Capa do Ebook gratuito Perito Médico do INSS: Guia Estratégico para Aprovação no Concurso Federal

Perito Médico do INSS: Guia Estratégico para Aprovação no Concurso Federal

Novo curso

13 páginas

Documentos médicos e evidências na perícia do INSS: qualidade, validade e interpretação pelo Perito Médico

Capítulo 8

Tempo estimado de leitura: 13 minutos

+ Exercício

Documentos médicos são fontes de evidência clínica que subsidiam a análise pericial, mas não substituem a avaliação pericial. O objetivo é interpretar criticamente o que foi documentado (diagnóstico, achados, evolução e limitações), verificando qualidade, validade e pertinência para o período e para a alegação apresentada. A leitura pericial deve separar: (1) fatos observáveis (achados, exames, datas, tratamentos), (2) inferências clínicas (hipóteses diagnósticas, prognóstico) e (3) opiniões/juízos (capacidade laboral, necessidade de afastamento), registrando o peso de cada elemento.

1) Tipos de documentos e o que cada um costuma agregar

Atestado médico

  • Função típica: justificar afastamento/repouso e registrar diagnóstico/conduta em determinado momento.
  • Valor pericial: alto para temporalidade (data e contexto) e moderado para gravidade/funcionalidade quando descreve limitações objetivas.
  • Pontos críticos: atestados genéricos (“dor lombar”, “ansiedade”) sem exame, sem limitações e sem plano terapêutico têm baixo poder informativo.

Laudo/relatório médico (assistente, especialista, hospital)

  • Função típica: detalhar história clínica, exame, evolução, tratamento e prognóstico.
  • Valor pericial: alto quando descreve achados e evolução com coerência temporal e clínica.
  • Pontos críticos: relatórios opinativos sobre incapacidade sem descrever limitações mensuráveis e sem correlação com achados.

Exames de imagem

  • Função típica: demonstrar alterações anatômicas/estruturais.
  • Valor pericial: depende de correlação clínico-funcional; achado radiológico isolado não define limitação.
  • Pontos críticos: laudos antigos, sem comparação, ou achados comuns/incidentes (p.ex., degeneração leve) superinterpretados como incapacidade.

Exames laboratoriais

  • Função típica: evidenciar atividade inflamatória, disfunções metabólicas, infecciosas, hormonais etc.
  • Valor pericial: alto quando seriados e contextualizados (tendência, resposta terapêutica).
  • Pontos críticos: resultados isolados fora do contexto clínico, ausência de valores de referência, ou exames sem identificação do paciente.

Outros documentos úteis

  • Receitas e prescrição contínua: sugerem tratamento em curso e gravidade percebida, mas não comprovam diagnóstico por si.
  • Sumário de alta/relatório de internação: forte para gravidade e temporalidade, especialmente com evolução diária e condutas.
  • Fisioterapia/terapia ocupacional/psicologia: úteis para funcionalidade e adesão, quando descrevem metas, medidas e evolução.

2) Critérios de qualidade e validade documental (checklist pericial)

Use um checklist padronizado para reduzir vieses e aumentar consistência entre perícias.

2.1 Autenticidade (origem e integridade)

  • Identificação do emitente: nome, especialidade quando pertinente, registro profissional, assinatura.
  • Identificação do paciente: nome completo e, idealmente, outro identificador (data de nascimento, documento, prontuário).
  • Data e local: emissão e atendimento (quando informado).
  • Integridade: ausência de rasuras relevantes, páginas faltantes, cortes, inconsistência de fonte/diagramação em documentos supostamente únicos.
  • Coerência formal: timbre/contato compatíveis com serviço/estabelecimento (sem transformar isso em “prova” isolada).

2.2 Completude (conteúdo mínimo útil)

  • Queixa e história: início, evolução, fatores de piora/melhora.
  • Exame clínico/achados: sinais, testes, medidas, escalas quando aplicável.
  • Diagnóstico: hipótese/diagnóstico estabelecido; CID quando aplicável e pertinente ao documento.
  • Conduta: tratamento instituído, medicações, procedimentos, encaminhamentos.
  • Prognóstico e plano: reavaliação, tempo estimado de recuperação quando possível, critérios de retorno.
  • Limitações funcionais: o que o paciente não consegue fazer, em que intensidade/frequência, e por quanto tempo.

2.3 Pertinência (relação com o objeto pericial)

  • Relação com a alegação: o documento aborda a condição referida e o período relevante.
  • Especificidade: descreve limitações compatíveis com a condição e com o tipo de atividade alegada (sem exigir descrição ocupacional detalhada no documento).
  • Evitar “ruído”: documentos de condições sem impacto funcional atual ou sem relação com a demanda têm baixo peso.

2.4 Temporalidade (linha do tempo)

  • Data do evento clínico: início dos sintomas, diagnóstico, crise, internação, cirurgia.
  • Atualidade: documento recente tende a refletir melhor o estado atual, mas documentos antigos podem ser decisivos para início/evolução.
  • Sequência lógica: evolução compatível (p.ex., piora antes de internação, melhora após tratamento, recaídas documentadas).

2.5 Consistência interna e externa (coerência)

  • Interna: texto, diagnóstico, conduta e limitações não se contradizem (p.ex., “exame normal” com “incapacidade total” sem justificativa).
  • Externa: compatibilidade com outros documentos e com achados periciais (p.ex., imagem grave sem repercussão clínica descrita; ou clínica grave sem qualquer investigação/conduta).
  • Proporcionalidade: intensidade das limitações deve ser plausível frente aos achados e ao tratamento instituído.

3) Extração de informações essenciais: como ler com foco pericial

Uma leitura eficiente busca elementos que respondam: “o que há”, “desde quando”, “como evoluiu”, “o que limita” e “o que foi feito”.

3.1 Roteiro prático de extração (passo a passo)

  • Passo 1 — Identifique o documento: tipo (atestado, relatório, laudo de imagem, laboratório), data, emitente, paciente.
  • Passo 2 — Localize o diagnóstico: diagnóstico principal e comorbidades relevantes; registre CID apenas quando constar e for pertinente ao documento.
  • Passo 3 — Capture a descrição clínica: sintomas-chave, sinais, achados de exame físico/mental, escalas, testes, medidas (p.ex., amplitude de movimento, força, saturação, PA, IMC, escalas funcionais).
  • Passo 4 — Extraia limitações funcionais: descreva em termos de função (p.ex., “não consegue permanecer em ortostatismo por mais de X minutos”, “restrição para elevação do membro acima de 90°”, “crises de pânico com evitação de ambientes fechados”).
  • Passo 5 — Registre tratamento e adesão: medicações com dose/tempo, fisioterapia, psicoterapia, cirurgias, internações, afastamentos anteriores, resposta ao tratamento.
  • Passo 6 — Avalie prognóstico e plano: previsão de reavaliação, tempo estimado, necessidade de exames complementares, sinais de melhora/piora.
  • Passo 7 — Monte a linha do tempo: organize datas em sequência (início, atendimentos, exames, intervenções, reavaliações).
  • Passo 8 — Julgue a qualidade: aplique autenticidade, completude, pertinência, temporalidade e consistência; atribua “alto/médio/baixo peso informativo” (mentalmente ou em anotação técnica).

3.2 Exemplo prático de extração (modelo de anotação)

Documento: Relatório ortopédico (Dr. X, CRM..., 12/08/2025). Paciente identificado. Sem rasuras. Conteúdo: dor lombar com irradiação há 4 meses; exame: Lasègue positivo à direita, déficit sensitivo em dermátomo L5; imagem: RM 05/08/2025 com hérnia L4-L5; conduta: analgesia, fisioterapia, bloqueio programado; limitações: evitar flexão repetida e carga >10 kg por 30 dias; reavaliação em 4 semanas. Peso informativo: alto (completo, temporalmente coerente, limitações descritas).

4) Interpretação por tipo de evidência: armadilhas comuns e como qualificar o peso

4.1 Atestados: quando ajudam e quando são insuficientes

  • Ajuda quando: há data de atendimento, diagnóstico/história mínima, conduta e limitação/tempo de afastamento justificados.
  • Insuficiente quando: apenas “afastamento por X dias” sem diagnóstico ou sem qualquer descrição clínica; ausência de identificação do paciente; repetição seriada de atestados idênticos sem reavaliação documentada.
  • Como registrar: “Atestado com baixa densidade informativa por ausência de descrição clínica e de limitações funcionais; utilizado apenas para situar temporalidade do atendimento.”

4.2 Relatórios/laudos assistenciais: separar achados de opinião

  • Boa prática: valorize achados objetivos, evolução e conduta; trate afirmações de “incapacidade total” como opinião clínica que precisa estar sustentada por descrição funcional.
  • Como registrar: “Relatório descreve sinais e conduta; a afirmação de incapacidade não vem acompanhada de quantificação funcional, portanto considerada de peso limitado para estimativa de restrição.”

4.3 Imagem: correlação clínico-funcional é obrigatória

  • Boa prática: registre o achado e a data; compare com clínica e funcionalidade.
  • Armadilha: atribuir incapacidade apenas por termos como “protusão”, “degeneração”, “condropatia” sem repercussão descrita.
  • Como registrar: “Imagem evidencia alteração estrutural; impacto funcional depende de correlação com exame e sintomas, não demonstrada no documento.”

4.4 Laboratório: tendência e contexto

  • Boa prática: priorize séries temporais (antes/depois de tratamento) e marcadores com relevância clínica para sintomas/limitações.
  • Armadilha: um resultado discretamente alterado isolado ser interpretado como incapacitante.
  • Como registrar: “Exame laboratorial isolado, sem repetição e sem correlação clínica descrita; peso informativo moderado/baixo.”

5) Como lidar com documentos incompletos, conflitantes ou genéricos

5.1 Documentos incompletos

  • Problemas típicos: sem identificação do paciente, sem data, sem assinatura/registro, sem descrição clínica, sem exame/conduta.
  • Conduta técnica: use apenas o que for verificável (p.ex., data e tipo de exame quando presentes); classifique como baixa confiabilidade para inferências.
  • Registro sugerido: “Documento apresentado sem elementos mínimos de validação (identificação/data/emitente), impossibilitando atribuir peso pericial relevante.”

5.2 Documentos conflitantes

  • Exemplos: um relatório descreve limitação severa e outro, próximo na linha do tempo, descreve exame normal; imagem grave com relato de plena funcionalidade; diagnósticos divergentes sem justificativa.
  • Passo a passo para resolver:
    • Passo 1: alinhe as datas e verifique se tratam do mesmo período clínico.
    • Passo 2: identifique diferenças de contexto (crise aguda vs. fase estável; pós-procedimento; mudança terapêutica).
    • Passo 3: priorize documentos mais completos e com achados objetivos descritos.
    • Passo 4: verifique se há exames confirmatórios ou evolução documentada que explique a divergência.
    • Passo 5: registre a divergência de forma descritiva, sem imputar intenção.
  • Registro sugerido: “Há divergência entre documentos de datas próximas quanto à intensidade dos achados/limitações; considerados com maior peso aqueles com descrição objetiva de exame e conduta, mantendo-se ressalva sobre a inconsistência documental.”

5.3 Documentos genéricos

  • Características: termos vagos (“em tratamento”, “sem condições”), ausência de exame, ausência de limitações, CID inespecífico sem contexto.
  • Como aproveitar: use para confirmar acompanhamento e temporalidade; solicite complementação quando necessário para esclarecer funcionalidade e evolução.
  • Registro sugerido: “Documento genérico, sem descrição clínica/funcional; útil apenas para evidenciar acompanhamento em saúde.”

6) Quando solicitar complementação documental (critérios objetivos)

A complementação é cabível quando a decisão pericial depende de informação ausente ou contraditória e quando é razoável supor que o documento complementar exista e possa esclarecer o quadro. Evite solicitar “tudo”; peça itens específicos.

6.1 Situações típicas que justificam complementação

  • Ausência de temporalidade: não há data de início/evolução ou o período relevante não está documentado.
  • Diagnóstico indefinido: há sintomas, mas sem hipótese diagnóstica ou sem investigação mínima compatível.
  • Falta de descrição funcional: há diagnóstico, mas não há limitações, nem exame, nem impacto funcional descritos.
  • Inconsistência relevante: documentos se contradizem e não há elemento objetivo para hierarquizar.
  • Tratamento não documentado: alegação de tratamento intensivo/complexo sem registros (p.ex., internação, procedimento, reabilitação).
  • Exames citados e não anexados: relatório menciona RM/TC/EEG/ENMG, mas o laudo não foi apresentado.

6.2 Como formular o pedido de complementação (passo a passo)

  • Passo 1 — Defina a lacuna: “preciso de dados sobre evolução”, “preciso de descrição funcional”, “preciso do laudo do exame X”.
  • Passo 2 — Peça o documento certo: relatório atualizado do assistente, laudo completo do exame, sumário de alta, prontuário de atendimento específico, série de exames laboratoriais.
  • Passo 3 — Especifique o conteúdo mínimo esperado: diagnóstico/hipóteses, achados de exame, tratamento com datas, limitações funcionais objetivas, prognóstico e plano.
  • Passo 4 — Delimite período: “documentos dos últimos X meses” ou “do evento em DD/MM/AAAA até DD/MM/AAAA”.
  • Passo 5 — Registre a razão técnica: “para esclarecer inconsistência”, “para caracterizar evolução e resposta terapêutica”, “para correlacionar achados com funcionalidade”.

6.3 Exemplos de solicitações bem direcionadas

  • Ortopedia: “Apresentar laudo completo de RM lombar citada no relatório de 05/08/2025 e relatório clínico atualizado com exame físico e limitações funcionais quantificadas.”
  • Cardiologia: “Apresentar relatório do cardiologista com classe funcional, medicações em uso e resultados de ecocardiograma/teste ergométrico (com datas).”
  • Psiquiatria: “Apresentar relatório com evolução, sintomas atuais, tratamento (medicações/doses/tempo), adesão e repercussão funcional descrita (sono, atenção, interação social, crises), com datas de acompanhamento.”

7) Como registrar a análise crítica no parecer/registro pericial (linguagem técnica e não acusatória)

O registro deve ser descritivo, verificável e centrado em critérios de qualidade documental. Evite termos que sugiram julgamento moral ou imputação de fraude. Quando houver dúvida sobre autenticidade, descreva a insuficiência de elementos de validação e o impacto disso no peso atribuído.

Continue em nosso aplicativo

Você poderá ouvir o audiobook com a tela desligada, ganhar gratuitamente o certificado deste curso e ainda ter acesso a outros 5.000 cursos online gratuitos.

ou continue lendo abaixo...
Download App

Baixar o aplicativo

7.1 Estrutura prática para registrar documentos analisados

  • Identificação: tipo, data, emitente, paciente (quando constar).
  • Resumo objetivo: achados, diagnóstico, conduta, limitações, prognóstico.
  • Análise crítica: completude, pertinência, temporalidade, consistência; peso informativo.
  • Implicação pericial: o que o documento sustenta e o que não permite concluir.

7.2 Frases-modelo (neutras e técnicas)

  • Para baixa completude: “Documento não descreve exame clínico, limitações funcionais ou plano terapêutico, reduzindo sua utilidade para estimativa de repercussão funcional.”
  • Para ausência de validação: “Documento apresentado sem identificação suficiente do emitente/paciente e/ou sem data, não sendo possível atribuir peso pericial relevante.”
  • Para inconsistência: “Há inconsistência entre documentos quanto a achados e limitações no mesmo período; considerados com maior peso os registros com descrição objetiva e datada.”
  • Para imagem sem correlação: “Achado de imagem descrito; entretanto, não há no documento correlação com exame/limitação funcional, motivo pelo qual o impacto funcional permanece indeterminado apenas por este elemento.”
  • Para relatório opinativo: “O relatório contém juízo sobre incapacidade, porém sem quantificação funcional; foram considerados principalmente os achados clínicos e a evolução descritos.”

7.3 O que evitar no texto pericial

  • Evite: “documento falso”, “simulação”, “má-fé”, “fraude”, “mentira”, salvo quando houver procedimento institucional específico e elementos formais inequívocos (e ainda assim com cautela e aderência normativa).
  • Prefira: “não foi possível verificar”, “insuficiente para”, “inconsistente”, “sem elementos mínimos”, “baixa densidade informativa”.

8) Checklist rápido para uso durante a perícia

  • Autenticidade: emitente identificado? paciente identificado? data? integridade?
  • Completude: história + exame + diagnóstico + conduta + limitações + plano?
  • Pertinência: responde ao que está sendo avaliado?
  • Temporalidade: cobre o período relevante? há linha do tempo coerente?
  • Consistência: documento se sustenta internamente? é compatível com outros registros?
  • Extração: quais são os achados essenciais (CID quando aplicável, descrição clínica, limitações, tratamento, prognóstico)?
  • Ação: dá para decidir com o que há? se não, qual complementação específica é necessária?
  • Registro: resumo objetivo + análise crítica + peso informativo, em linguagem neutra.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao analisar documentos médicos apresentados em uma perícia do INSS, qual abordagem melhor reflete uma leitura pericial crítica e adequada?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A leitura pericial deve interpretar criticamente os documentos, separando fatos, inferências e opiniões, e aplicar critérios de qualidade/validade (autenticidade, completude, pertinência, temporalidade e consistência). Achados, inclusive de imagem, precisam de correlação clínico-funcional para sustentar limitações.

Próximo capitúlo

Perícia médica do INSS em saúde mental: avaliação funcional e riscos pelo Perito Médico

Arrow Right Icon
Baixe o app para ganhar Certificação grátis e ouvir os cursos em background, mesmo com a tela desligada.