Precificação inicial na pequena empresa: margem, percepção de valor e política comercial

Capítulo 7

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Por que “chutar preço” dá errado

Na pequena empresa, o preço precisa cumprir três funções ao mesmo tempo: (1) pagar os custos e sobrar lucro, (2) fazer sentido para o cliente (percepção de valor) e (3) ser competitivo dentro do seu posicionamento. Um método prático evita dois erros comuns: cobrar menos do que o necessário (margem some) ou cobrar mais do que o mercado aceita (vendas travam).

Glossário rápido (para não confundir os termos)

  • Preço de venda (PV): quanto o cliente paga.
  • Custo variável (CV): varia com a venda (insumo, embalagem, frete por pedido, taxa do cartão/marketplace, comissão por venda).
  • Margem de contribuição (MC): PV − CV. É o “quanto sobra” para pagar custos fixos e lucro.
  • Margem de contribuição %: (PV − CV) / PV.
  • Custos fixos (CF): não variam com a venda no curto prazo (aluguel, internet, salários fixos, contador).
  • Rateio de fixos por unidade: CF do período dividido pelo volume esperado no período.
  • Lucro: o que sobra depois de pagar fixos (e impostos, se aplicável).
  • Markup: fator multiplicador aplicado sobre um custo-base para chegar ao preço.

Método prático em 3 lentes: custo, valor e mercado

Use as três abordagens como “triangulação”. Você calcula um preço mínimo (custo), um preço desejável (valor) e um preço plausível (mercado). O preço final costuma ficar dentro desse intervalo, ajustado pela sua política comercial.

1) Precificação por custos (para garantir que não dá prejuízo)

Quando usar: produtos/serviços com custos bem definidos, operação ainda instável, necessidade de piso de preço, ou quando você precisa decidir rapidamente um preço inicial sem dados de valor percebido.

Passo a passo (custo variável + rateio fixo + margem)

  • Passo 1 — Liste o custo variável por unidade: insumos, embalagem, frete por pedido, taxas de pagamento, comissão etc.
  • Passo 2 — Estime o volume do mês: quantas unidades/serviços você acredita vender no período (use um número conservador).
  • Passo 3 — Rateie os custos fixos: rateio fixo por unidade = CF do mês / volume estimado.
  • Passo 4 — Defina a margem alvo: uma margem de contribuição % que faça sentido para o negócio (ex.: 40%, 55%).
  • Passo 5 — Calcule o preço: some CV + rateio fixo e aplique a margem desejada.

Fórmula prática (com margem sobre preço):

Custo total unitário (CTU) = CV + (CF / volume)Preço (PV) = CTU / (1 - margem_alvo)

Exemplo (produto): CV = R$ 18 (matéria-prima 12 + embalagem 2 + taxa cartão 4). CF do mês = R$ 3.000. Volume estimado = 200 unidades. Rateio fixo = 3.000/200 = R$ 15. CTU = 18 + 15 = R$ 33. Margem alvo = 40%. PV = 33 / (1 − 0,40) = 33 / 0,60 = R$ 55.

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Checklist de custos variáveis que costumam ser esquecidos

  • Taxa do cartão (e diferença entre débito/crédito/parcelado)
  • Embalagem extra, brindes, amostras
  • Perdas/refugo (percentual de desperdício)
  • Garantia/troca (média histórica ou provisão)
  • Comissão de indicação/vendedor
  • Imposto por venda (se houver incidência direta no faturamento)

2) Precificação por valor (para capturar o resultado entregue)

Quando usar: serviços, soluções personalizadas, B2B, ou quando o cliente compra pelo impacto (tempo economizado, aumento de receita, redução de risco), e não pelo custo do seu insumo.

Passo a passo (ancorar no resultado)

  • Passo 1 — Defina a unidade de valor: o que muda para o cliente? (ex.: “reduzir retrabalho”, “aumentar conversão”, “economizar 10 horas/mês”).
  • Passo 2 — Estime o valor monetário do ganho: quanto isso vale em reais para o cliente (receita adicional, custo evitado, horas x valor/hora).
  • Passo 3 — Defina a sua fatia do valor: uma regra simples (ex.: cobrar 10% a 30% do ganho estimado, dependendo do risco e da alternativa do cliente).
  • Passo 4 — Verifique o piso de custo: o preço por valor não pode ficar abaixo do seu preço mínimo por custos.
  • Passo 5 — Crie 2–3 opções: Básico (menor escopo), Padrão (recomendado), Premium (mais resultado/garantia/velocidade).

Exemplo (serviço): você organiza o financeiro de um microcomércio e reduz atrasos/multas e melhora compras. O cliente estima economizar R$ 1.500/mês entre juros evitados e compras melhores. Se você cobrar 20% do ganho mensal por 3 meses de projeto: 1.500 × 20% × 3 = R$ 900. Se seu piso por custos para executar o projeto for R$ 700, o preço por valor (R$ 900) é viável.

3) Precificação por mercado (para não ficar “fora do jogo”)

Quando usar: mercados com referência clara de preço (itens comparáveis), quando o cliente pesquisa muito, ou quando você está entrando em uma categoria com padrões estabelecidos.

Passo a passo (referências competitivas sem copiar cegamente)

  • Passo 1 — Defina comparáveis: produtos/serviços realmente similares em escopo, qualidade, prazo e garantia.
  • Passo 2 — Monte uma faixa: mínimo, mediana e máximo observados.
  • Passo 3 — Ajuste por diferenças: prazo mais rápido, melhor material, atendimento, personalização, conveniência, reputação.
  • Passo 4 — Cheque o piso de custo: se o mercado paga menos do que seu piso, você precisa mudar escopo, canal, custo ou público.
  • Passo 5 — Escolha um ponto na faixa: entrada (para tração), mediana (equilíbrio), premium (diferenciação + prova).

Como escolher a abordagem principal (regra simples)

SituaçãoAbordagem principalUso das outras
Produto padronizado, custos clarosCustosMercado para calibrar; Valor para criar versões/pacotes
Serviço com impacto no resultado do clienteValorCustos como piso; Mercado como “teste de plausibilidade”
Categoria com preço muito pesquisadoMercadoCustos para não vender no prejuízo; Valor para justificar premium

Exercícios práticos (margem, markup e desconto máximo)

Exercício 1 — Calcular margem de contribuição (R$ e %)

Dados: PV = R$ 120. CV = R$ 46 (insumo 30 + embalagem 6 + taxa 10).

  • MC (R$) = PV − CV = 120 − 46 = R$ 74
  • MC (%) = 74 / 120 = 61,7%

Interpretação: cada venda gera R$ 74 para pagar custos fixos e lucro. Se seus fixos mensais forem R$ 7.400, você precisa de 7.400/74 = 100 vendas/mês para empatar (ponto de equilíbrio aproximado).

Exercício 2 — Calcular preço com markup (e entender o que ele está cobrindo)

Markup é útil quando você quer um fator único para precificar rápido, mas ele precisa refletir sua estrutura (margem desejada + percentuais sobre venda).

Modelo (simples):

PV = Custo_base × Markup

Exemplo: custo-base (CV + rateio fixo) = R$ 33. Se você usa markup 1,67, PV = 33 × 1,67 = R$ 55,11 (aprox. R$ 55). Esse markup equivale a uma margem de 40% sobre o preço (porque 1 / (1 − 0,40) = 1,67).

Exercício: se você quer margem de 50% sobre o preço, qual markup usar?

  • Markup = 1 / (1 − 0,50) = 2,0

Exercício 3 — Desconto máximo permitido sem prejuízo (piso de preço)

Você precisa de um “piso” para não vender abaixo do necessário. Existem dois pisos úteis: (1) piso de curto prazo (cobrir custo variável) e (2) piso sustentável (cobrir custo total unitário).

Dados: PV tabela = R$ 55. CV = R$ 18. Rateio fixo por unidade = R$ 15. Logo, CTU = 33.

  • Piso de curto prazo (não perder caixa na venda): PV mínimo = CV = R$ 18 (raramente recomendado como política, mas útil em queima de estoque).
  • Piso sustentável (não operar no prejuízo no mês): PV mínimo = CTU = R$ 33.

Desconto máximo sustentável:

Desconto máximo (%) = 1 - (PV_min_sustentável / PV_tabela)

Desconto máximo = 1 − (33/55) = 1 − 0,60 = 40%. Acima disso, você começa a não pagar seus fixos (no volume estimado).

Exercício: se o PV tabela fosse R$ 120 e o CTU fosse R$ 78, qual o desconto máximo sustentável?

  • 1 − (78/120) = 1 − 0,65 = 35%

Política comercial simples (para vender com consistência)

Política comercial é um conjunto de regras que evita decisões improvisadas em cada negociação. Ela deve caber em uma página e ser fácil de seguir.

1) Preço de tabela e versões

  • Defina um preço de tabela (referência pública ou padrão de proposta).
  • Crie 2–3 versões/pacotes para reduzir barganha por desconto: Básico, Padrão, Premium.
  • Regra prática: o pacote Padrão deve ser o mais vendido; o Premium serve para ancoragem e para clientes que valorizam velocidade/garantia.

2) Condições de pagamento (e como precificar parcelamento)

  • À vista: pode ter incentivo pequeno e planejado (ex.: 3% a 5%) se melhorar seu caixa.
  • Parcelado: defina limite de parcelas e embuta o custo (taxa do cartão/antecipação) no preço ou cobre juros explícitos.
  • Regra: se parcelar aumenta seu custo variável (taxas), trate isso como CV e recalcule o piso.

3) Descontos com regra (quem pode, quanto pode, por quê)

Desconto sem regra vira “margem invisível” indo embora. Crie uma tabela simples com gatilhos.

Tipo de descontoCondiçãoLimiteObservação
À vistaPagamento em até 24hAté 5%Não acumula com outros
VolumeA partir de X unidadesAté 10%Exigir pedido mínimo e mesma entrega
RecorrênciaContrato de 3+ mesesAté 8%Multa/cancelamento definido
Primeira compra (teste)Somente 1x por clienteAté 5%Objetivo: reduzir risco percebido

Regra de ouro: nenhum desconto pode ultrapassar o desconto máximo sustentável calculado. Se ultrapassar, troque desconto por redução de escopo (menos itens, menos prazo, menos suporte) ou por bônus de baixo custo (algo que o cliente valoriza e custa pouco para você).

4) Reajustes (para não ficar preso no preço inicial)

  • Periodicidade: defina uma janela (ex.: a cada 6 meses) para revisar custos e mercado.
  • Gatilhos: aumento de insumos, câmbio, reajuste de aluguel, aumento de demanda (fila), melhoria do produto/serviço.
  • Regra simples: reajuste mínimo para repor aumento de CV e preservar a margem alvo.

5) Comissionamento (se aplicável)

Comissão deve ser tratada como custo variável. Defina para não destruir a margem.

  • Base de cálculo: preferencialmente sobre a margem de contribuição (ou sobre o PV com limite).
  • Exemplo de regra: comissão de 10% sobre a MC (não sobre o PV). Se PV 120, CV 46, MC 74, comissão = 7,40.
  • Proteção: vendas com desconto acima de X% reduzem comissão proporcionalmente.

Guia de teste de preço nos primeiros clientes (com dados, não opinião)

1) Defina hipóteses e um intervalo de teste

  • Preço A: seu preço calculado (ex.: R$ 55).
  • Preço B: +10% a +20% (ex.: R$ 60–66) para testar teto.
  • Preço C (opcional): −5% a −10% para testar sensibilidade, sem passar do piso sustentável.

2) Padronize a oferta durante o teste

Para o teste ser válido, mantenha constantes: escopo, prazo, garantia, bônus e canal de venda. Se mudar tudo ao mesmo tempo, você não sabe se foi o preço.

3) Meça 5 indicadores simples

  • Conversão: propostas enviadas vs. fechadas (ou visitas vs. compras).
  • Tempo de venda: dias do primeiro contato ao pagamento.
  • Reclamações/objeções de preço: quantas vezes “caro” aparece e em que etapa.
  • Ticket médio: quanto entra por venda (incluindo upsell/pacotes).
  • Margem real: MC real por venda (com taxas, fretes, descontos e comissões reais).

4) Interprete sinais e ajuste com ações específicas

Sinal observadoO que pode significarAjuste recomendado
Alta conversão e fila/atrasoPreço baixo para a demandaAumentar 5%–15% ou empurrar para pacote superior
Muitas objeções de preço, mas quem compra amaValor existe, comunicação/ancoragem fracaMelhorar proposta, provas, comparação de pacotes; testar entrada mais simples
Vende, mas margem real fica baixaCV subestimado ou descontos soltosRecalcular CV, limitar descontos, ajustar frete/taxas, revisar comissão
Baixa conversão e pouca objeçãoProblema pode não ser preçoRevisar canal, abordagem comercial, oferta/pacote e prazos
Cliente pede muito desconto semprePreço sem política ou público sensível a preçoAplicar regras, reduzir escopo, criar pacote de entrada

5) Rotina semanal de controle (15 minutos)

  • Registrar PV, CV real (incluindo taxas), desconto aplicado e MC de cada venda.
  • Calcular MC média da semana e comparar com a meta.
  • Listar as 3 principais objeções e em qual pacote/preço ocorreram.
  • Decidir 1 ajuste por semana (preço, pacote, regra de desconto ou condição de pagamento).

Modelo de planilha (campos mínimos)

Use uma tabela com estas colunas para cada venda: Data, Produto/Pacote, PV tabela, PV final, Desconto %, CV real, MC (R$), MC %, Canal, Tempo de venda (dias), Observações/objeções.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao definir um preço inicial usando as três “lentes” (custo, valor e mercado), qual prática ajuda a evitar tanto vender no prejuízo quanto ficar fora do que o cliente aceita?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A triangulação entre custo, valor e mercado cria um intervalo: piso que evita prejuízo, preço desejável pelo resultado entregue e plausibilidade frente aos comparáveis. Assim o preço final tende a ser sustentável e aceito.

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