O que é desenho técnico aplicado a portões e grades
Desenho técnico, neste contexto, é a forma padronizada de transformar as medidas do local e as decisões de projeto em um documento que permita fabricar e instalar sem “interpretação”. Ele combina: vistas (frontal e lateral), cotas (medidas com folgas e referências), detalhes ampliados (pontos críticos) e uma lista de materiais/corte coerente com o desenho.
O objetivo é que qualquer pessoa da equipe consiga responder, apenas consultando o desenho: qual é a largura/altura final do conjunto, onde ficam travessas, qual o espaçamento das barras, onde entram dobradiças e fechadura, e quais peças cortar e comprar.
Transformando medidas do local em desenho cotado
1) Defina as dimensões finais do conjunto (o que vai para o desenho)
Comece separando três coisas que costumam se misturar: vão medido (no local), folgas (necessárias para funcionamento) e dimensão final fabricada (o que você vai construir).
- Largura final (LF): largura do(s) quadro(s) do portão/grade já considerando as folgas laterais e o encontro (quando houver duas folhas).
- Altura final (AF): altura do quadro considerando folga inferior/superior e eventuais guias/trilhos.
- Referência de cota: escolha um “zero” para não haver dúvida (ex.: face interna do pilar esquerdo; piso acabado).
Regra prática de desenho: no desenho, cota-se o que será fabricado (LF/AF e posições), e anota-se em notas técnicas as folgas adotadas e a referência usada.
2) Modele o quadro e posicione travessas
Desenhe primeiro o retângulo externo do quadro (montantes e travessas perimetrais). Em seguida, posicione as travessas internas (horizontais/diagonais) com cotas a partir de uma referência única.
- Ouça o áudio com a tela desligada
- Ganhe Certificado após a conclusão
- + de 5000 cursos para você explorar!
Baixar o aplicativo
- Travessa superior/inferior: normalmente já fazem parte do perímetro do quadro.
- Travessa intermediária: cota pela distância do piso acabado até o eixo da travessa, ou até a face (mas escolha um padrão e mantenha).
- Diagonais (se houver): indique com linha e anote o perfil e o sentido (ex.: “diagonal de travamento do canto inferior do lado da dobradiça para o canto superior do lado da fechadura”).
Boa prática: sempre que possível, cota posições por eixos (centro do perfil) para reduzir erro de “face interna/face externa”. Quando cotar por face, escreva explicitamente “FACE INT.” ou “FACE EXT.”.
3) Defina o espaçamento das barras (grades) sem ambiguidade
Para barras verticais/horizontais, o erro mais comum é não deixar claro se o espaçamento é vão livre (entre barras) ou passo (centro a centro). Escolha um e declare no desenho.
- Opção A — Vão livre (VL): anote “VL = X mm” e mostre uma cota entre faces internas de duas barras adjacentes.
- Opção B — Passo (P): anote “P = X mm (eixo a eixo)” e desenhe cotando entre eixos.
Depois, indique como tratar as extremidades: “distribuir igualmente” ou “manter barra de referência no lado da dobradiça e ajustar no lado oposto”. Isso evita que a última abertura fique diferente.
4) Localize dobradiças e fechadura no desenho
Mesmo que as ferragens já tenham sido escolhidas em outro momento, o desenho precisa mostrar posição e referência de furação/assentamento.
- Dobradiças: cota a posição vertical (ex.: do piso acabado ao eixo da dobradiça inferior e superior) e a posição horizontal (ex.: recuo do eixo em relação à face do pilar/coluna ou à face do quadro).
- Fechadura: cota a altura do eixo da maçaneta/cilindro a partir do piso acabado e a posição em relação à lateral do quadro. Se houver contra-testa/batente, indique a linha de encontro.
Nota útil: quando a posição depende do modelo da fechadura (distância do eixo ao canto do corpo), use uma anotação do tipo: “Altura do eixo = 1050 mm; recuo conforme gabarito do fabricante”.
Esquema de vistas: frontal, lateral e detalhes
Vista frontal (principal)
A vista frontal é a “planta” do que será visto de frente. Ela deve conter:
- Dimensões gerais: LF e AF.
- Perfis do quadro (indicar seção: ex.: tubo 40x30x1,5).
- Travessas e diagonais (com cotas de posição).
- Barras e seu padrão de espaçamento (VL ou P).
- Localização de dobradiças e fechadura (com cotas).
Vista lateral (espessuras, recuos e interferências)
A vista lateral evita surpresas de instalação: mostra espessura do quadro, recuos em relação ao pilar/coluna, e como o conjunto se comporta ao abrir/correr.
- Indique o sentido de abertura e o “volume” ocupado.
- Mostre o alinhamento do quadro com a face do pilar (face interna/externa).
- Se houver guia superior, represente a posição relativa ao quadro e à coluna.
Detalhes ampliados (pontos críticos)
Faça detalhes em escala maior (ex.: 1:2, 1:1) para pontos que geram dúvida. Três detalhes típicos:
Detalhe A — Batente / encontro de fechamento
- Mostre a seção do quadro e do batente.
- Indique a folga de fechamento e a posição do trinco/lingueta.
- Cote a posição do contra-fecho (altura e recuo).
Detalhe B — Encontro com coluna/pilar (lado das dobradiças)
- Mostre o eixo da dobradiça e o recuo em relação à face do pilar.
- Indique a folga lateral e a linha de referência (face do pilar).
- Se houver chapa de reforço, desenhe com espessura e dimensões.
Detalhe C — Guia superior (quando aplicável)
- Mostre a posição da guia em relação ao topo do quadro.
- Indique folga vertical e lateral para não “prender”.
- Cote a altura de fixação da guia a partir do piso acabado ou do topo do vão.
Dica de organização: identifique cada detalhe com um balão na vista principal (ex.: “DETALHE A”) e repita a letra no quadro do detalhe.
Lista de materiais (BOM) e lista de corte: como montar com perdas
Estrutura recomendada
Use duas tabelas separadas: Lista de Materiais (compra/estoque) e Lista de Corte (fabricação). Elas se conversam, mas não são iguais.
| Item | Descrição | Seção | Qtd | Compr. unit. (mm) | Compr. total (m) | Perda (%) | Total c/ perda (m) | Observações |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | Montante lateral | Tubo 40x30x1,5 | 2 | AF | (2×AF)/1000 | 3% | ... | Corte a 90° |
| 2 | Travessa superior | Tubo 40x30x1,5 | 1 | LF | LF/1000 | 3% | ... | Esquadria |
| 3 | Barras verticais | Barra chata 20x3 | N | (AF - descontos) | ... | 5% | ... | Distribuir igualmente |
Como calcular quantidades e comprimentos (passo a passo)
Passo 1 — Quebre o desenho em “peças”
Liste cada elemento fabricado separadamente: montantes, travessas, diagonais, chapas de reforço, barras, batentes. Se uma peça muda de comprimento, vira outro item.
Passo 2 — Defina a regra de comprimento de cada peça
Para cada item, escreva a fórmula de onde vem o comprimento. Exemplos típicos:
- Montantes:
L = AF(ouAF - desconto do encaixe, se houver). - Travessas internas:
L = LF - 2×(espessura do montante) - folgas internas(se a travessa entrar entre montantes). - Barras:
L = AF - (desconto superior) - (desconto inferior)conforme acabamento e travessas.
Se houver cortes em ângulo (45°/mitra), anote no item: “corte em mitra” e, se necessário, o comprimento “de ponta a ponta” ou “entre faces”.
Passo 3 — Estime perdas (realista e controlável)
Perdas variam com o tipo de material e com o plano de corte. Use um percentual como referência e ajuste conforme sua prática:
- Perfis longos (tubos): 2% a 5% (sobras e rebarbas).
- Barras repetitivas: 3% a 8% (ajustes de lote, pontas).
- Chapas: considerar aproveitamento por recorte; quando não houver plano de nesting, use 5% a 10%.
Importante: registre a perda na tabela. Isso permite comparar planejado vs. real e melhorar nos próximos projetos.
Passo 4 — Converta para compra (barras comerciais)
Transforme o “total com perda” em unidades comerciais (ex.: barras de 6 m). Exemplo: se o total com perda de um tubo 40x30 for 13,2 m, você compra 3 barras de 6 m (18 m) ou otimiza o plano de corte para reduzir sobra. Quando possível, faça um plano de corte simples por barra:
Barra 6.000 mm #1: 2.100 + 2.100 + 1.750 = 5.950 (sobra 50)Barra 6.000 mm #2: 2.100 + 1.750 + 1.750 = 5.600 (sobra 400)Padrões de anotação para evitar ambiguidades
Regras de cota e referência
- Unidade: declare no carimbo/nota: “Cotas em mm”.
- Referência: declare: “Referência horizontal: face interna do pilar esquerdo. Referência vertical: piso acabado”.
- Evite cotas em cadeia quando possível: prefira cotar a partir de uma mesma origem (reduz acúmulo de erro).
- Indique o que é folga: use notas do tipo “Folga lateral = X mm (cada lado)”.
Chamadas e símbolos úteis
- Eixo: use linha de centro e escreva “EIXO” quando a cota for por centro.
- Sentido de abertura: seta curva com texto “ABRE PARA DENTRO/ FORA” (conforme o caso).
- Identificação de peças: marque no desenho códigos (P1, P2, P3…) que correspondem à lista de corte.
- Soldas/reforços: quando necessário, use chamada “solda contínua”/“pontos” e posição de chapa de reforço (sem entrar em procedimento de soldagem).
Notas técnicas mínimas (um bloco no desenho)
- “Cotas em mm. Não escalar o desenho.”
- “Folgas conforme indicado. Conferir no local antes da fabricação final.”
- “Distribuição de barras: manter simetria; ajustar no lado do batente (se aplicável).”
Método de conferência cruzada: desenho × lista de corte × ferragens
1) Numeração única (a espinha dorsal do controle)
Atribua um código para cada peça do quadro e repita esse código:
- No desenho (com setas apontando para a peça).
- Na lista de corte (linha do item).
- No plano de corte (quando houver).
Exemplo de padrão: P01 e P02 para montantes, P10 para travessas, P20 para barras, CH01 para chapas.
2) Checklist de consistência dimensional (5 verificações rápidas)
- Fechamento de largura: a soma dos módulos internos + espessuras + folgas resulta em LF.
- Fechamento de altura: a soma de alturas úteis + descontos + folgas resulta em AF.
- Contagem de barras: o número N calculado bate com o desenho (e com a simetria nas extremidades).
- Posição de ferragens: alturas de dobradiças e fechadura aparecem em vista frontal e em pelo menos um detalhe quando crítico.
- Interferências na vista lateral: recuos e espessuras não colidem com coluna/guia/batente.
3) Conferência entre ferragens e estrutura (compatibilidade)
Sem repetir especificações de ferragens, o desenho deve garantir compatibilidade por checagens objetivas:
- Área de fixação: existe “carne” (largura de perfil/chapa) suficiente para parafusos/solda da dobradiça e do contra-fecho.
- Altura funcional: eixo da fechadura está em altura utilizável e não coincide com travessa interna.
- Espessura: a vista lateral confirma que a fechadura/guia não fica “para fora” onde não deve.
4) Amarração final: tabela de ferragens vinculada ao desenho
Inclua uma pequena tabela (ou bloco) com “Ferragens – posição no desenho”, sem reexplicar o componente:
| Ref. | Ferragem | Qtd | Posição (cota) | Observação |
|---|---|---|---|---|
| F1 | Dobradiça superior | 1 | Eixo a X mm do topo | Ver detalhe B |
| F2 | Dobradiça inferior | 1 | Eixo a Y mm do piso | Ver detalhe B |
| F3 | Fechadura | 1 | Eixo a 1050 mm do piso | Ver detalhe A |
Assim, se alguém alterar uma posição no desenho, sabe exatamente onde atualizar na tabela, e vice-versa.