O que são devoluções, trocas e disputas (e por que isso é um centro de custo)
Em marketplaces, devolução é a logística e o processo financeiro de receber um item de volta e reembolsar o comprador conforme as regras do canal. Troca é a substituição do item (mesmo produto/variação) por outro, normalmente por defeito, avaria, tamanho/cor, ou erro de separação. Disputa é quando o comprador contesta a entrega/condição do produto ou o pagamento (inclui chargeback no cartão), e o vendedor precisa apresentar evidências para defender o caso.
Operacionalmente, cada ocorrência abre um “mini-projeto” com tarefas (autorizar, coletar, inspecionar, decidir destino, ajustar estoque) e com impacto financeiro (frete, taxas, perda de valor, reembolso, estorno). A gestão correta não é “evitar devolução a qualquer custo”, e sim reduzir perdas e aumentar a taxa de resolução com processos padronizados e evidências.
Como estruturar políticas internas compatíveis com as regras de cada canal
Princípio 1: política interna nunca pode ser mais “dura” do que a regra do canal
O marketplace define prazos, motivos aceitos e como o reembolso acontece. Sua política interna deve funcionar como um manual de operação (o que fazer, em quanto tempo, quais provas coletar, como classificar o item), e não como um “termo” que tenta negar direitos previstos no canal.
Princípio 2: crie uma matriz de decisão por motivo
Monte uma tabela interna com: motivo informado, ação padrão, evidências necessárias, destino do item e impacto financeiro esperado. Exemplo de matriz (adapte aos motivos do seu mix):
| Motivo | Ação padrão | Evidências mínimas | Destino provável | Observação financeira |
|---|---|---|---|---|
| Arrependimento / não serviu | Aceitar devolução conforme canal | Fotos ao receber + checklist | Revenda ou reembalagem | Prever perda por manuseio |
| Defeito | Solicitar evidência + orientar teste | Vídeo/fotos do defeito + nº de série | Assistência / sucata | Provisionar garantia |
| Avaria no transporte | Coletar prova de embalagem | Fotos da caixa, etiqueta, amassados | Reembalagem/sucata | Possível contestação com prova |
| Produto diferente do anunciado | Prioridade máxima de resolução | Fotos do item recebido + etiqueta | Revenda (se íntegro) ou ajuste | Risco alto de disputa |
| Não recebido | Verificar rastreio e comprovantes | Rastreio, comprovante de entrega | N/A | Possível contestação/chargeback |
Princípio 3: defina SLAs internos menores que os do canal
Se o canal dá X dias para responder, trabalhe com X-1 ou X-2. Isso reduz perdas por “perda de prazo” e melhora a taxa de resolução. Crie SLAs internos para: primeira resposta, autorização de devolução, emissão de etiqueta/coleta, inspeção após recebimento, decisão de reembolso e reentrada em estoque.
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Princípio 4: padronize o que é “aceitável” na inspeção
Sem padrão, cada devolução vira discussão. Defina critérios objetivos:
- Novo para revenda: lacres intactos, sem marcas, acessórios completos, embalagem em bom estado.
- Reembalagem: produto íntegro, mas embalagem danificada/aberta; pode exigir troca de caixa, novo lacre, limpeza.
- Open box/segunda linha (se você operar): produto com sinais leves, mas funcional; vender em canal apropriado.
- Sucata/defeito: não funcional, quebrado, faltando peça crítica; destinar para assistência, descarte ou peças.
Fluxo completo de devolução (do pedido ao estoque)
Visão geral do fluxo
1) Solicitação do cliente → 2) Triagem e autorização → 3) Logística reversa → 4) Recebimento e inspeção → 5) Classificação do item → 6) Reembolso/solução → 7) Reentrada em estoque e ajustes financeiros1) Solicitação do cliente: triagem rápida e coleta de informações
Objetivo: entender o motivo e já coletar evidências antes do retorno (quando aplicável). Use um roteiro interno de perguntas (curto) e peça anexos de forma objetiva.
- Dados mínimos: número do pedido, motivo, condição do produto, se foi usado, se embalagem foi aberta, se há acessórios.
- Quando pedir foto/vídeo: defeito, avaria, item divergente, falta de peça, suspeita de uso indevido.
- Quando não travar: arrependimento dentro do prazo do canal (não crie atrito desnecessário).
Exemplo de mensagem interna (adaptar ao tom do canal):
Para agilizar, pode enviar 3 fotos: (1) produto inteiro, (2) etiqueta/serial (se houver), (3) embalagem externa com a etiqueta de envio? Se for defeito, um vídeo curto mostrando o problema ajuda a resolver mais rápido.2) Autorização: decidir o caminho (devolução, troca, suporte técnico)
Crie uma regra simples de decisão:
- Arrependimento: autorizar devolução conforme canal.
- Defeito aparente: coletar evidência + orientar teste básico (sem “culpar” o cliente) e autorizar devolução se persistir.
- Item divergente: autorizar devolução e abrir investigação interna (separação/etiqueta).
- Suspeita de fraude (ex.: fotos inconsistentes): autorizar seguindo regras do canal, mas já preparar dossiê e checklist reforçado na inspeção.
Importante: em muitos canais, a autorização e o reembolso podem ser automatizados ou fortemente direcionados pelo marketplace. Sua operação precisa estar pronta para cumprir sem improviso.
3) Logística reversa: controle do retorno e redução de perdas
Na logística reversa, o risco é perder rastreabilidade e receber um item diferente/danificado sem prova. Padronize:
- Rastreio obrigatório: registre o código de postagem/coleta no seu controle interno.
- Janela de monitoramento: checar status diariamente (ou a cada 48h) até a entrega.
- Checklist de recebimento: prepare a equipe para registrar evidências assim que o pacote chegar (antes de abrir).
4) Recebimento e inspeção: protocolo de evidências
Crie um “protocolo de abertura” para toda devolução, principalmente itens de maior valor:
- Foto 1: pacote fechado (mostrando etiqueta e estado da caixa).
- Foto 2: detalhes de avarias externas (amassados, furos, fita violada).
- Vídeo curto (opcional, recomendado em alto valor): abertura do pacote e primeira visualização do item.
- Foto 3: conteúdo completo (produto + acessórios + manuais).
- Foto 4: número de série/IMEI/identificador (quando existir).
- Foto 5: defeito alegado (se aplicável).
Padronize também um checklist de inspeção por categoria (ex.: eletrônicos, moda, utilidades). Exemplo genérico:
- Confere SKU/variação
- Confere acessórios/itens inclusos
- Estado físico (riscos, marcas, sujeira)
- Teste funcional básico (liga, carrega, encaixa)
- Embalagem (original, danificada, ausente)
5) Classificação: revenda, reembalagem, sucata (e como decidir)
Após inspeção, classifique com base em critérios objetivos (e registre no sistema/planilha):
- Revenda: item “como novo” e completo. Ação: volta ao estoque vendável com observação de lote (se necessário).
- Reembalagem: item íntegro, mas precisa de nova caixa, lacre, limpeza ou reposição de acessório barato. Ação: abrir ordem interna de reembalagem com custo estimado.
- Sucata/defeito: item sem condição de venda normal. Ação: separar para assistência, descarte, venda de peças (se aplicável) e registrar perda.
Regra prática: se o custo de reembalar + risco de reclamação futura for maior do que a margem esperada, trate como sucata/segunda linha (conforme sua operação).
6) Reembolso/solução: sincronizar decisão operacional com o financeiro
O reembolso pode ocorrer automaticamente pelo canal ou após etapas. Internamente, você precisa garantir que a decisão operacional (aprovado/negado/parcial) esteja alinhada ao que foi comprovado na inspeção.
- Se o item voltou correto e íntegro: reembolso conforme canal e reentrada rápida no estoque.
- Se voltou diferente/incompleto: registrar evidências e abrir contestação quando o canal permitir (sem perder prazo).
- Se houve avaria no transporte: evidenciar embalagem e estado do pacote para suportar contestação/ressarcimento quando aplicável.
7) Reentrada em estoque e ajustes financeiros: não “sumir” com o prejuízo
Sem controle financeiro, devolução vira um buraco invisível. Crie lançamentos padronizados:
- Entrada de estoque: SKU, condição (revenda/reembalagem/sucata), quantidade, localização.
- Custos diretos: frete reverso (quando for seu), material de reembalagem, mão de obra, perda por depreciação.
- Receita estornada: valor do item, taxas, comissões (conforme extrato do canal).
- Motivo raiz: arrependimento, defeito, avaria, erro de separação, divergência, não recebido.
Modelo simples de planilha/controle (colunas):
Data | Pedido | SKU | Motivo | Status (em trânsito/recebido/inspecionado) | Classificação | Reembolso (R$) | Custo reverso (R$) | Perda (R$) | Observações | Link evidênciasComo reduzir perdas: prevenção operacional aplicada ao dia a dia
1) “Pontos de prova” no envio (para evitar disputa e fraude)
Crie um protocolo de expedição com evidências rápidas, especialmente para itens de maior valor ou alto índice de disputa:
- Foto do produto antes de embalar (mostrando estado e acessórios).
- Foto do número de série (quando existir) associado ao pedido.
- Foto da embalagem já fechada com etiqueta visível.
- Pesagem: registre o peso do pacote (balança) e guarde o registro. Divergência de peso é uma das melhores evidências em alegação de “faltou item”.
Dica prática: padronize um nome de arquivo por pedido, por exemplo: PEDIDO12345_01_produto.jpg, PEDIDO12345_02_serial.jpg, PEDIDO12345_03_caixa_fechada.jpg, PEDIDO12345_04_peso.jpg.
2) Controle de qualidade de separação (para reduzir “produto errado”)
- Dupla checagem em SKUs parecidos (cor/tamanho/modelo).
- Leitura de código (quando possível) na separação e na conferência.
- Kit/variação: checklist impresso do que compõe o envio.
3) Política interna de “troca” sem conflitar com o canal
Em muitos marketplaces, a troca pode não ser um fluxo formal como em loja própria; frequentemente o canal opera como devolução + nova compra. Internamente, você pode:
- Oferecer orientação para o cliente escolher a variação correta na recompra.
- Priorizar reposição rápida quando o canal permitir (ex.: defeito confirmado), mas mantendo rastreabilidade e evidências.
- Evitar prometer “troca direta” se o canal não suportar; prometa o que você controla: agilidade no processo.
Chargebacks e disputas: como agir sem perder prazo e sem perder prova
Entendendo o chargeback na prática
Chargeback é a contestação do pagamento pelo titular do cartão junto ao banco/bandeira (ex.: “não reconheço”, “não recebi”, “produto diferente”). Em marketplaces, o canal pode intermediar e pedir evidências. O risco é alto porque o prazo é curto e a decisão depende de documentação.
Passo a passo para lidar com disputas
- 1) Identifique o tipo de disputa: não recebido, não reconhecido, item diferente, item com defeito, cobrança duplicada.
- 2) Trave o caso internamente: marque o pedido como “em disputa” para evitar reembolso duplicado ou ações conflitantes.
- 3) Reúna evidências em até 24h: quanto mais cedo, menor chance de perder arquivos e conversas.
- 4) Responda no canal dentro do prazo: mesmo que falte algo, envie o que já tem e complemente se permitido.
- 5) Registre o resultado: ganho/perda e motivo, para ajustar prevenção (embalagem, prova, triagem).
Como montar um dossiê de evidências (modelo prático)
Crie uma pasta por pedido (Drive/servidor) e um documento-resumo (PDF) com links/prints. Estrutura recomendada:
- Capa do dossiê: nº do pedido, data, SKU, valor, motivo da disputa, prazos.
- Linha do tempo: compra → postagem → trânsito → entrega → contato do cliente → abertura da disputa.
- Provas de envio: fotos do produto, serial, embalagem fechada, etiqueta.
- Prova de peso: foto da balança + registro do peso (e, se houver, peso cubado/declaração da transportadora).
- Documentos fiscais: nota fiscal/declaração (conforme aplicável) vinculada ao pedido.
- Rastreio e entrega: print do rastreio, status de entrega, comprovante (quando disponível).
- Conversa com o cliente: prints mostrando tentativa de resolução, solicitações de evidência, orientações.
- Inspeção de devolução (se houve retorno): fotos do pacote recebido, abertura, item, serial, divergências.
Checklist rápido do dossiê (para colar na operação):
[ ] Pedido e dados do comprador (conforme permitido) + SKU + valor + datas-chave [ ] Nota fiscal / documento do envio [ ] Foto do produto antes de embalar [ ] Foto do serial/identificador [ ] Foto da caixa fechada com etiqueta [ ] Foto do peso na balança [ ] Print do rastreio e status de entrega [ ] Prints da conversa no chat do canal [ ] Se devolvido: fotos do pacote ao chegar + abertura + conteúdo [ ] Documento-resumo em PDF com linha do tempoQuando contestar e quando aceitar a perda
Contestação faz sentido quando você tem evidência forte e o valor justifica o tempo. Use uma regra interna:
- Contestar: alto valor, serial controlado, prova de peso, entrega confirmada, inconsistência clara na alegação.
- Não escalar (resolver rápido): baixo valor, evidência fraca, risco de piorar métricas/tempo operacional, custo de oportunidade alto.
Mesmo quando não contestar, registre o motivo e trate como dado para prevenção (ex.: categoria com alto índice de “não recebido” pode exigir prova de embalagem/peso sempre).
Rotina operacional: como não deixar devoluções virarem caos
Quadro de status (Kanban) para devoluções e disputas
Use um quadro com colunas padronizadas (em ferramenta ou planilha):
- Solicitado
- Aguardando evidências do cliente
- Autorizado / etiqueta emitida
- Em trânsito (retorno)
- Recebido
- Inspecionado
- Classificado (revenda/reembalagem/sucata)
- Reembolso/solução concluída
- Disputa/chargeback (separado)
Indicadores mínimos para acompanhar semanalmente
- Taxa de devolução por SKU/categoria
- Motivos principais (top 5)
- Tempo médio de resolução (solicitação → solução)
- % de itens que voltam para revenda vs reembalagem vs sucata
- Perda média por devolução (R$) e por motivo
- Taxa de disputa/chargeback e taxa de vitória
Auditoria de causa raiz (para reduzir recorrência)
Selecione semanalmente os 10 casos mais caros (maior perda) e responda:
- Foi erro de separação? (SKU/variação)
- Foi falha de embalagem? (avaria)
- Foi expectativa do cliente? (descrição/compatibilidade)
- Foi defeito de lote? (qual fornecedor/lote)
- Foi risco de fraude? (padrão de comportamento)
Transforme a resposta em ação: reforço de checklist, mudança de embalagem, bloqueio de lote, ajuste de inspeção, exigência de evidência no envio (peso/serial) para aquela categoria.