso de antidepressivos e pedido de antigripais/descongestionantes.
  • Uso de remédios para pressão e pedido de descongestionantes.
  • Uso de múltiplos produtos para dor/gripe (risco de duplicidade de analgésico).

8) Dúvidas sobre prescrição (receita)

Encaminhe quando houver qualquer dúvida sobre a prescrição, como:

  • Nome do medicamento ilegível ou divergente do que o cliente pede.
  • Dosagem incomum, posologia confusa, duração não indicada.
  • Receita vencida, rasurada, sem dados essenciais (conforme exigência aplicável).
  • Cliente quer “substituir” por conta própria ou alterar dose.

O atendente não deve “interpretar” a intenção do prescritor. A avaliação e a decisão de como proceder cabem ao farmacêutico.

9) Solicitações de antibióticos e medicamentos controlados

Encaminhe sempre que o cliente solicitar antibiótico ou medicamento sujeito a controle especial, com ou sem receita. Além de exigências legais, há necessidade de avaliação técnica e conferência de documentação, quando aplicável.

10) Qualquer pedido de orientação de uso

Se o cliente pedir orientação detalhada (como tomar, por quantos dias, o que evitar, o que fazer se esquecer, se pode dirigir, se pode beber álcool, se pode usar com outro medicamento), encaminhe ao farmacêutico. O atendente pode facilitar o fluxo, mas a orientação clínica deve ser feita pelo farmacêutico.

Classificação de urgência: como priorizar o encaminhamento

Encaminhamento imediato (interromper o fluxo e chamar o farmacêutico)

  • Sinais de alerta/graves.
  • Suspeita de reação alérgica importante.
  • Suspeita de intoxicação/ingestão acidental.
  • Erro de medicação em andamento (ex.: cliente percebeu que tomou dose errada e está com sintomas).
  • Solicitação de controlados/antibióticos com conflito evidente (sem receita, receita irregular, dúvida crítica).

Encaminhamento prioritário (assim que possível, antes de finalizar a venda)

  • Gestantes/lactantes.
  • Crianças com sintomas relevantes ou dúvida de dose.
  • Idosos frágeis e polimedicação.
  • Interações suspeitas e alergias relatadas.
  • Dúvidas sobre prescrição que impedem dispensação segura.

Encaminhamento programado (organizar e chamar o farmacêutico sem pressa, mas sem esquecer)

  • Pedido de orientação de uso sem sinais de gravidade.
  • Cliente quer revisar rotina de medicamentos, horários, armazenamento, adesão.

Passo a passo prático para encaminhar com respeito, agilidade e privacidade

Passo 1: Identifique o gatilho e pare antes de “resolver”

Ao perceber qualquer critério do checklist, evite sugerir produto, dose ou “equivalente” por conta própria. A ação correta é preparar o encaminhamento.

Passo 2: Faça perguntas mínimas para qualificar o caso (sem interrogatório)

O objetivo é coletar informações essenciais para o farmacêutico decidir com segurança. Use perguntas curtas:

  • Quem vai usar? (idade aproximada; gestante/lactante)
  • O que está sentindo? (sintoma principal)
  • Há quanto tempo? (início e evolução)
  • Tem algo grave acontecendo agora? (falta de ar, desmaio, sangramento, inchaço)
  • Usa algum medicamento? (quantos e quais, se souber)
  • Tem alergia a algum medicamento?
  • Já usou algo para isso? (o quê e resultado)

Se o cliente estiver desconfortável em falar no balcão, pule perguntas e vá direto ao farmacêutico, priorizando privacidade.

Passo 3: Preserve a privacidade

  • Evite repetir em voz alta informações sensíveis (ex.: condição de saúde, uso de psicotrópicos, queixas íntimas).
  • Convide para um local mais reservado quando possível: “Para sua privacidade, vou chamar o farmacêutico para conversarmos ali.”
  • Se houver fila, não exponha detalhes; use frases neutras e discretas.

Passo 4: Acione o farmacêutico com uma mensagem objetiva (formato SBAR)

Use um padrão para não esquecer informações. Um modelo simples é o SBAR:

  • S (Situação): motivo do contato em 1 frase.
  • B (Background/Contexto): dados relevantes (idade, gestante/lactante, comorbidades, alergias, medicamentos).
  • A (Avaliação): o que foi observado/relatado (sem diagnóstico).
  • R (Recomendação): o que o cliente está pedindo e o que você precisa do farmacêutico (orientar, avaliar prescrição, checar interação, decidir encaminhamento).

Exemplo 1 (interação suspeita): “S: Cliente quer um anti-inflamatório para dor lombar. B: Usa anticoagulante e remédio para pressão; nega alergias. A: Dor há 2 dias, sem trauma, sem febre. R: Pode avaliar risco de interação e orientar opção segura?”

Exemplo 2 (gestante): “S: Gestante pedindo antigripal. B: 24 semanas, sem alergias conhecidas, usa vitaminas. A: Congestão nasal e dor de garganta há 1 dia, sem falta de ar. R: Orientação de uso e escolha segura na gestação.”

Exemplo 3 (dúvida de prescrição): “S: Receita com posologia ilegível para antibiótico. B: Adulto, sem alergias relatadas. A: Cliente não sabe a dose. R: Conferir prescrição e orientar como proceder.”

Passo 5: Mantenha o cliente informado sem prometer resultado

Frases úteis:

  • “Vou chamar o farmacêutico para avaliar com segurança.”
  • “Para evitar qualquer risco de interação/alergia, o farmacêutico vai orientar.”
  • “Ele(a) vai conferir a receita e explicar o uso correto.”

Evite: “Pode deixar que vai dar certo”, “Isso é simples”, “Toma assim”.

Passo 6: Registre a ocorrência quando houver risco, recusa, erro, reação ou situação fora do padrão

Nem todo encaminhamento exige registro formal, mas é recomendável registrar quando:

  • Houve suspeita de reação adversa/alergia.
  • Houve suspeita de interação com potencial dano.
  • Houve tentativa de compra de antibiótico/controlado sem documentação adequada.
  • Houve divergência/irregularidade de prescrição.
  • Houve erro de dispensação identificado (interno) ou erro de uso relatado com risco.
  • Houve orientação para procurar serviço de urgência.
  • Houve conflito/ameaça/ocorrência de segurança.

Como descrever o caso ao farmacêutico de forma objetiva (sem “achismos”)

O que incluir

  • Dados mínimos do cliente: idade aproximada/faixa etária e condição especial (gestante, lactante, criança, idoso frágil).
  • Queixa principal e duração.
  • Sinais de alerta presentes/ausentes (apenas os perguntados/observados).
  • Medicamentos em uso (se souber), alergias, comorbidades relevantes.
  • O que o cliente pediu (produto específico, “algo para…”, antibiótico, controlado, orientação).
  • O que já foi usado e resposta (melhorou/piorou/sem efeito).

O que evitar

  • Diagnosticar: evite “é virose”, “é infecção”, “é crise de ansiedade”.
  • Julgamentos: evite “cliente exagerado”, “não sabe nada”.
  • Detalhes íntimos desnecessários em local aberto.
  • Dados pessoais além do necessário (nome completo, documento, endereço) no registro interno, salvo exigência do procedimento da empresa.

Modelo de registro interno de ocorrências (sem expor dados desnecessários)

O registro deve ser claro, rastreável e focado em segurança. Use linguagem factual. Se a empresa tiver formulário próprio, adapte o conteúdo abaixo.

CampoComo preencher (exemplo)
Data e hora28/01/2026 – 14:35
Local/SetorBalcão 2
Tipo de ocorrênciaSuspeita de interação / Dúvida de prescrição / Solicitação de controlado / Reação adversa / Encaminhamento para urgência
Identificação mínima do clienteAdulto ~60 anos (sem nome completo); ou “Criança 3 anos”; ou “Gestante 2º trimestre”
Queixa/solicitação“Pediu anti-inflamatório para dor lombar”
Contexto clínico relevante“Relata uso de anticoagulante e anti-hipertensivo; nega alergias”
Sinais de alerta“Nega falta de ar/dor no peito; sem febre; sem sangramento relatado”
Ação do atendente“Encaminhado ao farmacêutico; atendimento em área reservada”
Ação/decisão do farmacêutico“Orientou não usar AINE; sugeriu alternativa e recomendou avaliação médica se piora”
Desfecho“Cliente orientado e ciente; saiu sem compra do item solicitado”
ResponsáveisAtendente: iniciais/ID interno; Farmacêutico: iniciais/CRF interno (conforme rotina)
ObservaçõesSomente fatos relevantes; sem dados sensíveis desnecessários

Exemplos prontos de registros (texto curto e objetivo)

Data/hora: 28/01/2026 10:12 | Setor: Balcão 1 | Tipo: Solicitação de antibiótico sem receita  Cliente: Adulto ~35a  Solicitação: “Amoxicilina para garganta inflamada” há 3 dias  Contexto: Nega alergias; sem outras informações  Ação: Encaminhado ao farmacêutico imediatamente  Decisão: Farmacêutico orientou necessidade de avaliação médica e não dispensou sem receita  Desfecho: Cliente orientado, sem venda do antibiótico
Data/hora: 28/01/2026 16:40 | Setor: Balcão 3 | Tipo: Suspeita de reação alérgica  Cliente: Adulto ~28a  Queixa: Urticária após uso de medicamento iniciado hoje (nome não informado)  Sinais de alerta: Sem falta de ar; sem inchaço de face relatado  Ação: Chamado farmacêutico; atendimento reservado  Decisão: Farmacêutico orientou conduta e sinais para procurar urgência  Desfecho: Cliente orientado e ciente

Roteiros curtos para encaminhamento (frases que funcionam no balcão)

Quando há risco/interação/alergia

“Para garantir que não haja risco de interação ou alergia, vou chamar o farmacêutico para avaliar com você.”

Quando é gestante/lactante/criança

“Como é um caso de gestação/amamentação/criança, o farmacêutico vai orientar a opção mais segura e como usar.”

Quando há dúvida de receita

“Vou pedir ao farmacêutico para conferir a receita e confirmar a dose e o modo de usar antes de separar o medicamento.”

Quando o cliente pede controlado/antibiótico

“Esse medicamento precisa de avaliação do farmacêutico e conferência da documentação. Vou chamar ele(a) agora.”

Erros comuns no encaminhamento (e como evitar)

  • Demorar para chamar o farmacêutico: ao identificar critério, encaminhe antes de finalizar a venda.
  • Fazer “pré-orientação” clínica: limite-se a coletar informações e organizar o atendimento.
  • Expor o cliente na frente de outros: use linguagem neutra e ofereça local reservado.
  • Passar informação incompleta: use o SBAR e registre quando necessário.
  • Registrar dados pessoais excessivos: mantenha identificação mínima e foco em segurança.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao identificar um possível risco de interação medicamentosa durante o atendimento no balcão, qual conduta é a mais adequada antes de finalizar a venda?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Em suspeita de interação, o atendente deve evitar "pré-orientação" clínica, coletar dados mínimos e encaminhar ao farmacêutico com comunicação objetiva (ex.: SBAR), preservando a privacidade e garantindo dispensação segura.

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