Desenho técnico aplicado a portões e grades: cotas, esquemas e lista de materiais

Capítulo 6

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que é desenho técnico aplicado a portões e grades

Desenho técnico, neste contexto, é a forma padronizada de transformar as medidas do local e as decisões de projeto em um documento que permita fabricar e instalar sem “interpretação”. Ele combina: vistas (frontal e lateral), cotas (medidas com folgas e referências), detalhes ampliados (pontos críticos) e uma lista de materiais/corte coerente com o desenho.

O objetivo é que qualquer pessoa da equipe consiga responder, apenas consultando o desenho: qual é a largura/altura final do conjunto, onde ficam travessas, qual o espaçamento das barras, onde entram dobradiças e fechadura, e quais peças cortar e comprar.

Transformando medidas do local em desenho cotado

1) Defina as dimensões finais do conjunto (o que vai para o desenho)

Comece separando três coisas que costumam se misturar: vão medido (no local), folgas (necessárias para funcionamento) e dimensão final fabricada (o que você vai construir).

  • Largura final (LF): largura do(s) quadro(s) do portão/grade já considerando as folgas laterais e o encontro (quando houver duas folhas).
  • Altura final (AF): altura do quadro considerando folga inferior/superior e eventuais guias/trilhos.
  • Referência de cota: escolha um “zero” para não haver dúvida (ex.: face interna do pilar esquerdo; piso acabado).

Regra prática de desenho: no desenho, cota-se o que será fabricado (LF/AF e posições), e anota-se em notas técnicas as folgas adotadas e a referência usada.

2) Modele o quadro e posicione travessas

Desenhe primeiro o retângulo externo do quadro (montantes e travessas perimetrais). Em seguida, posicione as travessas internas (horizontais/diagonais) com cotas a partir de uma referência única.

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  • Travessa superior/inferior: normalmente já fazem parte do perímetro do quadro.
  • Travessa intermediária: cota pela distância do piso acabado até o eixo da travessa, ou até a face (mas escolha um padrão e mantenha).
  • Diagonais (se houver): indique com linha e anote o perfil e o sentido (ex.: “diagonal de travamento do canto inferior do lado da dobradiça para o canto superior do lado da fechadura”).

Boa prática: sempre que possível, cota posições por eixos (centro do perfil) para reduzir erro de “face interna/face externa”. Quando cotar por face, escreva explicitamente “FACE INT.” ou “FACE EXT.”.

3) Defina o espaçamento das barras (grades) sem ambiguidade

Para barras verticais/horizontais, o erro mais comum é não deixar claro se o espaçamento é vão livre (entre barras) ou passo (centro a centro). Escolha um e declare no desenho.

  • Opção A — Vão livre (VL): anote “VL = X mm” e mostre uma cota entre faces internas de duas barras adjacentes.
  • Opção B — Passo (P): anote “P = X mm (eixo a eixo)” e desenhe cotando entre eixos.

Depois, indique como tratar as extremidades: “distribuir igualmente” ou “manter barra de referência no lado da dobradiça e ajustar no lado oposto”. Isso evita que a última abertura fique diferente.

4) Localize dobradiças e fechadura no desenho

Mesmo que as ferragens já tenham sido escolhidas em outro momento, o desenho precisa mostrar posição e referência de furação/assentamento.

  • Dobradiças: cota a posição vertical (ex.: do piso acabado ao eixo da dobradiça inferior e superior) e a posição horizontal (ex.: recuo do eixo em relação à face do pilar/coluna ou à face do quadro).
  • Fechadura: cota a altura do eixo da maçaneta/cilindro a partir do piso acabado e a posição em relação à lateral do quadro. Se houver contra-testa/batente, indique a linha de encontro.

Nota útil: quando a posição depende do modelo da fechadura (distância do eixo ao canto do corpo), use uma anotação do tipo: “Altura do eixo = 1050 mm; recuo conforme gabarito do fabricante”.

Esquema de vistas: frontal, lateral e detalhes

Vista frontal (principal)

A vista frontal é a “planta” do que será visto de frente. Ela deve conter:

  • Dimensões gerais: LF e AF.
  • Perfis do quadro (indicar seção: ex.: tubo 40x30x1,5).
  • Travessas e diagonais (com cotas de posição).
  • Barras e seu padrão de espaçamento (VL ou P).
  • Localização de dobradiças e fechadura (com cotas).

Vista lateral (espessuras, recuos e interferências)

A vista lateral evita surpresas de instalação: mostra espessura do quadro, recuos em relação ao pilar/coluna, e como o conjunto se comporta ao abrir/correr.

  • Indique o sentido de abertura e o “volume” ocupado.
  • Mostre o alinhamento do quadro com a face do pilar (face interna/externa).
  • Se houver guia superior, represente a posição relativa ao quadro e à coluna.

Detalhes ampliados (pontos críticos)

Faça detalhes em escala maior (ex.: 1:2, 1:1) para pontos que geram dúvida. Três detalhes típicos:

Detalhe A — Batente / encontro de fechamento

  • Mostre a seção do quadro e do batente.
  • Indique a folga de fechamento e a posição do trinco/lingueta.
  • Cote a posição do contra-fecho (altura e recuo).

Detalhe B — Encontro com coluna/pilar (lado das dobradiças)

  • Mostre o eixo da dobradiça e o recuo em relação à face do pilar.
  • Indique a folga lateral e a linha de referência (face do pilar).
  • Se houver chapa de reforço, desenhe com espessura e dimensões.

Detalhe C — Guia superior (quando aplicável)

  • Mostre a posição da guia em relação ao topo do quadro.
  • Indique folga vertical e lateral para não “prender”.
  • Cote a altura de fixação da guia a partir do piso acabado ou do topo do vão.

Dica de organização: identifique cada detalhe com um balão na vista principal (ex.: “DETALHE A”) e repita a letra no quadro do detalhe.

Lista de materiais (BOM) e lista de corte: como montar com perdas

Estrutura recomendada

Use duas tabelas separadas: Lista de Materiais (compra/estoque) e Lista de Corte (fabricação). Elas se conversam, mas não são iguais.

ItemDescriçãoSeçãoQtdCompr. unit. (mm)Compr. total (m)Perda (%)Total c/ perda (m)Observações
1Montante lateralTubo 40x30x1,52AF(2×AF)/10003%...Corte a 90°
2Travessa superiorTubo 40x30x1,51LFLF/10003%...Esquadria
3Barras verticaisBarra chata 20x3N(AF - descontos)...5%...Distribuir igualmente

Como calcular quantidades e comprimentos (passo a passo)

Passo 1 — Quebre o desenho em “peças”

Liste cada elemento fabricado separadamente: montantes, travessas, diagonais, chapas de reforço, barras, batentes. Se uma peça muda de comprimento, vira outro item.

Passo 2 — Defina a regra de comprimento de cada peça

Para cada item, escreva a fórmula de onde vem o comprimento. Exemplos típicos:

  • Montantes: L = AF (ou AF - desconto do encaixe, se houver).
  • Travessas internas: L = LF - 2×(espessura do montante) - folgas internas (se a travessa entrar entre montantes).
  • Barras: L = AF - (desconto superior) - (desconto inferior) conforme acabamento e travessas.

Se houver cortes em ângulo (45°/mitra), anote no item: “corte em mitra” e, se necessário, o comprimento “de ponta a ponta” ou “entre faces”.

Passo 3 — Estime perdas (realista e controlável)

Perdas variam com o tipo de material e com o plano de corte. Use um percentual como referência e ajuste conforme sua prática:

  • Perfis longos (tubos): 2% a 5% (sobras e rebarbas).
  • Barras repetitivas: 3% a 8% (ajustes de lote, pontas).
  • Chapas: considerar aproveitamento por recorte; quando não houver plano de nesting, use 5% a 10%.

Importante: registre a perda na tabela. Isso permite comparar planejado vs. real e melhorar nos próximos projetos.

Passo 4 — Converta para compra (barras comerciais)

Transforme o “total com perda” em unidades comerciais (ex.: barras de 6 m). Exemplo: se o total com perda de um tubo 40x30 for 13,2 m, você compra 3 barras de 6 m (18 m) ou otimiza o plano de corte para reduzir sobra. Quando possível, faça um plano de corte simples por barra:

Barra 6.000 mm #1: 2.100 + 2.100 + 1.750 = 5.950 (sobra 50)Barra 6.000 mm #2: 2.100 + 1.750 + 1.750 = 5.600 (sobra 400)

Padrões de anotação para evitar ambiguidades

Regras de cota e referência

  • Unidade: declare no carimbo/nota: “Cotas em mm”.
  • Referência: declare: “Referência horizontal: face interna do pilar esquerdo. Referência vertical: piso acabado”.
  • Evite cotas em cadeia quando possível: prefira cotar a partir de uma mesma origem (reduz acúmulo de erro).
  • Indique o que é folga: use notas do tipo “Folga lateral = X mm (cada lado)”.

Chamadas e símbolos úteis

  • Eixo: use linha de centro e escreva “EIXO” quando a cota for por centro.
  • Sentido de abertura: seta curva com texto “ABRE PARA DENTRO/ FORA” (conforme o caso).
  • Identificação de peças: marque no desenho códigos (P1, P2, P3…) que correspondem à lista de corte.
  • Soldas/reforços: quando necessário, use chamada “solda contínua”/“pontos” e posição de chapa de reforço (sem entrar em procedimento de soldagem).

Notas técnicas mínimas (um bloco no desenho)

  • “Cotas em mm. Não escalar o desenho.”
  • “Folgas conforme indicado. Conferir no local antes da fabricação final.”
  • “Distribuição de barras: manter simetria; ajustar no lado do batente (se aplicável).”

Método de conferência cruzada: desenho × lista de corte × ferragens

1) Numeração única (a espinha dorsal do controle)

Atribua um código para cada peça do quadro e repita esse código:

  • No desenho (com setas apontando para a peça).
  • Na lista de corte (linha do item).
  • No plano de corte (quando houver).

Exemplo de padrão: P01 e P02 para montantes, P10 para travessas, P20 para barras, CH01 para chapas.

2) Checklist de consistência dimensional (5 verificações rápidas)

  • Fechamento de largura: a soma dos módulos internos + espessuras + folgas resulta em LF.
  • Fechamento de altura: a soma de alturas úteis + descontos + folgas resulta em AF.
  • Contagem de barras: o número N calculado bate com o desenho (e com a simetria nas extremidades).
  • Posição de ferragens: alturas de dobradiças e fechadura aparecem em vista frontal e em pelo menos um detalhe quando crítico.
  • Interferências na vista lateral: recuos e espessuras não colidem com coluna/guia/batente.

3) Conferência entre ferragens e estrutura (compatibilidade)

Sem repetir especificações de ferragens, o desenho deve garantir compatibilidade por checagens objetivas:

  • Área de fixação: existe “carne” (largura de perfil/chapa) suficiente para parafusos/solda da dobradiça e do contra-fecho.
  • Altura funcional: eixo da fechadura está em altura utilizável e não coincide com travessa interna.
  • Espessura: a vista lateral confirma que a fechadura/guia não fica “para fora” onde não deve.

4) Amarração final: tabela de ferragens vinculada ao desenho

Inclua uma pequena tabela (ou bloco) com “Ferragens – posição no desenho”, sem reexplicar o componente:

Ref.FerragemQtdPosição (cota)Observação
F1Dobradiça superior1Eixo a X mm do topoVer detalhe B
F2Dobradiça inferior1Eixo a Y mm do pisoVer detalhe B
F3Fechadura1Eixo a 1050 mm do pisoVer detalhe A

Assim, se alguém alterar uma posição no desenho, sabe exatamente onde atualizar na tabela, e vice-versa.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao definir o espaçamento das barras em uma grade no desenho técnico, qual prática evita ambiguidade e garante que a distribuição nas extremidades fique correta?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Para evitar interpretações, o desenho deve deixar explícito se o espaçamento é vão livre ou passo (eixo a eixo) e ainda indicar a regra de extremidade (distribuir igualmente ou manter uma barra de referência), evitando que a última abertura fique diferente.

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