Economia do Zero e demanda: por que você compra mais ou menos de algo

Capítulo 7

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

O que é demanda (sem complicação)

Demanda é a quantidade de um bem ou serviço que as pessoas desejam e conseguem comprar a diferentes preços, em um determinado período. Não é só “vontade”: envolve intenção + capacidade de pagar.

Na prática, quando o preço de algo muda, a quantidade que você decide comprar tende a mudar também. Mas o preço não é o único fator: renda, preferências, produtos substitutos, produtos complementares e expectativas também mexem com a demanda.

Demanda x quantidade demandada

  • Quantidade demandada: o quanto você compra quando o preço muda (ex.: o café ficou mais caro e você compra menos).
  • Demanda (como “curva”): o conjunto de quantidades que você compraria em vários preços e que pode mudar quando outros fatores mudam (ex.: sua renda aumentou e você passa a comprar mais, mesmo com o mesmo preço).

O que faz você comprar mais ou menos (além do preço)

1) Renda: seu orçamento muda a sua demanda

Quando sua renda aumenta, você pode passar a comprar mais de alguns itens (por exemplo, mais refeições fora, uma marca melhor, um plano de internet mais rápido). Quando a renda cai, você tende a reduzir quantidades, trocar por alternativas mais baratas ou adiar compras.

Exemplo rápido: se o preço do iogurte continua igual, mas seu orçamento apertou, você pode reduzir de 7 unidades por semana para 3, ou trocar por uma marca mais barata. Isso é mudança de demanda por renda, não por preço do iogurte.

2) Preferências: gosto, hábitos e “fase da vida”

Preferências mudam por rotina, saúde, tempo disponível e até por influência social. Se você começa academia, pode aumentar a demanda por alimentos proteicos; se muda de bairro e passa a cozinhar menos, pode aumentar a demanda por delivery.

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Exemplo: você decide reduzir açúcar. Mesmo que o preço do refrigerante não mude, sua demanda cai porque sua preferência mudou.

3) Substitutos: quando você troca uma coisa por outra

Produtos substitutos são alternativas que “resolvem o mesmo problema” para você. Quando o preço de um sobe, a demanda pelo outro costuma aumentar.

  • Carne vs. frango: se a carne bovina sobe muito, parte das pessoas troca para frango, ovos ou proteína vegetal.
  • Marca premium vs. marca própria: se a marca premium fica cara (ou sua renda cai), você pode migrar para marca própria/similar.
  • Streaming vs. cinema: se o cinema fica mais caro (ingresso + transporte + pipoca), você pode aumentar o consumo de streaming em casa; se o streaming encarece ou perde catálogo, você pode voltar a ir mais ao cinema ou buscar outras formas de entretenimento.

Detalhe importante: quanto mais fácil for a troca (mesmo sabor, mesma função, pouca “perda” de qualidade), maior tende a ser a substituição.

4) Complementares: quando uma compra puxa a outra

Produtos complementares são usados juntos. Se você compra mais de um, tende a comprar mais do outro; se um fica caro ou escasso, pode reduzir a demanda do conjunto.

  • Café e filtro: se o filtro some do mercado ou encarece muito, algumas pessoas reduzem o consumo de café coado ou mudam para cápsulas/solúvel.
  • Celular e internet: um plano de internet mais caro pode reduzir o uso de apps, streaming no celular e até a vontade de trocar de aparelho (porque a experiência piora).

5) Expectativas: o que você acha que vai acontecer

Expectativas sobre preço, renda e disponibilidade mudam o momento da compra.

  • Se você acha que vai subir (ex.: notícia de aumento de imposto), pode antecipar compras (demanda agora sobe).
  • Se você acha que vai cair (ex.: “vai entrar em promoção”), pode adiar (demanda agora cai).
  • Se você acha que vai faltar, pode estocar (demanda agora sobe).

Como promoções, modas, clima e notícias mexem com a demanda

Promoções: preço menor e também “gatilho” de compra

Promoção mexe na quantidade demandada (porque o preço caiu), mas também pode mexer na demanda por outros motivos: urgência, medo de perder, compra por impulso e estoque.

  • Exemplo: detergente “leve 3 pague 2”. Você compra mais agora e compra menos nas semanas seguintes (porque já estocou).
  • Exemplo: assinatura anual com desconto. Você antecipa a decisão para “travar” o preço.

Modas e tendências: preferência muda rápido

Quando algo vira tendência, a demanda pode subir mesmo sem mudança de preço. Isso acontece com roupas, restaurantes, bebidas, aplicativos e até destinos de viagem.

  • Exemplo: uma bebida “da moda” aparece em todo lugar. Mais gente quer experimentar, então a demanda aumenta.

Clima: necessidade muda com temperatura e estação

O clima altera o que você precisa e o que parece mais atraente.

  • Calor: aumenta demanda por água, sorvete, ventilador, ar-condicionado, roupas leves.
  • Frio: aumenta demanda por aquecedor, cobertor, chocolate quente, roupas de inverno.
  • Chuva: pode aumentar demanda por delivery e reduzir demanda por lazer ao ar livre.

Notícias e “clima de confiança”: percepção de risco muda compras

Notícias sobre economia, emprego, câmbio, saúde pública ou segurança podem mudar a disposição de gastar.

  • Exemplo: se você ouve notícias de demissões no seu setor, pode reduzir demanda por itens não essenciais (viagens, eletrônicos) e priorizar itens básicos.
  • Exemplo: notícia de alta do dólar pode aumentar a demanda imediata por produtos importados (antecipação) ou reduzir no médio prazo (ficam caros).

Passo a passo prático: como usar demanda para decidir melhor no dia a dia

Passo 1 — Defina o produto e a “função” dele

Escreva o produto e o que ele resolve para você (ex.: “carne bovina” = proteína para refeições; “streaming” = entretenimento em casa; “café” = bebida e hábito matinal).

Passo 2 — Liste seus substitutos reais (não os perfeitos)

Substituto real é o que você aceitaria comprar de verdade, mesmo que não seja idêntico.

  • Ex.: carne bovina → frango, ovos, porco, proteína vegetal, leguminosas.
  • Ex.: marca premium → marca própria, atacado, refil, embalagem maior.
  • Ex.: cinema → streaming, TV aberta, eventos gratuitos, jogos.

Passo 3 — Liste os complementares que “puxam” gasto junto

Isso evita subestimar o custo total e ajuda a entender por que sua demanda muda.

  • Ex.: café → filtro, açúcar/adoçante, leite, gás/energia.
  • Ex.: celular → plano de internet, capa, carregador, apps.
  • Ex.: cinema → transporte, lanche, estacionamento.

Passo 4 — Observe os fatores que podem deslocar sua demanda

Pergunte:

  • Minha renda mudou (ou vai mudar)?
  • Minhas preferências mudaram (saúde, rotina, tempo)?
  • Algum substituto ficou mais barato/melhor?
  • Algum complementar ficou caro ou faltando?
  • Minhas expectativas mudaram (promoção, aumento, risco)?
  • Teve clima, moda ou notícia influenciando?

Passo 5 — Decida uma regra simples para quando o preço subir

Crie uma regra objetiva para evitar decisão no impulso.

  • Regra de troca: “Se subir mais de X%, troco para o substituto A por 2 semanas.”
  • Regra de quantidade: “Se subir, compro 20% menos e completo com o substituto B.”
  • Regra de complementar: “Se o complementar encarecer, reduzo o conjunto (ex.: menos café fora, mais em casa).”

Atividade: Mapa de substitutos (para enxergar alternativas quando preços sobem)

Objetivo: montar um “mapa” rápido de alternativas para um produto comum, para você reagir melhor a aumentos de preço.

Como fazer (em 10 minutos)

  1. Escolha 1 produto que você compra sempre (ex.: arroz, café, carne, leite, streaming, transporte por app).

  2. Escreva a função dele em uma frase (ex.: “Café = energia e ritual matinal”).

  3. Crie 3 círculos de substitutos (do mais parecido ao mais diferente):

    • Círculo 1 (muito parecido): mesma categoria (marca diferente, tamanho diferente, versão genérica).
    • Círculo 2 (parecido): resolve a mesma função com outra forma (produto diferente, mas equivalente).
    • Círculo 3 (alternativo): muda o hábito/rotina (outra solução para a mesma necessidade).
  4. Liste 2 complementares que costumam vir junto (para lembrar do custo total).

  5. Defina seu gatilho: “Se o preço subir acima de ___, eu migro para o Círculo ___ por ___ semanas.”

Exemplo preenchido (produto: carne bovina)

Parte do mapaItens
FunçãoProteína principal das refeições
Círculo 1 (muito parecido)Outros cortes, comprar em peça, marca/fornecedor diferente
Círculo 2 (parecido)Frango, porco, peixe, ovos
Círculo 3 (alternativo)Feijão/lentilha/grão-de-bico, tofu, refeições sem carne em alguns dias
ComplementaresTemperos, gás/energia, acompanhamentos
GatilhoSe subir > 15%, trocar 50% por frango/ovos por 2 semanas

Resumo: fatores que deslocam a demanda e como isso aparece na vida real

Fator (além do preço)O que acontece com a demandaExemplo do dia a dia
RendaVocê compra mais/menos mesmo com preço igualOrçamento apertou → troca marca premium por marca própria
PreferênciasSeu gosto/hábito muda o quanto você quer comprarDecidiu comer mais saudável → cai demanda por ultraprocessados
Preços de substitutosSe o substituto fica mais barato, você migraCarne sobe → aumenta demanda por frango
Preços de complementaresSe o complementar encarece, você reduz o conjuntoInternet sobe → reduz uso de streaming no celular
ExpectativasVocê antecipa ou adia comprasEsperando promoção → adia compra de eletrônicos
PromoçõesVocê compra mais agora e pode estocarLeve 3 pague 2 → compra extra e reduz depois
Modas/tendênciasPreferência coletiva puxa demanda para cima/baixoProduto viral → mais gente quer experimentar
ClimaNecessidades mudam com estação/temperaturaCalor → aumenta demanda por ventilador e bebidas geladas
Notícias e confiançaPercepção de risco muda disposição de gastarNotícia de crise → adia compras grandes

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Qual situação representa uma mudança na demanda (curva), e não apenas na quantidade demandada?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Quando o preço do produto não muda, mas a compra muda por renda (orçamento), ocorre deslocamento da demanda (curva). Já mudanças causadas pelo preço do próprio item afetam a quantidade demandada.

Próximo capitúlo

Economia do Zero e oferta e demanda juntas: como se forma o preço no cotidiano

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