Economia do Zero e oferta: como empresas decidem produzir e vender

Capítulo 6

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que é oferta (na prática)

Oferta é a quantidade de um bem ou serviço que produtores estão dispostos e capazes de vender a diferentes preços, em um determinado período. Na vida real, a oferta não depende só de “vontade de vender”: ela depende de custos de produção, capacidade (equipamentos, equipe, tempo), tecnologia, impostos, concorrência e risco (de não vender, de calote, de desperdício).

Em geral, quando o preço de venda sobe (mantidos os custos), fica mais interessante produzir e vender mais, porque a margem por unidade tende a aumentar e compensa o esforço e o risco. Mas isso tem limites: ninguém consegue dobrar a produção do dia para a noite se faltar forno, agenda, funcionários ou matéria-prima.

Oferta e custos: o motor por trás da decisão de produzir

Custos fixos vs. custos variáveis

Para entender oferta, separe os custos em dois grupos:

  • Custos fixos: existem mesmo que você venda pouco (ou nada) no dia. Exemplos: aluguel, internet, contador, parte do salário administrativo, licença, seguro, parcela de equipamento.
  • Custos variáveis: aumentam conforme você produz/vende mais. Exemplos: ingredientes, embalagens, comissões, taxa do cartão, energia diretamente ligada à produção, horas extras, combustível por entrega.

Uma empresa decide “quanto ofertar” olhando para: (1) quanto consegue produzir com a estrutura atual, (2) quanto custa cada unidade adicional e (3) por quanto consegue vender sem perder clientes para concorrentes.

Um jeito simples de pensar: custo por unidade e margem

Uma regra prática: se o preço de venda cobre o custo variável e ainda sobra algo para ajudar a pagar os custos fixos, faz sentido ofertar (desde que haja capacidade e demanda). Se nem o custo variável é coberto, vender mais pode aumentar o prejuízo.

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ItemExemploO que influencia a oferta
Custo fixoAluguel do pontoPressiona a necessidade de vender um mínimo para “pagar a porta aberta”
Custo variávelFarinha, tinta, creme, lâminaDefine o custo de cada unidade adicional; se sobe, a oferta tende a cair (ou o preço precisa subir)
CapacidadeForno, cadeiras, agenda, equipeLimita o quanto dá para ofertar mesmo que o preço suba
RiscoProduto perecível, cancelamentosReduz a disposição de produzir/estocar sem garantia de venda

Exemplo 1: padaria (produto físico e perecível)

Uma padaria decide quantos pães assar por dia. Ela lida com perecibilidade: pão que sobra perde valor rápido. Então a oferta é uma decisão diária que equilibra custo, capacidade e risco de desperdício.

Custos típicos

  • Fixos: aluguel, parte da folha (gerência), manutenção, depreciação do forno, licenças.
  • Variáveis: farinha/trigo, fermento, sal, água, embalagens, energia do forno, taxa do cartão, horas extras em dias de pico.

Passo a passo prático: como a padaria decide a oferta do dia

  1. Estimar vendas prováveis: histórico (dia da semana), clima, feriados, eventos no bairro.
  2. Checar capacidade: forno, equipe, tempo de produção e de atendimento.
  3. Calcular custo por unidade: quanto custa produzir 1 pão (ingredientes + energia + perdas esperadas).
  4. Definir margem mínima: quanto precisa sobrar por pão para ajudar a pagar os fixos e gerar lucro.
  5. Decidir quantidade e horários de fornadas: mais fornadas menores reduzem sobra, mas aumentam custo de energia e trabalho.
  6. Plano B para sobras: promoções no fim do dia, reaproveitamento permitido (ex.: torradas), doação (quando viável).

Se o preço do pão no balcão sobe, a padaria pode querer ofertar mais. Mas se a equipe já está no limite ou o forno não dá conta, a oferta não cresce muito no curto prazo.

Exemplo 2: salão de beleza (serviço com agenda e tempo)

Um salão não “produz estoque” de cortes ou escovas. A oferta é a quantidade de horários que ele consegue disponibilizar e vender.

Custos típicos

  • Fixos: aluguel, recepção, internet, sistema de agendamento, parte da energia, limpeza.
  • Variáveis: produtos (tinta, shampoo, máscara), luvas, toalhas descartáveis (se houver), comissão do profissional, taxa do cartão.
  • Tempo como recurso central: cada serviço ocupa minutos/horas que não podem ser usados em outro cliente.

Como o preço influencia a oferta no salão

Se o salão aumenta o preço de um serviço, ele pode:

  • Manter a mesma oferta (mesma agenda), buscando maior margem por horário.
  • Reduzir a oferta de serviços menos rentáveis (ex.: parar de oferecer um procedimento que consome muito tempo e dá pouca margem).
  • Aumentar a oferta no médio prazo, contratando mais profissionais ou ampliando horário (o que aumenta custos fixos e risco).

A concorrência pesa: se há muitos salões próximos, subir preço pode reduzir a quantidade vendida, mesmo que o salão “queira” ofertar mais.

Exemplo 3: prestador de serviço (autônomo ou microempresa)

Pense em um eletricista, encanador, designer, professor particular ou técnico de informática. A oferta é limitada por tempo, deslocamento, ferramentas e energia física/mental.

Custos típicos

  • Fixos: celular, internet, ferramentas (parcelas/manutenção), MEI/contabilidade, seguro, transporte básico.
  • Variáveis: combustível por visita, peças, materiais, taxas de plataforma (se usar), tempo extra, ajudante por diária.

Passo a passo prático: definindo quanto ofertar e por quanto

  1. Mapear capacidade semanal: quantas horas reais de atendimento (descontando deslocamento e tarefas administrativas).
  2. Listar custos fixos mensais: quanto precisa “pagar” para continuar operando.
  3. Estimar custos variáveis por serviço: combustível, materiais, taxas, tempo.
  4. Definir preço mínimo por hora: um valor que cubra variáveis e contribua para os fixos.
  5. Escolher mix de serviços: priorizar os que dão melhor retorno por hora e menor risco de retrabalho.
  6. Gerenciar risco: sinal, contrato simples, política de cancelamento, garantia limitada.

Se falta mão de obra (ex.: ajudante) ou se o prestador fica com agenda lotada, a oferta não aumenta; o ajuste costuma vir por prazo maior (fila) ou preço maior (para reduzir demanda e selecionar serviços).

Por que a oferta muda (mesmo sem mudar o preço)

A oferta pode aumentar ou diminuir porque os custos e a capacidade mudam. Alguns gatilhos comuns:

  • Aumento do custo de insumos: farinha, carne, tintura, peças, embalagens. Se o custo por unidade sobe, alguns produtores reduzem produção ou sobem preço para manter margem.
  • Energia e combustível: afetam diretamente produção (forno, secador, máquinas) e logística (entregas, visitas).
  • Falta de mão de obra: menos funcionários ou profissionais qualificados reduz capacidade; horas extras encarecem o custo variável.
  • Nova tecnologia/máquinas: um forno mais eficiente, uma máquina de café melhor, um software de agenda ou uma ferramenta mais rápida pode aumentar capacidade e reduzir custo por unidade, elevando a oferta.
  • Impostos e regras: aumento de alíquotas, novas exigências, fiscalização, taxas municipais podem elevar custo fixo e reduzir a disposição de ofertar.
  • Concorrência: mais concorrentes podem pressionar preços para baixo; se o preço de mercado cai, alguns produtores saem ou reduzem oferta.
  • Risco e incerteza: medo de encalhe, inadimplência, variação de insumos, sazonalidade. Quanto maior o risco, mais cautelosa tende a ser a oferta.

Estudo de caso simples: por que o preço do pão muda quando trigo ou energia sobem

Imagine uma padaria que vende pão francês. Dois itens pesam muito: trigo/farinha e energia (forno, equipamentos, refrigeração, iluminação). Quando um deles sobe, o custo de produzir cada pão aumenta.

Cenário A: sobe o trigo (farinha)

Se a farinha fica mais cara, o custo variável por pão sobe. A padaria tem algumas opções:

  • Repassar no preço: aumenta o preço do pão para manter a margem. Risco: perder clientes para concorrentes ou reduzir quantidade vendida.
  • Reduzir margem: mantém o preço por um tempo e ganha menos por unidade. Risco: não cobrir custos fixos no mês.
  • Ajustar o produto: mudar gramatura/tamanho (com transparência e dentro das regras), alterar mix (vender mais itens de maior margem).
  • Negociar e substituir: buscar fornecedor melhor, comprar em maior volume, reduzir desperdício.

Cenário B: sobe a energia

Energia pode afetar tanto custo variável (fornadas, equipamentos) quanto parte do custo fixo (conta mínima, iluminação, refrigeração). Quando a energia sobe:

  • Produzir em mais fornadas pequenas pode ficar mais caro, mas reduz sobra; a padaria recalibra o equilíbrio entre desperdício e custo de energia.
  • Horários de produção podem mudar (quando há tarifas diferentes, se aplicável).
  • Investimento em eficiência (forno melhor, manutenção, vedação) pode aumentar a oferta no médio prazo ao reduzir custo por unidade.

Um mini-exemplo numérico (para visualizar)

Suponha que, antes dos aumentos, o custo variável por pão fosse:

  • Farinha e ingredientes: R$ 0,35
  • Energia por unidade (média): R$ 0,10
  • Embalagem/taxa: R$ 0,05
  • Total variável: R$ 0,50

Se o pão é vendido a R$ 1,00, sobram R$ 0,50 por unidade para ajudar a pagar aluguel, salários e lucro. Agora imagine:

  • Farinha sobe e vai para R$ 0,45
  • Energia sobe e vai para R$ 0,15
  • Total variável vira R$ 0,65

Com o mesmo preço de R$ 1,00, a sobra cai de R$ 0,50 para R$ 0,35. Se a padaria já operava com margem apertada, ela pode precisar ajustar preço, reduzir perdas, aumentar eficiência ou mudar o mix de produtos para não comprometer o pagamento dos custos fixos.

Perguntas de reflexão: repasse de custos em pequenos negócios locais

  • Quando o custo de um insumo sobe (farinha, tinta, peça), o negócio do seu bairro consegue repassar tudo no preço, ou precisa absorver parte? Por quê?
  • Quais custos parecem mais “invisíveis” para o cliente (energia, taxa do cartão, tempo de deslocamento) e como eles influenciam a oferta?
  • Em quais situações um pequeno negócio prefere reduzir a quantidade ofertada (menos horários, menos fornadas, menos entregas) em vez de aumentar preço?
  • Como a concorrência na sua região limita o repasse de custos? E como diferenciação (qualidade, rapidez, atendimento) muda essa conta?
  • Se você fosse o dono de uma padaria/salão/serviço, o que faria primeiro diante de um aumento de custos: renegociar fornecedores, reduzir desperdício, investir em eficiência, ajustar preço ou mudar o mix?

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Uma empresa está decidindo se deve aumentar a quantidade ofertada de um produto. Qual condição indica que faz sentido produzir e vender mais no curto prazo, segundo a lógica de custo por unidade e capacidade?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Produzir mais tende a fazer sentido quando cada unidade vendida paga seus custos variáveis e ainda gera margem para contribuir com os custos fixos. Mesmo assim, a oferta no curto prazo é limitada pela capacidade (equipe, equipamentos, tempo) e pelo risco de não vender.

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