O que é “leitura básica” de uma prescrição para conferência
Leitura básica de prescrições, no contexto do atendente de farmácia, é a conferência administrativa e operacional dos dados escritos na receita para verificar se os campos essenciais estão presentes, se o texto é legível e se há consistência entre o que está prescrito e o que será separado/registrado. O objetivo é reduzir erros de dispensação por falhas de leitura, ausência de informações ou divergências de apresentação do produto.
Essa conferência não envolve interpretar a terapêutica, avaliar se o medicamento “é o melhor” ou orientar posologia/uso ao paciente. Sempre que houver dúvida clínica, ambiguidade, ilegibilidade ou inconsistência, o atendente deve interromper o processo e encaminhar ao farmacêutico antes de seguir.
Campos essenciais para conferência (checklist)
1) Identificação do paciente (quando presente)
- Nome do paciente (quando constar).
- Outros dados eventualmente presentes (idade, documento, endereço) devem ser apenas conferidos quanto à existência/legibilidade, sem exigir além do que a prescrição traz.
- Observação operacional: se houver mais de um paciente na mesma receita, conferir se cada item está claramente associado ao paciente correto.
2) Identificação do prescritor
- Nome do prescritor.
- Registro profissional (ex.: CRM, CRO, etc.) e UF, quando aplicável.
- Assinatura e/ou identificação equivalente, conforme o tipo de prescrição.
- Carimbo quando houver (não é “garantia” de legibilidade; serve como apoio para identificar o prescritor).
3) Data da prescrição
- Data deve estar presente e legível.
- Conferência prática: data incompleta (sem dia/mês/ano) ou ilegível é motivo para interromper e encaminhar ao farmacêutico.
4) Medicamento prescrito (o “quê”)
- Nome do medicamento (preferencialmente pelo princípio ativo, quando assim escrito) ou nome comercial, conforme prescrito.
- Concentração/força (ex.: 500 mg, 20 mg/mL).
- Forma farmacêutica (ex.: comprimido, cápsula, solução, creme, colírio).
- Via e orientações quando existirem (ex.: “uso tópico”, “uso ocular”).
5) Quantidade (o “quanto”)
- Número de unidades (ex.: 30 comprimidos) ou volume (ex.: 100 mL) ou peso (ex.: 30 g).
- Número de caixas/frascos, quando especificado.
- Observação operacional: quando a prescrição traz “quantidade” e também “duração do tratamento”, não cabe ao atendente calcular equivalências; se houver dúvida sobre o que separar, encaminhar ao farmacêutico.
6) Orientações de uso (quando existirem)
- Podem aparecer como posologia, horários, duração, recomendações (“tomar após refeições”, “uso contínuo”).
- O atendente não orienta o uso; apenas verifica se há informação escrita e se está legível, para apoiar a validação operacional e o encaminhamento ao farmacêutico quando necessário.
Legibilidade e consistência: o que observar
Legibilidade mínima aceitável
- É possível identificar com segurança nome do medicamento, concentração, forma e quantidade?
- Há rasuras, sobreposições, abreviações incomuns ou escrita que permita mais de uma leitura?
- Há itens “parecidos” (nomes semelhantes) que aumentam risco de confusão?
Consistência operacional (sem interpretar terapêutica)
- Concentração x forma: a concentração indicada faz sentido para aquela forma (ex.: mg/mL costuma aparecer em soluções; mg em comprimidos/cápsulas).
- Forma x apresentação comercial: o que está prescrito existe naquela forma? (ex.: prescrito “xarope”, mas o produto disponível é “comprimido”).
- Quantidade x embalagem: a quantidade prescrita é compatível com as embalagens disponíveis? Se houver necessidade de fracionamento ou múltiplas unidades e isso gerar dúvida, encaminhar ao farmacêutico.
- Via/orientação x forma: se houver indicação de via (ex.: “uso ocular”) e a forma não corresponder (ex.: “creme”), interromper e encaminhar.
Passo a passo prático para conferência administrativa
Passo 1 — Preparar a conferência
- Posicione a prescrição em local bem iluminado.
- Evite “ler de memória” ou completar mentalmente palavras.
- Se houver mais de um item, trate cada linha como um item independente.
Passo 2 — Identificar os campos essenciais
- Marque mentalmente (ou em checklist interno da loja) se há: paciente (quando presente), prescritor/registro, data, medicamento, concentração, forma, quantidade e orientações (quando existirem).
- Se faltar algum campo crítico para a dispensação segura, pare e encaminhe ao farmacêutico.
Passo 3 — Ler o medicamento “em camadas”
- Camada 1: nome do medicamento.
- Camada 2: concentração/força.
- Camada 3: forma farmacêutica.
- Camada 4: quantidade e apresentação (caixa/frascos/unidades).
- Se qualquer camada estiver ambígua, não avance para separação.
Passo 4 — Conferir consistência com o produto a separar
- Compare o que está escrito com o cadastro/embalagem do item selecionado: nome, concentração, forma, volume/peso/unidades.
- Se houver divergência de apresentação (ex.: prescrito “comprimido” e o item selecionado é “cápsula”), não substitua por conta própria.
Passo 5 — Sinalizar dúvidas e encaminhar
- Separe a prescrição e o produto candidato (se já identificado) para análise do farmacêutico.
- Registre internamente o motivo do encaminhamento (ex.: “ilegível”, “concentração duvidosa”, “forma divergente”, “data ausente”).
- Retome o atendimento somente após validação do farmacêutico.
Exemplos práticos de situações e como proceder
1) Prescrição ilegível (nome do medicamento ou concentração não identificáveis)
Cenário: o atendente consegue ler “...cilina”, mas não identifica se é “amoxicilina” ou outro nome semelhante; a concentração parece “500” ou “250”, sem certeza.
- Risco: dispensar medicamento errado ou concentração errada.
- Como proceder: não tente “adivinhar” pelo que o paciente diz que costuma usar. Informe que a receita precisa ser validada e encaminhe ao farmacêutico.
- Comunicação segura (exemplo de fala):
“Para garantir que vamos separar exatamente o que está prescrito, preciso que o farmacêutico confirme a leitura desta parte da receita. Um instante, por favor.”
2) Divergência de apresentação (forma farmacêutica diferente)
Cenário: prescrito “medicamento X 20 mg comprimidos”, mas o item encontrado no sistema/estoque é “medicamento X 20 mg cápsulas”.
- Risco: troca de forma pode alterar a dispensação correta e a orientação posterior do farmacêutico.
- Como proceder: não substitua. Separe as opções disponíveis e encaminhe ao farmacêutico para decisão.
- Comunicação segura (exemplo de fala):
“Aqui está indicado ‘comprimidos’ e eu tenho ‘cápsulas’. Vou chamar o farmacêutico para confirmar a apresentação correta antes de seguir.”
3) Falta de dados do prescritor (nome/registro incompletos)
Cenário: há assinatura, mas não há nome legível nem número de registro; ou há nome, mas o registro está ausente/ilegível.
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- Risco: dificuldade de validação documental e rastreabilidade.
- Como proceder: interromper e encaminhar ao farmacêutico. Não solicite ao paciente “completar” dados do prescritor por conta própria.
- Comunicação segura (exemplo de fala):
“Alguns dados do prescritor não estão legíveis aqui. Vou pedir ao farmacêutico para verificar como proceder com segurança.”
4) Data ausente ou ilegível
Cenário: a data está borrada ou só consta mês/ano.
- Risco: falha de validação operacional e documental.
- Como proceder: encaminhar ao farmacêutico para orientação do fluxo correto.
5) Quantidade ambígua (unidades vs caixas)
Cenário: está escrito “30” sem indicar se são comprimidos, cápsulas ou “30 cp”; ou “2” sem indicar se são caixas ou frascos.
- Risco: entregar quantidade errada.
- Como proceder: não “assumir” padrão. Encaminhar ao farmacêutico para definir a leitura correta e, se necessário, orientar o paciente a retornar ao prescritor para correção.
6) Orientações presentes, mas conflitantes com a forma (sem interpretar)
Cenário: prescrito “uso ocular” e o item parece ser “pomada dermatológica” (ou a forma escrita não combina com a indicação de uso).
- Risco: erro de via/uso.
- Como proceder: interromper imediatamente e encaminhar ao farmacêutico, destacando o conflito observado.
Modelo de checklist rápido (para uso interno)
| Item | Conferido? | Observação |
|---|---|---|
| Paciente (quando presente) | ☐ | |
| Prescritor (nome) | ☐ | |
| Registro/UF | ☐ | |
| Data | ☐ | |
| Medicamento (nome) | ☐ | |
| Concentração | ☐ | |
| Forma farmacêutica | ☐ | |
| Quantidade | ☐ | |
| Orientações (se houver) | ☐ | |
| Legibilidade adequada | ☐ | |
| Sem divergência com produto selecionado | ☐ |
Comunicação segura em casos de dúvida (frases prontas)
“Para evitar qualquer erro, preciso que o farmacêutico confirme estas informações antes de separar o medicamento.”“Esta parte está pouco legível e pode gerar duas leituras diferentes. Vou encaminhar para validação.”“O que está escrito aqui não corresponde exatamente à apresentação que temos. Vou chamar o farmacêutico para confirmar a opção correta.”“Eu não consigo confirmar com segurança a quantidade/unidade indicada. Vamos validar com o farmacêutico.”
Erros comuns a evitar na conferência
- Completar mentalmente palavras ou números (“deve ser 500 mg”).
- Trocar forma/apresentação por “equivalência” sem validação do farmacêutico.
- Usar relato do paciente como substituto do que está escrito na prescrição.
- Ignorar rasuras ou trechos corrigidos sem confirmação.
- Orientar posologia ou “como tomar” sem encaminhar ao farmacêutico.