Direitos humanos e garantias fundamentais, na atividade do Agente de Polícia Civil, são parâmetros jurídicos e operacionais que limitam o poder estatal e orientam a atuação para proteger a dignidade da pessoa, a legalidade do procedimento e a confiabilidade da prova. Na prática, funcionam como “regras de segurança” do serviço: reduzem riscos de nulidades, responsabilização e danos à integridade física e psíquica de envolvidos.
1) Princípios operacionais que estruturam a atuação
Legalidade e finalidade
A atuação policial deve estar amparada em norma e perseguir finalidade pública legítima. Operacionalmente, isso significa: agir com base em atribuição, em situação fática verificável e com registro mínimo do que motivou a intervenção (o “porquê” e o “para quê”).
- Conduta compatível: abordar/identificar alguém porque há notícia de crime e elementos objetivos no local (descrição, horário, dinâmica), registrando os fundamentos.
- Conduta incompatível: intervir apenas por “atitude suspeita” genérica sem elementos concretos, ou com motivação discriminatória.
Devido processo, contraditório e ampla defesa (como norte)
Mesmo quando o Agente não decide o mérito, ele influencia o devido processo ao documentar corretamente, preservar integridade e garantir acesso a direitos (ex.: comunicação a familiar/advogado, informação sobre procedimentos, respeito a prazos e formalidades). O foco operacional é evitar atalhos que comprometam a validade do ato e a proteção do custodiado.
Integridade física e tratamento digno
Inclui proibição de tortura e de tratamento cruel, desumano ou degradante, além do dever de cuidado sob custódia. Na rotina, isso se traduz em: uso da força apenas quando necessário, proporcional e progressivo; atenção a sinais de lesão/doença; prevenção de humilhações, exposição indevida e violência verbal.
Não discriminação
Veda tratamento diferenciado por raça/cor, gênero, orientação sexual, religião, origem, condição social, deficiência, aparência ou qualquer outro fator irrelevante para o fato investigado. Operacionalmente, exige critérios objetivos e linguagem profissional em registros e interações.
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Inviolabilidades e limites de atuação estatal
Há esferas protegidas (domicílio, intimidade, vida privada, comunicações, dados), com hipóteses legais de mitigação. O ponto operacional é reconhecer quando é necessário mandado/ordem judicial, quando há exceção legal e como agir para não “contaminar” a prova nem violar direitos.
- Exemplo de limite: não ampliar uma diligência para “vasculhar” itens pessoais sem base legal ou sem consentimento válido.
- Exemplo de cuidado: ao lidar com celulares, mídias e contas, tratar como fonte sensível, evitando acesso indevido e registrando a forma de obtenção.
2) Cenários práticos: condutas compatíveis e incompatíveis
Cenário A: Atendimento inicial e acolhimento de vítima/testemunha
Objetivo: coletar informações iniciais e orientar, preservando dignidade, privacidade e não revitimização.
Compatível:
- Garantir ambiente reservado quando o relato envolver violência sexual, doméstica, ameaça ou exposição sensível.
- Usar linguagem respeitosa e neutra, evitando julgamentos (“por que você estava lá?” em tom acusatório).
- Registrar fielmente o relato, distinguindo fatos observados de opiniões.
- Orientar sobre direitos e medidas protetivas quando cabíveis, sem prometer resultado.
Incompatível:
- Expor a vítima em área comum, permitir curiosos, fazer perguntas humilhantes ou insinuar culpa.
- Negar atendimento por preconceito (ex.: “isso é briga de casal”, “isso é coisa de rua”).
- Divulgar imagens/áudios recebidos no atendimento em grupos ou a terceiros.
Cenário B: Condução de pessoa para esclarecimentos
Objetivo: realizar condução dentro dos limites legais, com registro e respeito à dignidade.
Compatível:
- Explicar, de forma simples, o motivo da condução e o destino (unidade, setor), evitando termos intimidatórios.
- Reduzir exposição pública desnecessária (evitar “passeio” com a pessoa em locais de grande circulação).
- Registrar horário, local, motivo, condições físicas aparentes e eventuais testemunhas.
- Se houver resistência/risco, aplicar contenção proporcional e cessar assim que o risco cessar.
Incompatível:
- Conduzir como forma de punição, intimidação ou “para dar susto”.
- Usar força por conveniência (ex.: empurrões, algemas sem necessidade) ou manter contenção após cessar o risco.
- Fazer ameaças, xingamentos, “lições” ou exposição em redes sociais.
Cenário C: Custódia e permanência em unidade policial
Objetivo: assegurar integridade, saúde e condições mínimas, com controle de riscos.
Compatível:
- Realizar checagem inicial: estado físico, queixas de dor, uso de medicação, sinais de intoxicação, risco de autoagressão.
- Providenciar atendimento médico quando necessário e registrar encaminhamentos.
- Separar, quando possível e necessário, pessoas por critérios de segurança (ex.: vulneráveis, risco de agressão), conforme normas locais.
- Evitar exposição indevida (ex.: manter custodiado seminu, algemado por longos períodos sem justificativa).
Incompatível:
- Negar água, banheiro, atendimento médico ou medicação como forma de coerção.
- Permitir agressões por terceiros ou “castigos” informais.
- Submeter a humilhação (ex.: piadas, apelidos, comentários sobre aparência/origem).
Cenário D: Coleta de prova com respeito a inviolabilidades
Objetivo: obter elementos informativos sem violar esferas protegidas e sem gerar nulidades.
Compatível:
- Delimitar a diligência ao necessário e registrar a origem da informação (quem informou, quando, em que condições).
- Quando houver consentimento, garantir que seja livre, informado e documentado (sem coação, sem “ou você deixa ou vai piorar”).
- Tratar dados pessoais e imagens com confidencialidade, restringindo acesso ao estritamente necessário.
Incompatível:
- Acessar conteúdo de aparelho/dados sem base legal ou fora do escopo autorizado.
- “Forçar” consentimento com ameaça, promessa ou pressão psicológica.
- Compartilhar fotos, vídeos ou informações sensíveis fora do procedimento.
3) Passo a passo prático: checklist de conformidade em abordagens e atendimentos
3.1 Antes de intervir (planejamento rápido)
- Base: qual é o fato? qual norma/atribuição ampara a ação?
- Finalidade: o que preciso alcançar (segurança, preservação, identificação, encaminhamento)?
- Risco: há risco à integridade de alguém? preciso de apoio?
- Registro: o que devo anotar desde já (horário, local, pessoas, motivo)?
3.2 Durante a intervenção (execução)
- Comunicação: apresente-se, explique o motivo de forma objetiva e respeitosa.
- Proporcionalidade: use o mínimo de força necessário; cesse quando o risco cessar.
- Dignidade: evite exposição, ironias, gritos, ameaças; preserve privacidade.
- Não discriminação: decisões baseadas em elementos objetivos, não em estereótipos.
- Integridade: observe e registre lesões aparentes e providencie assistência quando cabível.
3.3 Após a intervenção (documentação e garantias)
- Registro fiel: descreva fatos observáveis (o que viu/ouve), evitando adjetivos (“agressivo”, “nervoso”) sem descrição do comportamento.
- Transparência: registre justificativas de medidas restritivas (ex.: contenção, algemas, separação).
- Encaminhamentos: comunicações necessárias, orientações prestadas, atendimento médico, entrega de pertences.
- Confidencialidade: proteja dados e imagens; acesso somente por necessidade funcional.
4) Exercícios de compatibilização (ação policial x garantia)
Exercício 1: Identifique a garantia principal envolvida
Associe cada situação à garantia mais diretamente afetada: (A) legalidade/finalidade, (B) integridade e tratamento digno, (C) não discriminação, (D) inviolabilidade/privacidade, (E) devido processo (documentação e direitos).
- 1. Agente decide conduzir alguém “para averiguação” sem explicar motivo e sem registrar fundamentos. ( )
- 2. Durante atendimento, servidor faz comentários depreciativos sobre a orientação sexual da vítima. ( )
- 3. Custodiado relata dor intensa e o pedido de atendimento é ignorado “para ele aprender”. ( )
- 4. Conteúdo de celular é acessado e compartilhado informalmente com colegas por curiosidade. ( )
- 5. Relatório descreve “suspeito com cara de bandido”, sem fatos objetivos, e omite horários e testemunhas. ( )
Exercício 2: Conduta compatível ou incompatível?
Marque C (compatível) ou I (incompatível) e justifique em uma frase.
- 1. Reduzir exposição pública do conduzido, evitando filmagens e circulação desnecessária. ( )
- 2. Manter algemas por padrão em qualquer pessoa conduzida, independentemente de risco. ( )
- 3. Registrar lesões aparentes e providenciar avaliação médica quando houver queixa. ( )
- 4. Exigir “desbloqueio” de celular sob ameaça de piorar a situação. ( )
- 5. Utilizar linguagem neutra e respeitosa em ocorrências envolvendo grupos vulneráveis. ( )
Exercício 3: Reescrita técnica (evite juízo de valor)
Reescreva as frases abaixo de forma objetiva, descrevendo comportamentos observáveis.
- a) “O indivíduo estava alterado e com atitude de marginal.”
- b) “A vítima é confusa e não sabe o que quer.”
- c) “O suspeito ficou agressivo sem motivo.”
5) Responsabilidade por abuso na atuação: riscos e pontos de atenção
O que caracteriza abuso, em termos operacionais
Abuso na atuação costuma aparecer quando há: ausência de base legal, excesso (medida mais gravosa do que o necessário), desvio de finalidade (agir para punir, humilhar, obter vantagem), ou violação de integridade/privacidade. Além de comprometer o caso, pode gerar responsabilização em múltiplas esferas.
Esferas de responsabilização
- Administrativa (disciplinar): violações de dever funcional, desrespeito a normas internas, condutas incompatíveis com o cargo.
- Civil: dever de indenizar por danos materiais e morais decorrentes de conduta ilícita; pode envolver responsabilidade do Estado e regressiva em situações previstas.
- Penal: quando a conduta se enquadra em tipos penais (ex.: violência, constrangimento ilegal, violação de domicílio, abuso de autoridade, entre outros).
Situações de alto risco (alertas práticos)
- Uso da força: sempre justificar necessidade e proporcionalidade; cessar imediatamente quando cessar a resistência/ameaça; registrar.
- Custódia: dever de cuidado contínuo; negligência com saúde e integridade pode gerar responsabilização.
- Exposição e mídia: filmagens, fotos e comentários sobre ocorrências e pessoas envolvidas podem violar privacidade e gerar sanções.
- Dados e dispositivos: acesso indevido a informações pessoais é fonte comum de nulidade e responsabilização.
- Linguagem e estereótipos: registros com termos discriminatórios ou sem base fática fragilizam o procedimento e podem caracterizar discriminação.
Medidas preventivas (rotina segura)
- Padronize checklists de abordagem, condução e custódia com foco em direitos.
- Documente fundamentos de decisões restritivas (por que foi necessário, por quanto tempo, em que condições).
- Separe fato de interpretação nos registros: descreva ações observáveis.
- Proteja dados e limite acesso a informações sensíveis ao estritamente necessário.
- Trate todos com respeito e mantenha postura profissional, especialmente sob provocação.