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Agente de Polícia Civil: Preparação Essencial para Concursos Públicos

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18 páginas

Direitos Humanos e Garantias Fundamentais na Atividade do Agente de Polícia Civil

Capítulo 10

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Direitos humanos e garantias fundamentais, na atividade do Agente de Polícia Civil, são parâmetros jurídicos e operacionais que limitam o poder estatal e orientam a atuação para proteger a dignidade da pessoa, a legalidade do procedimento e a confiabilidade da prova. Na prática, funcionam como “regras de segurança” do serviço: reduzem riscos de nulidades, responsabilização e danos à integridade física e psíquica de envolvidos.

1) Princípios operacionais que estruturam a atuação

Legalidade e finalidade

A atuação policial deve estar amparada em norma e perseguir finalidade pública legítima. Operacionalmente, isso significa: agir com base em atribuição, em situação fática verificável e com registro mínimo do que motivou a intervenção (o “porquê” e o “para quê”).

  • Conduta compatível: abordar/identificar alguém porque há notícia de crime e elementos objetivos no local (descrição, horário, dinâmica), registrando os fundamentos.
  • Conduta incompatível: intervir apenas por “atitude suspeita” genérica sem elementos concretos, ou com motivação discriminatória.

Devido processo, contraditório e ampla defesa (como norte)

Mesmo quando o Agente não decide o mérito, ele influencia o devido processo ao documentar corretamente, preservar integridade e garantir acesso a direitos (ex.: comunicação a familiar/advogado, informação sobre procedimentos, respeito a prazos e formalidades). O foco operacional é evitar atalhos que comprometam a validade do ato e a proteção do custodiado.

Integridade física e tratamento digno

Inclui proibição de tortura e de tratamento cruel, desumano ou degradante, além do dever de cuidado sob custódia. Na rotina, isso se traduz em: uso da força apenas quando necessário, proporcional e progressivo; atenção a sinais de lesão/doença; prevenção de humilhações, exposição indevida e violência verbal.

Não discriminação

Veda tratamento diferenciado por raça/cor, gênero, orientação sexual, religião, origem, condição social, deficiência, aparência ou qualquer outro fator irrelevante para o fato investigado. Operacionalmente, exige critérios objetivos e linguagem profissional em registros e interações.

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Inviolabilidades e limites de atuação estatal

Há esferas protegidas (domicílio, intimidade, vida privada, comunicações, dados), com hipóteses legais de mitigação. O ponto operacional é reconhecer quando é necessário mandado/ordem judicial, quando há exceção legal e como agir para não “contaminar” a prova nem violar direitos.

  • Exemplo de limite: não ampliar uma diligência para “vasculhar” itens pessoais sem base legal ou sem consentimento válido.
  • Exemplo de cuidado: ao lidar com celulares, mídias e contas, tratar como fonte sensível, evitando acesso indevido e registrando a forma de obtenção.

2) Cenários práticos: condutas compatíveis e incompatíveis

Cenário A: Atendimento inicial e acolhimento de vítima/testemunha

Objetivo: coletar informações iniciais e orientar, preservando dignidade, privacidade e não revitimização.

Compatível:

  • Garantir ambiente reservado quando o relato envolver violência sexual, doméstica, ameaça ou exposição sensível.
  • Usar linguagem respeitosa e neutra, evitando julgamentos (“por que você estava lá?” em tom acusatório).
  • Registrar fielmente o relato, distinguindo fatos observados de opiniões.
  • Orientar sobre direitos e medidas protetivas quando cabíveis, sem prometer resultado.

Incompatível:

  • Expor a vítima em área comum, permitir curiosos, fazer perguntas humilhantes ou insinuar culpa.
  • Negar atendimento por preconceito (ex.: “isso é briga de casal”, “isso é coisa de rua”).
  • Divulgar imagens/áudios recebidos no atendimento em grupos ou a terceiros.

Cenário B: Condução de pessoa para esclarecimentos

Objetivo: realizar condução dentro dos limites legais, com registro e respeito à dignidade.

Compatível:

  • Explicar, de forma simples, o motivo da condução e o destino (unidade, setor), evitando termos intimidatórios.
  • Reduzir exposição pública desnecessária (evitar “passeio” com a pessoa em locais de grande circulação).
  • Registrar horário, local, motivo, condições físicas aparentes e eventuais testemunhas.
  • Se houver resistência/risco, aplicar contenção proporcional e cessar assim que o risco cessar.

Incompatível:

  • Conduzir como forma de punição, intimidação ou “para dar susto”.
  • Usar força por conveniência (ex.: empurrões, algemas sem necessidade) ou manter contenção após cessar o risco.
  • Fazer ameaças, xingamentos, “lições” ou exposição em redes sociais.

Cenário C: Custódia e permanência em unidade policial

Objetivo: assegurar integridade, saúde e condições mínimas, com controle de riscos.

Compatível:

  • Realizar checagem inicial: estado físico, queixas de dor, uso de medicação, sinais de intoxicação, risco de autoagressão.
  • Providenciar atendimento médico quando necessário e registrar encaminhamentos.
  • Separar, quando possível e necessário, pessoas por critérios de segurança (ex.: vulneráveis, risco de agressão), conforme normas locais.
  • Evitar exposição indevida (ex.: manter custodiado seminu, algemado por longos períodos sem justificativa).

Incompatível:

  • Negar água, banheiro, atendimento médico ou medicação como forma de coerção.
  • Permitir agressões por terceiros ou “castigos” informais.
  • Submeter a humilhação (ex.: piadas, apelidos, comentários sobre aparência/origem).

Cenário D: Coleta de prova com respeito a inviolabilidades

Objetivo: obter elementos informativos sem violar esferas protegidas e sem gerar nulidades.

Compatível:

  • Delimitar a diligência ao necessário e registrar a origem da informação (quem informou, quando, em que condições).
  • Quando houver consentimento, garantir que seja livre, informado e documentado (sem coação, sem “ou você deixa ou vai piorar”).
  • Tratar dados pessoais e imagens com confidencialidade, restringindo acesso ao estritamente necessário.

Incompatível:

  • Acessar conteúdo de aparelho/dados sem base legal ou fora do escopo autorizado.
  • “Forçar” consentimento com ameaça, promessa ou pressão psicológica.
  • Compartilhar fotos, vídeos ou informações sensíveis fora do procedimento.

3) Passo a passo prático: checklist de conformidade em abordagens e atendimentos

3.1 Antes de intervir (planejamento rápido)

  • Base: qual é o fato? qual norma/atribuição ampara a ação?
  • Finalidade: o que preciso alcançar (segurança, preservação, identificação, encaminhamento)?
  • Risco: há risco à integridade de alguém? preciso de apoio?
  • Registro: o que devo anotar desde já (horário, local, pessoas, motivo)?

3.2 Durante a intervenção (execução)

  • Comunicação: apresente-se, explique o motivo de forma objetiva e respeitosa.
  • Proporcionalidade: use o mínimo de força necessário; cesse quando o risco cessar.
  • Dignidade: evite exposição, ironias, gritos, ameaças; preserve privacidade.
  • Não discriminação: decisões baseadas em elementos objetivos, não em estereótipos.
  • Integridade: observe e registre lesões aparentes e providencie assistência quando cabível.

3.3 Após a intervenção (documentação e garantias)

  • Registro fiel: descreva fatos observáveis (o que viu/ouve), evitando adjetivos (“agressivo”, “nervoso”) sem descrição do comportamento.
  • Transparência: registre justificativas de medidas restritivas (ex.: contenção, algemas, separação).
  • Encaminhamentos: comunicações necessárias, orientações prestadas, atendimento médico, entrega de pertences.
  • Confidencialidade: proteja dados e imagens; acesso somente por necessidade funcional.

4) Exercícios de compatibilização (ação policial x garantia)

Exercício 1: Identifique a garantia principal envolvida

Associe cada situação à garantia mais diretamente afetada: (A) legalidade/finalidade, (B) integridade e tratamento digno, (C) não discriminação, (D) inviolabilidade/privacidade, (E) devido processo (documentação e direitos).

  • 1. Agente decide conduzir alguém “para averiguação” sem explicar motivo e sem registrar fundamentos. ( )
  • 2. Durante atendimento, servidor faz comentários depreciativos sobre a orientação sexual da vítima. ( )
  • 3. Custodiado relata dor intensa e o pedido de atendimento é ignorado “para ele aprender”. ( )
  • 4. Conteúdo de celular é acessado e compartilhado informalmente com colegas por curiosidade. ( )
  • 5. Relatório descreve “suspeito com cara de bandido”, sem fatos objetivos, e omite horários e testemunhas. ( )

Exercício 2: Conduta compatível ou incompatível?

Marque C (compatível) ou I (incompatível) e justifique em uma frase.

  • 1. Reduzir exposição pública do conduzido, evitando filmagens e circulação desnecessária. ( )
  • 2. Manter algemas por padrão em qualquer pessoa conduzida, independentemente de risco. ( )
  • 3. Registrar lesões aparentes e providenciar avaliação médica quando houver queixa. ( )
  • 4. Exigir “desbloqueio” de celular sob ameaça de piorar a situação. ( )
  • 5. Utilizar linguagem neutra e respeitosa em ocorrências envolvendo grupos vulneráveis. ( )

Exercício 3: Reescrita técnica (evite juízo de valor)

Reescreva as frases abaixo de forma objetiva, descrevendo comportamentos observáveis.

  • a) “O indivíduo estava alterado e com atitude de marginal.”
  • b) “A vítima é confusa e não sabe o que quer.”
  • c) “O suspeito ficou agressivo sem motivo.”

5) Responsabilidade por abuso na atuação: riscos e pontos de atenção

O que caracteriza abuso, em termos operacionais

Abuso na atuação costuma aparecer quando há: ausência de base legal, excesso (medida mais gravosa do que o necessário), desvio de finalidade (agir para punir, humilhar, obter vantagem), ou violação de integridade/privacidade. Além de comprometer o caso, pode gerar responsabilização em múltiplas esferas.

Esferas de responsabilização

  • Administrativa (disciplinar): violações de dever funcional, desrespeito a normas internas, condutas incompatíveis com o cargo.
  • Civil: dever de indenizar por danos materiais e morais decorrentes de conduta ilícita; pode envolver responsabilidade do Estado e regressiva em situações previstas.
  • Penal: quando a conduta se enquadra em tipos penais (ex.: violência, constrangimento ilegal, violação de domicílio, abuso de autoridade, entre outros).

Situações de alto risco (alertas práticos)

  • Uso da força: sempre justificar necessidade e proporcionalidade; cessar imediatamente quando cessar a resistência/ameaça; registrar.
  • Custódia: dever de cuidado contínuo; negligência com saúde e integridade pode gerar responsabilização.
  • Exposição e mídia: filmagens, fotos e comentários sobre ocorrências e pessoas envolvidas podem violar privacidade e gerar sanções.
  • Dados e dispositivos: acesso indevido a informações pessoais é fonte comum de nulidade e responsabilização.
  • Linguagem e estereótipos: registros com termos discriminatórios ou sem base fática fragilizam o procedimento e podem caracterizar discriminação.

Medidas preventivas (rotina segura)

  • Padronize checklists de abordagem, condução e custódia com foco em direitos.
  • Documente fundamentos de decisões restritivas (por que foi necessário, por quanto tempo, em que condições).
  • Separe fato de interpretação nos registros: descreva ações observáveis.
  • Proteja dados e limite acesso a informações sensíveis ao estritamente necessário.
  • Trate todos com respeito e mantenha postura profissional, especialmente sob provocação.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante a condução de uma pessoa para esclarecimentos, qual conduta melhor atende aos princípios de dignidade, legalidade e redução de riscos de nulidade e responsabilização?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A conduta correta combina transparência e documentação (legalidade/finalidade e devido processo) com preservação da dignidade e proporcionalidade. Explicar, evitar exposição e registrar fundamentos e condições reduz riscos de abuso, nulidades e responsabilização.

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