O que é a Inspeção de Saúde (IS) em seleções militares
A Inspeção de Saúde é a etapa em que uma junta de profissionais (médicos e, em geral, cirurgião-dentista) verifica se o candidato atende aos padrões de aptidão exigidos para o serviço militar. A avaliação costuma combinar: entrevista clínica (anamnese), exame físico, avaliação odontológica e análise de exames complementares. O objetivo é identificar condições que possam limitar o treinamento, o desempenho operacional, a segurança do próprio candidato e a segurança coletiva.
Na prática, a IS não é uma “consulta para tratar”, e sim uma avaliação pericial: o foco é confirmar aptidão ou apontar inaptidão conforme critérios. Por isso, organização documental e transparência sobre histórico de saúde são fundamentais.
Como a avaliação médica e odontológica costuma funcionar
Etapas comuns da avaliação
- Identificação e conferência documental: checagem de identidade e documentos clínicos apresentados.
- Anamnese dirigida: perguntas sobre doenças prévias, cirurgias, internações, alergias, uso de medicamentos, histórico familiar relevante, hábitos e sintomas atuais.
- Exame físico geral: sinais vitais, inspeção geral, avaliação de pele, cabeça e pescoço, tórax, abdome, membros, postura e mobilidade, além de testes simples de função conforme necessidade.
- Avaliações específicas: visão, audição, ortopedia/postura e exame odontológico.
- Análise de exames complementares: leitura de laudos e resultados laboratoriais e de imagem, quando solicitados.
- Registro e decisão: a junta registra achados e emite parecer (apto/inapto), podendo solicitar complementação/atualização de exames se previsto.
Padrões de aptidão: o que geralmente é observado
Os padrões de aptidão variam conforme normas internas e edital, mas costumam envolver: ausência de doença ativa incapacitante, estabilidade clínica de condições crônicas (quando aceitas), função preservada (visão, audição, mobilidade), ausência de alterações que aumentem risco no treinamento (por exemplo, crises recorrentes, desmaios sem investigação, limitações ortopédicas importantes) e saúde bucal compatível com rotina de instrução.
Exemplo prático: um candidato com rinite alérgica controlada, sem crises graves e sem uso de medicação sedativa, tende a ter melhor avaliação do que alguém com crises frequentes, uso contínuo de corticoide sistêmico sem acompanhamento ou sintomas respiratórios importantes no dia.
Exames complementares comumente solicitados
Os exames complementares são pedidos para confirmar condições de saúde e reduzir incertezas. A lista exata depende do edital e das orientações da junta, mas é comum envolver exames laboratoriais, cardiológicos, de imagem e avaliações funcionais.
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Laboratoriais (exemplos frequentes)
- Hemograma (avalia anemia, infecções, alterações hematológicas).
- Glicemia (rastreamento de alterações metabólicas).
- Função renal e hepática (ex.: ureia/creatinina, transaminases, conforme solicitado).
- Urina tipo I (infecções, alterações renais, presença de sangue/proteína).
- Sorologias (podem ser solicitadas conforme normas e etapa).
Cardiológicos
- Eletrocardiograma (ECG) em repouso.
- Outros exames (ex.: ecocardiograma, teste ergométrico) podem ser pedidos se houver achados, sintomas ou histórico que justifiquem.
Imagem e outros
- Radiografias (por exemplo, de tórax ou de segmentos específicos quando indicado).
- Avaliação ortopédica complementar (laudos e imagens se houver histórico de fratura, cirurgia, dor crônica, escoliose, etc.).
- Audiometria (avaliação objetiva da audição).
- Exames oftalmológicos (acuidade visual, refração, avaliação de estruturas oculares, conforme rotina).
Importante: leve sempre laudos com identificação (nome, data, assinatura/CRM/CRO quando aplicável) e, quando houver, o exame em si (imagem/arquivo) além do laudo, pois algumas juntas conferem detalhes técnicos.
Motivos frequentes de inaptidão (visão geral)
Os motivos de inaptidão variam, mas costumam se concentrar em condições que geram risco, limitação funcional ou necessidade de acompanhamento incompatível com a rotina de formação. Abaixo estão exemplos comuns (não exaustivos) em inspeções militares:
- Condições cardiovasculares com risco aumentado (arritmias relevantes, cardiopatias estruturais significativas, hipertensão não controlada).
- Condições respiratórias com crises frequentes ou limitação (asma não controlada, por exemplo).
- Doenças neurológicas com crises ou perda de consciência (ex.: epilepsia ativa, síncopes sem investigação adequada).
- Alterações ortopédicas com limitação de mobilidade, instabilidade articular, dor crônica incapacitante, deformidades importantes ou sequelas funcionais.
- Transtornos psiquiátricos com instabilidade, necessidade de medicação sedativa relevante ou histórico recente de descompensação (a avaliação é individual e baseada em documentação e estabilidade).
- Alterações visuais ou auditivas fora do padrão exigido, especialmente quando não corrigíveis dentro do permitido.
- Condições odontológicas com infecção ativa, necessidade urgente de tratamento, dor importante, ou problemas que comprometam mastigação e saúde geral.
Exemplo prático: dor intensa em dente com suspeita de abscesso no dia da inspeção pode pesar negativamente por indicar infecção ativa e necessidade imediata de intervenção.
Como organizar laudos, histórico de saúde e documentação clínica
Checklist de organização (passo a passo)
- 1) Monte uma pasta física e uma pasta digital: separe por “Identificação”, “Exames laboratoriais”, “Cardio”, “Imagem”, “Oftalmo”, “Audio”, “Ortopedia”, “Odonto”, “Outros”.
- 2) Ordene por data (do mais recente para o mais antigo): facilita a leitura e demonstra acompanhamento.
- 3) Confira dados obrigatórios nos laudos: nome completo, data, assinatura, carimbo/registro profissional (CRM/CRO), e identificação do serviço.
- 4) Leve relatórios de especialistas quando houver condição prévia: um relatório objetivo deve conter diagnóstico, histórico, tratamento, status atual, limitações (se existirem) e prognóstico.
- 5) Prepare um resumo de saúde em 1 página: cirurgias, alergias, doenças prévias, medicamentos em uso, internações, e contatos de emergência. Linguagem simples e direta.
- 6) Medicamentos: anote nome, dose, horário e motivo. Se possível, leve receita atualizada e/ou declaração do médico assistente sobre estabilidade e efeitos colaterais relevantes.
- 7) Se houve lesão ortopédica: inclua laudo de alta, fisioterapia (se aplicável), e exame de imagem com conclusão, destacando retorno às atividades sem restrição (quando for o caso).
- 8) Se usa óculos/lentes: leve a prescrição (grau) e, se houver, relatório oftalmológico recente.
Como relatar histórico e sintomas sem se prejudicar
Em inspeções, omitir informação pode gerar problemas se houver inconsistência com exames ou achados. A conduta mais segura é relatar de forma objetiva: o que ocorreu, quando, como foi investigado, qual tratamento foi feito e como está hoje. Evite interpretações (“acho que foi grave”), prefira fatos (“diagnóstico X em 2023, sem crises desde então, em acompanhamento, sem restrição funcional”).
Condutas adequadas no dia da inspeção
Antes de sair de casa
- Durma adequadamente e evite esforço incomum na véspera para não piorar dores musculares ou alterar sinais vitais.
- Hidrate-se e alimente-se de forma leve, salvo orientação específica para algum exame.
- Evite álcool e substâncias que possam alterar pressão, frequência cardíaca ou atenção.
- Leve documentos e exames em pasta organizada, com cópias quando possível.
Durante a inspeção
- Responda com clareza e objetividade às perguntas.
- Informe uso de medicamentos e apresente receita/relatório quando houver.
- Não interrompa medicação por conta própria para “parecer melhor”; isso pode causar descompensação e gerar achados piores.
- Se estiver com sintomas agudos (febre, crise alérgica intensa, dor forte), relate. Dependendo das regras, pode haver necessidade de reavaliação em outro momento.
Avaliações específicas: o que observar e como se preparar
1) Visão (avaliação oftalmológica)
Geralmente envolve teste de acuidade visual (com e sem correção), avaliação de refração (grau), e inspeção de estruturas oculares conforme rotina. A junta busca confirmar se a visão atende ao padrão exigido e se há doenças oculares relevantes.
- Cuidados práticos: leve óculos em bom estado e a prescrição atual; se usa lentes de contato, considere levar também os óculos (pode ser solicitado teste sem lentes).
- Evite: chegar com olhos irritados por uso prolongado de lentes, noites mal dormidas ou exposição a poeira/fumaça, pois isso pode atrapalhar o exame.
- Documentos úteis: relatório oftalmológico recente com acuidade, refração e observações clínicas (quando houver condição prévia).
2) Audição (audiometria e avaliação clínica)
A audição pode ser avaliada por audiometria e por exame clínico do ouvido. O objetivo é identificar perdas auditivas que comprometam comunicação e segurança em ambiente militar.
- Cuidados práticos: evite exposição a som alto (fones em volume elevado, shows) nos dias anteriores; isso pode causar alteração temporária.
- Se tiver histórico de otite ou cirurgia: leve relatórios e exames (audiometrias anteriores, laudos do otorrino).
- No dia: informe sintomas como zumbido, dor, secreção ou sensação de ouvido tampado.
3) Postura/ortopedia (coluna, joelhos, pés e mobilidade)
A avaliação ortopédica observa alinhamento postural, coluna, amplitude de movimento, estabilidade articular e sinais de dor/limitação. Alterações podem ser relevantes quando aumentam risco de lesão durante instrução física e atividades repetitivas.
- O que costuma ser observado: escoliose/hipercifose/hiperlordose significativas, discrepância de membros, limitações de flexão/extensão, instabilidade de joelho/tornozelo, dor à mobilização, alterações importantes nos pés (ex.: deformidades dolorosas).
- Se houve lesão prévia: leve laudo de alta e relatório com status funcional (ex.: “sem dor, sem instabilidade, liberado para atividade física”).
- Conduta no dia: não force movimentos além do confortável; relate dor de forma objetiva (local, intensidade, quando aparece, o que piora/melhora).
4) Saúde bucal (avaliação odontológica)
A inspeção odontológica verifica presença de cáries extensas, infecções, doença periodontal significativa, necessidade de tratamento urgente, condições que causem dor ou risco de complicações durante a rotina de formação.
- Cuidados práticos antes da inspeção: faça uma avaliação odontológica preventiva com antecedência para tratar cáries, gengivite e focos infecciosos; mantenha higiene bucal rigorosa (escovação, fio dental).
- O que pode pesar negativamente: dor aguda, abscesso, sangramento gengival importante, dentes com grande destruição sem tratamento, necessidade evidente de urgência.
- Documentos úteis: se realizou tratamento recente (restauração, canal, extração), leve declaração/relatório do dentista com data e situação atual, quando disponível.
Exemplos de situações e como documentar corretamente
Uso contínuo de medicamento
Situação: candidato usa medicação diária para controle de condição crônica.
Como organizar: receita atualizada + relatório do médico assistente informando diagnóstico, tempo de uso, estabilidade, ausência/presença de efeitos colaterais relevantes e se há restrição funcional.
Cirurgia antiga com boa recuperação
Situação: cirurgia ortopédica há anos, sem dor atual.
Como organizar: laudo de alta + exame de imagem final (se houver) + relatório atual descrevendo função preservada (força, mobilidade, ausência de instabilidade) e liberação para atividade física.
Óculos e grau atualizado
Situação: candidato usa óculos e tem consulta recente.
Como organizar: prescrição com data + relatório oftalmológico com acuidade visual com correção. Levar óculos reserva, se possível, para evitar imprevistos.