Do lucro ao Patrimônio Líquido: a “ponte” entre DRE e Balanço
Quando você lê a DRE, você está vendo o desempenho do período (se a empresa gerou lucro ou prejuízo). Quando você lê o Balanço, você está vendo a posição financeira em uma data (o que a empresa tem, deve e quanto pertence aos sócios). O ponto de conexão entre os dois é direto: o lucro (ou prejuízo) do período altera o Patrimônio Líquido.
Em termos práticos, pense assim: a DRE “explica” por que o Patrimônio Líquido mudou, mas o Balanço “mostra” onde esse resultado ficou alocado (em caixa, em contas a receber, em estoques, ou financiado por fornecedores e empréstimos).
Como o lucro entra no Patrimônio Líquido
Ao final do período, o resultado apurado na DRE é transferido para o Patrimônio Líquido (normalmente para uma conta como Lucros/Prejuízos Acumulados ou Reservas, dependendo da estrutura). A lógica é:
- Lucro aumenta o Patrimônio Líquido.
- Prejuízo reduz o Patrimônio Líquido.
Uma forma simples de visualizar (sem entrar em lançamentos contábeis detalhados) é:
Patrimônio Líquido final = Patrimônio Líquido inicial + Lucro do período - Distribuições aos sócios + Aportes de capitalOu seja: se houve lucro, mas o Patrimônio Líquido não aumentou na mesma proporção, procure por distribuições (dividendos/retiradas) ou outros movimentos de capital.
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Por que “lucro” não significa “mais caixa”: contas do Balanço que explicam as diferenças
É comum uma empresa apresentar lucro na DRE e, ainda assim, ter piora de liquidez (menos caixa e mais aperto no curto prazo). Isso acontece porque a DRE mede desempenho por competência, enquanto a liquidez depende de como as contas do Balanço se movimentaram.
Quatro grupos de contas do Balanço costumam explicar a diferença entre “lucro” e “fôlego financeiro”:
1) Contas a Receber (Clientes)
- Se a empresa vendeu (reconheceu receita na DRE), mas ainda não recebeu, o lucro pode subir enquanto o caixa não acompanha.
- No Balanço, isso aparece como aumento de Contas a Receber.
2) Estoques
- Se a empresa comprou/produziu mais do que vendeu, pode consumir caixa e aumentar estoques.
- Na DRE, parte do gasto pode não aparecer como custo do período (fica “guardado” no estoque até a venda).
- No Balanço, isso aparece como aumento de Estoques.
3) Fornecedores (Contas a Pagar operacionais)
- Se a empresa está financiando a operação com prazo maior de pagamento, pode preservar caixa no curto prazo.
- No Balanço, isso aparece como aumento de Fornecedores (o que pode ser bom para caixa, mas também pode indicar pressão de pagamento futuro).
4) Empréstimos e Financiamentos
- Tomar empréstimo aumenta caixa (ou evita queda), mas não melhora o lucro por si só; já os juros afetam a DRE.
- Amortizações (pagamento de principal) reduzem caixa, mas não passam pela DRE como despesa (a despesa é o juro, não o principal).
- No Balanço, isso aparece como mudança em Empréstimos (curto e longo prazo).
Roteiro de leitura integrado: da DRE para o Balanço (checagem de coerência)
Use este roteiro sempre que quiser entender “para onde foi o lucro” e se o desempenho faz sentido com a posição financeira.
Passo 1 — Comece na DRE: identifique o lucro e os principais motores
- Anote o Lucro Líquido do período.
- Observe se o lucro veio de margem (custos/despesas sob controle) ou de volume (receita crescendo).
- Marque itens que costumam ter efeito de caixa diferente do reconhecimento contábil (por exemplo, vendas a prazo, despesas financeiras, impostos a pagar).
Passo 2 — Vá ao Patrimônio Líquido: o lucro apareceu lá?
- Compare o Patrimônio Líquido no início e no fim do período.
- Verifique se houve distribuições (reduzem PL) ou aportes (aumentam PL).
- Checagem rápida: se não houve aportes nem distribuições relevantes, o PL tende a aumentar aproximadamente pelo lucro.
Passo 3 — Localize no Ativo onde o resultado “virou” recursos (ou travou liquidez)
- Caixa: aumentou ou diminuiu?
- Contas a Receber: cresceu? Isso pode explicar lucro sem caixa.
- Estoques: cresceram? Pode indicar capital preso em mercadoria/produção.
Passo 4 — Localize no Passivo como a empresa financiou a operação
- Fornecedores: aumentaram? A empresa pode estar “ganhando prazo” para pagar.
- Empréstimos: aumentaram? Pode ter entrado caixa via dívida; se diminuíram, pode ter saído caixa para amortização.
Passo 5 — Faça uma checagem de coerência com perguntas objetivas
| Pergunta | Onde olhar | O que costuma significar |
|---|---|---|
| Teve lucro, mas o caixa caiu? | Caixa vs. Clientes/Estoques | Recebeu menos do que vendeu (Clientes ↑) e/ou comprou/produziu demais (Estoques ↑) |
| O lucro cresceu, mas a dívida também? | Empréstimos | Parte do “fôlego” veio de financiamento; atenção a juros futuros |
| O caixa não caiu tanto porque “segurou” pagamentos? | Fornecedores | Prazo maior ajuda no curto prazo, mas pode virar pressão de liquidez depois |
| PL não subiu apesar do lucro | PL e notas/contas de distribuição | Distribuições/retiradas consumiram o resultado |
Caso guiado: lucro no período, mas piora de liquidez
A seguir, um exemplo didático (valores simplificados) para você enxergar a conexão DRE → Balanço e entender por que lucro não garante liquidez.
1) DRE do ano (resumo)
| DRE (Ano) | R$ |
|---|---|
| Receita | 1.000 |
| (-) Custos e despesas (exceto juros) | (900) |
| Resultado operacional | 100 |
| (-) Despesa financeira (juros) | (20) |
| Lucro líquido | 80 |
A empresa teve lucro de R$ 80. Agora vamos ver se isso virou caixa.
2) Balanço (apenas contas relevantes) — início vs. fim do ano
| Conta | Início | Fim | Variação |
|---|---|---|---|
| Caixa | 120 | 40 | -80 |
| Contas a Receber (Clientes) | 100 | 220 | +120 |
| Estoques | 150 | 230 | +80 |
| Fornecedores | 130 | 170 | +40 |
| Empréstimos | 200 | 220 | +20 |
| Patrimônio Líquido | 40 | 120 | +80 |
Repare em duas coisas ao mesmo tempo:
- O Patrimônio Líquido aumentou R$ 80, exatamente o lucro do período (assumindo que não houve distribuição nem aporte). Isso confirma a ponte DRE → PL.
- O Caixa caiu R$ 80. Ou seja: teve lucro, mas a liquidez piorou.
3) Onde “sumiu” o caixa? Leitura guiada das variações
Agora conecte as variações do Balanço com a história operacional:
- Clientes +120: a empresa vendeu bastante a prazo. A receita entrou na DRE, mas o dinheiro ainda não entrou no caixa. Isso consome liquidez.
- Estoques +80: a empresa comprou/produziu mais, imobilizando recursos em mercadorias/insumos. Parte disso ainda não virou custo na DRE (porque não foi vendido), mas já pressionou caixa.
- Fornecedores +40: ajudou a segurar caixa no curto prazo (a empresa postergou pagamentos). É um “alívio” temporário.
- Empréstimos +20: entrou algum financiamento adicional, também ajudando o caixa (ou reduzindo a queda). Porém, isso aumenta obrigações futuras e pode elevar juros depois.
Um jeito prático de checar a coerência do caso é montar uma “ponte” simplificada de caixa a partir das variações de capital de giro (sem formalizar uma DFC completa):
Lucro líquido: +80 (indicador de desempenho, não é caixa por si só) Ajustes de capital de giro (efeito no caixa): - Aumento em Clientes: -120 - Aumento em Estoques: -80 + Aumento em Fornecedores: +40 Efeito líquido do capital de giro: -160 Financiamento (simplificado): + Aumento em Empréstimos: +20 Resultado aproximado no caixa: +80 -160 +20 = -60 (diferenças podem existir por outras contas não mostradas)Mesmo com lucro, o capital ficou preso em Clientes e Estoques. O aumento em Fornecedores e Empréstimos compensou apenas parcialmente. Por isso, o caixa caiu e a liquidez piorou.
4) Checklist prático para você aplicar em qualquer empresa (lucro com liquidez pior)
- O lucro aumentou o PL? Se não, houve distribuição/retirada ou outro movimento de capital.
- Clientes subiu mais rápido que a receita? Pode haver alongamento de prazo, inadimplência ou política comercial agressiva.
- Estoques subiram sem crescimento proporcional de vendas? Pode haver compra excessiva, baixa rotação ou acúmulo de produtos.
- Fornecedores subiram porque a empresa negociou melhor ou porque está atrasando pagamentos?
- Empréstimos subiram para financiar giro? Observe se a despesa financeira tende a crescer nos próximos períodos.