O que são custos no Day Trade (e por que eles importam mais do que parece)
No Day Trade, o resultado que importa é o resultado líquido: o que sobra depois de todos os custos. Como muitas operações são curtas e frequentes, custos pequenos por operação podem consumir uma parte relevante do ganho bruto. Por isso, é essencial separar os custos em dois grupos:
- Custos diretos: aparecem de forma explícita na nota de corretagem/extrato (corretagem quando existir, emolumentos, taxas de negociação e liquidação, ISS sobre corretagem, etc.).
- Custos indiretos (o “custo invisível”): não aparecem como uma linha de taxa, mas reduzem o seu preço médio efetivo (principalmente spread e slippage) e podem incluir dados/serviços cobrados pela corretora/fornecedor.
Custos diretos: o que costuma aparecer na nota
1) Corretagem (quando existir)
Corretagem é a cobrança da corretora por executar suas ordens. Dependendo da corretora e do produto, pode ser:
- R$ fixo por ordem (ex.: R$ 1,00 por ordem executada).
- R$ fixo por operação (ida e volta) (menos comum; verifique a regra).
- Percentual sobre o financeiro (ex.: 0,03% do valor negociado).
- Zero corretagem (ainda assim existem emolumentos/taxas e o custo invisível).
Ponto de atenção: quando há corretagem, pode incidir ISS sobre o valor da corretagem (varia por município; a corretora informa).
2) Emolumentos e taxas de negociação/liquidação
Além da corretagem (se houver), existem cobranças ligadas ao ambiente de negociação e pós-negociação. Na prática, elas costumam aparecer como:
- Emolumentos / taxa de negociação: associados ao ato de negociar.
- Taxa de liquidação: associada ao processo de liquidação financeira.
Como variam:
- Ouça o áudio com a tela desligada
- Ganhe Certificado após a conclusão
- + de 5000 cursos para você explorar!
Baixar o aplicativo
- Por tipo de ativo: ações/ETFs/FIIs, contratos futuros, opções etc. têm estruturas e alíquotas diferentes.
- Por volume financeiro: em muitos casos, a cobrança é proporcional ao financeiro negociado (quanto maior o volume, maior o valor absoluto pago).
- Por quantidade de negócios: mesmo quando a taxa é proporcional ao financeiro, operar “picado” pode aumentar outros componentes (ex.: mais ordens com corretagem por ordem, mais chances de slippage).
Regra prática: trate emolumentos e taxas como um percentual pequeno sobre o financeiro, mas sempre presente. Em operações muito curtas (alvos pequenos), esse “pequeno percentual” pesa.
3) Outras cobranças que podem aparecer
- ISS sobre corretagem (quando há corretagem).
- Taxas de serviços (ex.: custódia em alguns casos, relatórios, roteamento, pacotes de dados). Nem sempre existem, mas quando existem entram no seu custo mensal.
Custos indiretos: o “custo invisível” que muda seu preço médio
Custos indiretos são aqueles que não aparecem como “taxa X” na nota, mas entram no seu resultado porque você não compra e vende exatamente no preço que imaginou. Dois componentes típicos:
- Spread: diferença entre melhor compra e melhor venda disponível no momento. Mesmo com execução perfeita, entrar e sair “a mercado” tende a pagar o spread.
- Slippage: diferença entre o preço esperado e o preço efetivamente executado (por velocidade, fila do book, volatilidade, tamanho da ordem, etc.).
Como transformar isso em número: pense no custo invisível como um “desconto” no seu resultado por operação, medido em R$ ou em ticks. Em operações frequentes, ele pode ser tão relevante quanto as taxas diretas.
Modelo de cálculo por operação (ida e volta)
Para controlar custos, use um modelo simples e repetível. A ideia é calcular:
Resultado Líquido = Resultado Bruto − Custos Diretos − Custo Invisível
Passo a passo prático (por operação)
- Passo 1 — Defina a operação: preço de entrada, preço de saída, quantidade.
- Passo 2 — Calcule o financeiro de entrada e saída:
Financeiro_entrada = Preço_entrada × QuantidadeFinanceiro_saída = Preço_saída × Quantidade
- Passo 3 — Calcule o resultado bruto:
- Compra e venda (long):
Bruto = (Preço_saída − Preço_entrada) × Quantidade - Venda e recompra (short):
Bruto = (Preço_entrada − Preço_saída) × Quantidade
- Compra e venda (long):
- Passo 4 — Estime custos diretos: some corretagem (se houver) + emolumentos/taxas (entrada e saída) + ISS sobre corretagem (se aplicável).
- Passo 5 — Estime o custo invisível: defina uma premissa realista por “ida e volta” (ex.: X ticks no total, ou R$ Y por operação) e multiplique pela quantidade quando fizer sentido.
- Passo 6 — Chegue ao líquido:
Líquido = Bruto − Diretos − Invisível
Modelo em fórmula (genérico)
Bruto = (P_saida - P_entrada) * Qtd [long] ou (P_entrada - P_saida) * Qtd [short]
Diretos = Corretagem_ida + Corretagem_volta + ISS + (Aliq_taxas * (Fin_entrada + Fin_saida))
Invisível = Custo_spread_slippage_por_unidade * Qtd (ou por operação)
Líquido = Bruto - Diretos - InvisívelObservação: “Aliq_taxas” é uma aproximação para emolumentos + negociação + liquidação. Use o valor efetivo que aparece na sua nota para calibrar essa alíquota ao seu caso.
Demonstrações: como o custo come o ganho em operações curtas
Exemplo 1 — Operação curta com alvo pequeno (muito sensível a custos)
Cenário: compra e venda de 1.000 unidades de um ativo a R$ 10,00 e saída a R$ 10,02.
- Entrada: 1.000 × 10,00 = R$ 10.000
- Saída: 1.000 × 10,02 = R$ 10.020
- Bruto: (10,02 − 10,00) × 1.000 = R$ 20
Custos diretos (exemplo didático):
- Corretagem: R$ 1,00 na ida + R$ 1,00 na volta = R$ 2,00
- Taxas (emolumentos/negociação/liquidação): suponha 0,03% sobre (10.000 + 10.020) ≈ 0,0003 × 20.020 ≈ R$ 6,01
- ISS sobre corretagem (exemplo 5%): 5% de R$ 2,00 = R$ 0,10
- Diretos: 2,00 + 6,01 + 0,10 = R$ 8,11
Custo invisível (exemplo): suponha que entre spread e slippage você perca R$ 0,005 por unidade na ida e R$ 0,005 na volta (total R$ 0,01 por unidade na operação completa).
- Invisível: 0,01 × 1.000 = R$ 10,00
Resultado líquido: R$ 20,00 − R$ 8,11 − R$ 10,00 = R$ 1,89
Repare que um alvo de apenas R$ 0,02 no preço (2 centavos) virou um ganho líquido quase nulo. Se o custo invisível for um pouco maior, a operação pode ficar negativa mesmo “acertando” a direção.
Exemplo 2 — Mesmo trade, mais operações: o custo se repete (efeito cumulativo)
Se você repetir o exemplo anterior 20 vezes no dia com o mesmo perfil:
- Bruto diário: 20 × R$ 20 = R$ 400
- Diretos diários: 20 × R$ 8,11 ≈ R$ 162,20
- Invisível diário: 20 × R$ 10 = R$ 200
- Líquido diário: R$ 400 − 162,20 − 200 = R$ 37,80
O ponto não é o número exato (que depende do seu caso), e sim a mecânica: quanto mais curto e frequente, mais o custo por operação domina o resultado.
Exemplo 3 — Quando o alvo é maior, o custo “dilui”
Cenário: mesma quantidade (1.000), entrada a R$ 10,00 e saída a R$ 10,10.
- Bruto: (10,10 − 10,00) × 1.000 = R$ 100
- Diretos: aproximadamente similares em estrutura (um pouco maiores nas taxas por causa do financeiro), suponha R$ 8,20
- Invisível: suponha o mesmo R$ 10,00
- Líquido: 100 − 8,20 − 10 = R$ 81,80
O custo ainda existe, mas pesa menos proporcionalmente quando o movimento capturado é maior.
Como estimar seus custos com base no seu próprio histórico (sem adivinhação)
Passo a passo para calibrar custos diretos
- Passo 1: pegue 10 a 30 notas de corretagem/extratos recentes.
- Passo 2: some, separadamente, corretagem, ISS e taxas (emolumentos/negociação/liquidação).
- Passo 3: some o financeiro total negociado no mesmo período (entrada + saída de todas as operações).
- Passo 4: calcule uma alíquota efetiva aproximada das taxas proporcionais:
Aliq_taxas_efetiva ≈ (Taxas_totais) / (Financeiro_total)
- Passo 5: transforme corretagem em custo por operação:
Corretagem_média_por_operação = Corretagem_total / Nº_de_operações
Com isso, você deixa de usar “achismos” e passa a simular operações com números próximos da sua realidade.
Passo a passo para estimar o custo invisível (spread + slippage) em R$
- Passo 1: escolha um conjunto de operações (ex.: 50 operações).
- Passo 2: para cada operação, compare o preço que você pretendia (ou o preço no momento do clique/ordem) com o preço executado.
- Passo 3: converta a diferença em R$:
Custo_execução = (Preço_exec - Preço_referência) × Quantidade
- Passo 4: some ida e volta e tire uma média por operação.
Mesmo uma média “grosseira” (ex.: R$ 6 a R$ 15 por operação, dependendo do ativo e do tamanho) já melhora muito a qualidade das suas contas de viabilidade.
Checklist rápido: antes de operar, saiba o seu “break-even” por operação
Um jeito prático de não operar no escuro é calcular o break-even: quanto o preço precisa andar a seu favor para pagar custos.
Passo a passo do break-even (em R$ por unidade)
- Passo 1: estime o custo direto por operação (ida e volta) em R$.
- Passo 2: estime o custo invisível por operação em R$.
- Passo 3: some os dois e divida pela quantidade:
Break-even (R$/unidade) = (Custos_diretos + Custo_invisível) / QuantidadeInterpretação: se o seu alvo médio por operação for próximo (ou menor) do break-even, você está fazendo um jogo estatisticamente ruim, mesmo com boa taxa de acerto.
Taxas de dados/serviços: como tratar no seu custo operacional
Alguns traders pagam mensalidades de dados de mercado, pacotes de ferramentas, relatórios ou serviços adicionais. Mesmo quando o valor parece pequeno, ele deve entrar na conta como custo fixo.
Como ratear no custo por operação
- Passo 1: some seus custos fixos mensais relacionados à operação (dados/serviços).
- Passo 2: estime o número de operações no mês.
- Passo 3: rateie:
Custo_fixo_por_operação = Custo_fixo_mensal / Nº_operações_mêsDepois, some esse valor ao seu custo por operação. Isso evita a ilusão de “estou positivo no trade”, mas negativo no mês quando os fixos entram.
Tabela-resumo: onde cada custo entra no seu cálculo
| Tipo | Exemplos | Como medir | Impacto típico |
|---|---|---|---|
| Direto | Corretagem, ISS, emolumentos, negociação/liquidação | Nota de corretagem/extrato | Proporcional ao volume e/ou ao nº de ordens |
| Indireto (invisível) | Spread, slippage | Diferença entre preço esperado e executado | Maior em baixa liquidez, alta volatilidade, ordens grandes |
| Fixo (mensal) | Dados/serviços | Fatura/mensalidade | Depende do nº de operações (rateio) |