O que são MTS, MTO e ATO (visão prática para programação)
As políticas de atendimento definem quando o PCP libera produção e qual “gatilho” manda na programação: previsão/estoque, pedido firme ou uma combinação (estoque de componentes + montagem sob pedido). Na prática, elas determinam prioridades do sequenciamento, nível de estoque, lead time prometido ao cliente e estabilidade do plano.
- MTS (Make to Stock): produzir para estoque de produto acabado. O pedido do cliente é atendido a partir do estoque.
- MTO (Make to Order): produzir sob encomenda. O pedido do cliente dispara fabricação (e muitas vezes compras).
- ATO (Assemble to Order): montar sob encomenda. Mantém-se estoque de componentes/subconjuntos e a montagem final é disparada pelo pedido.
Como cada política muda o PCP (prioridades, estoque, lead time e estabilidade)
| Aspecto | MTS | MTO | ATO |
|---|---|---|---|
| Gatilho principal | Previsão + reposição de estoque | Pedido firme (carteira) | Pedido firme para montagem; reposição por consumo de componentes |
| Prioridade na programação | Manter disponibilidade e nível de serviço; repor itens críticos | Atender datas prometidas por pedido; priorizar gargalos por prazo | Garantir disponibilidade de componentes e capacidade de montagem |
| Estoque típico | Alto em produto acabado; menor em WIP se fluxo estável | Baixo em produto acabado; pode haver WIP alto se muitos pedidos em paralelo | Médio/alto em componentes e módulos; baixo em produto acabado |
| Lead time prometido | Curto (expedição rápida), limitado por estoque | Maior (fabricação + compras), limitado por capacidade e suprimentos | Intermediário (montagem + testes), limitado por componentes e montagem |
| Estabilidade do plano | Mais estável (produção nivelada), mas sensível a erro de previsão | Menos estável (varia com pedidos), reprogramações frequentes | Estável na fabricação de componentes; variável na montagem final |
| Risco principal | Obsolescência/excesso e rupturas por previsão ruim | Atrasos por capacidade/suprimentos; prazos longos | Falta de componente “travando” montagem; mix imprevisível |
Implicação direta na programação (sequenciamento)
- MTS: o sequenciamento tende a ser orientado por eficiência (campanhas, troca de setup, nivelamento) e por reposição de itens com estoque baixo. A pergunta do programador é: “quais SKUs precisam ser repostos hoje para manter o nível de serviço?”
- MTO: o sequenciamento é orientado por prazo do pedido e carga de recursos (principalmente gargalos). A pergunta é: “qual pedido precisa passar primeiro no gargalo para cumprir a data prometida?”
- ATO: o sequenciamento separa dois mundos: (1) produção/compra de componentes para manter disponibilidade; (2) montagem final por ordem do cliente. A pergunta é: “tenho kit completo e janela de montagem para cumprir o pedido?”
Exemplos típicos de fábrica e como o PCP opera em cada uma
MTS em alimentos e bens de consumo (alto volume, demanda recorrente)
Cenário: indústria de alimentos (biscoitos, bebidas) ou higiene/limpeza. Muitos SKUs, volumes altos, necessidade de entrega rápida ao varejo.
- Como o PCP programa: define um plano de produção por família (ex.: semanal) e executa em campanhas para reduzir setups (ex.: sabor/cor/embalagem). Reposição baseada em estoque, giro e nível de serviço.
- Prioridade típica: itens com estoque abaixo do mínimo, itens “A” (maior giro) e janelas de campanha.
- Lead time ao cliente: curto; o risco é ruptura se o estoque não for reposto a tempo.
Exemplo numérico simples: um SKU tem demanda média semanal de 1.000 un. e política de estoque de segurança de 300 un. Se o estoque disponível caiu para 250 un., o PCP prioriza reposição imediata para voltar ao patamar alvo (ex.: 1.300 un. considerando segurança + ciclo).
MTO em metalmecânica sob encomenda (baixo volume, alta variedade)
Cenário: usinagem, caldeiraria, equipamentos especiais, peças sob desenho do cliente. Cada pedido pode ter roteiro e tempos diferentes.
- Como o PCP programa: a carteira de pedidos vira a base do plano; o PCP faz promessa de prazo considerando capacidade (gargalos como CNC, pintura, tratamento térmico) e suprimentos críticos.
- Prioridade típica: pedidos com data mais próxima, pedidos com penalidade alta por atraso, e operações no gargalo.
- Lead time ao cliente: maior e variável; o risco é reprogramação constante por mudanças de prioridade e falta de material.
Exemplo prático: dois pedidos disputam o mesmo CNC. Pedido A vence em 5 dias e precisa de 12 h de CNC; Pedido B vence em 7 dias e precisa de 20 h. Se a capacidade disponível no CNC até o vencimento do A é 10 h, o PCP precisa negociar prazo, terceirizar, fazer hora extra ou re-sequenciar operações anteriores para liberar o CNC mais cedo.
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ATO em montagem de kits (mix alto, montagem rápida)
Cenário: montagem de kits promocionais, computadores/eletrônicos configuráveis, painéis elétricos com variações, bicicletas com opções. Componentes são padronizados; a combinação final varia por pedido.
- Como o PCP programa: mantém estoque de módulos (ex.: fonte, placa, gabinete) e programa a montagem final conforme pedidos. A programação depende de disponibilidade de kit completo e capacidade de montagem/teste.
- Prioridade típica: pedidos com kit completo e data mais próxima; pedidos “travados” por 1 componente crítico entram em lista de exceção.
- Lead time ao cliente: intermediário (montagem + testes + embalagem). O risco é um componente faltante bloquear muitos pedidos.
Exemplo prático: um kit exige 1 unidade de cada componente A, B e C. Há 200 de A, 50 de B e 180 de C. Mesmo com A e C sobrando, a capacidade de atendimento imediato é 50 kits (limitada por B). O PCP deve tratar B como item crítico de reposição e/ou buscar alternativa.
Passo a passo: como decidir a política para uma família de produtos
Use este roteiro para escolher MTS, MTO ou ATO por família (não necessariamente por item isolado).
Passo 1 — Classifique o padrão de demanda e a exigência de prazo
- Demanda previsível e recorrente + cliente exige entrega rápida: tendência a MTS.
- Demanda irregular + cliente aceita esperar: tendência a MTO.
- Mix imprevisível mas com componentes comuns e montagem rápida: tendência a ATO.
Passo 2 — Avalie variedade e customização
- Se há muitas variantes e risco de encalhe do produto acabado, evite MTS puro.
- Se a customização está concentrada no final (opções, acessórios, configuração), ATO costuma reduzir estoque de acabados.
- Se cada pedido muda engenharia/roteiro, MTO é mais aderente.
Passo 3 — Compare lead time interno vs. lead time aceito pelo mercado
Defina:
- LT interno: tempo total para produzir (inclui filas, setups, compras críticas).
- LT mercado: prazo que o cliente espera/aceita.
Decisão prática:
- Se
LT interno > LT mercado, você precisa de estoque em algum ponto (MTS ou ATO com estoque de componentes). - Se
LT interno ≤ LT mercado, MTO pode ser viável sem perder vendas.
Passo 4 — Identifique o ponto de desacoplamento (onde manter estoque)
- MTS: estoque no produto acabado.
- ATO: estoque em componentes/submontagens (antes da montagem final).
- MTO: estoque mínimo; foco em capacidade e compras sob pedido.
Dica prática: procure o ponto onde o produto “vira específico do cliente”. Antes disso, padronize e considere estocar; depois disso, produza sob pedido.
Passo 5 — Defina a regra de programação coerente com a política
- MTS: regra por reposição (ex.: produzir quando estoque projetado cair abaixo do mínimo) e sequenciar por campanhas para reduzir setup.
- MTO: regra por data prometida e gargalo (ex.: priorizar operações que alimentam o recurso restritivo).
- ATO: regra por kit completo + data prometida; e reposição de componentes por consumo.
O que o PCP precisa monitorar em cada política (parâmetros e indicadores)
MTS: parâmetros críticos
- Nível de serviço (fill rate, OTIF) e rupturas por SKU/família.
- Estoque projetado (dias de cobertura) e estoque de segurança.
- Acurácia de previsão por família e viés (superestimar vs subestimar).
- Capacidade e eficiência: taxa de produção, OEE (quando aplicável), perdas e setups.
- Obsolescência/validade (especialmente em alimentos): giro e vencimento.
MTO: parâmetros críticos
- Carteira de pedidos: datas prometidas, prioridade comercial, penalidades.
- Carga x capacidade por centro de trabalho (principalmente gargalos).
- Fila (WIP) e tempo de atravessamento real vs prometido.
- Disponibilidade de materiais críticos e risco de atraso de compras.
- Confiabilidade de prazo: % pedidos no prazo, atraso médio.
ATO: parâmetros críticos
- Disponibilidade de componentes e “faltas” que travam kits.
- Taxa de completude de kit (quantos pedidos podem ser montados integralmente hoje).
- Capacidade de montagem/teste (turnos, balanceamento, gargalos de inspeção).
- Mix de pedidos (variação de configurações) e impacto no consumo de componentes.
- Tempo de ciclo da montagem final e retrabalho.
Exercícios guiados (com gabarito orientativo)
Exercício 1 — Escolha a política para uma família
Caso: Família “Bebida 1L”. Demanda semanal relativamente estável, varejo exige entrega em 48h. Setup de troca de sabor é alto. Produto tem validade de 90 dias.
Perguntas:
- Qual política é mais adequada (MTS, MTO ou ATO)?
- Quais duas prioridades de programação você adotaria?
- Quais 3 parâmetros o PCP deve monitorar diariamente?
Resposta orientativa:
- Política: MTS (necessidade de entrega rápida e demanda estável).
- Prioridades: (1) reposição de SKUs com estoque projetado abaixo do mínimo; (2) campanhas por sabor/embalagem para reduzir setup sem gerar excesso.
- Monitorar: estoque projetado/dias de cobertura, rupturas/nível de serviço, vencimento/obsolescência (e acurácia de previsão como suporte).
Exercício 2 — MTO ou ATO em metalmecânica com módulos
Caso: Empresa monta painéis elétricos. 70% dos componentes são comuns (disjuntores, trilhos, bornes), mas a configuração final (layout, cabos, etiquetas internas) varia por cliente. Cliente aceita prazo de 10 dias. Compras de componentes comuns levam 15 dias; montagem final leva 1 dia.
Perguntas:
- MTO puro funciona? Por quê?
- Qual política tende a reduzir atrasos?
- Qual ponto deve ser estocado?
Resposta orientativa:
- MTO puro não funciona bem porque o lead time de compras (15 dias) é maior que o prazo aceito (10 dias).
- Política: ATO (estoque de componentes comuns + montagem sob pedido).
- Estocar: componentes comuns/subconjuntos antes da customização final; montagem e configuração ficam sob pedido.
Exercício 3 — Parâmetros de controle por política (checklist)
Tarefa: Para cada cenário abaixo, liste 4 parâmetros que o PCP precisa acompanhar e 1 regra de prioridade para programação.
- Cenário A: fábrica de biscoitos com 30 SKUs e campanhas por sabor.
- Cenário B: usinagem sob desenho com 40 pedidos ativos e gargalo em tratamento térmico.
- Cenário C: montagem de kits promocionais com 200 combinações possíveis e 20 componentes comuns.
Resposta orientativa:
- A (MTS): parâmetros: estoque projetado, rupturas/nível de serviço, acurácia de previsão, setups/tempo de troca; regra: produzir SKUs abaixo do mínimo respeitando sequência de campanha.
- B (MTO): parâmetros: carga x capacidade do tratamento térmico, datas prometidas, WIP/fila antes do gargalo, disponibilidade de material crítico; regra: priorizar pedidos com menor folga de prazo no gargalo.
- C (ATO): parâmetros: completude de kit, faltas de componentes críticos, capacidade de montagem/teste, mix de pedidos e consumo de componentes; regra: montar pedidos com kit completo por data prometida, escalando exceções por falta de componente.
Mini-roteiro de decisão rápida (para usar no dia a dia do PCP)
Se o cliente exige entrega imediata e a demanda é previsível → MTS (estoque de acabado) Se o cliente aceita esperar e o produto é muito variável/customizado → MTO (pedido puxa produção) Se o cliente quer prazo curto, mas o mix é variável e há componentes comuns → ATO (estoque de componentes + montagem sob pedido)