Demonstrações Contábeis para Iniciantes: Conexão entre Balanço e DRE (do lucro ao patrimônio)

Capítulo 8

Tempo estimado de leitura: 7 minutos

+ Exercício

Do lucro ao Patrimônio Líquido: a “ponte” entre DRE e Balanço

Quando você lê a DRE, você está vendo o desempenho do período (se a empresa gerou lucro ou prejuízo). Quando você lê o Balanço, você está vendo a posição financeira em uma data (o que a empresa tem, deve e quanto pertence aos sócios). O ponto de conexão entre os dois é direto: o lucro (ou prejuízo) do período altera o Patrimônio Líquido.

Em termos práticos, pense assim: a DRE “explica” por que o Patrimônio Líquido mudou, mas o Balanço “mostra” onde esse resultado ficou alocado (em caixa, em contas a receber, em estoques, ou financiado por fornecedores e empréstimos).

Como o lucro entra no Patrimônio Líquido

Ao final do período, o resultado apurado na DRE é transferido para o Patrimônio Líquido (normalmente para uma conta como Lucros/Prejuízos Acumulados ou Reservas, dependendo da estrutura). A lógica é:

  • Lucro aumenta o Patrimônio Líquido.
  • Prejuízo reduz o Patrimônio Líquido.

Uma forma simples de visualizar (sem entrar em lançamentos contábeis detalhados) é:

Patrimônio Líquido final = Patrimônio Líquido inicial + Lucro do período - Distribuições aos sócios + Aportes de capital

Ou seja: se houve lucro, mas o Patrimônio Líquido não aumentou na mesma proporção, procure por distribuições (dividendos/retiradas) ou outros movimentos de capital.

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Por que “lucro” não significa “mais caixa”: contas do Balanço que explicam as diferenças

É comum uma empresa apresentar lucro na DRE e, ainda assim, ter piora de liquidez (menos caixa e mais aperto no curto prazo). Isso acontece porque a DRE mede desempenho por competência, enquanto a liquidez depende de como as contas do Balanço se movimentaram.

Quatro grupos de contas do Balanço costumam explicar a diferença entre “lucro” e “fôlego financeiro”:

1) Contas a Receber (Clientes)

  • Se a empresa vendeu (reconheceu receita na DRE), mas ainda não recebeu, o lucro pode subir enquanto o caixa não acompanha.
  • No Balanço, isso aparece como aumento de Contas a Receber.

2) Estoques

  • Se a empresa comprou/produziu mais do que vendeu, pode consumir caixa e aumentar estoques.
  • Na DRE, parte do gasto pode não aparecer como custo do período (fica “guardado” no estoque até a venda).
  • No Balanço, isso aparece como aumento de Estoques.

3) Fornecedores (Contas a Pagar operacionais)

  • Se a empresa está financiando a operação com prazo maior de pagamento, pode preservar caixa no curto prazo.
  • No Balanço, isso aparece como aumento de Fornecedores (o que pode ser bom para caixa, mas também pode indicar pressão de pagamento futuro).

4) Empréstimos e Financiamentos

  • Tomar empréstimo aumenta caixa (ou evita queda), mas não melhora o lucro por si só; já os juros afetam a DRE.
  • Amortizações (pagamento de principal) reduzem caixa, mas não passam pela DRE como despesa (a despesa é o juro, não o principal).
  • No Balanço, isso aparece como mudança em Empréstimos (curto e longo prazo).

Roteiro de leitura integrado: da DRE para o Balanço (checagem de coerência)

Use este roteiro sempre que quiser entender “para onde foi o lucro” e se o desempenho faz sentido com a posição financeira.

Passo 1 — Comece na DRE: identifique o lucro e os principais motores

  • Anote o Lucro Líquido do período.
  • Observe se o lucro veio de margem (custos/despesas sob controle) ou de volume (receita crescendo).
  • Marque itens que costumam ter efeito de caixa diferente do reconhecimento contábil (por exemplo, vendas a prazo, despesas financeiras, impostos a pagar).

Passo 2 — Vá ao Patrimônio Líquido: o lucro apareceu lá?

  • Compare o Patrimônio Líquido no início e no fim do período.
  • Verifique se houve distribuições (reduzem PL) ou aportes (aumentam PL).
  • Checagem rápida: se não houve aportes nem distribuições relevantes, o PL tende a aumentar aproximadamente pelo lucro.

Passo 3 — Localize no Ativo onde o resultado “virou” recursos (ou travou liquidez)

  • Caixa: aumentou ou diminuiu?
  • Contas a Receber: cresceu? Isso pode explicar lucro sem caixa.
  • Estoques: cresceram? Pode indicar capital preso em mercadoria/produção.

Passo 4 — Localize no Passivo como a empresa financiou a operação

  • Fornecedores: aumentaram? A empresa pode estar “ganhando prazo” para pagar.
  • Empréstimos: aumentaram? Pode ter entrado caixa via dívida; se diminuíram, pode ter saído caixa para amortização.

Passo 5 — Faça uma checagem de coerência com perguntas objetivas

PerguntaOnde olharO que costuma significar
Teve lucro, mas o caixa caiu?Caixa vs. Clientes/EstoquesRecebeu menos do que vendeu (Clientes ↑) e/ou comprou/produziu demais (Estoques ↑)
O lucro cresceu, mas a dívida também?EmpréstimosParte do “fôlego” veio de financiamento; atenção a juros futuros
O caixa não caiu tanto porque “segurou” pagamentos?FornecedoresPrazo maior ajuda no curto prazo, mas pode virar pressão de liquidez depois
PL não subiu apesar do lucroPL e notas/contas de distribuiçãoDistribuições/retiradas consumiram o resultado

Caso guiado: lucro no período, mas piora de liquidez

A seguir, um exemplo didático (valores simplificados) para você enxergar a conexão DRE → Balanço e entender por que lucro não garante liquidez.

1) DRE do ano (resumo)

DRE (Ano)R$
Receita1.000
(-) Custos e despesas (exceto juros)(900)
Resultado operacional100
(-) Despesa financeira (juros)(20)
Lucro líquido80

A empresa teve lucro de R$ 80. Agora vamos ver se isso virou caixa.

2) Balanço (apenas contas relevantes) — início vs. fim do ano

ContaInícioFimVariação
Caixa12040-80
Contas a Receber (Clientes)100220+120
Estoques150230+80
Fornecedores130170+40
Empréstimos200220+20
Patrimônio Líquido40120+80

Repare em duas coisas ao mesmo tempo:

  • O Patrimônio Líquido aumentou R$ 80, exatamente o lucro do período (assumindo que não houve distribuição nem aporte). Isso confirma a ponte DRE → PL.
  • O Caixa caiu R$ 80. Ou seja: teve lucro, mas a liquidez piorou.

3) Onde “sumiu” o caixa? Leitura guiada das variações

Agora conecte as variações do Balanço com a história operacional:

  • Clientes +120: a empresa vendeu bastante a prazo. A receita entrou na DRE, mas o dinheiro ainda não entrou no caixa. Isso consome liquidez.
  • Estoques +80: a empresa comprou/produziu mais, imobilizando recursos em mercadorias/insumos. Parte disso ainda não virou custo na DRE (porque não foi vendido), mas já pressionou caixa.
  • Fornecedores +40: ajudou a segurar caixa no curto prazo (a empresa postergou pagamentos). É um “alívio” temporário.
  • Empréstimos +20: entrou algum financiamento adicional, também ajudando o caixa (ou reduzindo a queda). Porém, isso aumenta obrigações futuras e pode elevar juros depois.

Um jeito prático de checar a coerência do caso é montar uma “ponte” simplificada de caixa a partir das variações de capital de giro (sem formalizar uma DFC completa):

Lucro líquido: +80  (indicador de desempenho, não é caixa por si só)  Ajustes de capital de giro (efeito no caixa):   - Aumento em Clientes: -120   - Aumento em Estoques: -80   + Aumento em Fornecedores: +40  Efeito líquido do capital de giro: -160  Financiamento (simplificado):   + Aumento em Empréstimos: +20  Resultado aproximado no caixa:  +80 -160 +20 = -60  (diferenças podem existir por outras contas não mostradas)

Mesmo com lucro, o capital ficou preso em Clientes e Estoques. O aumento em Fornecedores e Empréstimos compensou apenas parcialmente. Por isso, o caixa caiu e a liquidez piorou.

4) Checklist prático para você aplicar em qualquer empresa (lucro com liquidez pior)

  • O lucro aumentou o PL? Se não, houve distribuição/retirada ou outro movimento de capital.
  • Clientes subiu mais rápido que a receita? Pode haver alongamento de prazo, inadimplência ou política comercial agressiva.
  • Estoques subiram sem crescimento proporcional de vendas? Pode haver compra excessiva, baixa rotação ou acúmulo de produtos.
  • Fornecedores subiram porque a empresa negociou melhor ou porque está atrasando pagamentos?
  • Empréstimos subiram para financiar giro? Observe se a despesa financeira tende a crescer nos próximos períodos.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Uma empresa apresentou lucro no período, mas o caixa diminuiu. Qual explicação é mais coerente ao integrar a leitura da DRE com o Balanço?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A DRE mostra desempenho por competência, enquanto o caixa depende das variações do Balanço. Mesmo com lucro (que aumenta o PL), aumentos em Clientes e Estoques podem “prender” recursos e reduzir o caixa; Fornecedores e Empréstimos podem apenas compensar parcialmente.

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