A atividade investigativa da Polícia Federal deve ser conduzida sob um eixo permanente: a proteção da dignidade humana como parâmetro de legalidade, eficiência e legitimidade. Direitos humanos, aqui, não são um “tema paralelo” à investigação; são critérios operacionais que orientam decisões concretas (abordagem, condução, custódia, entrevista, uso da força, documentação e comunicação com o Judiciário e órgãos de controle). A violação de direitos, além de produzir sofrimento e injustiça, costuma gerar efeitos processuais relevantes (contaminação probatória, nulidades, perda de credibilidade de testemunhos, fragilização de acordos e cooperação) e riscos institucionais (responsabilização individual e internacional, desgaste reputacional e perda de confiança social).
1. Normas de direitos humanos aplicáveis como parâmetros operacionais
Na prática policial, normas de direitos humanos funcionam como “checklists de conformidade” para decisões de campo e de gabinete. Entre os referenciais mais recorrentes estão: proibição absoluta de tortura e de tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes; garantias mínimas de pessoas presas (integridade, informação, comunicação, assistência); proteção reforçada a grupos em situação de vulnerabilidade; e regras sobre uso da força baseadas em legalidade, necessidade, proporcionalidade e prestação de contas.
Para o Delegado, o ponto central é transformar esses parâmetros em rotinas: (i) planejamento de diligências com avaliação de risco e mitigação de danos; (ii) condução de atos com linguagem respeitosa e controle emocional; (iii) documentação completa e verificável; (iv) supervisão de equipes e correção imediata de desvios; (v) preservação de integridade física e psíquica de custodiados, vítimas e testemunhas.
2. Prevenção de violações: cultura de legalidade e documentação
2.1. Prevenção como técnica de investigação
Prevenir violações é também proteger a prova e a investigação. Uma diligência tecnicamente correta, com registro adequado, reduz alegações de abuso e aumenta a confiabilidade do material colhido. A prevenção envolve: instruções claras antes da operação, definição de papéis, limites de atuação, canais de reporte e mecanismos de revisão (debriefing).
2.2. Documentação como garantia (para o custodiado e para a equipe)
Documentar não é burocracia: é mecanismo de transparência e controle. Registros completos permitem reconstruir a cronologia, justificar decisões (por que algemar, por que usar força, por que conduzir, por que interromper uma oitiva) e demonstrar cuidado com integridade e garantias.
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- Registre horário, local, agentes envolvidos, testemunhas presenciais, condições do ambiente e do custodiado.
- Descreva a conduta observada que motivou a intervenção (evite adjetivos genéricos; use fatos).
- Indique medidas de mitigação (ex.: chamada de atendimento médico, oferta de água, pausa, presença de responsável legal).
- Preserve evidências audiovisuais quando disponíveis e lícitas (câmeras corporais/ambiente, gravação de oitiva quando autorizada e adequada).
3. Proteção contra tortura e tratamentos degradantes
3.1. Conceito operacional
Tortura e maus-tratos, além de proibidos de forma absoluta, costumam ocorrer em “zonas cinzentas” do cotidiano: pressão psicológica, privação de sono, humilhação, ameaças, exposição indevida, uso de algemas como punição, condições degradantes de custódia, ou entrevistas prolongadas sem pausas. O Delegado deve tratar a proibição como regra sem exceções, inclusive em crimes graves ou de grande repercussão.
3.2. Sinais de alerta e resposta imediata
- Lesões visíveis, queixas de dor, medo intenso, inconsistências entre relato e sinais físicos.
- Relatos de ameaça, coerção, insultos, privação de necessidades básicas.
- Custodiado em estado de confusão, sonolência extrema, intoxicação ou crise emocional.
Diante de sinais de tortura/maus-tratos, a resposta deve ser imediata: cessar o risco, acionar atendimento médico, registrar formalmente, preservar vestígios (inclusive fotográficos, quando cabível e respeitosa a intimidade), comunicar superiores e órgãos competentes, e reavaliar a validade e a voluntariedade de declarações já colhidas.
3.3. Passo a passo prático: protocolo mínimo anti-tortura em custódia
- Triagem inicial: verifique condições físicas e psíquicas, uso de medicamentos, sinais de intoxicação e necessidade de atendimento.
- Registro de integridade: descreva estado geral, eventuais lesões preexistentes e queixas; identifique quem realizou a avaliação e quando.
- Condições de custódia: assegure acesso a água, alimentação, banheiro e repouso; evite exposição vexatória.
- Entrevista/oitiva: só realize se houver condições de voluntariedade e compreensão; faça pausas; interrompa se houver sofrimento relevante.
- Comunicação e controle: registre e comunique qualquer incidente; determine apuração quando houver indício de abuso.
4. Garantias de pessoas presas e conduções: dignidade, informação e integridade
4.1. Garantias essenciais na prática
Na rotina investigativa, garantias se materializam em condutas: informar motivo da prisão/condução, preservar integridade, permitir comunicação com família/defesa quando cabível, evitar exposição pública desnecessária, e assegurar condições adequadas durante deslocamentos e permanência em unidades.
4.2. Passo a passo prático: checklist de custódia e condução
- Antes do deslocamento: identifique o custodiado, verifique risco de fuga/autoagressão, avalie necessidade de algemas com base em comportamento e risco concreto.
- Durante o deslocamento: mantenha supervisão, evite comentários depreciativos, registre intercorrências (mal-estar, agressividade, pedidos).
- Na chegada: registre horário, condições, eventuais objetos apreendidos e providências de saúde.
- Comunicações: formalize comunicações necessárias e registre tentativas e resultados (contato com familiar/defesa, quando aplicável).
- Ambiente: evite permanência prolongada em condições inadequadas; priorize encaminhamentos e atos essenciais.
5. Uso legítimo da força: necessidade, proporcionalidade e prestação de contas
5.1. Conceito operacional
O uso da força deve ser sempre o último recurso suficiente para atingir um objetivo legítimo (cessar agressão, impedir fuga, proteger terceiros, garantir segurança). A avaliação é dinâmica: o nível de resistência e o risco determinam a resposta. A proporcionalidade exige que a intensidade e a duração da força não excedam o necessário; a prestação de contas exige registro e revisão.
5.2. Passo a passo prático: decisão e registro do uso da força
- Planejar: antecipe riscos, defina meios menos lesivos, estabeleça comando e comunicação.
- Advertir e negociar: sempre que possível, use comandos verbais claros e tempo para conformidade.
- Escalonar: aplique o mínimo necessário; interrompa assim que cessar a resistência/ameaça.
- Assistir: preste/acionar atendimento médico quando houver lesão ou queixa.
- Registrar: descreva resistência/ameaça, meios empregados, duração, lesões, testemunhas, imagens disponíveis e providências pós-evento.
- Revisar: submeta a ocorrência a revisão interna quando houver lesão, disparo, uso de instrumento de menor potencial ofensivo ou alegação de abuso.
6. Vulnerabilidades e atendimento diferenciado: abordagem sem discriminação
Direitos humanos exigem atenção reforçada a pessoas em situação de vulnerabilidade, não para “favorecer”, mas para equalizar condições de participação e proteção contra danos previsíveis. O Delegado deve orientar a equipe para evitar estereótipos, linguagem discriminatória e práticas que aumentem risco de revitimização.
6.1. Mulheres (incluindo violência de gênero e revitimização)
- Evite perguntas moralizantes e repetição desnecessária de relatos traumáticos.
- Garanta privacidade, ambiente seguro e, quando possível, profissional capacitado para escuta.
- Em casos de violência sexual, priorize preservação de vestígios e encaminhamento rápido para atendimento especializado.
6.2. Crianças e adolescentes
- Adote linguagem adequada à idade e verifique compreensão.
- Evite entrevistas longas; faça pausas e ambiente acolhedor.
- Acione responsáveis e rede de proteção quando necessário; registre medidas de salvaguarda.
6.3. Pessoas com deficiência (PCD)
- Identifique barreiras: comunicação, mobilidade, compreensão.
- Providencie recursos de acessibilidade (intérprete, apoio, tempo adicional).
- Evite interpretar limitações como “resistência” ou “desobediência”.
6.4. População LGBTQIA+
- Use tratamento respeitoso e evite exposição indevida de identidade/vida privada.
- Redobre cuidados em custódia para prevenir violência e humilhação.
- Registre e apure prontamente alegações de discriminação ou agressão.
6.5. Migrantes e pessoas com barreiras linguísticas/culturais
- Garanta compreensão efetiva por meio de intérprete quando necessário.
- Evite “consentimentos” formais sem entendimento real.
- Considere vulnerabilidades específicas (medo de autoridades, trauma, ausência de rede de apoio).
7. Entrevistas e oitivas com garantias: integridade física e psíquica e qualidade da prova
7.1. Princípios práticos para entrevistas
Entrevistas eficazes são compatíveis com direitos humanos: reduzem coerção, aumentam confiabilidade e evitam contaminação do relato. O foco deve ser obter informação por técnicas de comunicação, não por pressão.
- Voluntariedade e compreensão: confirme que a pessoa entende o ato e está apta a participar.
- Ambiente: local reservado, sem intimidação, com tempo razoável.
- Respeito e neutralidade: evite ameaças, promessas indevidas, humilhações, induções.
- Pausas e cuidados: observe sinais de exaustão, crise emocional, dor; interrompa quando necessário.
7.2. Passo a passo prático: condução de oitiva com salvaguardas
- Preparação: defina objetivo, tópicos e documentos; avalie vulnerabilidades e necessidade de apoio (intérprete, acompanhante, profissional especializado).
- Abertura: explique finalidade, dinâmica, duração estimada e possibilidade de pausa; registre condições iniciais (estado emocional, queixas, medicação).
- Narrativa livre: permita relato espontâneo antes de perguntas direcionadas.
- Perguntas: priorize abertas; evite sugestivas; confirme detalhes com checagem de consistência sem agressividade.
- Encerramento técnico: recapitule pontos, verifique se há correções, registre pedidos (proteção, saúde, segurança).
- Registro: documente fielmente; quando houver gravação lícita e adequada, preserve arquivo e metadados; registre interrupções e motivos.
8. Registro adequado de ocorrências: o que não pode faltar
O registro é a ponte entre a ação policial e o controle externo/interno. Um registro incompleto abre espaço para alegações de abuso e fragiliza a prova. Um registro excessivamente “padronizado” e genérico também é problemático, pois não demonstra a necessidade concreta das medidas.
- Cronologia: horários, deslocamentos, início e fim de atos.
- Justificativas fáticas: fatos observáveis que motivaram decisões (força, algemas, busca, condução).
- Integridade: estado físico/psíquico, queixas, providências médicas.
- Testemunhas e meios de prova: quem presenciou, quais registros audiovisuais existem, onde estão armazenados.
- Vulnerabilidades: necessidades específicas e medidas adotadas (intérprete, acessibilidade, proteção).
- Incidentes: resistência, lesões, uso de instrumentos, danos materiais, reclamações de abuso e encaminhamentos.
9. Estudos de caso: impactos de violações em nulidades, responsabilização e legitimidade
Caso 1: confissão após pressão psicológica e privação de descanso
Cenário: investigado é ouvido por horas, sem pausas adequadas, com insinuações de retaliação e promessas de benefício informal. Assina declaração e indica local de objetos.
Riscos jurídicos e investigativos: questionamento da voluntariedade; alegação de tratamento degradante; perda de credibilidade do relato; contaminação de elementos derivados (discussão sobre derivação e confiabilidade); abertura de apuração por abuso.
Medidas corretivas: reavaliar a utilização do conteúdo; preservar registros integrais do ato; colher novas provas por fontes independentes; instaurar apuração interna se houver indícios; reforçar protocolo de pausas, linguagem e vedação de promessas/ameaças.
Caso 2: uso de força desproporcional em cumprimento de mandado e lesão
Cenário: durante ingresso em residência, há contenção física com lesão relevante, sem registro detalhado da resistência. Não há acionamento médico imediato.
Riscos: alegação de abuso e de violação de integridade; fragilização da narrativa policial; questionamento de legalidade do ato e de confiabilidade de apreensões; responsabilização disciplinar e penal; dano reputacional.
Boas práticas: planejamento com funções definidas; escalonamento e interrupção da força ao cessar a ameaça; atendimento médico e registro; relatório circunstanciado com fatos objetivos; preservação de imagens e identificação de testemunhas.
Caso 3: oitiva de vítima vulnerável com revitimização e inconsistências
Cenário: vítima de violência sexual é ouvida em ambiente inadequado, com perguntas sugestivas e repetição do relato por múltiplos agentes. O depoimento apresenta contradições.
Impactos: redução da qualidade probatória; aumento de sofrimento; risco de invalidação prática do relato por baixa confiabilidade; críticas institucionais e perda de cooperação da vítima.
Medidas: centralizar a escuta, reduzir repetição, usar perguntas abertas, garantir privacidade e apoio; registrar condições emocionais e pausas; articular encaminhamentos de saúde e proteção; planejar coleta de vestígios e outras provas independentes.
Caso 4: migrante sem intérprete assina termo sem compreensão
Cenário: pessoa estrangeira é ouvida e assina termo em português, sem intérprete, com compreensão limitada. Posteriormente a defesa alega nulidade e coação.
Impactos: questionamento de validade do ato; perda de tempo investigativo; necessidade de refazer oitivas; risco de responsabilização por violação de garantias.
Medidas: garantir intérprete; confirmar compreensão por perguntas de checagem; registrar a presença e identificação do intérprete; evitar termos técnicos; documentar que a pessoa compreendeu direitos e conteúdo.
Caso 5: custódia de pessoa LGBTQIA+ com exposição e humilhação
Cenário: custodiado é alvo de comentários depreciativos e exposição indevida durante deslocamento e na unidade, com registro incompleto do incidente.
Impactos: violação de dignidade e não discriminação; risco de responsabilização; perda de confiança comunitária; aumento de litigiosidade e controle externo.
Medidas: orientação prévia e supervisão; tolerância zero a condutas discriminatórias; registro e apuração; medidas de proteção na custódia; treinamento focado em linguagem e conduta profissional.
10. Ferramentas de gestão para o Delegado: supervisão, treinamento e resposta a incidentes
10.1. Rotinas de supervisão
- Briefing pré-operação com regras de uso da força, custódia e comunicação.
- Debriefing pós-ação com identificação de riscos, falhas e melhorias.
- Revisão de ocorrências com lesão, alegação de abuso ou vulnerabilidade acentuada.
- Padronização de formulários de integridade e de relatórios circunstanciados, sem perder a descrição fática individualizada.
10.2. Resposta a alegações de violação
Quando surge alegação de abuso, a resposta institucional deve ser técnica e imediata: preservar evidências, garantir atendimento e proteção, registrar formalmente, comunicar instâncias competentes e evitar retaliações. A postura defensiva sem apuração tende a agravar danos e comprometer a credibilidade da investigação.
Modelo de roteiro interno (resumo): 1) cessar risco e garantir integridade; 2) atendimento médico e registro; 3) preservação de imagens e documentos; 4) oitiva inicial de envolvidos e testemunhas; 5) comunicação a chefia e órgãos de controle conforme protocolos; 6) medidas de prevenção para evitar repetição do evento.