Por que diagnosticar antes do preparo
O diagnóstico da superfície metálica é a etapa de inspeção que determina o que precisa ser removido, o que precisa ser corrigido e qual nível de preparo será necessário para a pintura anticorrosiva. Em vez de “começar lixando/jateando”, a inspeção organiza o trabalho: identifica ferrugem (grau e extensão), carepa de laminação, defeitos de fabricação (soldas, respingos, poros, rebarbas, cantos vivos) e contaminações (óleos, graxas, silicones, sais). O resultado esperado é um registro claro dos achados e uma decisão técnica: limpeza simples, preparo mecânico localizado, jateamento, desengraxe reforçado, tratamento de sais, correções de geometria e solda.
Principais condições a identificar
Ferrugem (oxidação): leve, moderada e severa
A ferrugem é produto de corrosão do aço e pode aparecer como manchas, pontos, placas ou camadas espessas. Para fins práticos de inspeção, classifique por aspecto, aderência e profundidade:
- Leve: manchas ou pontos finos, coloração marrom/alaranjada, pouca ou nenhuma escama; ao esfregar com escova manual, parte sai facilmente e o metal ainda parece “íntegro” (sem crateras evidentes).
- Moderada: áreas maiores com ferrugem mais escura, início de escamação, superfície áspera; ao raspar, solta em placas finas e já pode haver pites (pequenas cavidades) perceptíveis.
- Severa: escamas grossas, camadas estratificadas, perda de seção, pites profundos e bordas “comidas”; ao bater levemente com espátula, soltam-se placas e pode haver som “oco” em regiões laminadas/soltas.
O que observar: se a ferrugem está localizada (pontos) ou generalizada; se há pites; se está em regiões críticas (bases, emendas, cantos, sob respingos de solda, áreas de retenção de água).
Carepa de laminação
A carepa de laminação é uma camada dura e escura (óxidos formados em alta temperatura) que pode parecer “boa” por estar aderida, mas é um risco quando está trincada, desplacando ou com bordas levantadas. A tinta aplicada sobre carepa instável tende a perder aderência junto com a própria carepa.
Como identificar: aparência azulada/negra, lisa e brilhante em alguns pontos; presença de “ilhas” escuras com bordas definidas; trincas em padrão de mosaico. Use uma espátula: se levantar lascas, há instabilidade.
- Ouça o áudio com a tela desligada
- Ganhe Certificado após a conclusão
- + de 5000 cursos para você explorar!
Baixar o aplicativo
Soldas e descontinuidades associadas
Regiões soldadas concentram defeitos que prejudicam cobertura e criam pontos de corrosão sob a tinta. Inspecione:
- Cordão de solda: perfil muito alto, ondulações, falta de uniformidade.
- Respingos: pequenas esferas aderidas ao redor do cordão; criam “sombras” e dificultam cobertura.
- Porosidade: microfuros no cordão; podem reter contaminantes e umidade.
- Mordedura (undercut): sulco ao lado do cordão; vira canal de retenção.
- Trincas: indicam problema estrutural; devem ser tratadas conforme procedimento de soldagem/engenharia antes de pintar.
Rebarbas, cantos vivos e geometria desfavorável
Geometrias “agudas” e rebarbas reduzem a espessura de tinta nas arestas (efeito de retração), aumentando risco de falha precoce. Inspecione:
- Cantos vivos em chapas, perfis e recortes.
- Rebarbas de corte (oxicorte, plasma, guilhotina).
- Furos e recortes com bordas afiadas.
- Sobreposições e frestas (juntas sobrepostas) que retêm umidade e sais.
Contaminações: óleos, graxas, silicones e sais
Contaminações são inimigas diretas da aderência. Mesmo com bom perfil de rugosidade, um filme invisível pode causar crateras, “olhos de peixe”, desplacamento e corrosão sob película.
- Óleos e graxas: comuns de usinagem, manuseio, lubrificantes e proteção temporária.
- Silicones: presentes em desmoldantes, sprays, polidores; causam forte repelência e defeitos de molhamento.
- Sais (cloretos/sulfatos): típicos de ambiente marinho, respingos de água salobra, poeira industrial; são higroscópicos e aceleram corrosão sob a tinta.
Guia de inspeção antes do preparo (passo a passo)
1) Preparar a inspeção
- Defina a área: identifique peça/estrutura, posição e faces (ex.: “viga V-12, face superior/inferior”).
- Iluminação: use luz forte e, se possível, lanterna em ângulo raso para destacar relevo (pites, respingos, trincas).
- Ferramentas simples: espátula, escova de aço manual, pano branco limpo, borrifador com água limpa, fita adesiva (para marcar), marcador, câmera/celular para fotos.
2) Varredura visual geral
Faça uma leitura rápida de toda a superfície para localizar “zonas críticas”:
- Regiões de retenção de água: bases, prateleiras, cantos internos, emendas.
- Áreas próximas a soldas e reparos.
- Partes com mudança de cor (manchas escuras, arco-íris, áreas brilhantes).
- Locais com pó acumulado ou crostas (possível presença de sais).
3) Classificar ferrugem e mapear extensão
Em cada zona, classifique a ferrugem como leve/moderada/severa e registre a extensão aproximada (ex.: “30% da face”, “faixas de 10 cm ao longo da borda”).
Teste rápido de aderência da ferrugem: raspe com espátula e escove. Se soltar em escamas grossas e revelar pites profundos, trate como severa. Se sair como pó fino e o metal permanecer relativamente liso, tende a leve/moderada.
4) Verificar carepa de laminação
Procure “ilhas” escuras e trincas. Faça o teste com espátula:
- Se a carepa não levanta e não há trincas aparentes, registre como “carepa aderida” (a decisão de remoção dependerá do sistema e do nível de preparo exigido).
- Se a carepa levanta/desplaca ou está trincada, registre como “carepa solta” e marque a área para remoção completa no preparo.
5) Inspecionar soldas e defeitos de fabricação
Faça inspeção dirigida em todas as soldas e adjacências:
- Respingos: passe a mão com luva (tátil) e observe sombras; marque para remoção.
- Poros: procure pontos/“furinhos” no cordão; fotografe em close e registre.
- Mordedura: use lanterna lateral para ver sulcos ao lado do cordão.
- Rebarbas: verifique bordas de corte e furos.
- Cantos vivos: identifique arestas que precisam arredondamento.
6) Testes simples de contaminação (rápidos e práticos)
6.1 Teste de água (repelência / quebra do filme)
Objetivo: detectar presença de óleo, graxa ou silicone que impede molhamento.
- Como fazer: borrife água limpa ou aplique com pano úmido em uma área de 10–20 cm.
- Interpretação: se a água forma “gotas” bem definidas, abre clareiras ou “foge” (não espalha), há indicação de contaminante hidrofóbico (óleo/silicone). Se formar um filme contínuo, a superfície tende a estar mais limpa.
- Cuidados: faça em área representativa e compare com uma área “suspeita” e outra “aparentemente limpa”. Se o metal estiver muito quente, o teste pode evaporar rápido e confundir; prefira temperatura moderada.
6.2 Teste do pano branco (óleo/graxa)
Objetivo: evidenciar transferência de óleo/graxa.
- Como fazer: esfregue um pano branco limpo e seco na superfície com pressão moderada, em movimentos curtos.
- Interpretação: manchas amareladas/acinzentadas e sensação “escorregadia” indicam óleo/graxa. Se o pano sair apenas com poeira seca, o problema pode ser particulado (ainda assim requer limpeza).
6.3 Inspeção visual e tátil (poeira, sais, silicone)
Objetivo: identificar sinais indiretos quando não há instrumentos.
- Visual: brilho irregular, “arco-íris” de filme, marcas de dedo persistentes, áreas com aparência encerada (possível silicone).
- Tátil: passe a mão com luva nitrílica limpa; sensação pegajosa/untuosa sugere contaminante orgânico.
- Sais: podem aparecer como crostas esbranquiçadas ou pó que “volta” após limpeza superficial; são comuns em áreas expostas a névoa salina e respingos. Registre como suspeita de sais para tratamento específico (lavagem/limpeza adequada antes do preparo final).
Como registrar achados e decidir o nível de preparo
Registro padronizado (checklist de campo)
Use um registro simples por peça/área. Exemplo de campos:
- Identificação: peça, localização, face, data, inspetor.
- Ferrugem: leve/moderada/severa + % estimado + presença de pites (sim/não).
- Carepa: ausente/aderida/trincada/solta + % estimado.
- Soldas: respingos (sim/não), poros (sim/não), mordedura (sim/não), perfil irregular (sim/não).
- Geometria: cantos vivos (sim/não), rebarbas (sim/não), frestas/sobreposições (sim/não).
- Contaminações: óleo/graxa (teste pano), repelência (teste água), suspeita de silicone, suspeita de sais.
- Ação recomendada: desengraxe, remoção mecânica localizada, jateamento, correção de solda, arredondamento de arestas, retrabalho de corte.
- Evidências: fotos numeradas e marcações na peça (fita/marker).
Matriz rápida de decisão (orientativa)
| Achado principal | Risco para pintura | Direção de preparo (em termos práticos) |
|---|---|---|
| Ferrugem leve localizada | Médio | Limpeza + preparo mecânico localizado; garantir remoção do óxido solto e criação de ancoragem. |
| Ferrugem moderada com pites | Alto | Preparo mais agressivo e uniforme; atenção a pites (podem exigir retrabalho/limpeza reforçada). |
| Ferrugem severa / escamas | Muito alto | Remoção completa de produtos de corrosão e avaliação de perda de seção; preparo intensivo. |
| Carepa trincada/solta | Alto | Remover totalmente a carepa instável antes de pintar. |
| Óleo/graxa/silicone (repelência) | Muito alto | Desengraxe/limpeza específica antes de qualquer abrasão (para não espalhar contaminante). |
| Respingos, rebarbas, cantos vivos | Alto | Correção mecânica (remoção/arredondamento) para permitir cobertura e reduzir falhas em arestas. |
Regra prática importante: se houver suspeita de óleo/silicone, priorize limpeza/desengraxe antes do preparo abrasivo. Abrasão sobre contaminante tende a “esfregar e espalhar” o filme para dentro do perfil, dificultando a remoção.
Correções de defeitos de fabricação para melhorar cobertura e durabilidade
Remoção de respingos de solda
Objetivo: eliminar pontos altos que geram sombra, baixa espessura de tinta ao redor e focos de corrosão.
- Como fazer: remover mecanicamente (talhadeira/raspador apropriado e acabamento com esmerilhadeira), evitando cavar o metal base.
- Verificação: passar a mão (luva) e observar com luz rasante; a área deve ficar contínua, sem “bolinhas” salientes.
Tratamento de cordões de solda (perfil e descontinuidades)
Objetivo: reduzir retenção de contaminantes e facilitar cobertura uniforme.
- Esmerilhamento de perfil: suavizar ondulações e picos excessivos do cordão quando necessário para pintura (sem comprometer a solda).
- Correção de mordedura: quando houver sulcos pronunciados, avaliar retrabalho conforme procedimento de soldagem; sulcos são pontos de falha por retenção.
- Porosidade: poros abertos devem ser avaliados; podem exigir retrabalho/selagem conforme especificação do projeto e do sistema de pintura.
Dica de inspeção: após o esmerilhamento, use lanterna lateral para confirmar transição suave entre metal base e cordão, sem degraus abruptos.
Remoção de rebarbas e correção de cortes
Objetivo: evitar “lâminas” e bordas que concentram falhas e dificultam a formação de filme.
- Como fazer: esmerilhar rebarbas de corte e respingos de oxicorte/plasma; remover escória aderida.
- Checagem: borda deve ficar lisa ao toque (com luva), sem pontos cortantes.
Arredondamento de arestas (cantos vivos)
Objetivo: aumentar a chance de atingir espessura adequada de tinta nas arestas e reduzir desplacamento precoce.
- Onde aplicar: bordas de chapas, perfis, recortes, furos e cantos externos.
- Como fazer: arredondar com esmerilhamento controlado até obter uma transição suave (sem “quina” viva). Em inspeção, registre quais arestas precisam desse retrabalho antes do preparo final.
Roteiro de inspeção em campo (modelo rápido)
1. Identificar peça/face e fotografar visão geral. 2. Varredura visual: marcar zonas críticas (retenção de água, emendas, soldas). 3. Ferrugem: classificar (leve/moderada/severa), estimar % e checar pites com espátula/escova. 4. Carepa: procurar trincas/ilhas; testar com espátula (aderida vs solta). 5. Soldas: respingos, poros, mordedura, perfil; marcar para correção. 6. Geometria: rebarbas e cantos vivos; listar pontos para esmerilhamento/arredondamento. 7. Contaminações: teste de água (repelência), pano branco (óleo), inspeção tátil/visual (silicone/sais). 8. Registrar achados em checklist + fotos numeradas + marcações na peça. 9. Definir ações: limpeza/desengraxe, remoção de carepa/óxido, correções mecânicas, preparo mais intenso onde necessário.