Exemplo completo de Lean Canvas para Serviços: consultoria/assistência com recorrência

Capítulo 13

Tempo estimado de leitura: 13 minutos

+ Exercício

O que você vai construir neste capítulo

Você vai ver um Lean Canvas completo (do início ao fim) para um negócio de serviços com recorrência, com preenchimento específico e justificativas. O exemplo principal será uma assistência técnica de ar-condicionado com plano de manutenção (B2C e B2B leve), porque é um serviço em que recorrência, deslocamento e ocupação de agenda determinam a viabilidade. Ao longo do canvas, você verá: (1) como a proposta de valor muda por segmento, (2) como o canal de aquisição muda o CAC, (3) como detalhar receitas, custos e métricas operacionais, (4) decisões estratégicas derivadas do canvas e (5) experimentos priorizados.

Exemplo completo: Assistência técnica com plano de manutenção recorrente

Nome do negócio (hipótese): FrioCerto Manutenção

Oferta central: manutenção preventiva e corretiva de ar-condicionado com planos mensais/anual, agendamento rápido e garantia estendida.

Lean Canvas preenchido (visão geral)

BlocoPreenchimento (específico)Por que faz sentido aqui
Problema
  • Quebras em dias quentes geram urgência e custo alto
  • Serviços pontuais imprevisíveis: cliente “some” até a próxima pane
  • Desconfiança: medo de orçamento inflado/peças desnecessárias
Recorrência só existe se você resolver a imprevisibilidade (para o cliente) e a confiança (para reduzir atrito de compra).
Segmentos de Clientes
  • S1: Residencial classe média com 1–3 aparelhos
  • S2: Pequenos comércios (salões, clínicas, escritórios) com 3–10 aparelhos
  • S3: Síndicos/administradoras (condomínios pequenos)
Segmentos têm urgência, ticket e exigência diferentes; isso muda proposta de valor, canal e CAC.
Proposta de Valor
  • Para S1: “Ar gelando o ano todo sem sustos: manutenção programada + prioridade no atendimento”
  • Para S2: “Menos paradas e menos reclamações: SLA de atendimento + relatórios simples + visitas programadas”
  • Para S3: “Padronização e previsibilidade: calendário por bloco + histórico por unidade + desconto por volume”
O mesmo serviço vira promessas diferentes: conforto (S1), continuidade operacional (S2), gestão e padronização (S3).
Solução
  • Plano recorrente com 2 visitas/ano por aparelho (limpeza + checagem)
  • Canal de agendamento (WhatsApp + link de agenda)
  • Checklist padronizado + fotos antes/depois
  • Prioridade no atendimento corretivo (fila separada)
Entrega mínima que sustenta recorrência: rotina, prova do serviço e prioridade (benefício percebido).
Canais
  • Orgânico local: Google Perfil da Empresa + avaliações
  • Pago local: Google Ads “manutenção ar-condicionado + bairro”
  • Parcerias: imobiliárias, instaladores, lojas de eletro
  • Outbound leve (S2): lista de comércios do bairro + abordagem WhatsApp/visita
Canais locais têm intenção alta, mas CAC varia muito por urgência e concorrência. Parcerias reduzem CAC e aumentam confiança.
Fluxos de Receita
  • Assinatura: R$ 29–49/mês por aparelho (residencial) ou pacote por volume (comércio)
  • Visita avulsa: taxa de visita + mão de obra + peças
  • Upsell: higienização profunda, troca de peças, instalação
  • Contrato anual (S2/S3): pagamento antecipado com desconto
Assinatura dá previsibilidade e reduz sazonalidade; avulso e upsell aumentam margem quando há demanda.
Estrutura de Custos
  • Tempo técnico: horas por visita (inclui deslocamento)
  • Deslocamento: combustível/estacionamento
  • Ferramentas e insumos: produtos, EPIs, reposição
  • Marketing: Ads, material para parcerias
  • Operação: sistema de agenda/CRM, telefone, impostos
Em serviços, o “custo unitário” é principalmente tempo + deslocamento. Se a rota não fecha, a assinatura vira prejuízo.
Métricas-Chave
  • Taxa de conversão por canal (lead → assinatura)
  • CAC por canal (custo total do canal / novos assinantes)
  • Ocupação (horas vendidas / horas disponíveis)
  • Churn mensal (cancelamentos / base)
  • Ticket médio (assinatura + avulsos + upsell)
Sem essas métricas, você não sabe se está comprando crescimento caro, se está com agenda ociosa ou se a base está vazando.
Vantagem Competitiva
  • Roteirização e atendimento por micro-regiões (mais visitas/dia)
  • Checklist + fotos + histórico por aparelho (confiança e padronização)
  • Rede de parceiros (imobiliárias/instaladores) com repasse recorrente
Defensabilidade prática: eficiência operacional (custo) + confiança (prova) + canal proprietário (parcerias).

Passo a passo prático: preenchendo e justificando bloco a bloco

1) Problema: transforme “preciso de clientes” em dores específicas

Em serviços recorrentes, o problema não é só “manter o ar-condicionado”. O que sustenta assinatura é reduzir risco e incerteza. Por isso, as dores escolhidas foram:

  • Urgência cara: quando quebra, o cliente paga mais e sofre mais (calor, reclamações, perda de vendas).
  • Imprevisibilidade: sem plano, o cliente só lembra quando dá problema; para você, isso vira sazonalidade e agenda instável.
  • Desconfiança: é um mercado com assimetria de informação; prova e transparência viram parte do produto.

Critério de escolha: dores que (a) são frequentes, (b) têm custo percebido alto e (c) podem ser reduzidas por rotina + prova + prioridade.

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2) Segmentos: o mesmo serviço, três “compras” diferentes

Use segmentos que mudam a forma de vender e entregar:

  • S1 Residencial: compra emocional (conforto), sensível a preço, decide rápido se confiar.
  • S2 Pequenos comércios: compra racional (continuidade), precisa de rapidez e previsibilidade, tende a renovar se não der dor de cabeça.
  • S3 Síndicos/administradoras: compra por processo (orçamento, aprovação), valoriza padronização e desconto por volume.

Implicação prática: você pode ter um serviço operacional e três ofertas (mensagem, SLA, formato de contrato e canal).

3) Proposta de valor: como ela muda por segmento (com exemplos de copy)

Em vez de uma frase genérica, escreva uma promessa por segmento:

  • S1 (residencial): “Manutenção programada + prioridade no atendimento” (reduz medo de ficar sem ar no pico).
  • S2 (comércio): “SLA + relatórios simples” (reduz risco operacional e facilita justificar a despesa).
  • S3 (condomínio): “Calendário por bloco + histórico por unidade” (reduz caos e aumenta controle).

Teste rápido: se você trocar o segmento e a proposta continuar igual, ela está genérica demais.

4) Solução: o mínimo que entrega recorrência (não só execução técnica)

Para assinatura funcionar, a solução precisa incluir componentes de produto (padronização, prova, rotina) além do serviço em si:

  • Plano com visitas programadas: 2/ano por aparelho (base) com opção 4/ano (premium).
  • Checklist padronizado: itens fixos (filtro, dreno, pressão, ruído, vazamento).
  • Prova do serviço: fotos antes/depois + observações simples.
  • Prioridade real: janela de atendimento diferenciada para assinantes (ex.: 48h).

Justificativa: isso reduz churn (“estou pagando e não vejo valor”) e reduz disputa por preço (“qualquer um faz”).

5) Canais: como o canal muda o CAC (com números exemplo)

O mesmo ticket pode ser viável ou inviável dependendo do canal. Abaixo, um exemplo simplificado de CAC por canal para S1 (residencial), considerando um plano médio de R$ 39/mês por aparelho.

CanalCustoLeads/mêsConversão lead→assinaturaNovos assinantesCAC estimado
Google Perfil + avaliações (orgânico)R$ 600 (tempo + ferramentas)4020%8R$ 75
Google Ads (intenção alta)R$ 2.0006010%6R$ 333
Parceria com imobiliáriaR$ 500 (comissão/repasse)2025%5R$ 100
Indicação (programa simples)R$ 300 (benefícios)1530%4,5R$ 67

Leitura estratégica: Ads pode trazer volume, mas tende a CAC maior porque pega gente em “modo urgência” (quer resolver hoje e some). Parcerias e indicação reduzem CAC e aumentam confiança, o que melhora conversão para assinatura.

Regra operacional: se o canal traz muitos avulsos e poucos assinantes, ele pode ser ótimo para caixa, mas ruim para recorrência. Você decide conscientemente qual papel cada canal terá.

6) Receita: pacotes, recorrência e como evitar “assinatura que dá prejuízo”

Modelo de receita sugerido (com ancoragem e degraus):

  • Plano Essencial (S1): R$ 39/mês por aparelho, 2 visitas/ano, prioridade 48h, desconto em mão de obra.
  • Plano Premium (S1): R$ 59/mês por aparelho, 4 visitas/ano, prioridade 24h, higienização 1x/ano inclusa.
  • Pacote Comércio (S2): R$ 249–499/mês (até X aparelhos), SLA e relatório trimestral.
  • Contrato anual (S2/S3): 10% desconto no pagamento antecipado (melhora caixa e reduz churn).
  • Avulso: taxa de visita + mão de obra + peças (porta de entrada; objetivo é converter para plano).

Justificativa: planos criam previsibilidade; degraus permitem capturar disposição a pagar; anual reduz risco de cancelamento e financia aquisição.

7) Custos: detalhando tempo, deslocamento e ferramentas (com conta unitária)

Em serviços, vale estimar custo por visita para saber se a assinatura fecha. Exemplo simplificado:

Tempo técnico por visita: 50 min (execução) + 40 min (deslocamento médio) = 90 min = 1,5 h  Custo hora técnica (com encargos/overhead): R$ 60/h  Custo de tempo por visita: 1,5 * 60 = R$ 90  Deslocamento (combustível/estacionamento): R$ 20  Insumos (produtos/EPIs): R$ 8  Custo variável estimado por visita: R$ 118

Se o Plano Essencial inclui 2 visitas/ano, o custo variável anual por aparelho é ~R$ 236. A receita anual do plano (R$ 39 * 12) = R$ 468. Sobra margem para custos fixos e lucro, desde que você controle deslocamento (roteirização) e evite visitas extras não previstas.

Alavanca principal: reduzir deslocamento médio (micro-regiões e dias por bairro) pode derrubar o custo por visita sem mexer no preço.

8) Métricas: como medir conversão, ocupação e churn (com fórmulas)

  • Taxa de conversão (por canal): assinaturas / leads. Ex.: 8 assinaturas / 40 leads = 20%.
  • CAC (por canal): custo total do canal / novas assinaturas. Inclua comissões e tempo.
  • Ocupação: horas faturáveis / horas disponíveis. Ex.: 110h faturáveis / 160h = 69%.
  • Churn mensal: cancelamentos no mês / base no início do mês. Ex.: 12 / 400 = 3%.
  • LTV simples (aproximação): ticket mensal * margem bruta % / churn. Se ticket=R$ 55, margem=55%, churn=3% → LTV ≈ 55*0,55/0,03 ≈ R$ 1.008.

Uso prático: CAC aceitável depende do LTV. Se seu CAC no Ads é R$ 333 e seu LTV estimado é R$ 1.008, pode ser viável; se churn subir para 6%, LTV cai pela metade e o mesmo canal pode ficar inviável.

3 decisões estratégicas derivadas do canvas

Decisão 1: operar por micro-regiões (e não “atender a cidade toda”)

Base no canvas: custos dominados por deslocamento + ocupação como métrica-chave + vantagem competitiva em roteirização.

Decisão: limitar atendimento inicial a 3–5 bairros e criar “dias fixos por região”.

Efeito esperado: mais visitas/dia, menor custo por visita, maior pontualidade (melhora conversão e retenção).

Decisão 2: separar aquisição para avulso vs. assinatura (funil duplo)

Base no canvas: canais com perfis diferentes (urgência vs. confiança) e CAC variando muito.

Decisão: usar Google Ads principalmente para avulso (caixa imediato) com oferta de conversão pós-serviço; usar parcerias/indicação/orgânico para assinatura (CAC menor e maior confiança).

Efeito esperado: reduzir CAC médio da assinatura sem abrir mão de volume de trabalho.

Decisão 3: produto de prova e transparência como parte do serviço

Base no canvas: problema de desconfiança + proposta de valor por segmento + vantagem competitiva.

Decisão: padronizar checklist, fotos e histórico por aparelho, entregues automaticamente após cada visita.

Efeito esperado: menos objeções, mais renovações, mais indicações (canal de menor CAC).

5 experimentos priorizados (com hipótese, método e métrica)

Experimento 1 (prioridade máxima): oferta de conversão pós-avulso

Hipótese: clientes avulsos convertem para assinatura quando recebem prova do serviço + benefício de prioridade.

Método: após cada atendimento avulso, enviar proposta em até 2h: “Plano Essencial com 1º mês grátis ou isenção da taxa de visita na próxima chamada”.

Métrica de sucesso: conversão avulso→assinatura ≥ 15% em 30 dias.

Experimento 2: landing page por segmento (S1 vs S2)

Hipótese: mensagem específica por segmento aumenta conversão e reduz CAC.

Método: duas páginas simples: uma focada em conforto/prioridade (S1) e outra em SLA/relatório (S2). Direcionar tráfego por campanha.

Métrica: aumento de ≥ 30% na taxa de conversão lead→assinatura em pelo menos um segmento.

Experimento 3: parceria com imobiliária (piloto com 2 parceiros)

Hipótese: parceria reduz CAC e aumenta confiança, elevando conversão para plano anual.

Método: oferecer comissão fixa por assinatura anual fechada + atendimento prioritário para imóveis administrados.

Métrica: CAC ≤ R$ 120 e ≥ 10 assinaturas/60 dias por parceiro (ou ajustar proposta).

Experimento 4: roteirização por bairro com janelas fixas

Hipótese: agrupar visitas reduz custo variável por visita e aumenta ocupação.

Método: por 4 semanas, reservar terças e quintas para 2 bairros; medir deslocamento médio e visitas/dia.

Métrica: reduzir deslocamento médio em ≥ 20% e aumentar visitas/dia em ≥ 15%.

Experimento 5: plano anual com desconto vs. mensal sem desconto (teste A/B)

Hipótese: plano anual reduz churn e melhora caixa sem derrubar conversão.

Método: metade dos leads recebe oferta anual com 10% desconto; metade recebe mensal com benefício não financeiro (prioridade 24h por 3 meses).

Métrica: aumento de ≥ 25% na adesão ao anual e churn 90 dias menor no grupo anual.

Variações do mesmo canvas para outros tipos de serviço (sem refazer tudo)

Variação A: Consultoria financeira recorrente para pequenas empresas

  • Problema (ajuste): falta de controle de caixa, impostos e precificação; decisões sem números.
  • Segmentos (ajuste): MEI/Simples com faturamento até X; e-commerce pequeno; prestadores (clínicas/salões).
  • Proposta de valor (ajuste): “fechamento mensal + painel simples + plano de ação” (SLA de respostas e reuniões).
  • Canais (ajuste): contadores/parcerias, conteúdo local, indicação; outbound via LinkedIn/associações.
  • Receita (ajuste): mensalidade por faixa de faturamento + setup inicial; upsell de BPO financeiro.
  • Métricas (ajuste): churn, NPS, tempo de resposta, % clientes com DRE/fluxo de caixa em dia.

Variação B: Assistência de TI com contrato mensal (MSP leve)

  • Problema: paradas e lentidão; risco de segurança; falta de suporte rápido.
  • Proposta de valor: “suporte em X horas + monitoramento + backup” (SLA é parte do produto).
  • Canais: parcerias com fornecedores de hardware/software; indicações; Ads para “suporte TI empresa”.
  • Receita: por usuário/dispositivo; pacotes por tamanho; taxa de implantação.
  • Custos: ferramentas de monitoramento, licenças, plantão, deslocamento eventual.
  • Métricas: tickets por cliente, tempo médio de resolução, churn, margem por contrato.

Variação C: Serviços de limpeza recorrente (residencial e comercial)

  • Problema: falta de tempo, inconsistência de qualidade, dificuldade de confiança.
  • Proposta de valor: “equipe fixa + checklist + reposição de itens” (padronização e confiança).
  • Canais: indicação e parcerias com condomínios; anúncios locais; Google Perfil.
  • Receita: planos semanais/quinzenais; adicional por profundidade; assinatura com fidelidade.
  • Custos: mão de obra, deslocamento, insumos, treinamento.
  • Métricas: ocupação, retrabalho, churn, taxa de indicação.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao analisar um Lean Canvas de serviços com recorrência, qual decisão estratégica ajuda a manter a assinatura lucrativa ao reduzir o custo por visita sem alterar o preço?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Em serviços, o custo unitário é dominado por tempo e deslocamento. Ao atender por micro-regiões e agrupar visitas, reduz-se deslocamento médio, aumenta-se a ocupação e melhora-se a margem da assinatura sem precisar elevar preços.

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Exemplo completo de Lean Canvas para E-commerce: nicho, logística e conversão

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