Abertura, rapport e acordos de atribuição na entrevista jornalística

Capítulo 4

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Por que a abertura e o rapport determinam a qualidade (e a segurança) da entrevista

Os primeiros minutos de uma entrevista jornalística têm duas funções simultâneas: (1) criar um ambiente em que a fonte se sinta segura para falar com clareza e (2) estabelecer regras explícitas sobre como as falas poderão ser usadas. Quando essas regras ficam implícitas, surgem problemas comuns: a fonte “volta atrás”, pede para “aprovar” o texto, contesta citações ou afirma que algo era “off” depois de dito.

Neste capítulo, você vai aprender a estruturar a abertura, construir rapport sem perder objetividade e negociar acordos de atribuição (on the record, off the record e on background) antes de começar a coletar declarações aproveitáveis.

Conceitos essenciais: abertura, rapport e acordos de atribuição

Abertura

É o conjunto de falas iniciais do repórter para: se apresentar, explicar o tema e o propósito da conversa, alinhar tempo e formato, e definir regras de uso das falas. Uma boa abertura reduz ansiedade e evita mal-entendidos.

Rapport

É a construção de confiança funcional (não intimidade). Em jornalismo, rapport significa: respeito, escuta ativa, clareza de limites e previsibilidade do processo. O objetivo é facilitar respostas completas e verificáveis, sem prometer controle editorial à fonte.

Acordos de atribuição

São combinações explícitas sobre como a informação será publicada e como a fonte será identificada. Três categorias aparecem com frequência:

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  • On the record: tudo pode ser publicado e atribuído à fonte (nome e, idealmente, cargo/condição).
  • Off the record: a informação não pode ser publicada nem atribuída. Em geral, serve para orientar apuração, indicar caminhos e confirmar hipóteses, mas não entra no texto como citação ou fato atribuído.
  • On background: a informação pode ser usada, mas com atribuição limitada (por exemplo, “um assessor do ministério”, “uma fonte próxima ao tema”). As regras exatas variam; por isso, é essencial definir a forma de atribuição antes.

Regra de ouro: se não foi combinado, não presuma. E se foi combinado, registre.

Passo a passo prático para iniciar a entrevista com segurança

1) Apresentação objetiva (quem você é e por que está ali)

Inclua: seu nome, veículo/projeto, e o motivo do contato. Evite rodeios e evite “vender” a pauta como se fosse publicidade.

Frases-modelo:

  • “Olá, eu sou [NOME], repórter da [VEÍCULO]. Obrigado(a) por separar um tempo para conversar.”
  • “Quero falar sobre [TEMA] e entender [ASPECTO] a partir da sua experiência.”

2) Transparência sobre o tema e o recorte da conversa

Transparência não significa entregar todas as perguntas, mas sim deixar claro o assunto e o tipo de informação que você busca, para que a fonte saiba o que está aceitando discutir.

Frases-modelo:

  • “O foco da conversa é [TEMA]. Vou perguntar sobre [SUBTÓPICOS] e sobre decisões/posicionamentos relacionados.”
  • “Quero entender o que aconteceu, quais foram os critérios e quais são os próximos passos.”

3) Alinhar tempo disponível e logística

Definir duração e formato reduz pressa, interrupções e frustração. Também ajuda você a priorizar perguntas e a administrar o ritmo.

Checklist rápido:

  • Duração total (“Temos 20/30/45 minutos?”)
  • Se haverá interrupções (“Se precisar pausar, me avise e eu retomo de onde paramos.”)
  • Canal (presencial/telefone/vídeo)

Frases-modelo:

  • “Você tem cerca de quantos minutos disponíveis hoje?”
  • “Se surgir algum compromisso, me diga e eu reorganizo as perguntas.”

4) Explicar formato de publicação e expectativa de uso

Fontes ficam mais confortáveis quando entendem onde e como a fala pode aparecer: matéria escrita, áudio, vídeo, reportagem longa, nota curta, etc. Isso não é “negociar o conteúdo”, é dar previsibilidade.

Frases-modelo:

  • “Isso vai virar uma reportagem em [FORMATO], com publicação prevista para [JANELA DE TEMPO].”
  • “Algumas falas podem entrar como citação direta e outras como paráfrase atribuída.”

5) Definir regras de gravação e registro

Se você vai gravar, peça consentimento antes. Mesmo quando a lei permitir em determinadas situações, a prática ética e preventiva é avisar. Explique que a gravação é para precisão, não para “pegar” a fonte.

Frases-modelo:

  • “Posso gravar nossa conversa para garantir fidelidade nas citações? A gravação é só para apuração.”
  • “Se preferir, posso tomar notas sem gravar; só me avise.”

6) Negociar atribuição antes de começar (o que vale e como será atribuído)

Este é o ponto central para evitar disputas futuras. O ideal é estabelecer um padrão: por exemplo, “por padrão, on the record; se quiser algo em off ou em background, me avise antes de responder”.

Script-base (curto e eficaz):

“Antes de começarmos: por padrão, nossa conversa é on the record, ok? Se em algum momento você quiser falar algo em off ou em background, me sinalize antes de responder para eu confirmar o acordo.”

Se a fonte pedir ‘off’ genérico:

  • “Você quer que a entrevista inteira seja off? Se for o caso, eu consigo usar apenas como orientação e não publicar. Você prefere on background com atribuição limitada?”
  • “O que exatamente você precisa proteger: seu nome, seu cargo, ou o conteúdo em si?”

7) Especificar a forma de identificação (nome, cargo e condição)

Mesmo em on the record, alinhe como a pessoa será identificada: nome completo, cargo atual, instituição, e qualquer condição relevante (por exemplo, “ex-diretor”, “consultor”, “pesquisadora”). Isso evita correções de última hora e disputas sobre “como fui apresentado”.

Frases-modelo:

  • “Para identificação: posso usar ‘[NOME COMPLETO], [CARGO] na [INSTITUIÇÃO]’?”
  • “Você prefere que eu use o cargo atual ou o cargo à época dos fatos?”

8) Confirmar o acordo em uma frase e registrar

Registrar significa criar um rastro verificável do combinado: uma frase no início da gravação, uma mensagem por escrito (e-mail/WhatsApp) ou uma anotação com data e hora. O registro não precisa ser burocrático; precisa ser claro.

Exemplo para registrar no áudio (antes da primeira pergunta):

“Só para registrar: hoje é [DATA], estamos conversando com [NOME], [CARGO], e a entrevista é on the record. Se houver algum trecho em background ou off, vamos combinar antes de você responder.”

Exemplo de mensagem curta (texto) para confirmar:

“Obrigado pela disponibilidade. Confirmando: entrevista em [DATA/HORA], on the record, com identificação como ‘[NOME], [CARGO]’. Se surgir algo em background/off, combinamos antes da resposta.”

Como lidar com on the record, off the record e on background na prática

On the record (padrão recomendado)

O que permite: citação direta, paráfrase e atribuição completa. O que exige: precisão e contexto, para não distorcer a intenção.

Frases-modelo para reforçar:

  • “Perfeito, então posso citar você com nome e cargo.”
  • “Se eu usar uma frase como citação direta, vou manter o sentido e o contexto.”

Off the record (use com cautela e defina limites)

O que significa: não publicar nem atribuir. Uso típico: orientar apuração, apontar documentos, sugerir outras fontes, indicar onde checar.

Perguntas de clarificação (antes de aceitar):

  • “Você quer que isso seja totalmente off, sem possibilidade de uso?”
  • “Posso ao menos usar como pista para buscar confirmação com outras fontes e documentos?”

Frase-modelo para evitar ‘off’ retroativo:

  • “Só consigo considerar off se combinarmos antes. O que você já disse até aqui está on the record, tudo bem?”

On background (defina a etiqueta exata de atribuição)

O que significa: pode usar a informação, mas com atribuição parcial. Como “background” pode ser interpretado de formas diferentes, transforme em um acordo concreto: qual será a expressão de atribuição e o que fica proibido (nome, cargo específico, órgão, etc.).

Modelos de atribuição (exemplos):

  • “uma fonte do setor”
  • “um integrante da equipe”
  • “uma pessoa com conhecimento direto do assunto”
  • “um assessor envolvido nas tratativas”

Frases-modelo para fechar o acordo:

  • “Posso usar, mas sem seu nome. Atribuo como ‘[FORMA COMBINADA]’. Está correto?”
  • “Além do nome, posso mencionar a instituição ou isso também precisa ficar genérico?”

Frases-modelo para alinhar expectativas e reduzir tensão

Para criar conforto sem prometer controle editorial

  • “Meu objetivo é entender com precisão. Se algo ficar ambíguo, eu vou pedir exemplos e datas para não interpretar errado.”
  • “Se você não souber algo, pode dizer ‘não sei’ ou ‘preciso checar’. Eu prefiro isso a uma resposta no improviso.”
  • “Se eu fizer uma pergunta difícil, é para esclarecer pontos que o público provavelmente vai querer entender.”

Para prevenir pedidos de ‘aprovação’ do texto

Em vez de discutir “aprovação”, ofereça alternativas que preservem a independência e reduzam erros factuais.

  • “Eu não trabalho com aprovação de texto, mas posso checar com você dados objetivos: datas, cargos, números e termos técnicos.”
  • “Se houver um ponto técnico sensível, eu posso ler de volta o trecho factual para confirmar precisão, sem alterar o sentido jornalístico.”

Para lidar com hesitação e medo de exposição

  • “Se houver algo que você só possa dizer em background, me avise antes da resposta para combinarmos a atribuição.”
  • “Se preferir, começamos pelo que é on the record e depois avaliamos se existe algum ponto que precisa de outra condição.”

Para interromper com educação e manter foco

  • “Vou te interromper só para garantir que eu entendi: você está dizendo que [RESUMO]?”
  • “Posso voltar um passo? Em que data isso aconteceu e quem participou?”

Roteiro de abertura pronto (30–60 segundos)

“Olá, eu sou [NOME], repórter da [VEÍCULO]. Obrigado(a) por conversar comigo. O tema é [TEMA] e eu queria entender [OBJETIVO DA CONVERSA]. Você tem cerca de [X] minutos? Posso gravar para garantir fidelidade nas citações? Antes de começarmos, só para alinhar: por padrão é on the record, com identificação como ‘[NOME], [CARGO]’. Se em algum momento você quiser falar algo em background ou off, me avise antes de responder para eu confirmar o acordo. Tudo bem?”

Tabela rápida: condições de uso e como registrar

CondiçãoPode publicar?Pode atribuir?Como registrar
On the recordSimSim (nome/cargo)Frase no início da gravação + anotação de identificação
On backgroundSimParcial (forma combinada)Definir a expressão exata (“uma fonte…”) antes da resposta
Off the recordNãoNãoConfirmar verbalmente: “isso é off e não será publicado”

Mini-cenários (com respostas prontas) para evitar disputas

Cenário 1: a fonte diz “isso é off” depois de falar

Resposta recomendada:

“Entendi. Para eu considerar off, preciso que a gente combine antes da resposta. O que você disse até aqui ficou on the record. Daqui para frente, se quiser colocar algo em off, me avise antes e eu confirmo.”

Cenário 2: a fonte aceita falar, mas não quer o nome

Resposta recomendada:

“Podemos fazer em background. Vamos definir como vou atribuir: ‘uma pessoa com conhecimento direto do assunto’ funciona? Posso mencionar a instituição ou isso também precisa ficar genérico?”

Cenário 3: a fonte pede para “ver antes de publicar”

Resposta recomendada:

“Eu não consigo enviar para aprovação, mas posso checar com você informações factuais e termos técnicos para evitar erro. Se eu tiver dúvida sobre um dado, eu volto a te procurar.”

Cenário 4: a fonte quer falar “sem gravar”

Resposta recomendada:

“Sem problemas. Eu vou tomar notas. Só confirmando: seguimos on the record, com identificação como ‘[NOME], [CARGO]’, certo?”

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao iniciar uma entrevista jornalística, qual prática reduz a chance de a fonte contestar citações ou tentar impor mudanças depois, por alegar que algo era “off” ou que precisava “aprovar” o texto?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Definir e registrar, logo na abertura, como as falas poderão ser usadas (on the record/off/on background) dá previsibilidade e evita disputas futuras, como “off” retroativo, contestação de citações ou pedidos de “aprovação”.

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