Demonstrações Contábeis para Iniciantes: Estrutura da DRE (Receitas, Custos, Despesas e Lucro)

Capítulo 5

Tempo estimado de leitura: 7 minutos

+ Exercício

O que é a DRE e por que ela é “a demonstração do desempenho”

A Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) mostra como a empresa formou o seu resultado (lucro ou prejuízo) ao longo de um período (por exemplo, um mês, trimestre ou ano). Diferente de uma “foto” em uma data específica, a DRE funciona como um “filme” do período: começa pelas receitas geradas e vai subtraindo deduções, custos e despesas até chegar ao lucro líquido.

A lógica central é simples: resultado = receitas(deduções + custos + despesas + impostos), considerando também o efeito do resultado financeiro (juros, rendimentos, variações).

Sequência típica da DRE (do topo ao lucro líquido)

1) Receita Bruta de Vendas/Serviços

É o valor total faturado no período antes de qualquer abatimento. Exemplo: vendas de produtos, prestação de serviços, assinaturas, comissões.

2) Deduções da Receita Bruta

São reduções diretamente ligadas às vendas, como devoluções, abatimentos, descontos comerciais e impostos sobre vendas (dependendo do padrão adotado). O objetivo é chegar ao valor que realmente “fica” como receita após esses ajustes.

  • Devoluções/abatimentos: vendas canceladas ou ajustadas.
  • Descontos comerciais: descontos concedidos no ato da venda.
  • Impostos sobre vendas: tributos incidentes sobre a receita (quando apresentados como dedução).

3) Receita Líquida

É a receita após as deduções. Ela é uma base importante para calcular margens e comparar desempenho entre períodos.

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4) Custo dos Produtos Vendidos (CPV) / Custo dos Serviços Prestados (CSP)

São os gastos diretamente ligados à produção/entrega do que foi vendido. Em geral, incluem matéria-prima, mão de obra direta, custos de fabricação, ou custos diretamente atribuíveis ao serviço.

Regra prática: se o gasto “vai junto” com o produto/serviço vendido, tende a ser custo. Se é para manter a operação funcionando (administração, vendas), tende a ser despesa.

5) Lucro Bruto

É o resultado após subtrair os custos diretos da receita líquida. Ele indica o “fôlego” da atividade principal antes das despesas operacionais.

Fórmula: Lucro Bruto = Receita Líquida − CPV/CSP

6) Despesas Operacionais

São despesas necessárias para vender, administrar e operar o negócio, mas que não são custos diretos do produto/serviço. Normalmente aparecem agrupadas como:

  • Despesas com Vendas: marketing, comissões, fretes de entrega (dependendo da política), equipe comercial.
  • Despesas Gerais e Administrativas: salários administrativos, aluguel do escritório, contabilidade, TI, despesas de escritório.
  • Outras receitas/despesas operacionais: itens operacionais não recorrentes ou não classificados nos grupos anteriores (varia conforme a empresa).

7) Resultado Operacional (ou EBIT, em alguns modelos)

É o resultado das operações principais antes do efeito financeiro e dos impostos. Ajuda a entender se o negócio “se paga” operacionalmente.

Fórmula simplificada: Resultado Operacional = Lucro Bruto − Despesas Operacionais

8) Resultado Financeiro

Mostra o efeito de receitas e despesas financeiras, como:

  • Despesas financeiras: juros de empréstimos, tarifas bancárias, descontos financeiros.
  • Receitas financeiras: rendimentos de aplicações, juros recebidos.

Se as despesas financeiras forem maiores que as receitas financeiras, o resultado financeiro será negativo e reduzirá o lucro.

9) Impostos sobre o lucro

São tributos calculados sobre o resultado (lucro) do período, quando aplicável. Em uma DRE didática, você verá uma linha como “Imposto de Renda e Contribuição Social” ou “Impostos sobre o lucro”.

10) Lucro Líquido do Período

É o “resultado final” após todos os itens acima. É o número que costuma ser mais citado, mas é importante entender como ele foi formado (principalmente se veio de operação forte ou de efeitos financeiros/itens não recorrentes).

Modelo de DRE simplificada (valores fictícios)

Exemplo: Empresa Alfa (período: 1 mês). Valores em R$.

ContaValor (R$)
Receita Bruta200.000
(-) Deduções da Receita (impostos s/ vendas, devoluções, descontos)(20.000)
Receita Líquida180.000
(-) CPV/CSP(110.000)
Lucro Bruto70.000
(-) Despesas com Vendas(18.000)
(-) Despesas Gerais e Administrativas(22.000)
Resultado Operacional30.000
(-) Despesas Financeiras(6.000)
(+) Receitas Financeiras1.000
Resultado Antes dos Impostos25.000
(-) Impostos sobre o lucro(7.500)
Lucro Líquido17.500

Como ler a DRE linha a linha (passo a passo prático)

Passo 1: Comece pela Receita Bruta e valide o “tamanho” do período

Pergunte: esse valor parece compatível com o porte da empresa e com o período analisado? Comparar com o mês anterior ou com o mesmo mês do ano anterior ajuda a perceber sazonalidade.

Passo 2: Entenda as Deduções e chegue à Receita Líquida

No exemplo, a empresa faturou R$ 200.000, mas teve R$ 20.000 de deduções. Então:

Receita Líquida = 200.000 − 20.000 = 180.000

Leitura gerencial: deduções altas podem indicar carga tributária relevante, política agressiva de descontos ou problemas de devolução/qualidade.

Passo 3: Avalie o CPV/CSP e calcule o Lucro Bruto

O CPV/CSP é R$ 110.000. Então:

Lucro Bruto = 180.000 − 110.000 = 70.000

Interpretação: se o custo sobe mais rápido que a receita, a margem bruta tende a cair (sinal de pressão de preços, ineficiência, aumento de insumos ou mix de produtos menos rentável).

Passo 4: Calcule e interprete a Margem Bruta

A margem bruta mostra quanto sobra da receita líquida após pagar os custos diretos.

Margem Bruta = Lucro Bruto / Receita Líquida = 70.000 / 180.000 = 38,9%

Como usar: compare a margem bruta entre períodos e com empresas semelhantes. Quedas podem exigir revisão de preço, negociação com fornecedores ou melhoria de processos.

Passo 5: Subtraia as Despesas Operacionais e encontre o Resultado Operacional

Despesas com vendas (R$ 18.000) + administrativas (R$ 22.000) = R$ 40.000.

Resultado Operacional = 70.000 − 40.000 = 30.000

Leitura gerencial: aqui você enxerga se a operação é saudável antes de juros e impostos. Se o resultado operacional for baixo, a empresa pode até vender bem, mas gastar demais para manter a operação.

Passo 6: Analise o Resultado Financeiro (juros e rendimentos)

No exemplo: despesas financeiras de R$ 6.000 e receitas financeiras de R$ 1.000.

Resultado Financeiro = 1.000 − 6.000 = −5.000

Interpretação: resultado financeiro negativo pode sinalizar endividamento caro, uso intenso de capital de terceiros ou baixa eficiência de caixa/aplicações.

Passo 7: Chegue ao Resultado Antes dos Impostos

Resultado Antes dos Impostos = 30.000 + (−5.000) = 25.000

Leitura gerencial: se o operacional é bom, mas o financeiro “consome” o lucro, o problema pode estar na estrutura de capital (juros, prazos, renegociação).

Passo 8: Subtraia os impostos sobre o lucro e encontre o Lucro Líquido

Lucro Líquido = 25.000 − 7.500 = 17.500

Interpretação: o lucro líquido é o resultado final do período, mas é mais útil quando analisado junto das margens e da composição (operação vs. financeiro).

Margens essenciais para interpretar a lógica de formação do resultado

Margem Bruta

Mostra a eficiência da atividade principal antes das despesas operacionais.

Margem Bruta = Lucro Bruto / Receita Líquida

No exemplo: 38,9%.

Margem Líquida

Mostra quanto do que a empresa vendeu (receita líquida) virou lucro ao final de tudo.

Margem Líquida = Lucro Líquido / Receita Líquida = 17.500 / 180.000 = 9,7%

Como interpretar: uma margem líquida pode ser baixa mesmo com boa margem bruta se as despesas operacionais forem altas ou se o resultado financeiro for muito negativo.

Dicas práticas para não se perder ao ler uma DRE

  • Compare sempre com a Receita Líquida: transforme linhas em percentuais (ex.: despesas com vendas como % da receita líquida) para enxergar “peso” e tendência.
  • Separe custo de despesa: custo está ligado diretamente ao que foi vendido; despesa está ligada à estrutura e à comercialização/gestão.
  • Olhe a ponte do lucro: Receita Líquida → Lucro Bruto → Resultado Operacional → Resultado Antes dos Impostos → Lucro Líquido. Se o lucro “some”, descubra em qual etapa.
  • Desconfie de saltos: aumentos bruscos em deduções, CPV/CSP ou despesas financeiras costumam ter uma causa operacional (preço, volume, mix, juros, prazos, renegociação).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao analisar a DRE, qual combinação de fatores pode explicar uma margem líquida baixa mesmo quando a margem bruta é boa?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A margem líquida considera todo o caminho até o lucro final. Mesmo com boa margem bruta, despesas operacionais altas e/ou resultado financeiro negativo podem consumir o resultado, reduzindo o lucro líquido.

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