Demanda e políticas de atendimento no PCP: MTS, MTO e ATO aplicados à programação

Capítulo 4

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que são MTS, MTO e ATO (visão prática para programação)

As políticas de atendimento definem quando o PCP libera produção e qual “gatilho” manda na programação: previsão/estoque, pedido firme ou uma combinação (estoque de componentes + montagem sob pedido). Na prática, elas determinam prioridades do sequenciamento, nível de estoque, lead time prometido ao cliente e estabilidade do plano.

  • MTS (Make to Stock): produzir para estoque de produto acabado. O pedido do cliente é atendido a partir do estoque.
  • MTO (Make to Order): produzir sob encomenda. O pedido do cliente dispara fabricação (e muitas vezes compras).
  • ATO (Assemble to Order): montar sob encomenda. Mantém-se estoque de componentes/subconjuntos e a montagem final é disparada pelo pedido.

Como cada política muda o PCP (prioridades, estoque, lead time e estabilidade)

AspectoMTSMTOATO
Gatilho principalPrevisão + reposição de estoquePedido firme (carteira)Pedido firme para montagem; reposição por consumo de componentes
Prioridade na programaçãoManter disponibilidade e nível de serviço; repor itens críticosAtender datas prometidas por pedido; priorizar gargalos por prazoGarantir disponibilidade de componentes e capacidade de montagem
Estoque típicoAlto em produto acabado; menor em WIP se fluxo estávelBaixo em produto acabado; pode haver WIP alto se muitos pedidos em paraleloMédio/alto em componentes e módulos; baixo em produto acabado
Lead time prometidoCurto (expedição rápida), limitado por estoqueMaior (fabricação + compras), limitado por capacidade e suprimentosIntermediário (montagem + testes), limitado por componentes e montagem
Estabilidade do planoMais estável (produção nivelada), mas sensível a erro de previsãoMenos estável (varia com pedidos), reprogramações frequentesEstável na fabricação de componentes; variável na montagem final
Risco principalObsolescência/excesso e rupturas por previsão ruimAtrasos por capacidade/suprimentos; prazos longosFalta de componente “travando” montagem; mix imprevisível

Implicação direta na programação (sequenciamento)

  • MTS: o sequenciamento tende a ser orientado por eficiência (campanhas, troca de setup, nivelamento) e por reposição de itens com estoque baixo. A pergunta do programador é: “quais SKUs precisam ser repostos hoje para manter o nível de serviço?”
  • MTO: o sequenciamento é orientado por prazo do pedido e carga de recursos (principalmente gargalos). A pergunta é: “qual pedido precisa passar primeiro no gargalo para cumprir a data prometida?”
  • ATO: o sequenciamento separa dois mundos: (1) produção/compra de componentes para manter disponibilidade; (2) montagem final por ordem do cliente. A pergunta é: “tenho kit completo e janela de montagem para cumprir o pedido?”

Exemplos típicos de fábrica e como o PCP opera em cada uma

MTS em alimentos e bens de consumo (alto volume, demanda recorrente)

Cenário: indústria de alimentos (biscoitos, bebidas) ou higiene/limpeza. Muitos SKUs, volumes altos, necessidade de entrega rápida ao varejo.

  • Como o PCP programa: define um plano de produção por família (ex.: semanal) e executa em campanhas para reduzir setups (ex.: sabor/cor/embalagem). Reposição baseada em estoque, giro e nível de serviço.
  • Prioridade típica: itens com estoque abaixo do mínimo, itens “A” (maior giro) e janelas de campanha.
  • Lead time ao cliente: curto; o risco é ruptura se o estoque não for reposto a tempo.

Exemplo numérico simples: um SKU tem demanda média semanal de 1.000 un. e política de estoque de segurança de 300 un. Se o estoque disponível caiu para 250 un., o PCP prioriza reposição imediata para voltar ao patamar alvo (ex.: 1.300 un. considerando segurança + ciclo).

MTO em metalmecânica sob encomenda (baixo volume, alta variedade)

Cenário: usinagem, caldeiraria, equipamentos especiais, peças sob desenho do cliente. Cada pedido pode ter roteiro e tempos diferentes.

  • Como o PCP programa: a carteira de pedidos vira a base do plano; o PCP faz promessa de prazo considerando capacidade (gargalos como CNC, pintura, tratamento térmico) e suprimentos críticos.
  • Prioridade típica: pedidos com data mais próxima, pedidos com penalidade alta por atraso, e operações no gargalo.
  • Lead time ao cliente: maior e variável; o risco é reprogramação constante por mudanças de prioridade e falta de material.

Exemplo prático: dois pedidos disputam o mesmo CNC. Pedido A vence em 5 dias e precisa de 12 h de CNC; Pedido B vence em 7 dias e precisa de 20 h. Se a capacidade disponível no CNC até o vencimento do A é 10 h, o PCP precisa negociar prazo, terceirizar, fazer hora extra ou re-sequenciar operações anteriores para liberar o CNC mais cedo.

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ATO em montagem de kits (mix alto, montagem rápida)

Cenário: montagem de kits promocionais, computadores/eletrônicos configuráveis, painéis elétricos com variações, bicicletas com opções. Componentes são padronizados; a combinação final varia por pedido.

  • Como o PCP programa: mantém estoque de módulos (ex.: fonte, placa, gabinete) e programa a montagem final conforme pedidos. A programação depende de disponibilidade de kit completo e capacidade de montagem/teste.
  • Prioridade típica: pedidos com kit completo e data mais próxima; pedidos “travados” por 1 componente crítico entram em lista de exceção.
  • Lead time ao cliente: intermediário (montagem + testes + embalagem). O risco é um componente faltante bloquear muitos pedidos.

Exemplo prático: um kit exige 1 unidade de cada componente A, B e C. Há 200 de A, 50 de B e 180 de C. Mesmo com A e C sobrando, a capacidade de atendimento imediato é 50 kits (limitada por B). O PCP deve tratar B como item crítico de reposição e/ou buscar alternativa.

Passo a passo: como decidir a política para uma família de produtos

Use este roteiro para escolher MTS, MTO ou ATO por família (não necessariamente por item isolado).

Passo 1 — Classifique o padrão de demanda e a exigência de prazo

  • Demanda previsível e recorrente + cliente exige entrega rápida: tendência a MTS.
  • Demanda irregular + cliente aceita esperar: tendência a MTO.
  • Mix imprevisível mas com componentes comuns e montagem rápida: tendência a ATO.

Passo 2 — Avalie variedade e customização

  • Se há muitas variantes e risco de encalhe do produto acabado, evite MTS puro.
  • Se a customização está concentrada no final (opções, acessórios, configuração), ATO costuma reduzir estoque de acabados.
  • Se cada pedido muda engenharia/roteiro, MTO é mais aderente.

Passo 3 — Compare lead time interno vs. lead time aceito pelo mercado

Defina:

  • LT interno: tempo total para produzir (inclui filas, setups, compras críticas).
  • LT mercado: prazo que o cliente espera/aceita.

Decisão prática:

  • Se LT interno > LT mercado, você precisa de estoque em algum ponto (MTS ou ATO com estoque de componentes).
  • Se LT interno ≤ LT mercado, MTO pode ser viável sem perder vendas.

Passo 4 — Identifique o ponto de desacoplamento (onde manter estoque)

  • MTS: estoque no produto acabado.
  • ATO: estoque em componentes/submontagens (antes da montagem final).
  • MTO: estoque mínimo; foco em capacidade e compras sob pedido.

Dica prática: procure o ponto onde o produto “vira específico do cliente”. Antes disso, padronize e considere estocar; depois disso, produza sob pedido.

Passo 5 — Defina a regra de programação coerente com a política

  • MTS: regra por reposição (ex.: produzir quando estoque projetado cair abaixo do mínimo) e sequenciar por campanhas para reduzir setup.
  • MTO: regra por data prometida e gargalo (ex.: priorizar operações que alimentam o recurso restritivo).
  • ATO: regra por kit completo + data prometida; e reposição de componentes por consumo.

O que o PCP precisa monitorar em cada política (parâmetros e indicadores)

MTS: parâmetros críticos

  • Nível de serviço (fill rate, OTIF) e rupturas por SKU/família.
  • Estoque projetado (dias de cobertura) e estoque de segurança.
  • Acurácia de previsão por família e viés (superestimar vs subestimar).
  • Capacidade e eficiência: taxa de produção, OEE (quando aplicável), perdas e setups.
  • Obsolescência/validade (especialmente em alimentos): giro e vencimento.

MTO: parâmetros críticos

  • Carteira de pedidos: datas prometidas, prioridade comercial, penalidades.
  • Carga x capacidade por centro de trabalho (principalmente gargalos).
  • Fila (WIP) e tempo de atravessamento real vs prometido.
  • Disponibilidade de materiais críticos e risco de atraso de compras.
  • Confiabilidade de prazo: % pedidos no prazo, atraso médio.

ATO: parâmetros críticos

  • Disponibilidade de componentes e “faltas” que travam kits.
  • Taxa de completude de kit (quantos pedidos podem ser montados integralmente hoje).
  • Capacidade de montagem/teste (turnos, balanceamento, gargalos de inspeção).
  • Mix de pedidos (variação de configurações) e impacto no consumo de componentes.
  • Tempo de ciclo da montagem final e retrabalho.

Exercícios guiados (com gabarito orientativo)

Exercício 1 — Escolha a política para uma família

Caso: Família “Bebida 1L”. Demanda semanal relativamente estável, varejo exige entrega em 48h. Setup de troca de sabor é alto. Produto tem validade de 90 dias.

Perguntas:

  • Qual política é mais adequada (MTS, MTO ou ATO)?
  • Quais duas prioridades de programação você adotaria?
  • Quais 3 parâmetros o PCP deve monitorar diariamente?

Resposta orientativa:

  • Política: MTS (necessidade de entrega rápida e demanda estável).
  • Prioridades: (1) reposição de SKUs com estoque projetado abaixo do mínimo; (2) campanhas por sabor/embalagem para reduzir setup sem gerar excesso.
  • Monitorar: estoque projetado/dias de cobertura, rupturas/nível de serviço, vencimento/obsolescência (e acurácia de previsão como suporte).

Exercício 2 — MTO ou ATO em metalmecânica com módulos

Caso: Empresa monta painéis elétricos. 70% dos componentes são comuns (disjuntores, trilhos, bornes), mas a configuração final (layout, cabos, etiquetas internas) varia por cliente. Cliente aceita prazo de 10 dias. Compras de componentes comuns levam 15 dias; montagem final leva 1 dia.

Perguntas:

  • MTO puro funciona? Por quê?
  • Qual política tende a reduzir atrasos?
  • Qual ponto deve ser estocado?

Resposta orientativa:

  • MTO puro não funciona bem porque o lead time de compras (15 dias) é maior que o prazo aceito (10 dias).
  • Política: ATO (estoque de componentes comuns + montagem sob pedido).
  • Estocar: componentes comuns/subconjuntos antes da customização final; montagem e configuração ficam sob pedido.

Exercício 3 — Parâmetros de controle por política (checklist)

Tarefa: Para cada cenário abaixo, liste 4 parâmetros que o PCP precisa acompanhar e 1 regra de prioridade para programação.

  • Cenário A: fábrica de biscoitos com 30 SKUs e campanhas por sabor.
  • Cenário B: usinagem sob desenho com 40 pedidos ativos e gargalo em tratamento térmico.
  • Cenário C: montagem de kits promocionais com 200 combinações possíveis e 20 componentes comuns.

Resposta orientativa:

  • A (MTS): parâmetros: estoque projetado, rupturas/nível de serviço, acurácia de previsão, setups/tempo de troca; regra: produzir SKUs abaixo do mínimo respeitando sequência de campanha.
  • B (MTO): parâmetros: carga x capacidade do tratamento térmico, datas prometidas, WIP/fila antes do gargalo, disponibilidade de material crítico; regra: priorizar pedidos com menor folga de prazo no gargalo.
  • C (ATO): parâmetros: completude de kit, faltas de componentes críticos, capacidade de montagem/teste, mix de pedidos e consumo de componentes; regra: montar pedidos com kit completo por data prometida, escalando exceções por falta de componente.

Mini-roteiro de decisão rápida (para usar no dia a dia do PCP)

Se o cliente exige entrega imediata e a demanda é previsível → MTS (estoque de acabado) Se o cliente aceita esperar e o produto é muito variável/customizado → MTO (pedido puxa produção) Se o cliente quer prazo curto, mas o mix é variável e há componentes comuns → ATO (estoque de componentes + montagem sob pedido)

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Uma empresa monta produtos configuráveis. Ela mantém estoque de componentes comuns, e a montagem final só começa após o pedido do cliente. Qual política de atendimento descreve melhor esse cenário e qual é o principal gatilho na programação?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

No ATO, o PCP mantém estoque de componentes/subconjuntos e o pedido firme aciona a montagem final. A reposição dos componentes ocorre conforme o consumo, focando completude de kit e capacidade de montagem.

Próximo capitúlo

Capacidade produtiva no PCP: conceitos, gargalos e balanceamento de carga

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