Economia do Zero e oferta e demanda juntas: como se forma o preço no cotidiano

Capítulo 8

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Oferta e demanda juntas: a “negociação invisível” que forma o preço

Quando oferta e demanda se encontram, elas determinam duas coisas ao mesmo tempo: o preço e a quantidade vendida. Pense nisso como um ajuste contínuo: consumidores tentam comprar (demanda) e vendedores tentam atender (oferta). Se muita gente quer comprar e há pouco produto, o preço tende a subir e a quantidade vendida fica limitada pelo estoque. Se há muito produto e pouca gente comprando, o preço tende a cair e a quantidade vendida pode ficar abaixo do que as empresas gostariam.

Sem usar gráficos, dá para entender com uma regra prática: o preço se move para reduzir desequilíbrios. Se falta produto (excesso de demanda), o preço sobe e “esfria” parte das compras. Se sobra produto (excesso de oferta), o preço cai e “puxa” mais compras.

Como perceber excesso de demanda e excesso de oferta no cotidiano

Excesso de demanda acontece quando, ao preço atual, as pessoas querem comprar mais do que existe disponível. Sinais comuns:

  • Filas (para comprar ou para ser atendido).
  • Falta de estoque (“acabou”, “só semana que vem”).
  • Racionamento informal (limite por cliente, “1 unidade por CPF”).
  • Ágio (revenda mais cara, “últimas unidades”).

Excesso de oferta acontece quando, ao preço atual, as empresas colocam mais produto do que as pessoas querem comprar. Sinais comuns:

  • Descontos e promoções frequentes.
  • Queima de estoque (“leve 3 pague 2”, “últimas peças”).
  • Prazo maior para vender (produto parado).
  • Brinde, frete grátis e condições especiais para destravar vendas.

Três cenários para ver o preço se formando (sem gráficos)

Cenário 1: aumento de demanda (evento na cidade)

Imagine que sua cidade vai receber um grande festival no fim de semana. De repente, chegam visitantes e muita gente decide sair para comer, se hospedar e se deslocar.

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O que muda primeiro? A demanda por alguns itens sobe rápido: hotéis, corridas de aplicativo/táxi, água, gelo, lanches, restaurantes.

ItemO que acontece com a demandaO que acontece com a oferta no curto prazoSinal no dia a dia
HotéisSobe muitoQuase não muda (quartos são fixos)“Esgotado” e diárias mais caras
RestaurantesSobeCapacidade limitada (mesas, equipe)Fila, espera, combos mais caros
Água/geloSobeRepor leva tempoPrateleira vazia, limite por cliente

Como o preço e a quantidade reagem?

  • Preço tende a subir porque há mais gente tentando comprar do que a oferta consegue atender imediatamente.
  • Quantidade vendida sobe até o limite do que dá para produzir/atender no curto prazo (capacidade).

Passo a passo do ajuste (na prática):

  1. O evento aumenta o número de compradores.
  2. O estoque/capacidade não cresce na mesma velocidade.
  3. Surge excesso de demanda: filas, falta, “acabou”.
  4. Vendedores reajustam preços (ou reduzem promoções).
  5. Parte dos consumidores desiste, troca de marca/horário/local ou compra menos.
  6. Com o tempo, a oferta tenta reagir: mais funcionários temporários, mais entregas, horários estendidos.

Cenário 2: queda de oferta (quebra de safra)

Agora imagine uma quebra de safra de tomate por clima ruim. Mesmo que as pessoas queiram comprar a mesma quantidade de sempre, há menos tomate chegando ao atacado e ao varejo.

EtapaO que mudaEfeito típico
ProduçãoMenos colheitaMenos volume disponível
DistribuiçãoAtacadistas recebem menosReposição mais lenta
VarejoMercados limitam compra ou encarecemPreço sobe e falta em alguns dias

Como o preço e a quantidade reagem?

  • Preço tende a subir porque o produto ficou mais raro.
  • Quantidade vendida tende a cair porque simplesmente há menos unidades disponíveis.

Exemplos de “ajustes” que você observa:

  • Restaurantes mudam o cardápio (menos molho, troca por outro ingrediente).
  • Consumidores substituem (passam a comprar mais cenoura, pepino, molho pronto).
  • Mercados fazem promoções de itens alternativos para reduzir a pressão no tomate.

Cenário 3: mudança simultânea (alta do dólar afetando importados e escolhas)

Quando o dólar sobe, produtos importados (ou com insumos importados) costumam ficar mais caros em reais. Isso mexe em duas frentes ao mesmo tempo:

  • Oferta: para o vendedor, repor estoque importado custa mais; alguns reduzem pedidos, outros repassam preço.
  • Demanda: consumidores reavaliam compras, trocam por alternativas nacionais ou adiam.

Exemplo: eletrônicos, videogames, peças automotivas, alguns medicamentos, trigo (em certos períodos), combustíveis (dependendo da política de preços e do mercado).

ProdutoEfeito do dólar na ofertaEfeito do dólar na demandaResultado comum
Eletrônicos importadosReposição mais cara, menos promoçõesParte adia compra ou troca por modelo mais simplesPreço sobe; quantidade pode cair
Peças automotivasOficinas pagam mais para reporConsumidor posterga manutenção não urgentePreço sobe; filas/espera por peça
Produtos “substitutos” nacionaisPodem ter custo menor, mas recebem mais procuraDemanda migra para elesPreço pode subir também (pressão de demanda)

O detalhe importante: mesmo quem não compra importados pode sentir efeitos indiretos. Se muita gente migra para o “similar nacional”, a demanda desse similar aumenta e o preço dele pode subir, ainda que não seja importado.

Como ler o mercado sem gráficos: uma tabela de “termômetro”

O que você vêInterpretação provávelO que tende a acontecer com o preçoO que tende a acontecer com a quantidade vendida
Fila + estoque acabandoExcesso de demandaSobeSobe até o limite do estoque/capacidade
Prateleira cheia + promoções fortesExcesso de ofertaCaiPode subir (se o desconto destravar compras)
Reposição lenta + limite por clienteOferta curta no curto prazoSobeCai ou fica travada
Produto parado + vendedor insistindoDemanda fracaCaiCai

Laboratório do dia a dia: simulações simples (preço x quantidade)

A ideia aqui é treinar seu olhar: mudar uma condição e observar como preço e quantidade tendem a reagir. Não é previsão exata; é um exercício de raciocínio.

Simulação 1: tomate (sensível a clima e safra)

Situação base (sem choque): um mercado vende 100 kg/dia a R$ 6/kg.

Choque A: quebra de safra (oferta cai)

  • Chegam apenas 70 kg/dia para vender.
  • Ao preço antigo (R$ 6), clientes tentam comprar 100 kg (há falta).
  • O mercado aumenta o preço para reduzir a corrida e distribuir o estoque.
Preço do tomateQuantidade que clientes tentam comprarQuantidade disponívelO que aparece
R$ 6/kg100 kg70 kgFalta + reclamação + “acabou”
R$ 8/kg80 kg70 kgMenos falta, ainda apertado
R$ 9/kg70 kg70 kgEquilíbrio do dia (sem fila grande)

Passo a passo para você simular em casa:

  1. Escolha um produto de feira.
  2. Defina um “dia normal” (preço e quanto você vê vender).
  3. Imagine a oferta caindo 20% a 40% (chuva, calor, praga).
  4. Pergunte: ao preço antigo, faltaria? Se sim, qual preço faria algumas pessoas comprarem menos ou substituírem?

Simulação 2: gasolina (oferta com restrições e demanda diária)

Situação base: um posto vende 5.000 litros/dia a R$ 5,80.

Choque A: aumento de demanda (feriado prolongado + viagens)

  • Mais gente abastece no mesmo dia.
  • O caminhão de reposição não chega mais rápido só porque a fila aumentou.
PreçoDemanda estimada no diaCapacidade de venda/estoqueSinal
R$ 5,806.500 L5.000 LFila + risco de faltar
R$ 6,105.600 L5.000 LFila menor, ainda pressionado
R$ 6,305.000 L5.000 LFluxo normaliza

Choque B: excesso de oferta local (novo posto abre perto)

  • Mais oferta na região, mas a demanda total do bairro muda pouco no curto prazo.
  • Postos competem com preço e condições.
PreçoQuantidade vendida no postoO que aparece
R$ 5,804.000 LMovimento menor (clientes divididos)
R$ 5,654.700 LMais carros, promoções
R$ 5,555.000 LVolume volta, margem menor

Simulação 3: passagens (capacidade fixa no curto prazo)

Passagens (ônibus, avião) são um exemplo clássico de oferta “travada” no curto prazo: há um número limitado de assentos por horário.

Situação base: voo com 180 assentos. Em semanas comuns, vende 140 assentos a R$ 600.

Choque: evento + feriado (demanda sobe)

PreçoPessoas tentando comprarAssentos disponíveisResultado
R$ 600220180Excesso de demanda (esgota rápido)
R$ 750190180Quase esgota
R$ 820180180Vende tudo sem “sobrar gente”

Leitura prática: quando você vê preços subindo muito conforme a data se aproxima, geralmente é porque a capacidade é fixa e a demanda é concentrada em certos dias/horários. O preço vira um filtro para distribuir assentos escassos.

Checklist rápido: identificando o que está puxando o preço

Quando um preço muda, use estas perguntas para diagnosticar:

  • Tem mais gente querendo comprar? (evento, moda, medo de faltar, renda maior, temporada)
  • Tem menos produto chegando? (clima, logística, custo de insumo, câmbio, restrição de produção)
  • O produto tem substitutos fáceis? (se sim, o preço encontra resistência mais cedo)
  • A capacidade é fixa no curto prazo? (hotel, passagem, show: oferta reage devagar)
  • Há sinais de falta ou de sobra? (fila/estoque vs. desconto/queima)

Glossário curto (termos usados no capítulo)

  • Oferta: quantidade que vendedores conseguem e querem vender em diferentes preços, dadas suas condições de custo e capacidade.
  • Demanda: quantidade que consumidores querem comprar em diferentes preços, dadas suas preferências e renda.
  • Preço: valor que ajusta compras e vendas, ajudando a “resolver” falta ou sobra.
  • Quantidade vendida: quanto de fato é negociado (limitado por estoque/capacidade e pelo interesse de compra).
  • Excesso de demanda: ao preço atual, querem comprar mais do que existe; aparece como filas, falta e esgotamento.
  • Excesso de oferta: ao preço atual, há mais produto do que compradores; aparece como descontos e estoque parado.
  • Choque de demanda: mudança repentina na vontade de comprar (ex.: evento na cidade).
  • Choque de oferta: mudança repentina na disponibilidade/custo de vender (ex.: quebra de safra).
  • Substituto: produto que pode ocupar função parecida (ex.: trocar tomate por outro ingrediente).
  • Câmbio (dólar): preço da moeda estrangeira; quando sobe, tende a encarecer importados e insumos ligados ao exterior.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em uma situação de excesso de demanda (muita gente querendo comprar e pouco produto disponível), qual comportamento é mais esperado para o preço e para a quantidade vendida no curto prazo?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

No excesso de demanda, ao preço atual as pessoas querem comprar mais do que existe disponível. O preço tende a subir para "esfriar" parte das compras, e a quantidade vendida só cresce até o limite do estoque ou da capacidade no curto prazo.

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