Devoluções, trocas e disputas: gestão financeira e operacional

Capítulo 15

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

O que são devoluções, trocas e disputas (e por que isso é um centro de custo)

Em marketplaces, devolução é a logística e o processo financeiro de receber um item de volta e reembolsar o comprador conforme as regras do canal. Troca é a substituição do item (mesmo produto/variação) por outro, normalmente por defeito, avaria, tamanho/cor, ou erro de separação. Disputa é quando o comprador contesta a entrega/condição do produto ou o pagamento (inclui chargeback no cartão), e o vendedor precisa apresentar evidências para defender o caso.

Operacionalmente, cada ocorrência abre um “mini-projeto” com tarefas (autorizar, coletar, inspecionar, decidir destino, ajustar estoque) e com impacto financeiro (frete, taxas, perda de valor, reembolso, estorno). A gestão correta não é “evitar devolução a qualquer custo”, e sim reduzir perdas e aumentar a taxa de resolução com processos padronizados e evidências.

Como estruturar políticas internas compatíveis com as regras de cada canal

Princípio 1: política interna nunca pode ser mais “dura” do que a regra do canal

O marketplace define prazos, motivos aceitos e como o reembolso acontece. Sua política interna deve funcionar como um manual de operação (o que fazer, em quanto tempo, quais provas coletar, como classificar o item), e não como um “termo” que tenta negar direitos previstos no canal.

Princípio 2: crie uma matriz de decisão por motivo

Monte uma tabela interna com: motivo informado, ação padrão, evidências necessárias, destino do item e impacto financeiro esperado. Exemplo de matriz (adapte aos motivos do seu mix):

MotivoAção padrãoEvidências mínimasDestino provávelObservação financeira
Arrependimento / não serviuAceitar devolução conforme canalFotos ao receber + checklistRevenda ou reembalagemPrever perda por manuseio
DefeitoSolicitar evidência + orientar testeVídeo/fotos do defeito + nº de sérieAssistência / sucataProvisionar garantia
Avaria no transporteColetar prova de embalagemFotos da caixa, etiqueta, amassadosReembalagem/sucataPossível contestação com prova
Produto diferente do anunciadoPrioridade máxima de resoluçãoFotos do item recebido + etiquetaRevenda (se íntegro) ou ajusteRisco alto de disputa
Não recebidoVerificar rastreio e comprovantesRastreio, comprovante de entregaN/APossível contestação/chargeback

Princípio 3: defina SLAs internos menores que os do canal

Se o canal dá X dias para responder, trabalhe com X-1 ou X-2. Isso reduz perdas por “perda de prazo” e melhora a taxa de resolução. Crie SLAs internos para: primeira resposta, autorização de devolução, emissão de etiqueta/coleta, inspeção após recebimento, decisão de reembolso e reentrada em estoque.

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Princípio 4: padronize o que é “aceitável” na inspeção

Sem padrão, cada devolução vira discussão. Defina critérios objetivos:

  • Novo para revenda: lacres intactos, sem marcas, acessórios completos, embalagem em bom estado.
  • Reembalagem: produto íntegro, mas embalagem danificada/aberta; pode exigir troca de caixa, novo lacre, limpeza.
  • Open box/segunda linha (se você operar): produto com sinais leves, mas funcional; vender em canal apropriado.
  • Sucata/defeito: não funcional, quebrado, faltando peça crítica; destinar para assistência, descarte ou peças.

Fluxo completo de devolução (do pedido ao estoque)

Visão geral do fluxo

1) Solicitação do cliente → 2) Triagem e autorização → 3) Logística reversa → 4) Recebimento e inspeção → 5) Classificação do item → 6) Reembolso/solução → 7) Reentrada em estoque e ajustes financeiros

1) Solicitação do cliente: triagem rápida e coleta de informações

Objetivo: entender o motivo e já coletar evidências antes do retorno (quando aplicável). Use um roteiro interno de perguntas (curto) e peça anexos de forma objetiva.

  • Dados mínimos: número do pedido, motivo, condição do produto, se foi usado, se embalagem foi aberta, se há acessórios.
  • Quando pedir foto/vídeo: defeito, avaria, item divergente, falta de peça, suspeita de uso indevido.
  • Quando não travar: arrependimento dentro do prazo do canal (não crie atrito desnecessário).

Exemplo de mensagem interna (adaptar ao tom do canal):

Para agilizar, pode enviar 3 fotos: (1) produto inteiro, (2) etiqueta/serial (se houver), (3) embalagem externa com a etiqueta de envio? Se for defeito, um vídeo curto mostrando o problema ajuda a resolver mais rápido.

2) Autorização: decidir o caminho (devolução, troca, suporte técnico)

Crie uma regra simples de decisão:

  • Arrependimento: autorizar devolução conforme canal.
  • Defeito aparente: coletar evidência + orientar teste básico (sem “culpar” o cliente) e autorizar devolução se persistir.
  • Item divergente: autorizar devolução e abrir investigação interna (separação/etiqueta).
  • Suspeita de fraude (ex.: fotos inconsistentes): autorizar seguindo regras do canal, mas já preparar dossiê e checklist reforçado na inspeção.

Importante: em muitos canais, a autorização e o reembolso podem ser automatizados ou fortemente direcionados pelo marketplace. Sua operação precisa estar pronta para cumprir sem improviso.

3) Logística reversa: controle do retorno e redução de perdas

Na logística reversa, o risco é perder rastreabilidade e receber um item diferente/danificado sem prova. Padronize:

  • Rastreio obrigatório: registre o código de postagem/coleta no seu controle interno.
  • Janela de monitoramento: checar status diariamente (ou a cada 48h) até a entrega.
  • Checklist de recebimento: prepare a equipe para registrar evidências assim que o pacote chegar (antes de abrir).

4) Recebimento e inspeção: protocolo de evidências

Crie um “protocolo de abertura” para toda devolução, principalmente itens de maior valor:

  • Foto 1: pacote fechado (mostrando etiqueta e estado da caixa).
  • Foto 2: detalhes de avarias externas (amassados, furos, fita violada).
  • Vídeo curto (opcional, recomendado em alto valor): abertura do pacote e primeira visualização do item.
  • Foto 3: conteúdo completo (produto + acessórios + manuais).
  • Foto 4: número de série/IMEI/identificador (quando existir).
  • Foto 5: defeito alegado (se aplicável).

Padronize também um checklist de inspeção por categoria (ex.: eletrônicos, moda, utilidades). Exemplo genérico:

  • Confere SKU/variação
  • Confere acessórios/itens inclusos
  • Estado físico (riscos, marcas, sujeira)
  • Teste funcional básico (liga, carrega, encaixa)
  • Embalagem (original, danificada, ausente)

5) Classificação: revenda, reembalagem, sucata (e como decidir)

Após inspeção, classifique com base em critérios objetivos (e registre no sistema/planilha):

  • Revenda: item “como novo” e completo. Ação: volta ao estoque vendável com observação de lote (se necessário).
  • Reembalagem: item íntegro, mas precisa de nova caixa, lacre, limpeza ou reposição de acessório barato. Ação: abrir ordem interna de reembalagem com custo estimado.
  • Sucata/defeito: item sem condição de venda normal. Ação: separar para assistência, descarte, venda de peças (se aplicável) e registrar perda.

Regra prática: se o custo de reembalar + risco de reclamação futura for maior do que a margem esperada, trate como sucata/segunda linha (conforme sua operação).

6) Reembolso/solução: sincronizar decisão operacional com o financeiro

O reembolso pode ocorrer automaticamente pelo canal ou após etapas. Internamente, você precisa garantir que a decisão operacional (aprovado/negado/parcial) esteja alinhada ao que foi comprovado na inspeção.

  • Se o item voltou correto e íntegro: reembolso conforme canal e reentrada rápida no estoque.
  • Se voltou diferente/incompleto: registrar evidências e abrir contestação quando o canal permitir (sem perder prazo).
  • Se houve avaria no transporte: evidenciar embalagem e estado do pacote para suportar contestação/ressarcimento quando aplicável.

7) Reentrada em estoque e ajustes financeiros: não “sumir” com o prejuízo

Sem controle financeiro, devolução vira um buraco invisível. Crie lançamentos padronizados:

  • Entrada de estoque: SKU, condição (revenda/reembalagem/sucata), quantidade, localização.
  • Custos diretos: frete reverso (quando for seu), material de reembalagem, mão de obra, perda por depreciação.
  • Receita estornada: valor do item, taxas, comissões (conforme extrato do canal).
  • Motivo raiz: arrependimento, defeito, avaria, erro de separação, divergência, não recebido.

Modelo simples de planilha/controle (colunas):

Data | Pedido | SKU | Motivo | Status (em trânsito/recebido/inspecionado) | Classificação | Reembolso (R$) | Custo reverso (R$) | Perda (R$) | Observações | Link evidências

Como reduzir perdas: prevenção operacional aplicada ao dia a dia

1) “Pontos de prova” no envio (para evitar disputa e fraude)

Crie um protocolo de expedição com evidências rápidas, especialmente para itens de maior valor ou alto índice de disputa:

  • Foto do produto antes de embalar (mostrando estado e acessórios).
  • Foto do número de série (quando existir) associado ao pedido.
  • Foto da embalagem já fechada com etiqueta visível.
  • Pesagem: registre o peso do pacote (balança) e guarde o registro. Divergência de peso é uma das melhores evidências em alegação de “faltou item”.

Dica prática: padronize um nome de arquivo por pedido, por exemplo: PEDIDO12345_01_produto.jpg, PEDIDO12345_02_serial.jpg, PEDIDO12345_03_caixa_fechada.jpg, PEDIDO12345_04_peso.jpg.

2) Controle de qualidade de separação (para reduzir “produto errado”)

  • Dupla checagem em SKUs parecidos (cor/tamanho/modelo).
  • Leitura de código (quando possível) na separação e na conferência.
  • Kit/variação: checklist impresso do que compõe o envio.

3) Política interna de “troca” sem conflitar com o canal

Em muitos marketplaces, a troca pode não ser um fluxo formal como em loja própria; frequentemente o canal opera como devolução + nova compra. Internamente, você pode:

  • Oferecer orientação para o cliente escolher a variação correta na recompra.
  • Priorizar reposição rápida quando o canal permitir (ex.: defeito confirmado), mas mantendo rastreabilidade e evidências.
  • Evitar prometer “troca direta” se o canal não suportar; prometa o que você controla: agilidade no processo.

Chargebacks e disputas: como agir sem perder prazo e sem perder prova

Entendendo o chargeback na prática

Chargeback é a contestação do pagamento pelo titular do cartão junto ao banco/bandeira (ex.: “não reconheço”, “não recebi”, “produto diferente”). Em marketplaces, o canal pode intermediar e pedir evidências. O risco é alto porque o prazo é curto e a decisão depende de documentação.

Passo a passo para lidar com disputas

  • 1) Identifique o tipo de disputa: não recebido, não reconhecido, item diferente, item com defeito, cobrança duplicada.
  • 2) Trave o caso internamente: marque o pedido como “em disputa” para evitar reembolso duplicado ou ações conflitantes.
  • 3) Reúna evidências em até 24h: quanto mais cedo, menor chance de perder arquivos e conversas.
  • 4) Responda no canal dentro do prazo: mesmo que falte algo, envie o que já tem e complemente se permitido.
  • 5) Registre o resultado: ganho/perda e motivo, para ajustar prevenção (embalagem, prova, triagem).

Como montar um dossiê de evidências (modelo prático)

Crie uma pasta por pedido (Drive/servidor) e um documento-resumo (PDF) com links/prints. Estrutura recomendada:

  • Capa do dossiê: nº do pedido, data, SKU, valor, motivo da disputa, prazos.
  • Linha do tempo: compra → postagem → trânsito → entrega → contato do cliente → abertura da disputa.
  • Provas de envio: fotos do produto, serial, embalagem fechada, etiqueta.
  • Prova de peso: foto da balança + registro do peso (e, se houver, peso cubado/declaração da transportadora).
  • Documentos fiscais: nota fiscal/declaração (conforme aplicável) vinculada ao pedido.
  • Rastreio e entrega: print do rastreio, status de entrega, comprovante (quando disponível).
  • Conversa com o cliente: prints mostrando tentativa de resolução, solicitações de evidência, orientações.
  • Inspeção de devolução (se houve retorno): fotos do pacote recebido, abertura, item, serial, divergências.

Checklist rápido do dossiê (para colar na operação):

[ ] Pedido e dados do comprador (conforme permitido) + SKU + valor + datas-chave  [ ] Nota fiscal / documento do envio  [ ] Foto do produto antes de embalar  [ ] Foto do serial/identificador  [ ] Foto da caixa fechada com etiqueta  [ ] Foto do peso na balança  [ ] Print do rastreio e status de entrega  [ ] Prints da conversa no chat do canal  [ ] Se devolvido: fotos do pacote ao chegar + abertura + conteúdo  [ ] Documento-resumo em PDF com linha do tempo

Quando contestar e quando aceitar a perda

Contestação faz sentido quando você tem evidência forte e o valor justifica o tempo. Use uma regra interna:

  • Contestar: alto valor, serial controlado, prova de peso, entrega confirmada, inconsistência clara na alegação.
  • Não escalar (resolver rápido): baixo valor, evidência fraca, risco de piorar métricas/tempo operacional, custo de oportunidade alto.

Mesmo quando não contestar, registre o motivo e trate como dado para prevenção (ex.: categoria com alto índice de “não recebido” pode exigir prova de embalagem/peso sempre).

Rotina operacional: como não deixar devoluções virarem caos

Quadro de status (Kanban) para devoluções e disputas

Use um quadro com colunas padronizadas (em ferramenta ou planilha):

  • Solicitado
  • Aguardando evidências do cliente
  • Autorizado / etiqueta emitida
  • Em trânsito (retorno)
  • Recebido
  • Inspecionado
  • Classificado (revenda/reembalagem/sucata)
  • Reembolso/solução concluída
  • Disputa/chargeback (separado)

Indicadores mínimos para acompanhar semanalmente

  • Taxa de devolução por SKU/categoria
  • Motivos principais (top 5)
  • Tempo médio de resolução (solicitação → solução)
  • % de itens que voltam para revenda vs reembalagem vs sucata
  • Perda média por devolução (R$) e por motivo
  • Taxa de disputa/chargeback e taxa de vitória

Auditoria de causa raiz (para reduzir recorrência)

Selecione semanalmente os 10 casos mais caros (maior perda) e responda:

  • Foi erro de separação? (SKU/variação)
  • Foi falha de embalagem? (avaria)
  • Foi expectativa do cliente? (descrição/compatibilidade)
  • Foi defeito de lote? (qual fornecedor/lote)
  • Foi risco de fraude? (padrão de comportamento)

Transforme a resposta em ação: reforço de checklist, mudança de embalagem, bloqueio de lote, ajuste de inspeção, exigência de evidência no envio (peso/serial) para aquela categoria.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao definir uma política interna para lidar com devoluções, trocas e disputas em marketplaces, qual prática aumenta a taxa de resolução e reduz perdas sem entrar em conflito com as regras do canal?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

SLAs internos menores evitam perda de prazo, e processos padronizados (triagem, logística reversa, inspeção e evidências) aumentam a chance de resolver e contestar quando necessário, reduzindo perdas e alinhando operação e financeiro.

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