Por que separar custos, investimentos e capital de giro
Ao montar os números de uma pequena empresa, é comum misturar três coisas diferentes: despesas do mês (custos e despesas operacionais), investimento inicial (o que você compra para começar) e capital de giro (o dinheiro necessário para sustentar o caixa enquanto as vendas não viram dinheiro disponível). Separar essas categorias evita dois erros frequentes: (1) achar que “sobrou lucro” quando, na verdade, faltará caixa; (2) subestimar o dinheiro necessário para atravessar os primeiros meses.
A regra prática é: lucro é uma medida econômica; caixa é uma medida de sobrevivência. Você pode ter lucro no papel e quebrar por falta de caixa.
Estrutura básica de despesas: fixos, variáveis e impostos
1) Custos e despesas fixas (não variam com as vendas no curto prazo)
São gastos que tendem a se manter mesmo se você vender pouco naquele mês. Exemplos típicos:
- Aluguel e condomínio
- Internet, sistemas, telefonia
- Salários fixos e pró-labore (quando definido)
- Contabilidade
- Licenças recorrentes (software, ferramentas)
- Seguro
- Energia mínima/assinaturas
Dica conservadora: trate como fixo tudo o que você não consegue cortar rapidamente sem prejudicar a operação.
2) Custos variáveis (crescem quando você vende mais)
São gastos diretamente ligados à venda/unidade. Exemplos:
- Ouça o áudio com a tela desligada
- Ganhe Certificado após a conclusão
- + de 5000 cursos para você explorar!
Baixar o aplicativo
- Matéria-prima/mercadoria (CMV/CPV)
- Embalagens por pedido
- Comissões
- Taxas de meios de pagamento (cartão, gateway)
- Frete subsidiado (quando você paga parte)
- Taxas de marketplace (se aplicável)
Erro comum: esquecer itens “pequenos” por venda (embalagem, etiqueta, brinde, taxa do cartão). Eles corroem a margem silenciosamente.
3) Impostos (tratados como variável na maioria dos casos)
Impostos costumam acompanhar o faturamento (por exemplo, um percentual sobre a receita). Mesmo quando há parcelas fixas, é mais seguro modelar uma alíquota efetiva conservadora para o cenário base e uma maior para o pessimista (por risco de desenquadramento, mudanças de mix, ou erro de classificação).
Prática recomendada: crie uma linha específica para impostos e não misture com “taxas” ou “despesas administrativas”.
Investimento inicial: o que entra e como estimar
Investimento inicial é o desembolso para colocar a empresa de pé antes de operar com estabilidade. Em geral, não é “despesa do mês”, mas compra/implantação. Liste e estime por itens, com cotações e margem de segurança.
Principais blocos de investimento inicial
- Equipamentos e mobiliário: máquinas, computador, impressora, prateleiras, balcão, ferramentas.
- Reforma e adequações: pintura, elétrica, hidráulica, layout, fachada (se houver).
- Estoque inicial: mercadorias ou insumos para começar a vender/produzir.
- Marketing inicial: fotos, identidade visual, material de divulgação, inauguração, amostras.
- Legalização e taxas de abertura: registros, licenças, alvarás, certificados, honorários.
Como estimar com conservadorismo:
- Faça 3 cotações por item relevante e use a mediana (ou a maior no cenário pessimista).
- Adicione uma reserva de imprevistos (ex.: 10% a 20%) para reforma/equipamentos.
- Separe “necessário para abrir” do “desejável para melhorar”. Abra com o necessário.
Capital de giro: o dinheiro que sustenta o caixa
Capital de giro é o valor necessário para pagar contas enquanto o dinheiro das vendas ainda não entrou (ou entrou parcialmente). Ele depende de três fatores: prazo de recebimento, prazo de pagamento e sazonalidade.
1) Prazo de recebimento (quando a venda vira dinheiro disponível)
Exemplos:
- Venda no cartão em 30 dias: você vende hoje, mas recebe depois.
- Venda parcelada: você recebe em partes.
- Venda para empresas: pode receber em 15/30/45 dias.
Regra prática: quanto maior o prazo de recebimento, maior a necessidade de capital de giro.
2) Prazo de pagamento (quando você paga fornecedores e despesas)
Se você paga fornecedor à vista, mas recebe do cliente em 30 dias, o caixa “abre um buraco”. Se você consegue pagar em 28 dias e recebe em 30, o buraco é menor. Negociar prazo com fornecedor é uma alavanca de capital de giro.
3) Sazonalidade (meses fracos e fortes)
Mesmo um negócio saudável pode ter meses de baixa. Capital de giro precisa cobrir: (a) despesas fixas do mês fraco; (b) recomposição de estoque; (c) atrasos e devoluções. Modele pelo menos um “mês ruim” no cenário pessimista.
Estimativa simples de capital de giro (método prático)
Uma forma didática de começar é calcular quantos dias você fica “financiando” a operação:
- Dias de recebimento (média ponderada)
- menos Dias de pagamento (média ponderada)
- = Dias de necessidade de caixa
Depois, multiplique pelos custos variáveis e fixos diários aproximados. Exemplo simplificado:
- Recebe em 28 dias (média)
- Paga fornecedores em 7 dias (média)
- Necessidade: 21 dias
- Gasto operacional médio (fixos + variáveis) por dia: R$ 800
- Capital de giro estimado ≈ 21 × 800 = R$ 16.800
Esse método não substitui um fluxo de caixa, mas dá um número inicial conservador para não começar “no limite”.
Planilha conceitual para 3 cenários (pessimista, base, otimista)
A seguir está um modelo de planilha com campos e fórmulas. Você pode montar em qualquer editor de planilhas. A ideia é projetar mês a mês (pelo menos 6 meses), mas o esqueleto abaixo funciona também para uma visão mensal média.
Estrutura de abas (sugestão)
- Aba 1 — Premissas: preços, volume, custos variáveis, impostos, prazos.
- Aba 2 — DRE simplificada (resultado): receita, custos, margem, lucro.
- Aba 3 — Caixa (fluxo): entradas/saídas por data/prazo.
- Aba 4 — Investimento inicial: lista de itens e total.
- Aba 5 — Cenários: tabela com multiplicadores e seleção do cenário.
Campos essenciais (Premissas)
| Campo | Descrição | Exemplo |
|---|---|---|
| Preço médio (P) | Preço médio por venda/unidade | R$ 120 |
| Quantidade vendida (Q) | Vendas no mês | 200 |
| CMV/CPV unitário | Custo da mercadoria/produção por unidade | R$ 45 |
| Embalagem por venda | Custo de embalagem por pedido | R$ 3 |
| Taxa de pagamento (%) | Percentual sobre receita | 3,5% |
| Impostos (%) | Alíquota efetiva sobre receita | 6% |
| Frete subsidiado por venda | Parte do frete que você paga | R$ 6 |
| Custos fixos mensais | Soma de fixos | R$ 12.000 |
| Prazo médio de recebimento (dias) | Quando entra no caixa | 28 |
| Prazo médio de pagamento (dias) | Quando sai do caixa | 7 |
Fórmulas (DRE simplificada)
Considere as seguintes fórmulas:
- Receita bruta (RB) =
P * Q - CMV/CPV total =
CMV_unit * Q - Embalagens =
Embalagem_unit * Q - Frete subsidiado =
Frete_unit * Q - Taxas de pagamento =
RB * Taxa_pagamento - Impostos =
RB * Aliquota_impostos - Custos variáveis totais (CV) =
CMV_total + Embalagens + Frete + Taxas_pagamento + Impostos - Margem de contribuição (MC) em R$ =
RB - CV - Margem de contribuição (%) =
MC / RB - Resultado operacional (antes de juros) =
MC - Custos_fixos
Como montar os 3 cenários (Cenários)
Crie uma tabela com multiplicadores para as premissas. Exemplo:
| Premissa | Pessimista | Base | Otimista |
|---|---|---|---|
| Quantidade (Q) | 0,70 | 1,00 | 1,25 |
| Preço (P) | 0,95 | 1,00 | 1,05 |
| CMV unitário | 1,08 | 1,00 | 0,98 |
| Impostos (%) | 1,15 | 1,00 | 0,95 |
| Taxas (%) | 1,10 | 1,00 | 0,95 |
| Fixos | 1,05 | 1,00 | 1,00 |
Então, para cada cenário, calcule:
Q_cenario = Q_base * Mult_QP_cenario = P_base * Mult_PCMV_unit_cenario = CMV_unit_base * Mult_CMVImpostos_cenario = Impostos_base * Mult_Impostos(se você modela a alíquota)Fixos_cenario = Fixos_base * Mult_Fixos
Boa prática: no pessimista, reduza volume e pressione custos (CMV, impostos/taxas) ao mesmo tempo. É assim que o caixa sofre na vida real.
Ponto de equilíbrio, margem de contribuição e leitura rápida
Margem de contribuição (por unidade e total)
A margem de contribuição é o quanto sobra de cada venda para pagar os custos fixos e, depois, virar resultado. Ela é o “combustível” do negócio.
- MC unitária =
Preço - Custo_variável_unitário - MC total =
MC_unitária * Q
Onde Custo_variável_unitário inclui CMV/CPV unitário + embalagem unitária + frete unitário + taxas e impostos por unidade (ou proporcionais à receita).
Ponto de equilíbrio (quantas vendas para “zerar”)
O ponto de equilíbrio indica o volume mínimo para cobrir os custos fixos.
- Ponto de equilíbrio em unidades =
Custos_fixos / MC_unitária - Ponto de equilíbrio em receita =
Custos_fixos / MC_%
Exemplo rápido: se seus fixos são R$ 12.000/mês e sua MC unitária é R$ 30, então o ponto de equilíbrio é 12.000 / 30 = 400 unidades/mês. Se você vende 300, faltam 100 unidades para “pagar a casa”.
Como pequenos erros de estimativa afetam o caixa (e por que ser conservador)
Erro 1: subestimar custos variáveis “pequenos”
Imagine que você esqueceu R$ 2 por venda (embalagem melhor, etiqueta, brinde, ajuste de frete). Com 1.000 vendas/mês, isso vira R$ 2.000 a menos de margem. Se seus fixos são R$ 12.000, você acabou de aumentar muito o ponto de equilíbrio.
Erro 2: superestimar volume no começo
Se o cenário base assume 300 vendas, mas você faz 180, a receita cai 40%. Só que os fixos caem pouco (ou nada). Resultado: o caixa precisa cobrir a diferença. Por isso o cenário pessimista deve ser plausível e não “catástrofe improvável”.
Erro 3: ignorar prazo de recebimento
Você pode vender bem e ainda assim faltar dinheiro para repor estoque e pagar contas se recebe em 30 dias e paga fornecedores em 7. O lucro aparece na DRE, mas o caixa fica negativo no fluxo.
Passo a passo prático: teste de estresse do caixa
- Escolha o cenário pessimista.
- Reduza o volume em mais 10% e aumente o CMV em mais 5% (um “pior que o pessimista”).
- Veja se o resultado operacional fica negativo e quanto.
- Transforme esse “quanto” em necessidade de caixa por mês e compare com seu capital de giro disponível.
- Se não fechar, ajuste: preço, mix, custos variáveis, fixos, prazo com fornecedor, ou reduza investimento inicial para sobrar caixa.
Checklist de gastos que iniciantes costumam esquecer
- Taxas e tarifas: tarifa bancária, antecipação de recebíveis, taxas de boleto, chargeback.
- Embalagens e insumos de expedição: caixa, fita, etiqueta, plástico bolha, lacre, sacola, papel.
- Devoluções e trocas: custo de frete reverso, reembolsos, perda por avaria.
- Manutenção e reposição: manutenção de equipamentos, troca de peças, calibração, limpeza.
- Ferramentas e licenças: software, domínio/e-mail, certificados, ferramentas de design/gestão.
- Fretes e deslocamentos: combustível, estacionamento, pedágios, motoboy, coleta.
- Perdas e quebras: vencimento de estoque, desperdício, retrabalho.
- Uniformes e EPIs: itens obrigatórios ou recomendados para operação.
- Materiais de escritório e operação: papelaria, toner, bobina térmica, itens de limpeza.
- Taxas de legalização recorrentes: renovações, vistorias, licenças anuais.
- Imprevistos de obra: ajustes elétricos, hidráulicos, pequenos reparos pós-abertura.