Por que o canal de venda muda a tarifa “necessária”
O mesmo quarto pode gerar resultados bem diferentes dependendo de onde a reserva entra. Isso acontece porque cada canal tem um “custo de distribuição” próprio: comissões, taxas de transação, custos de atendimento e até risco de cancelamento/no-show. Se você vende R$ 500 em um canal com 18% de comissão, o valor que sobra para o hotel não é R$ 500.
Para evitar “aumentar no escuro”, a prática mais segura é trabalhar com dois conceitos:
- Tarifa cheia (gross): o preço que o hóspede vê e paga.
- Tarifa líquida (net): o que efetivamente fica para o hotel após comissões e taxas do canal (antes de outros custos operacionais).
O objetivo é manter a mesma margem (ou o mesmo resultado líquido) entre canais, ajustando a tarifa cheia conforme o custo de distribuição.
Mapa rápido de custos por canal (o que costuma mudar)
| Canal | Custos típicos | Observações práticas |
|---|---|---|
| Direto (site/WhatsApp) | Gateway/antifraude (ex.: 2% a 5%), mídia paga (se houver), custo de equipe | Maior controle e dados do cliente; custo pode subir se depender muito de anúncios |
| Telefone | Tempo de equipe, taxa de cartão (se cobrar), risco de erro operacional | Pode ter custo “invisível” (tempo) e conversão menor sem script |
| Agentes/operadoras | Comissão (ex.: 10% a 25%) ou tarifa net + markup do agente | Bom para grupos/mercados específicos; atenção a prazos de repasse |
| OTAs | Comissão (ex.: 12% a 25%), campanhas (ex.: +5% a +15%), taxas extras | Alcance alto; risco de dependência e pressão por descontos |
Use percentuais reais do seu contrato e do seu financeiro. “Média de mercado” serve só como referência inicial.
Como calcular a tarifa para manter a mesma margem após comissão
Conceito: igualar o líquido entre canais
Se você sabe qual tarifa líquida alvo quer receber (por exemplo, o líquido que você obtém no canal direto), você calcula a tarifa cheia necessária em cada canal com comissão.
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Fórmula base (quando a comissão é um percentual sobre a tarifa cheia):
Tarifa líquida = Tarifa cheia × (1 − comissão_total)Reorganizando para descobrir a tarifa cheia:
Tarifa cheia necessária = Tarifa líquida alvo ÷ (1 − comissão_total)Comissão_total deve incluir tudo que “morde” a receita naquele canal (comissão da OTA + adicional de campanha + taxa de pagamento, se aplicável e se você quiser equalizar também isso).
Passo a passo prático
- Passo 1 — Defina seu “líquido alvo”: normalmente, use o líquido do canal direto como referência (ou um líquido mínimo por tipo de quarto).
- Passo 2 — Liste o custo percentual do canal: comissão do canal + adicionais (campanhas, programa de parceiros, etc.).
- Passo 3 — Calcule a tarifa cheia necessária com a fórmula:
líquido ÷ (1 − comissão_total). - Passo 4 — Arredonde com regra: por exemplo, arredondar para o múltiplo de 5 ou 10 mais próximo, mantendo consistência.
- Passo 5 — Valide coerência: compare com sua estrutura tarifária (balcão/promos/corporativo) para não criar “saltos” incoerentes entre canais.
Exemplo 1: OTA com 18% de comissão (sem campanha)
Suponha que no canal direto você consegue uma tarifa líquida alvo de R$ 400 por diária (o que você quer “sobrar” após custos de distribuição).
- Comissão OTA: 18%
Cálculo:
Tarifa cheia necessária = 400 ÷ (1 − 0,18) = 400 ÷ 0,82 = 487,80Se você arredondar para R$ 489, a lógica é: vendendo a R$ 489 na OTA, o hotel recebe aproximadamente o mesmo líquido que receberia vendendo R$ 400 líquidos no direto.
Cheque rápido do líquido:
Líquido = 489 × 0,82 = 400,98Tarifa líquida (net) vs tarifa cheia (gross): como não se confundir
Quando faz sentido falar em “tarifa líquida”
- Agências/operadoras que trabalham com net: você informa um valor líquido e o parceiro adiciona markup.
- Gestão interna: você pode definir metas por canal em termos de líquido para comparar “maçã com maçã”.
Cuidados comuns
- Net não é “tarifa mais barata” automaticamente: se o parceiro aplicar markup alto, o preço final pode ficar acima do seu direto.
- Não misture net e gross na mesma tabela: mantenha campos separados (ex.: “Tarifa ao cliente” e “Líquido hotel”).
- Defina regra de arredondamento para evitar variações aleatórias que quebram coerência.
Exemplo 2: agência com tarifa net e markup
Você quer receber R$ 380 líquidos. Uma agência pede tarifa net e costuma aplicar 15% de markup para o cliente final.
Se você passar net = R$ 380, o preço ao cliente tende a ser:
Preço ao cliente ≈ 380 × (1 + 0,15) = 437,00O ponto de gestão aqui é: você controla o líquido (R$ 380), mas o preço final pode competir (ou conflitar) com seus outros canais. Se o seu direto estiver em R$ 420, a agência pode ficar mais cara (R$ 437) e vender menos; se o direto estiver em R$ 460, a agência pode virar um canal competitivo sem você mexer no net.
Incluindo taxas de pagamento e custos “pequenos” (quando vale a pena)
Alguns hotéis equalizam apenas comissões; outros incluem também taxas de cartão/gateway no direto para comparar canais com mais precisão.
Exemplo: direto com taxa de pagamento de 3,5% e OTA com 18%.
- Líquido alvo (após distribuição) desejado: R$ 400
- No direto, para sobrar R$ 400 após 3,5%:
Tarifa direta necessária = 400 ÷ (1 − 0,035) = 400 ÷ 0,965 = 414,51Agora, para sobrar os mesmos R$ 400 na OTA (18%):
Tarifa OTA necessária = 400 ÷ 0,82 = 487,80Isso ajuda a enxergar que “direto mais barato” pode ser sustentável e ainda assim mais lucrativo, desde que você saiba quanto custa vender direto (especialmente se houver mídia paga).
Exemplo 3: OTA com comissão + campanha promocional
Um erro comum é aceitar campanhas sem recalcular. Campanhas podem somar um adicional de custo (por exemplo, +10% de comissão efetiva, ou um desconto financiado pelo hotel). Trate como comissão_total ou como redução de tarifa, dependendo do contrato.
Caso A: campanha aumenta o custo percentual (ex.: 18% + 10% = 28%)
Você quer líquido alvo de R$ 400.
- Comissão base: 18%
- Campanha: +10%
- Comissão total: 28%
Tarifa cheia necessária = 400 ÷ (1 − 0,28) = 400 ÷ 0,72 = 555,56Se você mantiver a tarifa em R$ 489 (do exemplo sem campanha), seu líquido cai:
Líquido = 489 × 0,72 = 352,08Ou seja, a campanha “comeu” quase R$ 49 de líquido por diária nesse exemplo.
Caso B: campanha é um desconto ao hóspede (ex.: 10% off na tarifa cheia)
Suponha:
- Tarifa pública na OTA: R$ 500
- Desconto campanha: 10% (hóspede paga R$ 450)
- Comissão base: 18% aplicada sobre o valor pago (R$ 450)
Líquido:
Líquido = 450 × (1 − 0,18) = 450 × 0,82 = 369,00Se seu líquido alvo é R$ 400, você precisa ajustar a tarifa pública para que, após desconto e comissão, o líquido bata a meta. Fórmula combinada:
Líquido = Tarifa_publica × (1 − desconto) × (1 − comissão)Reorganizando:
Tarifa_publica necessária = Líquido ÷ [(1 − desconto) × (1 − comissão)]Aplicando:
Tarifa_publica = 400 ÷ (0,90 × 0,82) = 400 ÷ 0,738 = 542,01Assim, com tarifa pública ~R$ 542, o hóspede paga ~R$ 488 (10% off) e o hotel recebe ~R$ 400 líquidos após 18%.
Descontos por canal: benefícios, riscos e regras de coerência
Benefícios (quando bem usados)
- Direcionar demanda: usar OTAs para preencher datas fracas sem mexer no preço do direto.
- Alavancar visibilidade: campanhas podem aumentar exposição em períodos específicos.
- Segmentar público: tarifas para agentes podem trazer mercados que você não alcança no direto.
Riscos (quando viram “desconto automático”)
- Erosão de margem: desconto + comissão pode derrubar o líquido mais do que parece.
- Canibalização do direto: se a OTA fica consistentemente mais barata, o cliente migra para lá.
- Incoerência tarifária: múltiplas promoções sem regra criam uma “colcha de retalhos” difícil de controlar.
Regras simples para manter coerência
- Regra 1 — Compare canais por líquido: antes de aprovar desconto/campanha, calcule o líquido resultante.
- Regra 2 — Defina um “piso de líquido” por tipo de quarto: se a campanha derrubar abaixo do piso, ajuste a tarifa ou não participe.
- Regra 3 — Diferencie por benefício, não só por preço: no direto, use vantagens (ex.: política melhor, upgrade sujeito a disponibilidade) em vez de apenas reduzir tarifa.
- Regra 4 — Use uma matriz simples de canal: direto como referência; OTAs ajustadas por comissão; agentes por net; telefone alinhado ao direto (salvo estratégia específica).
- Regra 5 — Documente a conta: mantenha uma planilha com comissão_total, desconto, tarifa pública e líquido esperado para cada ação.
Planilha-modelo (estrutura mínima) para não “aumentar no escuro”
Você pode montar uma tabela com colunas como:
| Canal | Tarifa pública | Desconto campanha | Comissão total | Líquido estimado | Líquido alvo | OK? |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Direto | R$ 415 | 0% | 3,5% | R$ 400 | R$ 400 | Sim |
| OTA | R$ 488 | 0% | 18% | R$ 400 | R$ 400 | Sim |
| OTA + campanha | R$ 542 | 10% | 18% | R$ 400 | R$ 400 | Sim |
Fórmulas úteis (em linguagem simples):
- Líquido estimado:
Tarifa_publica × (1 − desconto) × (1 − comissão_total) - Tarifa pública necessária:
Líquido_alvo ÷ [(1 − desconto) × (1 − comissão_total)]
Como decidir entre “subir tarifa no canal” ou “aceitar menor líquido”
Nem sempre dá para subir a tarifa no canal sem perder competitividade. Quando a tarifa necessária fica muito acima do mercado naquele canal, você tem três caminhos práticos:
- Reduzir ou limitar a campanha (datas específicas, tipos de quarto específicos, janelas curtas).
- Aceitar líquido menor com regra: definir um “mínimo aceitável” por período (ex.: baixa temporada) e controlar volume.
- Trocar o incentivo: em vez de desconto, oferecer benefício (café, estacionamento, política flexível) no direto para puxar conversão sem reduzir líquido.