Despesas no Orçamento Público: tipos, finalidade e rigidez orçamentária

Capítulo 7

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que são despesas no orçamento público

Despesa pública é o gasto autorizado na LOA para manter serviços, pagar obrigações e realizar investimentos. No orçamento, a despesa não aparece “solta”: ela é classificada em camadas (categorias e subcategorias) para permitir controle, transparência e comparação entre órgãos e políticas públicas.

Na prática, quando você vê uma dotação orçamentária, ela costuma estar vinculada a uma ação (atividade/projeto) e detalhada por classificações como: categoria econômica (corrente ou capital), grupo de natureza da despesa (GND), modalidade de aplicação e elemento de despesa. Essas camadas respondem perguntas diferentes: “é gasto do dia a dia ou investimento?”, “é pessoal, custeio, investimento?”, “quem executa?”, “o que exatamente será comprado/pago?”.

Categorias econômicas: despesas correntes x despesas de capital

1) Despesas correntes

São gastos para manutenção e funcionamento do Estado e para transferências que não geram, em regra, um novo ativo público. Exemplos típicos: folha de pagamento, contas de água e energia, contratos de limpeza, medicamentos para consumo, serviços de TI, pagamento de juros da dívida.

  • Pessoal e encargos: salários, benefícios, contribuições patronais.
  • Juros e encargos da dívida: juros, comissões, encargos financeiros.
  • Outras despesas correntes: custeio em geral e transferências correntes.

2) Despesas de capital

São gastos que aumentam o patrimônio (formação de capital) ou se relacionam à dívida (amortização) e transferências de capital. Exemplos: construção de escola, compra de ambulância, aquisição de equipamentos permanentes, amortização do principal da dívida, transferências para obras em municípios.

  • Investimentos: obras, aquisição de equipamentos permanentes, implantação de sistemas (quando caracterizados como ativo).
  • Inversões financeiras: aquisição de imóveis já prontos, participação em empresas, aquisição de títulos (dependendo do caso).
  • Amortização da dívida: pagamento do principal.

Como a despesa se organiza no orçamento: GND, modalidade e elemento

Grupo de Natureza da Despesa (GND): “o tipo macro do gasto”

O GND é uma classificação agregada que ajuda a enxergar rapidamente qual é a natureza principal do gasto. De forma prática, ele separa grandes blocos como pessoal, juros, custeio, investimentos e amortização.

Continue em nosso aplicativo e ...
  • Ouça o áudio com a tela desligada
  • Ganhe Certificado após a conclusão
  • + de 5000 cursos para você explorar!
ou continue lendo abaixo...
Download App

Baixar o aplicativo

Exemplos de leitura por GND (linguagem do dia a dia):

  • Pessoal: tudo que remunera servidores/empregados e encargos.
  • Custeio: material de consumo, serviços de terceiros, diárias, passagens, contratos de manutenção.
  • Investimento: obras e compra de bens permanentes.
  • Juros: custo financeiro da dívida.
  • Amortização: pagamento do principal da dívida.

Modalidade de aplicação: “quem executa/para quem vai o recurso”

A modalidade de aplicação indica se o gasto será executado diretamente pelo órgão ou transferido para outro ente/entidade executar. Ela é crucial para distinguir, por exemplo, uma obra feita pela própria secretaria de uma obra feita por um município com recursos transferidos.

Exemplos práticos de interpretação:

  • Aplicação direta: a secretaria contrata a empresa e paga.
  • Transferência a município: o estado repassa recursos para a prefeitura executar (por convênio, termo de fomento etc.).
  • Transferência a entidade: repasse a consórcio, organização social, entidade sem fins lucrativos, conforme o instrumento.

Elemento de despesa: “o que exatamente será pago/comprado”

O elemento detalha o objeto do gasto. É onde você diferencia, dentro do custeio, se é material de consumo ou serviço de terceiros, por exemplo; e, dentro de investimentos, se é obra ou equipamento permanente.

Exemplos comuns (descrição prática):

  • Vencimentos e vantagens: salários e remunerações.
  • Obrigações patronais: contribuições do empregador ao regime previdenciário.
  • Material de consumo: itens consumíveis (papel, combustível, medicamentos para uso/consumo).
  • Serviços de terceiros: vigilância, limpeza, manutenção, consultoria, locação, serviços de TI (quando contratados como serviço).
  • Diárias e passagens: deslocamentos a serviço.
  • Obras e instalações: construção/reforma com característica de obra.
  • Equipamentos e material permanente: bens duráveis (computadores, ambulâncias, mobiliário).
  • Juros: pagamento de encargos financeiros.
  • Amortização: principal da dívida.

Passo a passo prático: como enquadrar uma despesa comum

Use este roteiro para classificar mentalmente (ou conferir) uma despesa no orçamento. Ele ajuda a evitar confusões típicas, como tratar compra de equipamento como “custeio” ou misturar juros com amortização.

Passo 1 — Identifique se é manutenção do dia a dia ou formação de ativo

  • Se mantém o serviço funcionando (sem criar um novo ativo relevante): tende a ser corrente.
  • Se cria/expande um ativo (obra, equipamento permanente) ou paga principal da dívida: tende a ser capital.

Passo 2 — Enquadre no GND (macro)

  • É remuneração/encargos? Pessoal.
  • É custo financeiro da dívida? Juros.
  • É compra/contratação para operar serviços? Custeio (outras correntes).
  • É obra/equipamento permanente? Investimento.
  • É pagamento do principal? Amortização.

Passo 3 — Verifique a modalidade de aplicação (execução direta x transferência)

  • O órgão vai licitar/contratar e pagar? Aplicação direta.
  • Vai repassar para município/entidade executar? Transferência (modalidade correspondente).

Passo 4 — Escolha o elemento de despesa (objeto específico)

  • Se é compra de itens consumíveis: material de consumo.
  • Se é contrato de serviço: serviços de terceiros.
  • Se é obra: obras e instalações.
  • Se é bem durável: equipamentos e material permanente.
  • Se é juros ou amortização: elementos próprios de dívida.

Exemplos rápidos aplicando o passo a passo

  • Folha de pagamento de professores: Corrente → GND Pessoal → Aplicação direta → Elemento de vencimentos/obrigações patronais (conforme a parcela).
  • Contrato de limpeza de escola: Corrente → GND Custeio (outras correntes) → Aplicação direta → Elemento de serviços de terceiros.
  • Compra de merenda escolar (alimentos): Corrente → GND Custeio → Aplicação direta → Elemento de material de consumo.
  • Compra de computadores para laboratório: Capital → GND Investimento → Aplicação direta → Elemento de equipamentos e material permanente.
  • Construção de uma UBS: Capital → GND Investimento → Aplicação direta (se o órgão executa) ou Transferência (se repassa ao município) → Elemento de obras e instalações.
  • Pagamento de juros de um contrato de dívida: Corrente → GND Juros → Aplicação direta → Elemento de juros/encargos.
  • Pagamento do principal da dívida: Capital → GND Amortização → Aplicação direta → Elemento de amortização.

Despesas obrigatórias x discricionárias (e por que isso importa)

Despesas obrigatórias

São despesas que o governo tem pouca ou nenhuma liberdade para deixar de pagar no curto prazo, porque decorrem de leis, contratos, decisões judiciais, regras constitucionais ou compromissos financeiros. Em geral, são as primeiras a “consumir” o espaço do orçamento.

Exemplos típicos:

  • Pessoal ativo e inativo (remuneração, aposentadorias, pensões), conforme regras vigentes.
  • Serviço da dívida (juros e amortização) nos prazos contratados.
  • Benefícios e transferências com base legal (conforme o ente e a política).
  • Despesas determinadas por decisão judicial (quando exigíveis).

Despesas discricionárias

São despesas em que o governo tem maior margem de escolha sobre quanto gastar, quando gastar e, às vezes, se gastar. Normalmente concentram custeio administrativo e parte relevante dos investimentos.

Exemplos típicos:

  • Contratos de manutenção (podem ser redimensionados, relicitados, renegociados dentro de limites).
  • Compras de materiais e serviços não essenciais.
  • Investimentos (obras e aquisição de equipamentos), especialmente novos projetos.

Atenção: uma despesa pode ser “corrente” e ainda assim discricionária (ex.: contrato de consultoria), e uma despesa pode ser “de capital” e se tornar pouco flexível quando já há contrato assinado e obra em andamento (o que reduz a discricionariedade real).

Rigidez orçamentária: como ela limita escolhas de governo

Rigidez orçamentária é o grau em que o orçamento já nasce “comprometido” com despesas obrigatórias e vinculações, reduzindo o espaço para decisões novas. Quanto maior a rigidez, menor a parcela do orçamento disponível para ampliar investimentos, criar programas ou reforçar políticas públicas.

Como a rigidez aparece no dia a dia

  • Alta participação de pessoal: folha e encargos consomem grande parte das despesas correntes.
  • Dívida: juros e amortização têm calendário e prioridade de pagamento.
  • Despesas continuadas: contratos recorrentes e manutenção de serviços essenciais.
  • Obras em andamento: parar pode gerar multas, deterioração, custos adicionais e passivos.

Exemplo prático de “espaço fiscal” reduzido

Imagine um órgão com R$ 100 milhões de despesa total autorizada. Se R$ 70 milhões já são obrigatórios (pessoal, encargos, dívida e contratos essenciais), sobram R$ 30 milhões para escolhas mais livres. Se ocorre frustração de receita, o ajuste tende a recair sobre esses R$ 30 milhões (discricionários), afetando manutenção e investimentos.

BlocoExemploGrau de flexibilidade no curto prazoImpacto típico em cortes
ObrigatóriasPessoal, aposentadorias, jurosBaixoRaramente cortadas; pressionam o restante
DiscricionáriasCusteio administrativo, investimentos novosMédio/altoPrimeiras a sofrer contingenciamento/redução
Discricionárias “na teoria”, rígidas “na prática”Obra com contrato assinadoMédio/baixoCorte gera passivos, paralisação e custo futuro

Quadro comparativo para fixação (enquadramento de despesas comuns)

Despesa comumCategoria econômicaGND (macro)Elemento (objeto típico)Obrigatória ou discricionária (tendência)
Salário de servidorCorrentePessoalVencimentos e vantagensObrigatória
Encargos do empregador (previdência)CorrentePessoalObrigações patronaisObrigatória
Conta de energia de hospitalCorrenteOutras despesas correntes (custeio)Serviços (utilidades)Discricionária (essencial, mas ajustável)
Contrato de vigilânciaCorrenteOutras despesas correntes (custeio)Serviços de terceirosDiscricionária (pode ser redimensionada)
Compra de medicamentos para consumoCorrenteOutras despesas correntes (custeio)Material de consumoMista (pode ser obrigatória por decisão/serviço essencial)
Compra de ambulânciaCapitalInvestimentosEquipamentos e material permanenteDiscricionária
Construção de escolaCapitalInvestimentosObras e instalaçõesDiscricionária (fica rígida após contratação)
Juros da dívidaCorrenteJuros e encargosJuros/encargosObrigatória
Amortização (principal) da dívidaCapitalAmortizaçãoAmortizaçãoObrigatória
Repasse para município construir uma crecheCapitalInvestimentos (transferência de capital)Transferência (capital)Discricionária

Checklist rápido para não errar o enquadramento

  • Juros ≠ amortização: juros são despesa corrente; amortização do principal é despesa de capital.
  • Consumo ≠ permanente: material de consumo (corrente) vs equipamento/material permanente (capital).
  • Serviço ≠ obra: manutenção/serviço (corrente) vs construção/reforma caracterizada como obra (capital).
  • Transferência muda a leitura: se o recurso sai do órgão para outro executar, a modalidade de aplicação evidencia isso.
  • Discricionária pode ficar rígida: após contrato/obra iniciada, cortar pode gerar passivo e custo maior.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Qual combinação descreve corretamente as classificações usadas para entender uma despesa no orçamento público?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A categoria econômica separa corrente x capital; o GND agrupa o tipo macro do gasto; a modalidade mostra se a execução é direta ou por transferência; e o elemento de despesa especifica o objeto pago (material, serviço, obra, permanente etc.).

Próximo capitúlo

Classificações no Orçamento Público: função, programa, ação e natureza da despesa

Arrow Right Icon
Capa do Ebook gratuito Orçamento Público para Iniciantes: PPA, LDO e LOA sem complicação
54%

Orçamento Público para Iniciantes: PPA, LDO e LOA sem complicação

Novo curso

13 páginas

Baixe o app para ganhar Certificação grátis e ouvir os cursos em background, mesmo com a tela desligada.