Quais dados “mínimos” o PCP precisa para funcionar
Para planejar e controlar a produção com previsibilidade, o PCP depende de cadastros consistentes. Na prática, isso significa ter informações padronizadas sobre itens (produtos e materiais), estrutura de produto (BOM) e roteiros (como fabricar, onde e em quanto tempo). Esses dados alimentam dois cálculos centrais:
- Necessidades de materiais: quanto comprar/consumir e quando (explosão da BOM).
- Necessidades de capacidade: quanto tempo de máquina/pessoas será necessário e em quais centros de trabalho (carga vs. capacidade).
Se os dados estiverem incompletos ou errados, o plano pode até “rodar”, mas tende a gerar falta de material, filas inesperadas, prazos irreais e retrabalho de replanejamento.
Cadastro de itens: produto acabado, semiacabado e matérias-primas
O que deve existir no cadastro (campos essenciais)
Os nomes e telas variam por ERP/planilha, mas os campos abaixo são os mais comuns e úteis para iniciantes:
- Código e descrição padronizada: evite duplicidade (ex.: “Parafuso M6” vs “Parafuso 6mm”).
- Tipo de item: produto acabado (PA), semiacabado (SA), matéria-prima (MP), embalagem, insumo.
- Unidade de medida (UM): peça (pc), kg, m, L, conjunto (cj). Defina UMA UM principal por item.
- Fator de conversão (quando aplicável): ex.: compra em kg e consome em g; compra em bobina e consome em metros.
- Política de lote: lote fixo, lote mínimo, múltiplos, lote econômico (se usado) ou “lote a lote”.
- Lead time (quando aplicável): tempo de reposição/compra ou tempo interno padrão (se o item for produzido).
- Perdas/refugo: percentual de perda esperado no consumo (MP) ou no processo (SA/PA).
- Rastreabilidade/lote/validade (se aplicável): se controla por lote, número de série, validade.
- Estoque de segurança (se aplicável): para itens críticos/variáveis.
Unidade de medida e conversões: onde iniciantes mais erram
UM errada é uma das causas mais frequentes de explosão de materiais incorreta. Exemplos típicos:
- Item cadastrado em kg, mas a BOM consome em g sem conversão: o sistema pode pedir 1.000x mais ou 1.000x menos.
- Item comprado em caixa e consumido em peça sem fator de conversão: compras e estoque ficam incoerentes.
Boa prática: defina uma UM “base” para planejamento/consumo e cadastre conversões de compra/armazenagem quando necessário.
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Lotes e perdas: como afetam o plano
Lote define como o PCP “arredonda” quantidades. Se o lote mínimo de um item produzido é 100 peças e a demanda é 30, o plano tende a gerar ordem de 100 (com sobra em estoque). Já perdas ajustam a necessidade para cima. Exemplo: se a perda de uma MP é 2% e o consumo teórico é 10 kg, o consumo planejado pode ser 10,2 kg (dependendo da regra do sistema).
Estrutura de produto (BOM): o que é e como cadastrar
Conceito
A BOM (Bill of Materials) é a lista estruturada de componentes necessários para fabricar um item. Ela pode ter níveis (PA → SA → MP) e define quantidades por unidade do item pai, além de regras como perdas e alternativas.
Campos práticos da BOM
- Item pai (o que será produzido) e itens filhos (componentes).
- Quantidade por: quanto do componente é necessário para produzir 1 unidade do pai (ou 1 lote, conforme regra).
- UM do componente e coerência com conversões.
- Perda no componente (se aplicável): perda específica daquele consumo.
- Validade/efetividade: data de início/fim da estrutura (mudanças de engenharia).
- Substitutos/alternativos (se permitido): componente A ou B.
Passo a passo para montar uma BOM simples (iniciante)
- Defina o item pai (ex.: Produto Acabado).
- Liste todos os componentes diretos que entram no pai (MP, embalagem, SA).
- Padronize a UM de cada componente e confirme conversões.
- Defina quantidades “por 1” do pai (ex.: 4 parafusos por unidade).
- Inclua perdas onde fizer sentido (ex.: 1% de perda de tinta).
- Revise níveis: se houver semiacabado, ele deve ter sua própria BOM.
- Valide com o processo (produção/engenharia): a BOM deve refletir o consumo real.
Roteiros, centros de trabalho e tempos padrão
Conceito
O roteiro descreve como fabricar um item: sequência de operações, em quais centros de trabalho (máquinas/linhas/postos) e com quais tempos padrão. É o principal insumo para calcular capacidade e estimar prazo interno.
O que cadastrar no roteiro (mínimo viável)
- Operações em ordem (ex.: corte → furação → montagem → inspeção).
- Centro de trabalho de cada operação (ex.: Serra 01, Furadeira 02, Bancada Montagem).
- Tempo de setup (preparação): tempo para preparar máquina/linha para o lote (ex.: trocar ferramenta, ajustar gabarito).
- Tempo de ciclo (processamento): tempo por unidade (ou por peça) para produzir.
- Tamanho de lote padrão (se o setup for relevante): para calcular tempo total do lote.
- Recursos alternativos: centros de trabalho que podem executar a mesma operação (ex.: Furadeira 02 ou Furadeira 03).
- Fila/espera/transferência (se usado): tempos adicionais entre operações (muito comum em ERPs como “tempo de fila”).
Como calcular tempo total de uma operação (regra prática)
Uma forma simples e muito usada:
Tempo total da operação (min) = Setup (min por lote) + (Ciclo (min por peça) × Quantidade do lote)Exemplo: setup 20 min e ciclo 0,5 min/peça para um lote de 100 peças:
Tempo total = 20 + (0,5 × 100) = 70 minPasso a passo para cadastrar um roteiro simples
- Mapeie as operações reais (no chão de fábrica) e a sequência.
- Associe cada operação a um centro de trabalho (um “dono” principal).
- Meça ou estime tempos: comece com tempos padrão aproximados e depois refine com dados reais.
- Separe setup de ciclo: isso melhora muito o planejamento por lote.
- Defina alternativas quando houver flexibilidade (máquinas equivalentes).
- Teste com um lote típico: calcule o tempo total e veja se faz sentido com a realidade.
Recursos alternativos: quando e como usar
Recursos alternativos permitem que o PCP direcione carga para mais de um centro de trabalho. Isso é útil quando:
- Há máquinas similares (ex.: duas injetoras com mesma capacidade).
- Há variação de disponibilidade (manutenção, turnos diferentes).
- Há gargalos e necessidade de balanceamento.
Cuidados: centros alternativos podem ter tempos diferentes (ciclo e setup). Se o cadastro assumir tempos iguais quando não são, a capacidade ficará distorcida.
Como erros de cadastro distorcem o plano (efeitos típicos)
1) Explosão de materiais incorreta
- Quantidade na BOM errada: falta ou sobra de material.
- UM/conversão errada: ordens de compra absurdas ou consumo “negativo”.
- Perda não cadastrada: o plano parece viável, mas o material acaba antes do fim do lote.
- BOM desatualizada: compra componente antigo e falta o novo.
2) Capacidade subestimada (ou superestimada)
- Setup zerado quando existe: o plano “encaixa” mais ordens do que cabe no turno.
- Ciclo otimista: prazos ficam curtos demais e o atraso vira recorrente.
- Centro de trabalho errado: carga vai para o recurso incorreto, mascarando gargalos.
3) Prazos internos irreais
- Roteiro incompleto (faltam operações): o lead time interno fica menor do que o real.
- Tempos de fila/espera ignorados em processos com muita espera: o PCP promete datas que não se sustentam.
Checklist de validação de cadastros (iniciante)
Use este checklist antes de confiar no plano:
A) Itens
- Código e descrição sem duplicidade?
- Tipo do item correto (PA/SA/MP/embalagem)?
- UM base definida e coerente com compras/consumo?
- Conversões cadastradas e testadas com um exemplo?
- Política de lote definida (mínimo/múltiplo/lote fixo)?
- Perdas/refugo cadastrados onde ocorrem?
- Controle por lote/série/validade definido quando necessário?
B) BOM
- Todos os componentes diretos estão listados (incluindo embalagem/insumos relevantes)?
- Quantidades por unidade revisadas com produção/engenharia?
- UM dos componentes bate com o cadastro do item?
- Perdas por componente aplicadas corretamente?
- Níveis corretos (PA → SA → MP), sem “pular” semiacabados?
- Efetividade (datas/versões) atualizada?
C) Roteiro e capacidade
- Sequência de operações completa (sem etapas faltando)?
- Centro de trabalho correto em cada operação?
- Setup e ciclo separados e com valores plausíveis?
- Alternativos cadastrados quando existem (com tempos compatíveis)?
- Teste de tempo total por lote realizado e comparado com a prática?
Exemplo prático simplificado: BOM + roteiro e como o PCP monta uma OP
Produto exemplo
Produto acabado (PA): Suporte Metálico Pintado (código: PA-100) — UM: pc
Demanda: 50 pcs para entrega em 10 dias
BOM (estrutura) do PA-100
| Nível | Item | Descrição | Qtd por 1 PA | UM | Perda |
|---|---|---|---|---|---|
| 1 | SA-200 | Corpo dobrado | 1 | pc | 0% |
| 1 | MP-310 | Parafuso M6 | 4 | pc | 1% |
| 1 | MP-500 | Tinta em pó preta | 0,08 | kg | 5% |
BOM do semiacabado SA-200 (Corpo dobrado)
| Nível | Item | Descrição | Qtd por 1 SA | UM | Perda |
|---|---|---|---|---|---|
| 2 | MP-120 | Chapa de aço 2mm | 1,20 | kg | 2% |
Explosão de materiais para 50 unidades (visão do PCP)
O PCP usa a BOM para calcular necessidades brutas (antes de considerar estoque disponível). Para simplificar, abaixo está o cálculo direto:
- SA-200: 1 × 50 = 50 pc
- MP-310 (Parafuso M6): 4 × 50 = 200 pc; com 1% perda → 202 pc (arredondamento conforme regra)
- MP-500 (Tinta): 0,08 × 50 = 4,0 kg; com 5% perda → 4,2 kg
- MP-120 (Chapa): 1,20 × 50 = 60 kg; com 2% perda → 61,2 kg
Observação: em um sistema real, o PCP ainda desconta estoque disponível, considera itens já em pedido e aplica regras de lote/múltiplos.
Roteiro do SA-200 (Corpo dobrado)
| Operação | Centro de trabalho | Setup (min/lote) | Ciclo (min/pc) | Alternativo |
|---|---|---|---|---|
| 10 - Corte | CT-CORTE | 15 | 0,8 | — |
| 20 - Dobra | CT-DOBRA | 20 | 1,2 | CT-DOBRA-2 |
Roteiro do PA-100 (montagem e pintura)
| Operação | Centro de trabalho | Setup (min/lote) | Ciclo (min/pc) | Alternativo |
|---|---|---|---|---|
| 30 - Pintura | CT-PINTURA | 30 | 1,5 | — |
| 40 - Montagem | CT-MONTAGEM | 10 | 2,0 | — |
| 50 - Inspeção | CT-QUALIDADE | 0 | 0,5 | — |
Como o PCP transforma esses dados em uma Ordem de Produção (OP): passo a passo
- Recebe a necessidade: produzir 50 pcs do PA-100 até a data requerida.
- Verifica política de lote: se o PA-100 tiver lote mínimo/múltiplo, ajusta a quantidade da OP (ex.: mínimo 60).
- Explode a BOM: calcula necessidades de SA-200 e MPs (parafusos, tinta, chapa), aplicando perdas e conversões.
- Gera requisições/ordens: compra para MPs faltantes e/ou ordens internas para o SA-200 (se for produzido).
- Carrega capacidade pelos roteiros: calcula tempo por centro de trabalho para o lote. Exemplo (50 pcs):
- CT-CORTE: 15 + (0,8×50) = 55 min
- CT-DOBRA: 20 + (1,2×50) = 80 min (pode ir para CT-DOBRA-2 se necessário)
- CT-PINTURA: 30 + (1,5×50) = 105 min
- CT-MONTAGEM: 10 + (2,0×50) = 110 min
- CT-QUALIDADE: 0 + (0,5×50) = 25 min
- Sequencia e define datas internas: posiciona operações no calendário conforme disponibilidade dos centros de trabalho e precedências (não dá para pintar antes de dobrar, por exemplo).
- Emite a OP do PA-100 com: lista de materiais a separar/consumir, roteiros/operações, tempos padrão e centros de trabalho.
Onde esse exemplo “quebra” se o cadastro estiver errado
- Se a tinta estiver cadastrada em g e a BOM em kg sem conversão, o PCP pode solicitar 4.200 g como 4.200 kg.
- Se o setup de pintura (30 min) estiver como 0, o plano pode encaixar muitos lotes pequenos na pintura e gerar atraso real.
- Se o parafuso for 4 por peça, mas a BOM estiver 3, o chão de fábrica para por falta de fixação no meio da montagem.