Custos e receitas na pequena empresa: estrutura de despesas, investimento inicial e capital de giro

Capítulo 6

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Por que separar custos, investimentos e capital de giro

Ao montar os números de uma pequena empresa, é comum misturar três coisas diferentes: despesas do mês (custos e despesas operacionais), investimento inicial (o que você compra para começar) e capital de giro (o dinheiro necessário para sustentar o caixa enquanto as vendas não viram dinheiro disponível). Separar essas categorias evita dois erros frequentes: (1) achar que “sobrou lucro” quando, na verdade, faltará caixa; (2) subestimar o dinheiro necessário para atravessar os primeiros meses.

A regra prática é: lucro é uma medida econômica; caixa é uma medida de sobrevivência. Você pode ter lucro no papel e quebrar por falta de caixa.

Estrutura básica de despesas: fixos, variáveis e impostos

1) Custos e despesas fixas (não variam com as vendas no curto prazo)

São gastos que tendem a se manter mesmo se você vender pouco naquele mês. Exemplos típicos:

  • Aluguel e condomínio
  • Internet, sistemas, telefonia
  • Salários fixos e pró-labore (quando definido)
  • Contabilidade
  • Licenças recorrentes (software, ferramentas)
  • Seguro
  • Energia mínima/assinaturas

Dica conservadora: trate como fixo tudo o que você não consegue cortar rapidamente sem prejudicar a operação.

2) Custos variáveis (crescem quando você vende mais)

São gastos diretamente ligados à venda/unidade. Exemplos:

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  • Matéria-prima/mercadoria (CMV/CPV)
  • Embalagens por pedido
  • Comissões
  • Taxas de meios de pagamento (cartão, gateway)
  • Frete subsidiado (quando você paga parte)
  • Taxas de marketplace (se aplicável)

Erro comum: esquecer itens “pequenos” por venda (embalagem, etiqueta, brinde, taxa do cartão). Eles corroem a margem silenciosamente.

3) Impostos (tratados como variável na maioria dos casos)

Impostos costumam acompanhar o faturamento (por exemplo, um percentual sobre a receita). Mesmo quando há parcelas fixas, é mais seguro modelar uma alíquota efetiva conservadora para o cenário base e uma maior para o pessimista (por risco de desenquadramento, mudanças de mix, ou erro de classificação).

Prática recomendada: crie uma linha específica para impostos e não misture com “taxas” ou “despesas administrativas”.

Investimento inicial: o que entra e como estimar

Investimento inicial é o desembolso para colocar a empresa de pé antes de operar com estabilidade. Em geral, não é “despesa do mês”, mas compra/implantação. Liste e estime por itens, com cotações e margem de segurança.

Principais blocos de investimento inicial

  • Equipamentos e mobiliário: máquinas, computador, impressora, prateleiras, balcão, ferramentas.
  • Reforma e adequações: pintura, elétrica, hidráulica, layout, fachada (se houver).
  • Estoque inicial: mercadorias ou insumos para começar a vender/produzir.
  • Marketing inicial: fotos, identidade visual, material de divulgação, inauguração, amostras.
  • Legalização e taxas de abertura: registros, licenças, alvarás, certificados, honorários.

Como estimar com conservadorismo:

  • Faça 3 cotações por item relevante e use a mediana (ou a maior no cenário pessimista).
  • Adicione uma reserva de imprevistos (ex.: 10% a 20%) para reforma/equipamentos.
  • Separe “necessário para abrir” do “desejável para melhorar”. Abra com o necessário.

Capital de giro: o dinheiro que sustenta o caixa

Capital de giro é o valor necessário para pagar contas enquanto o dinheiro das vendas ainda não entrou (ou entrou parcialmente). Ele depende de três fatores: prazo de recebimento, prazo de pagamento e sazonalidade.

1) Prazo de recebimento (quando a venda vira dinheiro disponível)

Exemplos:

  • Venda no cartão em 30 dias: você vende hoje, mas recebe depois.
  • Venda parcelada: você recebe em partes.
  • Venda para empresas: pode receber em 15/30/45 dias.

Regra prática: quanto maior o prazo de recebimento, maior a necessidade de capital de giro.

2) Prazo de pagamento (quando você paga fornecedores e despesas)

Se você paga fornecedor à vista, mas recebe do cliente em 30 dias, o caixa “abre um buraco”. Se você consegue pagar em 28 dias e recebe em 30, o buraco é menor. Negociar prazo com fornecedor é uma alavanca de capital de giro.

3) Sazonalidade (meses fracos e fortes)

Mesmo um negócio saudável pode ter meses de baixa. Capital de giro precisa cobrir: (a) despesas fixas do mês fraco; (b) recomposição de estoque; (c) atrasos e devoluções. Modele pelo menos um “mês ruim” no cenário pessimista.

Estimativa simples de capital de giro (método prático)

Uma forma didática de começar é calcular quantos dias você fica “financiando” a operação:

  • Dias de recebimento (média ponderada)
  • menos Dias de pagamento (média ponderada)
  • = Dias de necessidade de caixa

Depois, multiplique pelos custos variáveis e fixos diários aproximados. Exemplo simplificado:

  • Recebe em 28 dias (média)
  • Paga fornecedores em 7 dias (média)
  • Necessidade: 21 dias
  • Gasto operacional médio (fixos + variáveis) por dia: R$ 800
  • Capital de giro estimado ≈ 21 × 800 = R$ 16.800

Esse método não substitui um fluxo de caixa, mas dá um número inicial conservador para não começar “no limite”.

Planilha conceitual para 3 cenários (pessimista, base, otimista)

A seguir está um modelo de planilha com campos e fórmulas. Você pode montar em qualquer editor de planilhas. A ideia é projetar mês a mês (pelo menos 6 meses), mas o esqueleto abaixo funciona também para uma visão mensal média.

Estrutura de abas (sugestão)

  • Aba 1 — Premissas: preços, volume, custos variáveis, impostos, prazos.
  • Aba 2 — DRE simplificada (resultado): receita, custos, margem, lucro.
  • Aba 3 — Caixa (fluxo): entradas/saídas por data/prazo.
  • Aba 4 — Investimento inicial: lista de itens e total.
  • Aba 5 — Cenários: tabela com multiplicadores e seleção do cenário.

Campos essenciais (Premissas)

CampoDescriçãoExemplo
Preço médio (P)Preço médio por venda/unidadeR$ 120
Quantidade vendida (Q)Vendas no mês200
CMV/CPV unitárioCusto da mercadoria/produção por unidadeR$ 45
Embalagem por vendaCusto de embalagem por pedidoR$ 3
Taxa de pagamento (%)Percentual sobre receita3,5%
Impostos (%)Alíquota efetiva sobre receita6%
Frete subsidiado por vendaParte do frete que você pagaR$ 6
Custos fixos mensaisSoma de fixosR$ 12.000
Prazo médio de recebimento (dias)Quando entra no caixa28
Prazo médio de pagamento (dias)Quando sai do caixa7

Fórmulas (DRE simplificada)

Considere as seguintes fórmulas:

  • Receita bruta (RB) = P * Q
  • CMV/CPV total = CMV_unit * Q
  • Embalagens = Embalagem_unit * Q
  • Frete subsidiado = Frete_unit * Q
  • Taxas de pagamento = RB * Taxa_pagamento
  • Impostos = RB * Aliquota_impostos
  • Custos variáveis totais (CV) = CMV_total + Embalagens + Frete + Taxas_pagamento + Impostos
  • Margem de contribuição (MC) em R$ = RB - CV
  • Margem de contribuição (%) = MC / RB
  • Resultado operacional (antes de juros) = MC - Custos_fixos

Como montar os 3 cenários (Cenários)

Crie uma tabela com multiplicadores para as premissas. Exemplo:

PremissaPessimistaBaseOtimista
Quantidade (Q)0,701,001,25
Preço (P)0,951,001,05
CMV unitário1,081,000,98
Impostos (%)1,151,000,95
Taxas (%)1,101,000,95
Fixos1,051,001,00

Então, para cada cenário, calcule:

  • Q_cenario = Q_base * Mult_Q
  • P_cenario = P_base * Mult_P
  • CMV_unit_cenario = CMV_unit_base * Mult_CMV
  • Impostos_cenario = Impostos_base * Mult_Impostos (se você modela a alíquota)
  • Fixos_cenario = Fixos_base * Mult_Fixos

Boa prática: no pessimista, reduza volume e pressione custos (CMV, impostos/taxas) ao mesmo tempo. É assim que o caixa sofre na vida real.

Ponto de equilíbrio, margem de contribuição e leitura rápida

Margem de contribuição (por unidade e total)

A margem de contribuição é o quanto sobra de cada venda para pagar os custos fixos e, depois, virar resultado. Ela é o “combustível” do negócio.

  • MC unitária = Preço - Custo_variável_unitário
  • MC total = MC_unitária * Q

Onde Custo_variável_unitário inclui CMV/CPV unitário + embalagem unitária + frete unitário + taxas e impostos por unidade (ou proporcionais à receita).

Ponto de equilíbrio (quantas vendas para “zerar”)

O ponto de equilíbrio indica o volume mínimo para cobrir os custos fixos.

  • Ponto de equilíbrio em unidades = Custos_fixos / MC_unitária
  • Ponto de equilíbrio em receita = Custos_fixos / MC_%

Exemplo rápido: se seus fixos são R$ 12.000/mês e sua MC unitária é R$ 30, então o ponto de equilíbrio é 12.000 / 30 = 400 unidades/mês. Se você vende 300, faltam 100 unidades para “pagar a casa”.

Como pequenos erros de estimativa afetam o caixa (e por que ser conservador)

Erro 1: subestimar custos variáveis “pequenos”

Imagine que você esqueceu R$ 2 por venda (embalagem melhor, etiqueta, brinde, ajuste de frete). Com 1.000 vendas/mês, isso vira R$ 2.000 a menos de margem. Se seus fixos são R$ 12.000, você acabou de aumentar muito o ponto de equilíbrio.

Erro 2: superestimar volume no começo

Se o cenário base assume 300 vendas, mas você faz 180, a receita cai 40%. Só que os fixos caem pouco (ou nada). Resultado: o caixa precisa cobrir a diferença. Por isso o cenário pessimista deve ser plausível e não “catástrofe improvável”.

Erro 3: ignorar prazo de recebimento

Você pode vender bem e ainda assim faltar dinheiro para repor estoque e pagar contas se recebe em 30 dias e paga fornecedores em 7. O lucro aparece na DRE, mas o caixa fica negativo no fluxo.

Passo a passo prático: teste de estresse do caixa

  • Escolha o cenário pessimista.
  • Reduza o volume em mais 10% e aumente o CMV em mais 5% (um “pior que o pessimista”).
  • Veja se o resultado operacional fica negativo e quanto.
  • Transforme esse “quanto” em necessidade de caixa por mês e compare com seu capital de giro disponível.
  • Se não fechar, ajuste: preço, mix, custos variáveis, fixos, prazo com fornecedor, ou reduza investimento inicial para sobrar caixa.

Checklist de gastos que iniciantes costumam esquecer

  • Taxas e tarifas: tarifa bancária, antecipação de recebíveis, taxas de boleto, chargeback.
  • Embalagens e insumos de expedição: caixa, fita, etiqueta, plástico bolha, lacre, sacola, papel.
  • Devoluções e trocas: custo de frete reverso, reembolsos, perda por avaria.
  • Manutenção e reposição: manutenção de equipamentos, troca de peças, calibração, limpeza.
  • Ferramentas e licenças: software, domínio/e-mail, certificados, ferramentas de design/gestão.
  • Fretes e deslocamentos: combustível, estacionamento, pedágios, motoboy, coleta.
  • Perdas e quebras: vencimento de estoque, desperdício, retrabalho.
  • Uniformes e EPIs: itens obrigatórios ou recomendados para operação.
  • Materiais de escritório e operação: papelaria, toner, bobina térmica, itens de limpeza.
  • Taxas de legalização recorrentes: renovações, vistorias, licenças anuais.
  • Imprevistos de obra: ajustes elétricos, hidráulicos, pequenos reparos pós-abertura.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao planejar os números de uma pequena empresa, qual alternativa descreve corretamente a diferença entre despesas do mês, investimento inicial e capital de giro?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A separação evita confundir lucro com sobrevivência do caixa: despesas do mês são recorrentes, investimento inicial é para iniciar/implantar, e capital de giro cobre o intervalo entre pagar contas e receber das vendas.

Próximo capitúlo

Precificação inicial na pequena empresa: margem, percepção de valor e política comercial

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